Crime de lesa-cultura

 

O autor intelectual, quase sempre, não fala ao telefone, não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos, não movimenta dinheiro por suas contas, agindo por intermédio de “laranjas”. A prova da autoria do crime não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal (“Corrupção ocorria dentro do palácio, diz procurador”, Folha de S. Paulo, 04/08/2012 [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/58639-corrupcao-ocorria-dentro-do-palacio-diz-procurador.shtml]).

 

Esta é, em resumo, a acusação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra José Dirceu, o “chefe da quadrilha” (sic) no caso da “máfia do mensalão”: “O autor intelectual, quase sempre, não fala ao telefone, não envia mensagens eletrônicas, não assina documentos”. Por isso mesmo é o “autor intelectual”. Com as variações inevitáveis, é assim que acontece. Nesses casos, não dá para provar a culpa de um ato criminoso, ou de um ilícito qualquer, como em um flagrante policial. Mas acontece que nem todo crime ou ilícito depende de flagrante. “A prova da autoria não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal”. Ou do acúmulo acachapante de indícios.

Outro fato relacionado: às vezes, não apenas a autoria, mas a própria existência de um crime, ilícito ou esquema está nessa condição: demonstrá-la, então, não vem de “documentos ou de perícias”, mas sim do acúmulo de evidências.

É exatamente, guardadas as devidas proporções, o caso da “turma da poesia” que, à semelhança do PT no governo Lula, tomou conta, nos últimos anos, das instituições paulistanas da área, sem as quais não teria vida ou sobrevida. Se no mensalão de Brasília a coisa toda era liderada por José Dirceu e Delúbio Soares a partir da Casa Civil e da tesouraria do PT, no eterno “anualzão” poético de São Paulo tudo é dirigido por Frederico Barbosa e Cláudio Daniel a partir, respectivamente, da Casa das Rosas e da seção de literatura do Centro Cultural São Paulo.

Há um acúmulo acachapante de indícios. A eles, como debate cultural.

O indício mais evidente: os mesmos nomes, ou seja, o mesmo grupo, integra invariavelmente as programações da Casa das Rosas (Frederico Barbosa) e do Centro Cultural São Paulo (Cláudio Daniel). Por que esse grupo é amplo e, além disso, fortemente representativo do melhor da poesia brasileira contemporânea? Muito ao contrário: o motivo é esse grupo ser restrito – além de constituído pelos que mantêm relações amistosas, em mais de um sentido, com Frederico Barbosa e Cláudio Daniel. A começar das próprias relações entre ambos.

Daí a coisa se espalha. E como estamos no Brasil, no Brasil de Brasília e da São Paulo da Poiesis, ela se espalha para o elo mais que provável (respeitada o presunção de inocência) entre o dinheiro público e os interesses privados, envolvendo (literalmente) operadores da cultura, autores, editoras e portais eletrônicos. Sempre os mesmos.

Sempre
que é a palavra-chave da denúncia do mensalão: “O autor intelectual, quase sempre…”. Daí serem sempre os mesmos nomes e as mesmas instituições, públicas e privadas, sempre que se olha para a pobre paisagem da poesia quando ligada aos órgãos estaduais e municipais de literatura de São Paulo.

Os mesmos nomes, as mesmas instituições, além de as mesmas editoras e portais. E, naturalmente, o mesmo dinheiro público e o mesmo poder de cooptação dos cooptáveis de sempre. O dinheiro público é o montante somado da Casa das Rosas, via Poiesis, e do Centro Cultural São Paulo. Já o poder de cooptação dos cooptáveis vem do dinheiro público usado para facultar a exposição dos nomes de sempre, pagando os salários de alguns e catapultando as participações, aparições e edições de outros. Sem o efetivo controle dos gastos, naturalmente. Sem a mínima transparência, obviamente. Sem qualquer critério claro, evidentamente. Pois estamos no Brasil. O Brasil do mensalão político de Brasília e do “anualzão” poético de São Paulo. Lá o nome do jogo era compra de votos no Congresso e caixa de campanha. Aqui é troca de favores em benefício mútuo: isto é, Barbosa e Daniel, precisam dos autores cooptáveis para preencher e justificar suas atividades; os cooptáveis precisam da exposição pública. Além do dinheiro idem, de um modo ou de outro. Afinal, estamos no Brasil.

Parceria entre a Casa das Rosas e Centro Cultural São Paulo, o 1º Seminário deAção Poética reúne, entre os dias 14 e 17 de agosto, poetas, professores e representantes de instituições ligados aos processos de difusão e promoção da poesia para discutir estratégias de divulgação da poesia. Lançamento de livros e revistas, mesas de debate, mostra de videopoesia, recitais de poesia e shows musicais compõem a programação do evento gratuito (http://www.casadasrosas-sp.org.br/2012/08/evento-especial-1-seminario-de-acao.html).

Os nomes escolhidos são perfeitos: porque se trata de uma parceria, de uma ação poética entre amigos ou “parceiros”. Tudo pareceria à primeira vista pertinente, e tudo estaria, então, certo, se todos não fossem representantes, na verdade, de apenas uma “instituição”: a AMAFREDECLOWN (Associação dos Amigos de Frederico Barbosa e Cláudio Daniel): Claudio Willer, Ademir Assunção, Alice Ruiz, Roberta Ferraz, Ale Safra, Janayna Barão, Andréia Carvalho, Paula Freitas, Andréa Catrópa, Rubens Jardim, Marcelo Montenegro, Chiu Yi Chih, Marceli Andresa Becker, Adriana Zapparoli, Edson Bueno de Camargo, Diogo Cardoso, Lau Siqueira, Pedro Américo de Farias… A nata da nata da poesia brasileira contemporânea. Lista de enorme peso, para cuja reunião são necessários os recursos das duas maiores instituições lítero-culturais da maior cidade do país. “A prova da autoria não é extraída de documentos ou de perícias, mas essencialmente da prova testemunhal”, como diz o procurador-geral. Ao menos um “crime” (além do esquema todo) fica, então, comprovado: o de lesa-cultura. Pois se trata dos recursos das duas maiores instituições lítero-culturais da maior cidade do país usados para reunir a mais representativa assembleia do baixo clero poético. O nome disso é evidência.

Durante o “1º Seminário de Ação Poética entre Amigos” (que na verdade não é o primeiro nem será o último),

 

[Haverá o] Lançamento das revistas Coyote e Mallarmargens e de livros de poesia das editoras que publicam livros de poesia no Brasil. Serão realizados, a o longo do evento, lançamentos de diversos livros de poesia, entre eles os livros de Ademir Assunção, Marcelo Montenegro, Claudio Daniel, Ale Safra, Marceli Andresa Becker, Andréia Carvalho, Adriana Zapparoli.

Estes são, por acaso, os títulos mais representativos dos periódicos literários brasileiros? Se fossem: devem/podem ser lançadas com dinheiro público? Quem paga a festa? No caso da Coyote, a prefeitura de Londrina, além da Poiesis e do CCSP. E quem é mesmo o editor de Mallarmargens?

Mas, ao menos, não serão só elas. Também haverá o lançamento de livros. De quem? De Ademir Assunção, Marcelo Montenegro, Cláudio Daniel, Ale Safra, Marceli Andresa Becker, Andréia Carvalho e Adriana Zapparoli. Por que estes? Porque se trata, naturalmente, de uma lista de enorme peso, para cuja reunião são necessários os recursos das duas maiores instituições lítero-culturais da maior cidade do país… Mas quem paga a festa?

Haverá ainda a redação, durante o histórico evento, de uma “Carta Aberta: Em Defesa da Poesia”. Autores? Ademir Assunção, Frederico Barbosa e Binho. Binho?! Mas a poesia precisa de “defesa”?! Contra quem? Contra o quê? Se for contra críticos irrelevantes, eles são irrelevantes; mas se for, ao contrário, contra críticos relevantes, bem, então eles são relevantes. Mas se for contra circunstâncias históricas, fica-se entre o patético, o ocioso e o irrelevante. Binho contra as circunstâncias históricas?! Fariam bem melhor esses poetas se dedicassem menos tempo a coisas desse tipo e mais ao estudo da poesia, se quisessem de fato defendê-la… contra o que mesmo? Provavelmente, contra críticos desmancha-prazeres, estraga-festas, incomoda-grupinhos, e também contra o capitalismo, porque esses poetas são de esquerda. Da “esquerda” que discursa sobre um palanquinho feito de pilhas de notas de dinheiro público. Pouco importa, portanto, que o dinheiro seja afinal petista ou peessedebista, como neste caso. Importa que ele seja público, além de (respeitada a presunção de inocência), “privatizável” pelos amigos do rei. Ou melhor, dos reizinhos.

Tudo começa, enfim, pela notória falta de transparência da Poiesis, o órgão estadual para a área de literatura à qual está subordinada a Casa das Rosas, o feudo de Frederido Barbosa. Indício principal 1) a nunca efetivada cobrança das prestação de contas pelo TCE; indício principal 2) o “esquema paralelo” entre as gestões estadual e municipal na promoção de eventos, de nomes, de editoras, de publicações, a partir da associação entre Frederico Barbosa e Cláudio Daniel (fato denunciado fartamente na imprensa no caso da recente Virada Cultural – ou melhor, “Viradão à paulista”); indício principal 3) a invariável lista de membros da AMAFREDECLOWN.

Tudo passa, então, pela manutenção do grupo de ação poética entre amigos,  incluindo a mais que eventual reaproximação de desafetos. Única razão verossímil: interessa a todos. É o caso exemplar de Ricardo Aleixo (cujo trabalho, aliás, é melhor do que o dos demais), de volta à programação casada ou entrecruzada ou paralela comandada por Barbosa e Daniel: enquanto isso, desde 2008, por mera coincidência, a editora Annablume vem publicando livros caros a fundo perdido, com desdobramentos em “selos” como Demônio Negro, com destaque para Horácio Costa, Glauco Mattoso e, fato mais do que notável, os Poemóbiles de Augusto de Campos.  Há ainda o pipocar, por mera coincidência, de portais eletrônicos que servem aos nomes de sempre. Pipoca aqui, pipoca ali: é mesmo um circo, o mesmo circo. Ou círculo: outro caso notório e também exemplar é o da editora Iluminuras, de Samuel Leon (por acaso outro participante do seminário de ação poética entre amigos): publica, em relativamente caprichadas edições relativamente caras, livros e mais livros de poesia dos membros da AMAFREDECLOWN que, como se sabe, são best-sellers que sempre se pagam… Bem, talvez não sejam bem best-sellers, mas com certeza se pagam. Caso contrário, como se pagariam? Pela bela vendagem dos livros de poesia, notoriamente de tais nomes?

Por fim: existe, mesmo, um Ministério Público em São Paulo? Se existe, ignora, infelizmente, os órgãos culturais. A Cultura de São Paulo está, de fato, entregue ao deus-dará. E se Deus não der, o Estado paga e a população, como sempre, endossa o cheque. A festa não pode parar. (07 de agosto de 2012)

 

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Claudio Daniel
(falando em um grupo do Facebook com Barbosa)

Mostrei o tal artigo ao Depto. Jurídico do Centro Cultural e a advogada vai estudar uma resposta competente, inclusive junto ao Ministério Público. Tenho uma tarefa de casa para quem puder me ajudar: descubram o nome REAL desse Luiz Venegas Cabeza. Ouvi dizer que é pseudônimo do político Emerson Kapaz, mas não tenho certeza. Dessa vez, ao acusar de crime os governos estadual e municipal, as duas secretarias da cultura, as instituições Casa das Rosas e CCSP, além de mim e de Fred, a Sibila do juiz canalha deu um tiro no pé. Espero que sejam processados.

Há braços,
Cld.(provavelmente entre oito e dez de agosto)

Resposta de Luís Venegas

O Régis Bonvicino publica apenas os artigos e ele é atacado impiedosamente pelos tais de sempre. O Régis preserva a liberdade de manifestação do pensamento. Os autores dos textos são Luís Dolhnikoff, Paulo Franchetti, Denise Botman, Ronald Augusto e outros e, no entanto, ele é atacado, o que me faz supor que, além de falta de argumentos, os tais atacadores de sempre querem a censura da REVISTA SIBILA. De fato, esse assunto cansa mesmo. O mais triste: os autores dos textos não recebem resposta cultural. (12 de agosto de 2012)