Nota sobre Frank Stella

O museu Whitney, em Nova York, produziu uma exposição retrospectiva das obras de Frank Stella, considerado um dos mais influentes artistas norte-americanos atuais. A mostra se encerrou em fevereiro de 2016. Suas criações teriam servido de inspiração para muitos dos pintores abstratos dos últimos cinquenta anos, como destaca o catálogo da exposição. No Brasil, seu discípulo mais conhecido é Nuno Ramos, que parece ter herdado de Stella suas concepções abstratas monumentais e também outras ideias sobre o fazer artístico. Segundo Stella, aprender a pintar consiste no ato de olhar outras pinturas e depois imitar “os processos intelectuais e emocionais” desses pintores. Sabe-se que Ramos costuma retomar, numa escala “monstruosa”, obras de outros criadores.

Lembro-me que a primeira vez que me deparei com uma obra de Ramos, numa exposição no MoMA de São Francisco (Estados Unidos), em 2001, imaginei estar diante de um Stella gótico. Ambos os artistas são impactantes. Talvez os “monumentos” de Ramos sejam mais pesados; os de Stella são, geralmente, leves. Nessa exposição no Whitney, algumas de suas obras estavam dispostas contra a vidraça do prédio do museu, através da qual se vê ao fundo o rio Hudson. Assim, suas pinturas tridimensionais pareciam grandes entulhos flutuando nas águas do rio.

Além da pintura, a obra de Stella incorpora influências literárias, musicais, científicas, históricas etc. O título de uma de suas telas, Perfect day for banana fish (Dia ideal para os peixes-banana), de 1958, foi extraído do título de um dos contos mais famosos de J.D.Salinger (1919-2010), A perfect day for banana fish. Stella diz ter se interessado pelo conto, pois ele fala de “memória e desejo”. Diria, no entanto, que o pintor norte-americano buscava peixes-banana em outras obras e na sua própria, ou seja, algo insólito e novo.

É difícil conceituar a obra de Stella como um todo. Na primeira década de sua carreira, o artista foi um dos pioneiros da arte minimalista, com suas telas monocromáticas intituladas “Black paintings”. Iniciadas em 1958 e finalizadas no ano de 1960, as “Black paintings” dão a ideia de um artista que não considerava uma pintura como um todo, mas partes de um trabalho como uma pintura.

Depois das pinturas monocromáticas, Stella passou a usar mais de uma cor em suas obras e foi, segundo a crítica, um dos coloristas mais radicais da arte do pós-guerra. Sua paleta era descrita como “agressiva” e continha até mesmo cores metálicas. Para Stella, a função da cor não é embelezar, mas manipular a percepção de espaço.

A ideia de espaço é importante para compreender as obras do artista norte-americano: nas “Black paintings”, o espaço estava sugerido pelas linhas geometricamente instáveis. Aos poucos, o espaço foi ganhando mais importância no trabalho de Stella e suas pinturas foram se tornando cada vez mais tridimensionais; por isso, muitos críticos questionam se suas obras seriam de fato pinturas ou esculturas. Para Stella, contudo, essas nomenclaturas não importam, pois suas obras, como ele afirma, não têm uma “personalidade” em nenhum sentido e por isso não se encaixam em nenhuma nomenclatura. Para o artista, quando um trabalho de sua autoria recebe uma definição, isso significa que ele se tornou aborrecido. A intenção dos curadores com essa nova exposição de Frank Stella era a de mostrar as várias facetas desse artista múltiplo, que provoca o público e a crítica com suas inovações permanentes e suas constantes mudanças de estilo.

Caminhando pelas salas do quinto andar do Whitney, o público via obras de todas as fases do artista misturadas, já que a exposição não seguia uma ordem cronológica, portanto, o visitante se deparava, ao lado de obras monocromáticas, com obras coloridas e tridimensionais; e, ao lado de obras pequenas, com obras monumentais, uma miscelânea que inquieta e faz pensar.

Sobre Dirce Waltrick do Amarante

Professora do curso de artes cênicas da UFSC. Coorganizou e cotraduziu, com Sérgio Medeiros, De santos e sábios, uma antologia de textos estéticos e políticos de James Joyce (Iluminuras, 2012), e Cartas a Nora. Autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infanto juvenil e Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores. É autora de Para ler ‘Finnegans wake’ de James Joyce (Iluminuras).