Cuba corroída

Entrevista de Demétrio Magnoli a Carlos Costa e Luísa Pécora.

Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo, Demétrio Magnoli é cientista social e hoje um dos articulistas mais competentes da imprensa brasileira. Editor do jornal Mundo – Geografia e Política Internacional e autor de uma dezena de livros, entre eles O grande jogo: política, cultura e ideias em tempos de barbárie (Rio de Janeiro, Ediouro, 2006), História das guerras (São Paulo, Contexto, 2006), O mundo contemporâneo (São Paulo, Atual, 2004), Globalização: estado nacional e espaço mundial (São Paulo, Moderna, 2003), O corpo da pátria (São Paulo, Moderna, 1997), além de obras didáticas, ele é dono de um estilo claro e incisivo. Seus artigos costumam circular por e-mails, como se fossem correntes, pois Magnoli tem a sabedoria de quem sabe chamar as coisas por seus nomes (e dizer que o rei está nu) e não recusa a polêmica quando ela se apresenta. Pode chegar a ser até cruel em suas análises (em 2006, ao se referir a um texto de Emir Sader, escreveu: “O artigo está disponível em sites na internet, mas não os indico pelo mesmo motivo que não jogo lixo na rua”). Nesta entrevista para Sibila, Demétrio Magnoli fala de visões sobre o futuro de Cuba, do tabuleiro da América Latina e do papel que o Brasil está deixando de exercer no panorama internacional. (2007, em Sibila 12, com o título “Na questão de Cuba, o Brasil perde importância e voz por não ter dito o que devia dizer”, ora republicada)

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Sibila: Cuba passa por um momento delicado com a doença de Fidel Castro. O senhor acha que o país vive uma espécie de preparação para outra etapa?

Demétrio Magnoli: Não há uma sucessão tranquila em Cuba. Nunca houve e, nesse tipo de regime, nunca há. As sucessões na China comunista e na União Soviética nunca foram tranquilas, mas sempre produtos de conflito na cúpula. Em Cuba, os conflitos vêm de muito tempo. Raúl Castro só foi ungido sucessor quando fuzilado Arnaldo Ochoa. Herói da guerra na África e comandante do Exército, ele foi fuzilado no final dos anos 1980 sob acusação de participação no narcotráfico, em um julgamento que pareceu arranjado – julgamento que foi presidido por Raúl Castro. Hoje em dia, há uma divisão nítida, mas não explícita, na cúpula do regime. Há correntes diferentes procurando se posicionar no quadro da transição. Algumas correntes do regime permitem que trotskistas de outros países façam palestras em Cuba, outras propõem um modelo chinês de integração – e Raúl se identifica com essa ala –, e outras ainda propõem que não ocorra mudança nenhuma. Há uma divisão na cúpula, um conflito que por enquanto se desenvolve de maneira subterrânea, mas que pode eclodir. O fato de Fidel Castro ainda estar vivo parece ser um dos elementos que torna o conflito menos claro, mais velado. Mas não devemos acreditar que existe consenso na cúpula dirigente. Cuba está em uma encruzilhada.

Sibila: Nesse processo, qual o peso político da colônia cubana fora de Cuba?

DM: Cuba é um país estranho porque não apenas expropriou a burguesia, como aconteceu na União Soviética, mas também parte considerável da classe média. Os exilados cubanos formam uma comunidade de cerca de 1,5 milhão de pessoas nos Estados Unidos, principalmente na Flórida. Isso equivale a cerca de 12% da população da ilha e significa que praticamente toda a classe média de Cuba foi embora. Então, o país tem uma burguesia e uma classe média vivendo fora e à espreita do fim do regime. Cuba pode se transformar em uma economia de mercado normal apenas com a volta desses exilados. Hoje eles já têm peso crucial nas alternativas econômicas de Cuba. Antes de Hugo Chávez passar a ajudar Cuba com o petróleo, a alternativa que o regime castrista tinha para conseguir moedas fortes era permitir a entrada dos dólares dos exilados cubanos nos Estados Unidos. Permitir a circulação de dólares na ilha foi o centro das reformas de Fidel Castro. E é interessante notar que a própria diáspora cubana é muito variada do ponto de vista político. A visão que se tem dos exilados cubanos foi em boa parte construída a partir da fracassada invasão da Baía dos Porcos, que deixou a ideia de que eles formam um conjunto de golpistas associados aos Estados Unidos. Essa corrente de fato existe, há exilados golpistas e muito ativos, mas entre os cubanos da diáspora há muitos projetos diferentes para Cuba. Acredito que, além de um conflito na cúpula do regime, vamos assistir também a um forte debate político dentro da diáspora cubana sobre o futuro da ilha.

 

O regime proíbe o pensamento

Sibila: O senhor acha que o modelo chinês poderia ser aplicado em Cuba?

DM: A China se transformou em um modelo para as limitadíssimas reformas de mercado que Fidel implementou, e há indícios de que Raúl Castro tenha essa visão de uma Cuba na qual a política continuaria sendo monopólio do Partido Comunista, mas a economia se voltaria para a exportação. No entanto, há aqui uma diferença crucial: na China, a abertura econômica é, em grande medida, uma ligação entre a burocracia comunista e a diáspora chinesa na Ásia. O que ocorre na China é a associação entre empresas estatais que foram privatizadas e se tornam cada vez mais empresas da burocracia, administradas pela burocracia local, em associação com as empresas privadas pertencentes aos chineses que vivem no exterior. Os chineses estão em Taiwan, em Cingapura, em Hong Kong, na Malásia, e eles participam ativamente da economia sem pedir a democracia nem exigir mudanças do poder político. Eu diria até que a atual situação beneficia essa elite chinesa na diáspora. Por seu lado, Cuba não conta com essa alternativa. É muito fácil falar em modelo chinês, mas como aplicar em Cuba o que é feito na China sem o capital dos cubanos da diáspora? Esse capital não vem sozinho, pois a diáspora cubana quer partilhar o poder, ter acesso à política e, preferencialmente, governar a ilha. Parece-me que a burocracia cubana não tem atrás de si um país com as dimensões e potencialidades econômicas da China para jogar essa cartada à moda chinesa.

Sibila: Em quase meio século de Fidel Castro, os resultados que ele deixa são baixa produtividade, corrupção alta, matança de opositores, e a saúde e a educação em condições relativamente boas?

DM: Esse seria um resumo razoável, mas também um pouco simplista. Em primeiro lugar, é falso dizer que a Revolução Cubana promoveu uma fantástica melhoria na saúde e na educação. Essa é uma falsidade repetida um milhão de vezes e passada adiante sem muito questionamento. Isso porque o regime de Fidel trabalhou com dois mitos ao longo de sua história. O primeiro, ligado à figura do Che Guevara, era o mito da revolução latino-americana. Quando esse mito se esgotou, primeiro na Bolívia, e depois com o fracasso dos foquismos na América Latina, construiu-se outro, que é o mito da fortaleza. Cuba é tida como uma fortaleza onde o nível de vida é bom, portanto, mesmo que se coloquem críticas ao regime do ponto de vista político, da falta dos direitos humanos, deve-se admitir que o modelo revolucionário melhorou as condições de saúde e de educação da população cubana. O que esse mito oculta e tenta encobrir é que, antes da revolução castrista, Cuba era um dos dois ou três países da América Latina com excelentes indicadores de saúde e de educação.

 

Destruição do capital social

Sibila: De onde o senhor tira esses indicadores?

DM: Esses dados podem ser encontrados nos anuários estatísticos da ONU dos anos 1950, que recuperei para matérias que produzi e que serão publicadas em jornais quando Fidel Castro morrer. A verdade é que, historicamente, por uma série de razões ligadas à forma de colonização espanhola, e ao fato de muitas famílias ricas terem se transferido para Havana, Cuba sempre teve, junto com Uruguai e Chile, condições de educação e de saúde muito melhores que as dos demais países da América Latina. Nos anos 1950, os índices cubanos na área da saúde e da educação eram comparáveis aos da Europa. Então, o que o regime fez foi manter uma situação que já era vantajosa. Do ponto de vista econômico, acho que ainda há muita a coisa a ser escrita. Na minha opinião, a marca distintiva da economia castrista é a destruição do capital social. Estou me referindo à habitação e à infraestrutura, que estão sendo corroídas e destruídas há 50 anos. A maioria dos cubanos mora em prédios construídos na era pré-revolucionária, que foram sendo desmantelados de lá para cá, sem reposição de equipamentos. Não houve investimento, como na Europa, onde tudo é mantido e reformado. Os cubanos vivem com o que foi construído há 50 anos. Estradas, ruas, calçadas, pontes são basicamente as que existiam antes da revolução. Até os carros que circulam por essas ruas e estradas são os mesmos. Os cubanos devem ser os melhores mecânicos do mundo, porque fazem funcionar os automóveis norte-americanos dos anos 1950. Portanto, ocorre um processo de dilapidação do capital social. O que há é um país a ser reconstruído, e como ele vai ser reconstruído é uma questão importante do ponto de vista político, do planejamento urbano, da engenharia, da arquitetura e da estética. Cuba pode ou não virar um desastre.

Sibila: O senhor tem acompanhado as manifestações artísticas de Cuba? Em 2006, o Centro Cultural Banco do Brasil apresentou uma retrospectiva das artes plásticas cubanas, com trabalhos de artistas do período da revolução, como Mariano Rodríguez, Raúl Martinez, Tania Bruguera, José Toirac, Antonia Eiriz. Essa mostra esteve em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília – e depois no Museu Niemeyer, em Curitiba. A produção do período revolucionário era a típica arte engajada.

DM: Acompanho mais o que se passa no campo da literatura. Cuba teve escritores muito importantes, uma literatura de vanguarda na América Latina até os anos 1950 e mesmo nos anos imediatamente seguintes à revolução. Nomes do calibre de um Guillermo Cabrero Infante, sem mencionar um Alejo Carpentier. Parte dos vanguardistas da literatura cubana apoiou a revolução e depois se afastou quando viu que se criava um regime carcerário. Cuba proibia a expressão e a experimentação no campo da literatura, então também não se sabe o que irá acontecer depois do regime castrista do ponto de vista da cultura. E essa é uma questão importante, porque Cuba não era uma república bananeira, a ilha pré-revolucionária não pode ser reduzida a uma republiqueta bananeira. Essa representação foi criada a posteriori pelo regime, pois Cuba era um dos países da América Latina com vida cultural mais intensa. Como já disse antes, era um dos três países de melhor nível de educação, saúde e de vida cultural.

 

Solidariedade e coesão ideológica

Sibila: O senhor acha que os intelectuais e artistas que saíram de Cuba transformaram a oposição a Castro em um lucrativo produto de exportação e são também cúmplices das mazelas do país?

DM: Não. Acho muito fácil fazer essa acusação a pessoas que saíram do país quando a alternativa era ficar sem poder falar. Quem ficou foi para a cadeia, porque Cuba é um país que proíbe o pensamento. Cuba proíbe máquina de fax, recolhe computadores, proíbe conexões com a internet. É uma coisa de outro mundo, por isso acho bem razoável que eles tenham resolvido falar e escrever fora de Cuba. Saíram para poder continuar se expressando.

Sibila: Pedro Juan Gutiérrez, o mais conhecido escritor cubano e que reside na ilha, afirma que Cuba é tão imprevisível que não há como saber o que acontecerá depois da morte física de Fidel. O senhor arriscaria uma previsão?

DM: Em geral, não faço previsões, a não ser sobre o passado [risos]. O que dá para dizer é que é falsa a ideia de que Cuba só tem duas alternativas: a mera continuidade do regime com Raúl Castro ou a passagem do poder para golpistas ligados aos piores governos norte-americanos. Essa é apenas uma forma utilizada pelo regime para manter a solidariedade de intelectuais de esquerda no mundo inteiro, que ainda existe. Os fuzilamentos de poucos anos atrás provocaram certo cisma, com manifestações indignadas de alguns dos mais antigos simpatizantes. Mas nem todos, é claro. Aqui no Brasil, o Emir Sader escreveu um texto apoiando os fuzilamentos! Além disso, muitos desses intelectuais voltaram a se aproximar do regime, usando como pretexto a agressividade do governo Bush, as novas medidas restritivas e bloqueadoras impostas por ele. Então, não dá para dizer o que irá acontecer, mas esse mito de que só existem duas saídas para Cuba, ou Raúl Castro ou um golpe da ala direita dos exilados cubanos, é uma construção com finalidade política clara.

Sibila: Como o senhor vê o atual conjunto de dirigentes da América Latina, como Hugo Chávez e Evo Morales, em relação à herança de Fidel Castro?

DM: Um fenômeno importante que parece que está acontecendo atualmente é a passagem do cetro. Vemos um líder mítico doente que, do quarto de um hospital, passa sua legitimidade para um líder vivo. O que deixa a cena unge seu sucessor em uma espécie de liturgia religiosa. É um processo quase religioso de transferência de legitimidade pelo contato corporal. É como se o toque de Fidel em Chávez fizesse deste um líder predestinado a conduzir a América Latina. Além disso, uma ala da equipe dirigente de Cuba começa a revisar a história da revolução, dizendo que o regime errou ao proibir partidos e discussão política, porque a Venezuela está fazendo diferente. Isso é bastante paradoxal. No momento em que Chávez ameaça fechar seu regime na Venezuela, em Cuba a experiência chavista é considerada uma alternativa ao regime atual. A equipe dirigente procura o caminho de sua sobrevivência política e histórica, pois sabe que não basta colocar Raúl Castro para manter a fortaleza.

Sibila: Que futuro o senhor vê com esse grupo de dirigentes?

DM: Não acredito que eles sejam um grupo, que exista uma onda vermelha ou populista na América Latina. Essa afirmação é verdadeira no sentido de que eleitorados na maior parte da América Latina votaram contra os governos e as políticas neoliberais predominantes nos anos 1990. Votaram contra porque essas políticas foram percebidas como ampliadoras das desigualdades sociais. Mas a suposição de que há um grupo de dirigentes é falsa porque não há um programa político nem uma doutrina comum entre esses governantes, eles são extremamente diferenciados. Do ponto de vista econômico, o governo Lula é conservador e ortodoxo ao extremo. É um governo privatizante, pois as Parcerias Público-Privadas são uma maneira de nomear a privatização de uma série de serviços. É um governo que frequentemente parece ser de banqueiros, pois, quando mete a mão na poupança das pessoas para garantir o lucro dos bancos, o governo está mandando uma mensagem muito clara sobre sua identidade. Então, independentemente das palavras do presidente Lula, não se deve confundir seu governo com o de Chávez ou o de Kirchner, que, por sua vez [e respectivamente], não são iguais. Kirchner proclama seu amor eterno a Chávez, mas ele é um peronista de esquerda que procura reconstruir o peronismo depois do colapso do Estado argentino. Evo Morales tampouco é um chavista. Ele faz parte de um movimento nacionalista boliviano que retoma a revolução de 1952, mas Evo Morales não propõe a unidade da América Latina contra os Estados Unidos, que é o elemento definidor do discurso chavista. O chavismo não é um populismo nem um regime de um caudilho qualquer. Os regimes de caudilho não têm doutrinas políticas, mas Chávez tem a sua, que se expressa na integração latino-americana com bases nos recursos do petróleo da Venezuela. Nenhum outro regime na América do Sul compartilha essa doutrina que, não por acaso, acontece no país de Simón Bolívar. A unidade que ele defendia serve como uma bandeira política hoje, a bandeira do bolivarismo.

Sibila: Cuba é periférica aos olhos do Brasil, apesar de membros do PT simpatizarem com Castro?

DM: Cuba é periférica do ponto de vista da economia. O Brasil tem interesse na América do Sul, e não no Caribe, que é a quinta fronteira dos Estados Unidos. Mas Cuba desempenha um papel ideológico importante na coesão de uma parte da esquerda brasileira que, no momento em que renunciou a quase todas as suas bandeiras históricas, deve manter algumas bandeiras simbólicas para marcar sua identidade. Uma das coisas que hoje pode distinguir o PT do PMDB, que faz com que o PT ainda possa ser visto como um partido de esquerda, e não como mais um partido interessado em cargos e em lugares no aparelho do Estado, é a fidelidade a Cuba e a Fidel. Isso, na minha opinião, atrapalhou a política externa brasileira para Cuba nos últimos anos. Quando Lula iniciou seu primeiro mandato, parecia existir uma janela de oportunidade para que o Brasil tivesse uma política ativa e importante: dizer aos Estados Unidos que o bloqueio a Cuba é inaceitável e que é necessário abrir o comércio e fazer investimentos, e dizer aos cubanos que é inaceitável que não se possa exprimir opinião e se organizar politicamente. O presidente Lula perdeu essa oportunidade. A primeira parte desse discurso, ele a disse com muito pouca ênfase, e sobre a segunda parte nem chegou a dizer nada, escudando-se no famoso princípio da autodeterminação nacional, de resto um discurso que serve para praticamente tudo.

Sibila: Nesse contexto, de falta de uma postura afirmativa, o Brasil perde espaço como um player no tabuleiro diplomático internacional?

DM: O Brasil perde espaço porque não tem o que dizer. Estamos submetidos, hoje, à existência de duas políticas externas contraditórias. Uma é a de integração não excludente e não ideológica da América do Sul, com base no comércio, nos investimentos, em obras de infraestrutura e no fortalecimento de um bloco regional dentro do quadro da globalização. Essa ideia não foi abandonada, mas existe uma segunda política externa, mais oculta, que coloca como prioridade contrabalançar o poder dos Estados Unidos com o fortalecimento do que há de multipolar na ordem internacional atual. Isso significa estabelecer alianças estratégicas com a China, com a Rússia e com a Índia, e insistir em uma campanha persistente por um lugar no Conselho de Segurança da ONU. Isso leva a abandonar o eixo de política de direitos humanos que o Brasil tinha adotado depois da redemocratização, como consequência da aproximação com a China – pois não dá para namorar a China e bater de frente com o discurso dos direitos humanos. Isso leva a flertar com a ideia de uma unidade latino-americana como força de contraposição aos Estados Unidos. Quando a Venezuela é admitida no Mercosul sem cumprir as exigências do bloco, é essa segunda política que está fincando sua bandeira no terreno. Então, temos orientações contraditórias que se anulam mutuamente e que fazem com que o Brasil tenha de se calar e não ter posição diante de questões cruciais. Quando um país se anula, perde importância, perde voz e perde espaço. É isso o que está acontecendo.