O fascínio pelo “literário” no Brasil

Disillusionment of Ten O’ Clock”, do norte-americano Wallace Stevens (1879-1955), um dos gigantes da poesia no século XX, data de 1915. Trata-se de peça menor no conjunto de sua obra e é, aos olhos de hoje, um pouco óbvia no contraste entre a sensaboria local e a poética da imaginação dos viajantes. Intrigou-me ser ela objeto de inúmeras versões, nas últimas décadas, quando poemas centrais de Stevens nunca foram traduzidos ao português e no Brasil.

O poema cuida do estilo de vida das ditas pessoas “normais” que “não sonham com babuínos [selva, desconhecido] e sargaços [mar]”, mas se resumem a variar a cor de suas camisolas e a usar, ousadia máxima, “cintos de contas”, em um exercício tedioso de pseudossofisticação, o que se constituía em exigência na emergente sociedade americana daquele momento, no qual se fazia a transição entre o rural e o urbano, como se pode verificar até em um filme comercial como Legends of the Fall, de 1994, dirigido por Edward Zwick.

Com o que você sonha (ser livre) é a pergunta central do poema, que, ao cabo, identifica o poético com o marinheiro solitário, bêbado, “agarrando Tigres/ em céu vermelho”. Há um aceno à ferocidade do “Tigre” de William Blake, à ferocidade do mundo, evitada pelo homo medius, caracterizado, no caso, pela rotina e pobreza mental.

Em 1915, lançava-se em Portugal a revista Orpheu, dirigida por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, porta-voz do modernismo português, que, com o heterônimo Álvaro de Campos, e o próprio Sá-Carneiro, tentava alcançar, por meio da poesia, a nova realidade do mundo industrial. Orpheu consistia e ainda consiste em uma exceção.

A poesia brasileira continuava, nesse mesmo ano, travada pelo tardo-parnasianismo e pelo tardo-simbolismo – que se referiam quase que exclusivamente à literatura, abdicando da sondagem do real, o que se daria apenas a partir do início dos anos 1920, com altos e baixos. O Concretismo, em sentido estrito, dos anos 1950, não deixa de ser uma vanguarda que se deduziu da própria literatura (o que é atípico se cotejada com os ismos europeus e com o Objetivismo norte-americano), ao instituir uma receita de poema (privilegiando o minimalismo e a paronomásia como procedimentos predominantes), interessada, apenas em termos relativos e eventuais, na sondagem da realidade extraliterária ou extrapoética, com exceção notável e maior da poesia de Décio Pignatari. Um poema como “Coca-Cola”, de 1957, rompe, de modo claro, com certo elogio eufórico (ou ironia contida no máximo) da publicidade feito pelo Modernismo de 1922 e desconstrói a própria fórmula concretista, ao mandá-la para a latrina: “caco/ cloaca”. O poema é antifórmula, é contra a literatura como fórmula e daí decorre sua importância e grandeza. E não “antipublicitário”, como o definiu Haroldo de Campos.

Quando Stevens escreveu “Disillusionment of Ten O’ Clock”, a poesia brasileira, com a exceção do então pouco influente Augusto dos Anjos, e dominada pela figura de Olavo Bilac, buscava perfeição formal de acordo com modelos importados, trabalhava com vocabulário culto, mitologia greco-latina, métrica, rimas raras, “chaves de ouro”. Ela era, basicamente, descritiva, artificiosa em acepção pejorativa, sem se valer de qualquer outro tipo de composição ou de uma composição intrínseca.

Nessa peça menor que é “Disillusionment of Ten O’ Clock”, Stevens se vale de afirmações para forjar o quadro das “pessoas normais” e de uma dicção negativa para criticá-las: “Nenhuma é verde”, “Nenhuma, sequer, é estranha”, “As pessoas não sonham”. As linhas são claras, diretas e inteligíveis. As frases positivas e negativas têm a função de produzir um significado e não o de copiar modelos externos. O poema tem espírito crítico, o que não havia na poesia brasileira da época. Nele, há a sutil construção de um pôr do sol, como pano de fundo, para contrastar com o abre-e-fecha de cortinas das casas assombradas. Há uma outra, então nova, consciência de composição, que supera o conteúdo relativamente datado, consciência que não se vislumbra na poesia contemporânea brasileira e tampouco naquela, de 1915, metrificada, forçada e descritiva, com forma apenas externa, “epidérmica”.

A insistência na tradução dessa peça menor (hoje, “literária”, apesar de superior a 99% da poesia atual), com versões sempre desacompanhadas de qualquer interpretação, revela, por um lado, a mesma alienação psíquica da poesia brasileira de 1915, seu fascínio pelo “literário” estéril (que não vende), que é o contrário exato da ideia de vanguarda e de poesia, que deve surpreender e criticar. Ou, o que é mais comum, revela passividade ao abrir mão de criar, com organização, sem deduzir de um modelo.

A poesia brasileira contemporânea, em sua desinformação, é vítima e legatária dessa falta de paradigmas mais críticos de grande parte da tradição brasileira, hipnotizada pela convenção, mesmo quando esta perde sentido poético e se torna prosa fática, cortada em linhas, sem nada dizer ao leitor.

Disillusionment of Ten O’ Clock
                        Wallace Stevens

The houses are haunted
By white night-gowns.
None are green,
Or purple with green rings,
Or green with yellow rings,
Or yellow with blue rings.
None of them are strange,
With socks of lace
And beaded ceintures.
People are not going
To dream of baboons and periwinkles.
Only, here and there, an old sailor,
Drunk and asleep in his boots,
Catches tigers
In red weather.

(1915)

Desencanto das dez horas

As casas estão assombradas
Por camisolas brancas.
Nenhuma é verde,
Ou púrpura com laços verdes,
Ou verde com laços amarelos,
Ou amarela com laços azuis,
Nenhuma, sequer, é estranha,
Com meias de renda
Ou cintos de contas.
As pessoas não sonham
Babuínos e sargaços.
Às vezes, só um velho marinheiro,
Bêbado, sonolento, em suas botas,
Agarra Tigres
Em céu vermelho

Tradução: Régis Bonvicino
(2011)

Coca-Cola

beba coca cola
babe      cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
c l o a c a

Décio Pignatari
(1957)