Kevin Volans africaniza a escrita ocidental

volans001Nessa série de textos, pautada em comentar uma seleção de discos contemporâneos africanos, foi dito algo a respeito da relação, constatada nas obras de alguns músicos africanos de hoje, entre a(s) música(s) clássica(s) africana(s) – música tradicional, de modelo milenar e de raiz em diversas culturas pré-capitalistas –, a música de concerto europeia e a música popular em contexto industrial – o jazz, sobretudo, como expressão negra de base africana.

Para encerrá-la, recomendamos e comentamos o disco Volans; Netherlands Wind Ensemble (Chandos, 2001), uma gravação de cinco obras do compositor Kevin Volans, entre elas seu “Concerto para piano e instrumentos de sopro”. As cinco são executadas por Peter Donohoe e o próprio Volans como pianistas, junto ao Netherlands Wind Ensemble, conduzido pelos regentes Daniel Harding e Wim Steinmann.

Volans, que foi tema de um texto anterior da série [1], é um dos compositores mais célebres do continente africano e, além disso, bastante conhecido entre os músicos da vanguarda europeia da segunda metade do século 20. Sua obra, assim como sua trajetória como compositor, discute, entre outros temas, a questão racial na África do Sul. Para ele, que estudou com a elite da vanguarda europeia das décadas de 1960 e 1970, o homem branco africano teria de se dar conta de que não é europeu e, assim, integrar-se à cultura de seu continente, como afirma Michael Dungan em seu artigo sobre Volans, “Freedom and Rebelion” [2].

Ao regressar da Europa, o compositor fez uma série de viagens pelo continente africano, assim como fez Béla Bartók no início do século 20, pelas regiões rurais da Hungria, registrando e analisando diversas técnicas composicionais, rítmicas e harmônicas de diversas etnias e culturas. Sua música, desse modo, como o próprio compositor afirma no encarte do disco em questão, africaniza a escrita europeia, incorporando à instrumentação e à notação ocidentais diversas formas de organização musical apreendidas do repertório tradicional africano. Funde a isso texturizações e harmonizações derivadas do campo da escrita e da criação eletroacústica e eletrônica, entretanto, no campo da música instrumental.

A primeira das faixas do disco é “This is How it is”. É um arranjo para orquestra de instrumentos de sopro de uma ópera do próprio Volans, The Man with Footsoles of Wind, que narra o fim da vida do poeta Arthur Rimbaud, sua passagem pelo deserto da Etiópia e sua morte em Marselha. Constitui-se em uma série de danças bastante narrativas e temporais. Chegam a lembrar arranjos para banda sinfônica de Petruchka, de Igor Stravinsky. Todo o disco, por sinal, apesar de ostentar uma técnica composicional de ponta, tem um caráter clássico, no sentido de retomar o modelo discursivo tradicional da música do Ocidente. Volans, no período em que esteve em Colônia, na Alemanha, onde foi assistente de Karlheinz Stockhausen, chegou a colaborar com um grupo conhecido por “New Simplicity”, do qual Walter Zimmermann é um dos compositores mais conhecidos. Esse grupo teve como uma de suas propostas centrais a retomada da música romântica europeia, incorporando ao seu modelo determinadas inovações técnicas obtidas pelas vanguardas de até então.

A segunda faixa do disco, “Walking Song”, é uma abertura para flauta, cravo − afinado segundo escalas africanas tradicionais − e quatro palmas, composta por encomenda para um vernissage da Durban Art Gallery. É também bastante linear, embora consiga prender a atenção do ouvinte por trazer possibilidades sonoras inusitadas ao cravo e lembrar uma dança típica africana, com coloridos característicos e grande uso das repetições isorrítmicas e variações de pulsação da música clássica africana.

“Leaping Dance”, a quarta faixa do disco, é bem menos linear. O tempo é tratado de forma circular, com retorno constante ao bordão, o “chão modal”. É em rondó, volta sempre ao tema como em uma ladainha, e o intercala com passagens de exploração melódica. A ideia é usar técnicas de organização rítmica e instrumental que ampliem a sensação de velocidade das frases musicais. Nas palavras do próprio Volans: “I was interested in the way interlocking techniques in African music were used to enable players to reach extraordinarily high speeds”.

Levando em conta que a música, ao manipular a forma como se percebe a passagem do tempo e reverberar essas imagens temporais pelo espaço, transforma a própria noção de espaço, o resultado obtido por Volans nessa em “Leaping Dance” é interessante e original. Essa parece ser uma preocupação constante do compositor. Exemplo disso é o seu projeto arquitetônico-musical Partenheimer [3], que consiste na projeção de música desenvolvida a partir da estrutura espacial da Ikon Gallery, a ser executada nesse espaço por três orquestras simultaneamente.

Por meios altamente sofisticados, “Leaping Dance” cria texturas e sequências sonoras de grande complexidade e beleza. Nesse aspecto, a quinta faixa do disco, “Concerto para piano e orquestra de sopros”, é ainda mais interessante. Essa peça, terminada em 1995, ao mesmo tempo em que remete à “Sagração da Primavera” por um lado, mantendo seu modelo clássico de narratividade, entra em rico diálogo com a música de concerto de sua época por outro, pois parece dialogar diretamente com peças como o “Concerto para piano e orquestra” (1985-1988) de György Ligeti.

Ambos se assemelham pela pesquisa timbrística e textural em torno das possibilidades do piano. O concerto de Ligeti, entretanto, acaba sendo mais radical, desmembra a orquestra, separa-a, obtendo assim uma enorme massa de vozes cruzando-se em diferentes dimensões do pulso, como em uma cantata renascentista para cerca de quarenta vozes composta por Thomas Tallis.

O concerto de Volans, diferentemente, mantém a noção de oposição entre instrumento solista e orquestra típica, desde o período barroco, ao gênero do concerto instrumental. Atualiza esse gênero apenas em técnica composicional − sua linguagem, bastante sofisticada em termos sintáticos e harmônicos, é obtida por meio da experimentação e de pesquisa, mas mantém certa linearidade temporal, certo apego à “Sagração”, se poderia dizer. O que não exclui o fato de apresentar momentos de grande beleza e perfeição e de ter a capacidade de comunicar ao senso estético contemporâneo − chama a atenção e apresenta ainda algum desafio à audição e à percepção.

A quinta e última peça do disco, “Untitled (In Memoriam G. H. V.)”, segue um tempo mais interior, dissolve a passagem do tempo alongando as durações, estica-o, o faz parecer eterno, congelado. Trata-se de uma peça para piano, com participações discretas de uma orquestra de sopro fora do palco (‘off-stage’). Retoma a proposta de Olivier Messian, no Quartour pour le fin du temp, quanto ao tempo musical – abandonado como objeto de criação pelo serialismo da primeira metade do século 20 –, por meio da construção de um tempo telúrico, elástico e longo, denominado por ele como “tempo da eternidade”. Entretanto, essa peça de Volans, nos momentos em que não recai em monotonia por certa falta de originalidade em (re)apresentar esse tempo alhures, consegue ser lírica e comovente.

O disco em geral é bom, vale a pena ouvi-lo. Pensar sobre sua música pode conduzir às inquietações e aos problemas estéticos da música contemporânea. A esse respeito, valeria imaginar se essa incorporação de paradigmas da música africana ancestral à escrita e à técnica composicional ocidental obteve êxito em, de fato, aumentar as possibilidades de construção musical dessa tradição, ou se serviu apenas, e como fetiche, portanto, à legitimação da manutenção de modelos clássicos.

Vídeos

Volans – Piano concerto Pt. 2

Ligeti – Piano concerto 1º mov.

Stravinsky – Le Sacre Du Primtemps

Notas:

[1] África: arte industrial e música nacionalista
[2] http://www.cmc.ie/articles/article176.html
[3] http://www.bcmg.org.uk/default.php?id=907


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