EM DEFESA DE OBAMA

Quero refletir sobre Barack Obama e a utopia nos Estados Unidos. O endividamento das pessoas físicas e jurídicas não permite vislumbrar uma saída indene e indolente para a depressão econômica, mas a figura – como a imagino – de uma rua estreita, onde se caminhará de modo lento e doloroso, passo a passo, como a formularia Paul Krugman. A depressão econômica revelou a falta de programas de governo dos países do primeiro, segundo e terceiro mundos nas últimas três décadas, assaltados pela moeda única da autorregulamentação dos “nervosos” mercados (esse monstro abstrato) e, recentemente, pela ira utópica de Bush e suas guerras.

Penso sobre o caráter revolucionário de Obama, como demonstrou seu orçamento, que vai ser votado pelo Congresso estadunidense. Imaginei, com Moisés Naím, que assina a coluna El Observador Global no El País, que a demonização de Obama viesse do mundo árabo-islâmico e de Hugo Chávez, que correspondeu à expectativa ao afirmar que Bush e Obama provêm do mesmo miasma (massa pútrida indistinta) ou ao referir-se ao ex-senador como “El negro”. O mundo árabe, por ora, a contrariou. E, para minha surpresa, a mídia brasileira, que pretende representar o capital financeiro, aliou-se a Chávez, e já começa a resgatar a figura de George Walker como pacificador do Iraque!

A utopia – a luta por uma sociedade perfeita – esteve sempre ligada às esquerdas, o que é verdade em parte, com a União Soviética dos anos 1910 e 1920 e a Cuba dos anos 1960. No entanto, ela é o instrumento preferencial da direita. Haja vista Margareth Thatcher (1979-1990) e Ronald Reagan (1981-1989), utópicos revolucionários da onipotência do mercado. Haja vista George Walker Bush, um utópico, católico milenarista, apocalíptico, que enxergava na guerra contra o terror, na invasão do Afeganistão e do Iraque passos para a revolução “democrática” que intentava implantar no mundo. Como nota John Gray, o governo Bush comportou-se como um governo revolucionário, legitimando centros de tortura como Guantánamo. O excepcionalismo norte-americano – com os republicanos – transforma-se, com frequência, em projeto utópico de dominação do mundo a partir do modelo criado pelos Founding Fathers ianques. É uma “democracia” (imperialismo) revolucionária de exportação do capitalismo bruto, selvagem.

 

 

Em alguns governos democratas, como o de John Kennedy (1961-1963), com os direitos civis, que implicaram redistribuição de renda também, o excepcionalismo torna-se revolucionário à medida que afronta as tradições internas. É o caso de Barack Obama e de seu orçamento. Os fundadores da república americana a pensaram como uma União frágil, com estados (Illinois, Nova York, Massachusetts) fortes. Ao contrário do Brasil, os Estados Unidos são, de fato e de direito, uma república federativa radical. Portanto, a compra de ativos de bancos por parte da União faz os republicanos chamarem Barack Obama de socialista. Os investimentos em saúde, para fazê-la universal, levam os republicanos a tacharem-no de comunista. A livre iniciativa está na base de fundação desse país, onde o ente Estado é visto com enorme desconfiança e a “estatização” como o diabo. Ao contrário do que ocorre no Brasil, o empresário, nos Estados Unidos, é um empreendedor e não um especulador. A reforma tributária, proposta pelo orçamento de Obama, com redução de impostos para os pobres e para a classe média, leva à ira os membros do gop, como é chamado popularmente o Partido Republicano. Obama afronta os lobbies do petróleo e da indústria bélica ao propor impostos para poluidores, energia verde, redução drástica dos orçamentos de guerra e corte de verbas para o Pentágono. A insistência em lutar no Afeganistão advém mais da necessidade de combater o tráfico internacional de drogas, liderado pelos talebãs, com apoio de terroristas, do que de prosseguir na guerra contra o terror. Ele quer, por outro lado, aumentar os impostos dos ricos – ao contrário de Reagan e Bush, que o reduziram a quase nada. Faz uma releitura equitativa dos recursos de seu país.

No fundo, propõe sua reconstrução institucional, com um capitalismo pautado pela justiça social, e não medidas pontuais para sair da crise. Não é um “Bush dissimulado”, como um jornalista brasileiro o define, equivocadamente. Enquanto Obama quer investir cerca de 60 bilhões de dólares por ano em pesquisa de energias verdes, o Brasil despende em torno de 2 milhões e meio de dólares. E a Amazônia e o Pantanal queimam. Se houver mundo, depois da depressão, ele será ainda pautado pelos Estados Unidos, esse país onde duas utopias se confrontam historicamente e preenchem o vazio ideológico do resto do planeta.