Homenagem a Wilson Bueno

Wilson Bueno (1948-2010) sentiu, na carne, a violência que sempre abominou. Leo Gilson Ribeiro observava, a respeito de Mar paraguayo (1992), quando de seu lançamento: “O eixo Rio-São Paulo foi outro muro a desmoronar junto com o de Berlim. Ou mesmo antes dele, Curitiba já lançava um míssil literário expresso na criação revolucionária de Paulo Leminski. Agora, Jamil Snege e Wilson Bueno dão continuidade a esse Renascimento localizado em terras paranaenses. Wilson Bueno, da cidadezinha de nome indígena, Jaguapitã (que quer dizer ‘cachorro vermelho’ em guarani), tece um texto delicadíssimo, em que a poesia e a prosa estão entremeadas, entrelaçadas, confabulam”.

O crítico afirmava que “o arisco lobisomem curitibano” uiva em diálogo com o Tatarana roseano “e pega na mão de Tarsila para recuperar as paisagens caipiras do interior de Minas e São Paulo”. Alice Ruiz definiu, deste modo, o autor de Bolero’s Bar: “Bueno é um tradutor de tradições para a contemporaneidade”. A estreia literária, tardia, deu-se, exatamente, com esse livro apresentado à época (1986) por Paulo Leminski como “um bazar dos dias”, que “tudo arrasta em seu ímpeto de espantado deslumbramento diante das coisas e da vida, fracasso e triunfo, tormento e júbilo, Wilson e Bueno”. É preciso lembrar que, em momento oportuno, a Travessa dos Editores, de Fábio Campana, relançou o Bueno’s Blues Band & Seus Boleros Ambíguos (a sacada é de Leminski), acrescido do Diário Vagau, em primorosa apresentação datada de 2007.

Boleros’s Bar ou registros da realidade reestruturados em escritura ficcional, “obsessivamente reescritos”. Duas décadas mais tarde, o próprio autor a eles se referia como “retratos do artista quando jovem”, em delicado debique a Leminski, que o conhecia desde a alegre efervescência curitibana do festival de Woodstock e o carimbava dono e freqüentador de um “boteco sórdido e esplêndido, que abre quando pode e fecha quando não é mais possível”.

Folheio, ao acaso, Bolero’s Bar, e me deparo não sem certo sobressalto com um insólito epitáfio: “Agora é evadir-se. O mundo está completo e não nos precisa mais, mano. A tarde está completa e nos dispensa, mano. A morte nos disputa, abutre. Cansamos”. Em suma, há – como Bueno prognosticou certo dia –menos pássaro no ar do que o sonho pisado de um homem.