A bomba atômica iraniana

A “bomba atômica” iraniana é assunto permanente, sobretudo em razão do conflito israelo-palestino, que tensiona o mundo todo, inclusive o Brasil. Prevê-se visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao Irã em 20 de maio de 2010.

Como o leitor sabe, há um Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, de 1968, firmado por 187 países, que, em sua origem, visava a “limitar” o arsenal de Estados Unidos, União Soviética, China, Inglaterra e França – coincidentemente países membros do Conselho de Segurança da ONU. O Tratado visava principalmente a impedir que esses países transferissem tecnologia nuclear aos que não a detinham. Índia, Paquistão e Israel não o assinaram e têm armas nucleares. A Coreia do Norte o havia assinado em 1985, entretanto retirou-se em 2003 e avança na pesquisa de seu próprio armamento nuclear.

O Tratado baseou-se no princípio jurídico da isonomia: tratamento desigual aos desiguais. Ele pretendia manter a divisão do mundo pós-Segunda Guerra, perpetuando o domínio dos Estados Unidos e da União Soviética sobre os demais países. Em 1991 a União Soviética se extinguiu e com ela extinguiu-se o comunismo no Leste Europeu e o Tratado tornou-se mais um instrumento norte-americano de controle, agora do mundo inteiro, embora a Rússia (economicamente débil) tenha substituído a ex-União Soviética no Conselho de Segurança da ONU. Os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, praticados pela Al Qaeda de Osama bin Laden, acentuaram o temor de que armas nucleares pudessem acabar nas mãos de grupos terroristas. Após a extinção da União Soviética, houve proliferação de armas deste tipo pelo mundo todo, ou seja, transferências secretas.

Desde a invasão do Iraque, feita por George Bush em 2003, o Irã acelerou seus programas nucleares, com medo de uma invasão estadunidense e/ou de um ataque israelense. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), criada em 1957, com sede em Viena, na Áustria, condenou o Irã por “enriquecer urânio” e o classificou como, digamos, um país pária sob este aspecto. Vieram as sanções econômicas, sem muito efeito.

O cenário internacional é um jogo de linguagem porque, de fato, a realidade é de difícil apreensão. As disputas internacionais produzem narrativas ambíguas, ficcionais. Impera a lei do mais forte, entretanto, hoje, não há um país tão forte, capaz de controlar as miríades de histórias paralelas que se entrelaçam e obscurecem alguma verdade, embora seja esta a pretensão dos Estados Unidos.

Como sempre, a disputa geopolítica gira em torno de matérias-primas, tais como o petróleo, que faz os chineses precisarem dos iranianos. O Irã mantém (ou mantinha) relações privilegiadas com a China – a maior credora dos Estados Unidos. Em resposta, Barack Obama recebe o Dalai Lama (o Tibete quer se tornar independente de Pequim) e vende armas a Taiwan – a ilha que igualmente busca libertar-se do país governado por Hu Jintao. O Irã mantém relações com a Rússia, privilegiadas também, ou manteve até há pouco. Durante a Segunda Guerra, União Soviética e Reino Unido invadiram o Irã, para se apropriarem de seus recursos petrolíferos. Permaneceram no país até a ascensão do títere Xá Reza Pahlevi, que se tornou um ditador sob as ordens da Casa Branca. Em 1979, como o leitor sabe, uma aliança entre o clero xiita e partidários da democracia derrubou Pahlevi. O Aiatolá Khomeini, perseguido e exilado pelo regime do Xá, lidera a Revolução islâmica e a implantação de sua república. O Irã sai da esfera americana. O atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, apoia o Hamas (Palestina) e o Hezbollah (Líbano) e não abre mão, sejamos francos, de seu programa de armas nucleares. Afirma que o holocausto não existiu (os judeus não foram mortos por Hitler em campos de concentração). Quer varrer Israel do mapa. Apoia implicitamente os talebans. Aumenta, a cada dia, a tensão em Israel. O líder do Hamas, Mahmud al-Mabhuh, que adquiria armas do governo iraniano, foi assassinado na semana passada em Dubai, pelo serviço secreto israelense, segundo avaliação internacional, em uma ação digna de filme de James Bond.

Como se sabe, Ahmadinejad é acusado de fraudar sua reeleição em 2009. O Irã é uma ditadura militar. Saiu de uma (a do Xá) e entrou em outra. Caminhou de uma teocracia republicana para uma cleptocracia (regime de ladrões) – o país está nas mãos da Guarda Revolucionária (da qual faz parte Ahmadinejad). Há muito que aplica pena de morte a homossexuais, mulheres, adolescentes etc. É, hoje, uma ditadura que mata seus opositores. E eles são muitos. Os do movimento verde, que não aceitam a reeleição do ex-espião Ahmadinejad – o primeiro presidente iraniano não clérigo em 24 anos de Revolução. Com ele, o Exército foi ao poder. Ahmadinejad se destacou na Guerra Irã/Iraque (1980-1988) e conquistou a confiança dos clérigos. Deu, depois, um golpe dentro da própria Revolução, que comemorou seu 31º aniversário agora há pouco.

Os Estados Unidos optaram por derrubar o regime por via diplomática e usam e abusam do programa nuclear iraniano como maior pretexto. É um pretexto verdadeiro, uma vez que Teerã pode negociar esses artefatos com grupos terroristas e até mesmo atacar os americanos no Afeganistão e no Iraque e tentar liquidar Israel – o Estado cliente americano. A oposição iraniana é forte e cresce, apesar da repressão brutal que sofre. Há, portanto, pressão externa, dos países ocidentais e até da Rússia e da China, e pressão interna, da oposição contra o regime militar de Ahmadinejad, que não convence ao declarar que seu programa nuclear se inscreve nos marcos da AIEA. O Irã não deixará o noticiário tão cedo, saiba o leitor. Se Luiz Inácio Lula da Silva – que já recebeu Ahmadinejad em Brasília no ano passado – visitar Teerã, sua visita se constituirá em um gesto incompreensível, em virtude das bárbaras violações de direitos humanos praticadas pelo governo local. E trará consequências negativas à imagem do Brasil.

Resta uma pergunta: por que Israel pode ter armas nucleares e os outros países da região não podem? Bush não foi um tipo de  ditador? Não vivemos na Disney World. Ou, como diz Napoleão Bonaparte, “a História é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.