POESIA CATALÃ

EM TEMPOS DE CRISES: POÉTICAS DESGUARNECIDAS PELA FALTA DE DIÁLOGO ENTRE O LITERÁRIO E O SÓCIO-POLÍTICO

(Universitat Oberta de Catalunya)

Resumo

Neste artigo tentaremos apresentar um breve panorama da poesia catalana dos anos 7- do século XX até o início do novo milênio ao lembrar muito discretamente o desamparo que assolava os intelectuais desta cultura desde a ditadura franquista  e que causou quase uma perda de significação para o fazer poético. Contudo temos a convicção que, apesar dos abalos ideológicos ela não morreu .Analisaremos rapidamente o surgimento deste revival através de alguns poetas catalãs chamados os “Imparables” e também alguns outros  que guardaram a chama da poesia, a sua relação à  cultura catalana e seu diálogo com o mundo, dos  anos 70 até hoje…

Resumé

Nous dessinons un panorama de la poésie catalane des années 70 du XXe siècle jusqu´au début du  troisième millénaire en rappelant très discrètement  le désarroi culturel qui s´était emparé des esprits depuis et après la dictature franquiste. La poésie semblait avoir perdu son nord; mais, même sous l´emprise des  changements idéologiques, il y eut le mouvement de revival des  “imparales” grâce auxquels la poesie catalane rénovait sa relation avec la culture et son dialogue avec le monde, des années 70 jusqu´à nos jours.

Resumen

En este artículo se trata de explicar cómo la falta de diálogo entre lo poético y lo sociopolítico en la cultura catalana desde 1975, tras la muerte del dictador Franco, en España, ha supuesto una progresiva falta de relevancia social de la poesía. En este sentido, se pretende analizar el surgimiento de unos jóvenes poetas, llamados “Imparables”, que han reivindicado, con sus obras y actitud, un nuevo diálogo entre la poesía, la sociedad  y la política en Cataluña a finales del siglo XX e inicios del siglo XXI.

 

Sempre que alguém fala de crise, especialmente quando essa crise está relacionada com a criação literária ou, especificamente, com a poesia, ressoam em mim as palavras do grande ensaísta francês  Maurice Blanchot: “Às vezes ouvem-se perguntas estranhas como estas: quais são as tendências da literatura atual? Ou também, para onde vai a literatura? Sim, pergunta estranha, mas o mais estranho é que existe uma resposta, esta é fácil: a literatura vai em direção a si mesma, em direção a sua essência que é o seu desaparecimento”, escrevia Blanchot em O livro que virá (1992).  Falar de poesia em tempos de crise, ou da crise da poesia em nossa contemporaneidade, tem muito a ver, penso, com o raciocínio de Blanchot: a poesia é um discurso que, necessariamente, deve situar-se em plena crise, porque a sua essência é a de encontrar-se em um perpétuo estado de exceção, trata-se de uma escritura que deve se arriscar no seu próprio ser, situando-se inevitavelmente à intempérie, sem proteção. Uma intempérie renovada constantemente graças a cada novo ato criativo, que lhe permite atrasar, embora vislumbrando-a, sua própria morte, sempre adiada porém,  próxima ao mesmo tempo, vizinha, embora impossível de ser datada com exatidão; o desaparecimento da literatura, como a crise da poesia, ao converter-se em tema, em motivo central da própria lírica contemporânea, alonga-se graças a sua própria vitalidade criativa e seu próprio questionamento, sempre impredizível, com o que faz-se impossível predizer a sua ata de falecimento.

Se direcionamos esta reflexão geral sobre a crise da poesia  a uma literatura,  como é a catalã no século XX, na qual a criação poética, por causa de determinados condicionantes históricos, políticos, contextuais, deixou de ser considerada como algo com um especial valor simbólico  para a sua cultura, para ir perdendo, pouco a pouco, relevância social, esta sensação de perda para com a poesia é vivida com uma maior intensidade. E é que a perda da função social da poesia, correlaciona com outras literaturas ocidentais, sente-se ainda no caso da cultura catalã como especialmente traumática, já que precisamente no momento em que se consegue um nível de normalização institucional e cultural (lembremos que a língua catalã foi proibida em longos períodos de sua história, especialmente com a longa ditadura do general Franco) que não havia gozado em séculos, é quando a poesia é deixada de lado pela sociedade. Devemos lembrar que se trata de um momento em que, uma vez deixada a ditadura para trás, e entrando a Espanha desde 1975 em uma democracia, e com a progressiva integração na união européia, a Catalunha consegue ter um governo autônomo, que dirige a política cultural e educativa do país. Apesar  de que a poesia, até finais dos anos 80, continuasse mantendo esse estranho estatuto de pedra angular do edifício simbólico da cultura catalã. Isso não é óbice para considerar que a criação poética em catalão, ao longo de todo o século XX, contribuiu com uma  série de nomes de grande qualidade, ligados ao sentir do seu tempo, e que escreveram não poucos livros e poemas de uma grande qualidade, com traços de originalidade e de universalidade que os fazem comparáveis às mais altas cimas  da lírica contemporânea do século XX, que vão claramente além do que alguém desconhecedor da riqueza, da variedade e do nível da poesia catalã contemporânea, houvesse podido  imaginar: apenas  ficam restos de uma nostalgia por um passado esplendoroso nem de acentos líricos anacrônicos. Se a poesia catalã atual tem algum tema que não seja a própria poesia, os temas e as maneiras da poesia catalã atual não são essencialmente diferentes de outras poesias coetâneas: o amor e o sexo, a morte e a dor, a consciência e a memória, a identidade pessoal e coletiva, a poética do instante e a fugacidade, a reflexão sobre o ato de escritura, a exploração da palavra etc.

Como dizia, pois, durante estas últimas décadas a poesia catalã experimentou uma perda de centralidade no sistema literário. Este é um fato que muitas literaturas nacionais experimentaram, com a irrupção do mercado e a comercialidade no mundo da literatura e com o auge da ficção. No entanto, este fenômeno talvez tenha se notificado mais no caso catalão porque se produziu em paralelo ao desaparecimento físico dos velhos poetas consolidados que exerciam como mestres e pontos de referência, significavam um modelo e um enlace efetivo com a literatura catalã prévia à derrota da guerra civil espanhola (1936-39). Por outro lado, esta perda da centralidade da poesia catalã se produziu ao mesmo tempo que acontecia uma transformação da funcionalidade social da literatura catalã em seu conjunto a respeito da sociedade e o país. Passou de uma situação de persecução política, na qual a poesia desenvolvia um papel essencial simbólico e ritual de pervivência e de identificação coletiva durante os anos da ditadura franquista, entre o ano 1939 e 1975, a uma institucionalização política e a um processo de aparecimento de outros mecanismos de autorepresentação social  (escola, administração, televisão, rádio, ficção audiovisual…) e de deslocamento do foco literário para as formas narrativas e para formas mais rentáveis socialmente no plano quantitativo para o processo de normalização lingüística da língua catalã: a novela, o conto, o jornalismo literário, a literatura de gênero, a literatura sentimental… Em 1999 D. Sam Abrams, falando da contradição entre aparência e realidade, planejava este novo panorama com motivo de umas jornadas sobre “a poesia no presente”:

Por um lado, podemos ver claramente que a poesia é muito presente em nossa sociedade: há muitos editores de poesia; escreve-se poesia em todo o território de fala catalã; há muitos recitais de poesia; existe uma infinidade de prêmios literários, e são organizados muitos atos em torno da poesia como representações e espetáculos. No entanto, por outro lado podemos ver, de uma maneira igualmente clara, que a poesia não tem a presença que deveria ter em nossa sociedade: os editores têm muito pouco interesse por projetos que girem em torno da poesia porque sempre recebem os poetas com o eterno “a poesia não se vende”, os livreiros dão pouquíssimo protagonismo real aos livros de poesia nas prateleiras de lançamentos: a imprensa dedica pouquíssimo espaço à crítica de livros de poesia em seus suplementos culturais: os outros meios como rádio ou televisão também reduziram em mínima a presença da poesia: e o sistema educativo não faz praticamente nada para fomentar a leitura e a apreciação da poesia entre os leitores jovens.

A pesar deste deslocamento da poesia para uma posição mais marginalizada no sistema literário que se produziu especialmente nos anos 80 e 90, a poesia manteve o pulso criativo interessante, coisa que se confirmou no inicio do século XXI. A partir deste momento da minha intervenção, queira referir-me mais concretamente aos novos poetas que, nascidos entre meados dos anos sessenta e início dos  setenta, e que começaram a publicar  no final da década dos noventa do século XX. Trata-se, se temos em conta as explicações anteriores, que  já não viveu esse momento de plusvalia simbólica do fato de ser poeta em catalão, mas que, contrariamente, são filhos de uma dupla crise: a que afeta a poesia em geral, e a que perturba a criação poética na língua catalã.

Esta é a primeira ocasião em que vou falar publicamente de alguns dos poetas jovens que irromperam com força no cenário da literatura catalã e que fazem parte do que poderia chamar “minha geração” (eu também sou poeta). Fazê-lo, não obstante, tem as suas dificuldades. Este congresso sobre a crise da poesia no Brasil e Europa acredito que pode ser uma boa desculpa para dar-me a oportunidade de refletir, em voz alta, sobre um tema que me interessa e me concerne, que é o de me perguntar se o grupo de poetas nascidos entre a metade  dos anos 60 e início dos 70 fazem parte de uma “nova geração poética” e quais são os traços que a caracterizariam, quais são os seus critérios, percepções e valorizações novas que haveriam posto em circulação através de sua poesia. Apesar deste interesse, múltiplas dúvidas começaram a me assaltar.

Em primeiro lugar, porque não estou totalmente seguro da existência de uma estética comum sobre  a qual basear uma análise minimamente coerente, já que a diversidade de propostas é muito ampla. Em segundo lugar, porque se aceitamos a existência de dita geração, sempre fica difícil ser juiz e parte, dado que, por idade e escritura, eu também deveria incluir-me nela. E, finalmente, devo acrescentar um novo inconveniente. Desde a minha ótica de teórico da literatura, que também sou, sempre fui crítico com a utilização do conceito de  “geração” já que freqüentemente corre-se o risco, com  o uso e abuso deste tipo de categoria crítica, de ir em busca incansável de umas características comuns que podem servir para identificar, qualificar  e etiquetar uma série de escritores, evitando assim a análise concreta dos  textos individuais. Encontro-me, pois, no meio da contradição. Interessado, mais, em dar conteúdo crítico a certas etiquetas, e não em cunhá-las, posso acabar reforçando alguns dos conceitos que desejo superar.

Estes poetas da crise, também foram chamados do “desgaste”, são uns poetas que assumem sem  ostentação a necessidade de uma ação literária consciente e beligerante, que implica uma tríplice responsabilidade: a de criar um espaço de debate franco sobre a tradição na qual desejam inscrever-se  (um âmbito influente de estabelecimento de valores, de discussão de leituras, modelos e percepções, que possam servir para problematizar os valores estéticos e para incidir em uma necessária reformulação  da tradição literária), a de apostar  decididamente por um projeto literário conscientemente ambicioso e que aspira uma interpelação  tanto espiritual como intelectual e, finalmente, a de ser intérpretes dos tempos de confusão  em que vivem, a de assumir o desafio de falar (e de revolucionar) de um mundo em crise e em progressiva  fragmentação.

Este grupo diverso e heterogêneo o formariam, entre outros, Sebastià Alzamora (1972), Hèctor Bofill (1973), Lluís Calvo (1936), Manuel Forcano (1968),  Maria Josep Escrivà (1968) Txema Martínez Inglés (1972), Iban L. Llop (1975), Susanna Rafart (1962) ou Ramon Ramom (1969), que, com diferente intensidade e desde diversos espaços geográficos (Catalunha,  Las Islas Baleares e o País Valenciano), compartilharão uma atitude decidida para a criação literária, desde um sereno ecleticismo, desde uma energia renovada e desde uma liberdade de preconceitos, que os permite superar certa percepção de decaimento e de  desesperança que, ultimamente , pelas razões antes  aduzidas,  instalou-se no mundo literário  catalão. Como já comentei, o leque  é suficientemente amplo como para desaconselhar  apresentar este grupo de poetas sob um único adjetivo, já que podemos nos encontrar com opções estéticas que vão desde o realismo lírico de La nit sense alba de Txema Martínez Inglés, passando pelo questionamento da realidade e da identidade de El buit i la medusa de Lluís Calvo, pela ambição existencial e quase metafísica de Mula morta de Sebastià Alzamora, pelo erotismo niilista de Contra el desig de Ramon Ramon, pelo afã lírico e a sabedoria sensual de Corint ou pela meditação insistente sobre a memória de Com un persa, ambos de Manuel Forcano, até acabar pela aposta extrema, bela e penetrante de toda a obra de Hèctor Bofill, que quer narrar desde a primeira linha de fogo ao desmoronamento do império do capitalismo avançado, por dar alguns exemplos concretos.

De alguns destes autores emerge uma certa consonância intencional, se o julgamos segundo as obras publicadas e suas declarações de poética – estou pensando, por exemplo, no prólogo de Sebastià Alzamora a Apoteosi del cercle (Apoteose do círculo) ou o  acréscimo final de Lluís Calvo a El buit i la medusa (o vazio e a medusa), que o próprio poeta titula “‘Petits fours’ poètics (aclariments, aclarides, estassades i adscripcions)” – que raramente se limitam a observações puramente “literárias”, mas que expressam a tensão da complexidade e a impossibilidade  de oferecer um olhar total, totalitário, em desacordo evidente com o horizonte cultural da literatura catalã anterior, que tem sido submetida à lógica de um pensamento único: “A percepção da realidade nunca pode ser coerente, a não ser que, claro, que queiramos equiparar-nos aos deuses […]. Por tanto, em meus livros  não busco a coerência estilística como um marco em si mesmo (embora, paradoxalmente, o sejam e muito, de coerentes) mas que cada registro, realidade ou situação me pede uma maneira diferente de expressão. No campo musical já ninguém não acha estranho misturar eletrônica e salsa em uma mesma gravação. Em nossa literatura, infelizmente, este ecleticismo ainda não tem muitos  adeptos” (Calvo, 2002, p. 128).

Apesar das reticências que expressei, penso que vale a pena o esforço de falar destes poetas, de suas obras. O meu objetivo, por tanto, não será tanto o de passar a discutir se formam (formamos) uma novo conjunto de poetas que se diferenciam, com claridade, dos anteriores, mas de tratar de fazer uma leitura atenta de alguns de seus poemas para sublinhar o que considero mais destacável. Quero falar de sua poesia distanciando-me voluntariamente de uma concepção da crítica e da história literária que consiste em determinar uma linha principal, um limitado número de poetas e uma opção estética que os aglutine. Nesta concepção eminentemente esquemática e conservadora, a crítica se opõe à leitura, ao seu discurso, aos textos. Diante desta visão linear, tem que apostar por uma visão em rede: detectar aquelas obras e aqueles textos capazes de criar uma língua atual e desde eles, como nós de uma rede, percorrer os contatos e os contrastes, os vetores de movimento da palavra. Apostar, definitivamente, por uma crítica que não tem por objetivo fazer uma valorização de juiz, outorgar etiquetas e pontuações, mas que potencie a leitura, a analise do texto, de sua linguagem, de seu discurso. É por esta razão que me centrarei na leitura de algum destes livros de poemas e nos pontos que mais me interessaram.

Se há na poesia catalã recente uma literatura que se sabe arriscada, potente e impúdica, essa é a de  Sebastià Alzamora (1972). Já em Rafael, seu primeiro livro de poemas, mas especialmente em seus livros posteriores Apoteosi del Cercle u Mula Morta, Alzamora mostra sem reticências as suas cartas como poeta, joga limpo, sem atalhos de nenhum tipo, qual é sua concepção da criação literária: uma poesia do desafio. Para o escritor malhorquino, a escritura é muito importante, muito transcendente, deve conter pensamento, inteligência (e de forma categórica, afirma). E por tanto se distancia de outras concepções poéticas, como as que pensam que tudo deve ser resolvido na forma, a qual pratica uma experimentação vazia, oca, desnecessária e também a qual, sob a etiqueta de poesia da experiência se auto oferece   como poesia natural, transparente e autêntica: são as três práticas poéticas acomodatícias  no sentido que se sentem confortáveis com a prática de fogos artificiais: sejam lingüísticos, formais ou sentimentais. Na poesia de Alzamora, mais que  de forma deveria se falar de formas, e outorgar-lhe toda a capacidade de escuta aos resortes específicos que constituem o mecanismo motor de suas propostas específicas de escritura. Assim, portanto, a escolha formal não é vista como uma coisa isolada (prévia ou posterior) ao significado,  mas que a função do discurso poético é precisamente a de se articular sintomaticamente como uma experiência do real em falência, no processo de composição e de abertura crítica. Lemos em um dos poemas de Mula morta:

Per què tremoles quan dius que m’estimes?
Per les trenta monedes?
Tremoles com qui viure?
O bé fremeixes pel costum del mal?
L’amor existeix, i és fort, i brilla,
i desafia el pes del cos,
el pes del vespre, el pes exagerat
dels anys que ens resten encara per viure.
L’amor existeix, però s’allunya
de la  gent com nosaltres, amor meu. [1]
(Sebastià Alzamora, Mula Morta)

Embora  a sua poesia tenha sido definida basicamente como conceitual, de transfundo metafísico e com uma forte carga intelectual, penso que sua radicalidade se encontra que estamos diante de uma poesia que tem muito a ver com a emergência de um sentido que não deve ser percebido e sim que deve ser produzido (é neste exato momento quando se produz a dissolução do fundo e da forma). Não podemos inspecionar os seus poemas olhando unicamente aquilo que dizem, também devemos nos perguntar pelos vazios e os silêncios da linguagem, pelos seus contrastes, a busca dos códigos alternativos que oferecem, sua capacidade para abrir a subjetividade e a consciência. Uma poesia que quer reproduzir, na sua impossibilidade, o caos profundo de nosso mundo ocidental e decrépito, mas deve fazê-lo assumindo que esta linguagem não pode se desordenar sem liberar algo desconhecido. A ambição de Alzamora é a arrinconar um único gesto (mediante a escritura poética) o mundo que quer destruir. Esta liberação não pode  ser, no entanto, positiva, mas nos mostra como retorcida, invertida, monstruosa inclusive, dialógica.

Do poema “Revoluciò” de Hèctor Bofill, incluído no livro La reconstrucció de la aristocràcia, emerge uma idéia que me parece particularmente interessante e que pode nos ajudar a entender onde se situa a poesia de Bofill e a de alguns dos seus companheiros de grupo. Lemos nestes versos:

“La meva dona i jo hem bricolat
el menjador, després recollirem
els nens i els avis i passarem
tot l’agost a la casa de la platija”.
Seran els meus cinquanta anys: cinquanta
piles de factures pegades, de bata
de diumenge amb televisió
de fons, serà um trànsit pel passadís
co·lateral de la història, uma vida
imperceptible, uma carícia
descarnada com uma signatura,
com el crustaci oliós removent
sense entusiasme l’última sorra groga
d’um estiu que já no podrà mentir-me [2]
(Hèctor Bofill, Revolució)

É evidente a descrição e a denúncia do cômodo beco sem saída onde se instalou o sujeito ocidental depois da queda dos sistemas ideológicos e a derrubada de todo projeto político e cultural que apostasse por uma mudança social. A poesia de Bofia parte de uma evidência  que não é nova e é que o mundo neocapitalista, o mundo moral, nosso mundo, é literalmente abjeto, depreciável. Esta situação é vista pelo poeta, que acredita que a literatura deve ser em essência crítica, como um rompimento físico e intelectual, que não contempla nenhuma via de compensação, e que não deixa nenhuma outra posição que a da busca de um equilíbrio sempre difícil entre o isolamento forçado e a sensação de sentir-se capturado pelas engrenagens dessa sociedade altamente tecnificada porém selvagem, decréptica e espetacularizada em que vivemos. Se levamos em conta as obras da maior parte destes autores, advertimos que esta sensação de crise os une. Em um livro lucidamente triste e melancólico como La nit sense alba (A noite sem alba), de Txema Martínez Inglés, esta percepção é ainda mais clara:

Així avanço, entre els passos que es confonen
per entremig d’un fum
que emana del saqueig de la derrota [3]
(Txema Martínez Inglés, Funàmul)

Enquanto no El buit i la medusa (O vazio e a medusa) de Lluís Calvo, planeja-se uma superação da  crise graças à capacidade da poesia por superar a oposição binária própria da metafísica ocidental e conseguir assim uma síntese que se aproximasse na medida do possível ao conceito de vazio da cultura oriental:

Però han passat els anys
en què vam erigir els fonaments
més genuïns i estúpids.
I avui ens resta, sols,
l’impetuós afany d’enderrocar, plegats,
els simulacres lúcids.

[4]
(Lluís Calvo, El roc de Sant Gaietà)

Da mesma maneira, em minha própria poesia, também acredito adverter algum destes traços. A minha é uma escritura, segundo acredito,  que se vê interrogada por um mundo aberto, como escreveu Iain Chambers no prólogo de Un mateix cel (Um mesmo céu, 2000), um mundo que já não pode ser unicamente “nosso”, mas que emerge  da impossibilidade de representá-lo, sob o atento olhar dos “outros”, de outras maneiras de olhar, entender e explicar o mundo:

[…] Sei que o horizonte não existe.
É uma decoração perfeita. Com um sol avermelhado.
Como a terra molhada. Como um gesto
de um rosto que não me ignora,
ainda não. Os desejos despedaçam
o impasse do olhar, a lógica
da cartografia. Se nenhum mapa esgota a realidade, quem a inventa?.
(Joan-Elies Adell, Em outras geografias)

Inclusive  na poesia mais amorosa, otimista e sensitiva de Corint, de Manuel Forcano, habita também esta percepção de crise. Aparentemente resguardada em um mundo construído a sua medida, cheio de referências imaginárias para o mundo oriental e clássico, que  lhe permite fazer-nos partícipes do deleite da vida, irrompe  também uma voz que é contundente com a realidade que lhe envolve, apesar de guarnecer-se detrás de uma aparente simplicidade: “No et conformis amb els geranis d’un test a la finestra” (“Não te conformes com os gerânios de um vaso na janela”). Estes  gerânios se convertem, na mão de Hèctor Bofill, em uns crisântemos murchos, porém esplendorosos. Enquanto Forcano, embora denuncie a artificiosidade de nosso entorno:

I després de l’admiració primera
i d’alguna càmera que amb el zoom l’ha retratat
tornem al catàleg de perfums del Duty Free
o al suc de taronja químic servit em got de plàstic

[5]
(Manuel Forcano, L’Olimp)

lemos em “L’Olimp” (O Olimpo) aposta pela fuga (contrapõe um Oriente idealizado a sua Barcelona natal, monótona e quase insuportável) que lhe permite reconquistar o desejo pelo amor e a vida, Bofia tem como objetivo mostrar, em meio de tanto lixo e tantas ruínas, esse ramo manuseado e murcho de crisântemos que são os seus versos (assim os define Sebastià Alzamora, no prólogo de La revolución silenciosa). É a de Bofia, uma poesia na qual ressoa uma épica fragmentária, envenenada, dura, desapiedada e contundente, como podemos ler nos versos centrais do canto “La persistència del domini” (“A persistência do domínio”) do livro  La revolució silenciosa:

[…] com em tothom verdeja una moral
d’habilitació deserta, de sofà,
d’horres perdudes entre passadissos;
una moral que prové del dolor
i la desgràcia: la pluja negra,
el guix humit, la verdura bullida

[6]
(Hèctor Bofill, “La persistència del domini”)

Com esta sintética visão da poesia catalã atual, tentei fazer uma leitura interessada e transversal de alguns dos textos que pareceram-me mais estimulantes desta nova geração de poetas. Trata-se, como já comentei, de um grupo de poetas que se formaram e começaram a publicar, a escrever à sombra da progressiva perda de prestígio da poesia como gênero e com o incremento da sensação de crise da literatura catalã em geral. Se bem que também pode-se constatar que estes poetas têm alguns traços distintivos, como é o de haver nascido instalados na crise ideológica própria da pós-modernidade, que é o seu habitat natural de existência. São poetas sóbrios, heterogêneos e possibilistas. Neste sentido, como escreveu o crítico norte-americano instalado na  Catalunha, Sr. Sam Abrams por motivo do aparecimento da antologia de Ernest Farrés, 21 poetes del XXI, que foi a carta de apresentação de alguns destes poetas: “[…] vê-se claramente que é uma geração nascida em uma época difícil porque não esperam muito do mundo literário complexo e corrupto que o acolhe”. De fato, são jovens literatos extremamente audazes que, buscando a verdade de seu mundo (que não é qualquer mundo) na explosão paródica das formas, socavaram finalmente a consciência e a má fé de uma poesia que se achava progressista e que não havia deixado de ser reacionária: ao medir-se profundamente com a escritura, o anular a distância entre a forma e o conteúdo, fazem uma interessante tentativa de poesia revolucionária em um mundo que deixou de sê-lo há tempo.

 

 [1] Por que tremes quando dizes que me amas?
Pelas trinta moedas?
Tremes como quem vive?
Ou bem te estremeces pelo costume do mal?
O amor existe, e é forte, e brilha,
e desafia o peso do corpo,
o peso da tarde, o peso exagerado
dos anos que ainda me restam para viver.
O amor existe, mas se alonja
das pessoas como nós, meu amor.

 [2] “Minha mulher e eu bricolamos
o refeitório, depois recolheremos
os meninos e os avós e passaremos
todo o mês de agosto na casa da praia”.
Serão os meus cinqüenta anos: cinqüenta
montões de faturas pagas, de roupão de domingo com televisão
de fundo, será um trânsito pelo corredor
colateral da história, uma vida
imperceptível, uma carícia
descarnada como uma firma,
como o crustáceo gordurento removendo
sem entusiasmo a última areia amarela
de um verão que já não poderá mentir-me.

 [3] Assim avanço, entre os passos que se confundem
em meio de uma fumaça
que emana do saque da derrota

 [4] Porém passaram os anos
em que erguemos os fundamentos
mais genuínos e estúpidos.
E hoje nos resta, unicamente,
o impetuoso afã de derrubar, juntos,
os simulacros lúcidos.

 [5] E depois da admiração primeira
e de alguma câmara que com o zoom o retratou
voltamos ao catálogo de perfumes do Duty Free
ou ao suco de laranja químico servido em copo de plástico.

 [6] […] como em todos enverdece uma moral
de habitação deserto, de sofá,
de horas perdidas entre corredores; uma moral que provém da dor
e da desgraça: a chuva negra,
o gesso úmido, a verdura fervida.