Chico Xavier, o Tirésias de Allan Kardec

Muitos heterônimos constituem o homossemiótico Francisco Cândido Xavier, que publicou mais de 450 livros. Seu ser, travestido de discursos, falas e cartas do mundo do além (o orum) só admite, mesmo, o compósito médium-meio. Aqui, ele é poeta, ali, pensador, acolá, conferencista, curandeiro fleumático mais além − ou como dizem os de sua religião: médico espiritual. Chico Xavier transfere ao espiritismo iluminista e francês o acento mulato, aclimatando-o, portanto, à religiosidade fetichista e peregrina do Brasil. A descoberta do médium-celebridade por parte expressiva da população brasileira me faz evocar o poema “Descobrimento”, de Mário de Andrade: “Abancado à escrivaninha em São Paulo/ Na minha casa da rua Lopes Chaves/ De supetão senti um friúme por dentro./ Fiquei trêmulo, muito comovido/ Com o livro palerma olhando pra mim.// Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! / Muito longe de mim/ Na escuridão ativa da noite que caiu/ Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,/ Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,/ Faz pouco se deitou, está dormindo.// Esse homem é brasileiro que nem eu”. O friúme-revelação de que no meio desse povo moreno nascera um “espírito evoluído”, um santo transeunte com quem se pode esbarrar em qualquer esquina, um místico “nosso” em um momento de trânsito do autoritarismo para a abertura democrática, encarnado “à margem da margem” apenas para nos redimir a partir de uma doutrinação aparentemente não dogmática, elástica e à paisana. Sobre o sacrifício da calvície, antes a peruca do que a auréola. Vaidoso como todo brasileiro.

O médium pop, desde sua condição infante, é auditor, escriba e modesto assessor (ascensorista?) do palácio do além-túmulo. Há em sua figura alguma coisa do moço bem-mandado, do estafeta operoso do espiritualismo de mesa branca, confiável aos demais credos, inclusive porque a doutrina kardecista diz que sempre que necessário se afinará com o avançar da ciência e das inovações do seu tempo. Chico é essa sorte de despachante efeminado de Hermes e Exu. É ático e remotamente afro, a uma só vez.

No candomblé e nas demais formas religiosas afro-brasileiras, inclusive nas de viés mais performático-carnavelesco, se a homofobia não se extinguiu por inteiro, também é verdade que nesse âmbito se pratica uma forma benfazeja de tolerância com os que, veladamente ou não, seguem tal orientação sexual. A fé na existência de vidas passadas explicaria a sensação de que eventualmente uma mulher estaria encerrada no corpo de um homem.

Sua alta popularidade deita raízes nessa constituição física precária que parece mesmo constitutiva e essencial de sua pequena grande espiritualidade, entre enciclopédica e tipicamente mineira, isto é, solidária mesmo com a impostura mais dolorosa se, porventura, a coisa enfear para os lados do compadrio ou dos fiéis agregados. O frágil Chico Xavier provocava compaixão: um senhor magricela, careca (asceta vaidoso sob aquela peruca de segunda qualidade, visual que talvez atendesse ao desejo dos fãs, que esperam ver o seu ídolo sempre apresentável e cobiçável), os óculos escuros como índice de uma cegueira de fundo sagrado, a voz débil (já mais velho), o andar alquebrado. Chico Xavier, o cego Tirésias de “enrugadas tetas” (T. S. Eliot). O médium era a versão masculina da vergada madre Teresa de Calcutá.

O filme de Daniel Filho faz uma hagiografia à la blockbuster do médium. Por pouco não assistimos em 3D aos quadrículos animados da via crucis desse barroco e neopositivista santo mineiro. Mas, biografias, escritas ou fílmicas, sempre acabam cedendo às tonalidades hagiográficas. Por essa razão a recente realização do diretor Daniel Filho não chega a ser um filme, em sentido caro a Hitchcock, ou melhor, trata-se de um filme ruim, pois mostra atores falando (o tempo todo) e não atores pensando (interpondo duração) como preferia o diretor de Vertigo (1958). A paixão de Chico Xavier é uma peça biográfica audiovisual. Não é cinema. É a novela “das seis” (locus amoenus onde o ecumenismo religioso, oficialesco, reina feito merchandising virtuoso) travestida de filme honestamente histriônico.

A estrutura do filme se satisfaz com o efeito de contraponto entrecortando cenas de uma entrevista de televisão e a retrospectiva vivencial do médium. Nisso há espaço para a crítica ingênua à mídia televisiva que se converte cínica e faz pouco do médium jeca. Não se pode descartar, inclusive, um assédio inquisitorial na bancada dos jornalistas e cientistas. O filme começa por um flashback com movimento de dolly operando uma descida em travelling desde as nuvens para mostrar em um plano geral (lento sobrevoo) o lugar ignoto da infância de Chico Xavier. Infância de perverso conto de fadas. A criança sofre maus-tratos da madrasta a uma só vez Rainha de Copas e bruxa que envenena o infante. Todas as convenções urram, vejamos mais algumas.

Jovem, Chico é conduzido ao prostíbulo pelo pai para aprender sobre as coisas de vida. Quase como uma anedota, enquanto o pai conversa com a cafetina do estabelecimento preparando o terreno para a iniciação sexual do mancebo, Chico, em um tour de force, acaba reunindo as meninas e leva a efeito um culto religioso quase pentecostal. A cena é confrontada com uma pergunta da bancada sobre sexualidade. Chico Xavier não faz sexo, mas o elogia como manifestação algo sublime dos sentidos humanos. Uma espécie de concessão divina como forma de reparação aos padecimentos humanos através do túnel sem fim das reencarnações.

A escrita psicográfica do jovem médium Chico é frenética, descontrolada, um coice selvagem. Seu gestual é o de um possesso; ele ainda não domina a sua arte; o contrário da fixidez estatuária que assume já mais velho, na pose e na posse de si mesmo enquanto escriba-médium pensamentoso, com a mão esquerda sobre a testa, cego ao que escreve com a direita. Rábula de almas penadas.

O encontro com o guia espiritual Emmanuel talvez seja a cena mais decepcionante do filme. Primor de clichês. Temos ruflar de asas, águas cantantes; e mais uma vez a câmera (ponto de vista de Emmanuel) empoleirada em uma grua que desce das alturas languidamente para encontrar o médium em uma cachoeira (altar natural de diversas formas religiosas) e entra ouvido adentro para metaforizar as primeiras palavras ouvidas de seu mentor. Mas, quando se materializa, o mentor de Chico se apresenta como um canastrão, galã menor. Um rosto bonito, ator-modelo. E assim, talvez inadvertidamente, vai ao encontro do ponto de vista da iconografia religiosa cristã de pegada kitsch que glamoriza, por exemplo, simulacros de Jesus Cristo ao limite da chapinha. O ator é inexpressivo e, emoldurado com a vestimenta ou com os panos do “plano espiritual”, sua opacidade dramática se esgota aí mesmo; aliás, todas as atuações desgastadas pela saturação da telenovela que o elenco representa, levam a dramaticidade exigida por algumas situações a um nível baixíssimo.

Mas a noção de que cinema bom seria aquele em que o pensamento está no rosto significante do ator e nos planos da imagem fílmica pode ser estendida em outra direção e em sentido contrário ao que se dá no filme de Daniel Filho. Parte da história do filme se passa em meados da década de 1970, em um momento emblemático. O médium se prepara para participar de um famoso programa televisivo de entrevistas. Os flashbacks biográficos de Chico Xavier como que ilustram e ao mesmo tempo se confrontam com as perguntas e respostas no jogo entre tenso e cínico da bancada de jornalistas e especialistas em duelo com o médium popularíssimo. Em um desses momentos, no qual a narrativa está no presente, questionado por entrevistadores sobre por que não psicografava os grandes filósofos, Chico Xavier responde com outra pergunta: “Os grandes filósofos não seriam, na verdade, médiuns?”. Isto é, tais como ele, essas criaturas também não pensavam, falavam o que lhes era sussurrado ao ouvido. Uma sorte de ventriloquismo sublime e franciscano. Carteiros juramentados dessa metafísica de acesso rápido. Tudo emanaria de algo sempiterno e maior. Notar ainda que, sob a pergunta dos incrédulos da “vida após a vida”, resta a esperança de que se podemos, com efeito, nos comunicar com os mortos, que estes ao menos sejam de linhagem mais alta, filósofos, poetas, artistas, enfim, que o morto emitente não seja um joão-ninguém; que seja um vulto da história humana. Espécie de sinédoque ambulante da Biblioteca de Alexandria cochichando postumamente através das paredes.

O filme é uma peça para devotos, feita à semelhança dos seguidores do líder espiritual Chico Xavier. Confortável ao seu bolso. Familiar e previsível em todos os aspectos. Tony Ramos e Christiane Torloni amassam com cuidados de artesanato televisivo − que donas de casa aprendem em suas tardes sonolentas −, essa pasta sem liga da interpretação-tipo, nítida em todo o elenco. Inclusive a elogiada interpretação de Nelson Xavier é tida e havida como uma verdadeira performance mediúnica, com o tempo ganhará fumos de lenda e milagre. O filme é intolerável porque, sob a ótica do kardecismo militante, sabemos que esta história não vai acabar; ela continua.

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Produção e Direção: Daniel Filho
Diretora Assistente: Cris D’Amato
Montagem: Diana Vasconcellos, ABC
Música: Egberto Gismonti
Fotografia: Nonato Estrela, ABC
Roteiro: Marcos Bernstein, baseado na obra As Vidas de Chico Xavier de Marcel Souto Maior.