Cildo Meireles: quem matou o falso Herzog?

Em uma pequena exposição coletiva realizada no Memorial Meyer Filho, de Florianópolis, intitulada Dicionário de Ideias Feitas, da qual realizei a curadoria, havia uma nota de Cildo Meireles – Quem matou Herzog? – falsificada com perfeição, salvo engano, pelo artista Cláudio Trindade. No circuito provinciano de Florianópolis, só o nome (consagrado) de Cildo Meireles, no meio de uma exposição despretensiosa, eu diria, já causou certa estranheza. No entanto, a falsificação da nota de Cildo, além de fomentar alguma discussão durante o evento e mesmo durante a montagem – como expor esta nota? ou é preciso que o artista falsificador assuma a falsificação? afinal, o processo de falsificação deve ser explicitado ou escondido? – parece abrir boas questões sobre a obra do Cildo e, no limite, sobre a própria arte contemporânea.

Na exposição, assumindo os riscos, resolvi expor a nota como se fosse original. No entanto, além de ser exposta em um espaço de arte, a nota também passou a ser distribuída, agora como uma nota falsificada mesmo, principalmente entre críticos, curadores e artistas, mas também entre desavisados, como um vírus, como um processo inflacionário – foram feitas quase duzentas falsificações – enfim, a nota passou a ser distribuída no que chamamos de circuito das artes. É possível que, inclusive, a estas alturas, fora de controle, algumas notas já estejam no mercado livre da internet. Foi nesse contexto que algumas notas chegaram às mãos de Cildo, por meio de uma crítica italiana, Modesta Di Paola – que, de passagem pelo Brasil, tomou conhecimento das notas antes de uma entrevista já marcada com o artista.

Em cada aparecimento da nota, certamente, há diferentes questões e níveis de leitura. Na exposição, através do jogo de falsificação, procurei lidar, na posição de curador, com o processo de fetichização da assinatura. Nesse sentido, pelo uso dos mecanismos expositivos mais convencionais, trata-se de uma ironia – bastante camuflada, de fato – com o processo de institucionalização da arte e mesmo da política. A nota torna-se legítima – e quer tornar-se legítima, neste caso – na medida em que seu discurso expositivo reafirma este lugar. Por outro lado, havia pistas suficientes para questionar tal legitimidade. Em uma fórmula: o que se diz é desmentido pela maneira como se diz e pelas condições em que se diz. De fato, ninguém questionou se o Cildo Meireles, naquele caso, era mesmo um Cildo Meireles. No limite, seja como for, não é possível decidir sobre isso.

Quando as notas passam a ser distribuídas, sem muitos critérios, em redes desconhecidas, apenas com a informação de que se trata de uma falsificação de Cildo Meireles feita por um artista de Florianópolis, outras leituras entram em jogo. A estratégia de Cláudio Trindade, nesse sentido, não é diferente da estratégia do próprio Cildo Meireles quando realizou os carimbos: a inflação. O uso do dinheiro enquanto suporte, nesse sentido, não é aleatório: além do recurso pragmático da circulação, trata-se também de uma metáfora. O que Cláudio Trindade faz, sejamos óbvios, é uma cópia. Mas a cópia nos ensina, por outro lado, que não há texto sem contexto. Ou seja, Cláudio Trindade realiza uma cópia – como o próprio Cildo aconselhava, aliás, no contexto original – exatamente quarenta anos depois: devolve a nota à circulação, mas já sob o signo do vazio.

Se a estratégia é a mesma, portanto – se as regras do jogo são as mesmas – a mudança de contexto altera os seus efeitos. Cildo, com suas notas, através de uma pergunta direta, em um contexto em que a informação está sob controle, inflaciona um discurso silenciado; por sua vez, Cláudio inflaciona o próprio valor imaterial, digamos (político, mas também econômico), do que se tornou a arte. Tornando talvez indistinta a diferença entre o original e a cópia, a falsificação busca retirar as notas de Cildo do lugar sagrado em que se encontram. Diante das notas de Cildo, afinal, estamos diante de um paradoxo da arte contemporânea: quanto menos valor, mais valor – ou, quanto menos valor, mais valor. Pode-se dizer, finalmente, talvez com alguma presunção, que Cláudio Trindade devolve a Cildo o que é de Cildo. Em uma palavra: a singularidade da falsificação consiste na ideia de que a própria assinatura de Cildo Meireles, para continuar sendo política, prevê sua falsificação, o seu uso comum. Nesse sentido, o gesto de Cláudio Trindade carrega uma ambiguidade incontornável: o artista torna-se ao mesmo tempo cúmplice e traidor.

Como dizia, Cildo Meireles se deparou com algumas de suas notas falsificadas. Perguntou do que se tratava. Modesta Di Paola explicou a situação e perguntou se Cildo poderia assiná-las, como já estão assinadas algumas de suas notas. “Se estão falsificando minha obra, é porque eu devo ser um artista importante”, disse Cildo. Com a caneta na mão, enquanto buscava apoio para as notas, o artista perguntou como se chamava o falsificador. Em uma inversão irônica e radical – ou em um drible: uma elipse, um vazio –, Cildo falsificou a assinatura do falsificador, criando um mecanismo de reenvio recíproco entre as assinaturas. Em três notas falsificadas, com a mesma grafia de suas próprias assinaturas, escreveu o nome de Cláudio Trindade no espaço em que, há quarenta anos, assinou seu nome próprio, como quem diz, afinal: vale quanto pesa.

 

 

Victor da Rosa é Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Organizou, em parceria com Ronald Polito, a antologia 99 poemas, de Joan Brossa (Annablume/DemônioNegro, 2009). Como curador independente, realizou algumas exposições em Florianópolis. Ganhou o Rumos, do Itaú Cultural, em 2010, de Crítica Literária.