O mundo contemporâneo

O pop e a crise da cultura crítica

Tales Ab’Sáber

 

Tales Ab’Sáber é psicanalista e ensaísta, dedicado à crítica da cultura e ao destino contemporâneo da cultura crítica. É também professor de Filosofia da Psicanálise na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Escreveu, entre outros, Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica (Hedra, 2011), A música do tempo infinito (Cosac Naify, 2012) e o mais recente, ensaio, fragmento (Editora 34, 2014).

 

Sibila: Aforismo (do grego aphorismos, “definição”, a partir de aphorizein, “delimitar, separar”, de apó– “afastado, separado” ou “proveniente, derivado de” + horos, “fronteira, limite” e horizein “limitar”, através do latim aphorismus1 ) é uma sentença concisa, que geralmente encerra um preceito ou uma regra, muitas vezes moral. A palavra “aforismo” refere-se também a Hipócrates, considerado o fundador da medicina. Por que o senhor adotou a forma aforismática para estruturar seu livro? O livro é sentencioso? O que, por exemplo, significa um aforismo como “Nenhuma dúvida sobre o dinheiro”? Ou “Comunismo, buhhh”?

Tales Ab’Sáber: Agradeço pelas questões e o interesse. O que importa é a busca de uma forma que tenha correspondência com o presente. O livro trabalha com as formas de enunciação breve, em várias dimensões. E, por vezes as mais breves possíveis, algo no limite mesmo da prosa. Uma das hipóteses do trabalho foi: o que de fato pode ser dito com menos palavras possíveis? Estas formas curtas tiveram um lugar significativo no campo da experiência moderna, elas permitiam uma dialética interna entre a matéria observada, a vida social ou o gesto de espírito, ou de humor, e a singularidade do sujeito enunciador, um resto subjetivo irredutível, de um narrador mínimo, ou um sonhador mínimo. Ele também era evocado pela velocidade da experiência, ou pelos valores críticos da insolência, que se aproximam do comentário em situações concretas e múltiplas da vida.

Minha hipótese era a de que, dado o avançado da hora da multiplicação de discursos de mercado, formas e imagens mercadorias, fragmentos de propaganda e de imagens imantadas para a vida mais simples do consumo, em uma tempestade geral de excitações que geram todo tipo de descompromisso, mas que mantém a vida do espírito bem ligada, movida apenas nesta direção, as formas breves que tensionassem como fosse possível a relação sujeito mundo poderiam evocar um valor, ou estranheza, ligadas às coisas tão más quanto banais que nos cercam. Estranheza das coisas, e do gesto crítico. Do sujeito que enuncia e da descoberta de fragmentos dialéticos e de interesse, em um mundo que insiste que tudo o que tem interesse deve, muito rapidamente, como forma excitada, passar ao registro comercial, mercantil e fetichista.

A evocação desta tradição crítica, da forma fragmento – presente de Voltaire, Novalis, Schlegel ou Nietzsche, Heine ou Baudelaire, aos nossos Oswald e Aníbal Machado, passando por, em chave contemporânea, Susan Sontag, Roland Barthes e até um importante livrinho político humorístico de Paulo Arantes, do qual gosto muito –, que tem vigência moderna, diz respeito a uma situação estrutural contemporânea: como constituir um discurso crítico com alguma exigência, e mínima eficácia, em um mundo que dispensa de todo, no registro real da sua cultura, dimensões críticas e qualquer trabalho intelectual, dispensando até mesmo a própria prática da leitura? Talvez mimetizando a vida fragmentária da própria cultura, mas revertendo-a, ao mesmo tempo, em tensões que ela insiste em aplainar. Por outro lado, estas formas se revelaram múltiplas em seu potencial semântico, político ou poético.

De fato o livro não é um livro de aforismos, embora ele também contenha aforismos. E há uma dimensão do aforismo, que, por isolada do todo, encapsulado em si mesmo, que ligado ao desejo utópico do enunciador, ele próprio sujeito enviesado, com restos de ideologia e do valor parcial da sua própria posição de classe no mundo, aparece, infelizmente, como um golpe de espírito de valor geral, um tipo de discurso universalizante. Você disse sentencioso. Esta é, sem dúvida, a pior dimensão da coisa, e, se meu trabalho for de fato assim, ele vai se diferenciar pouco daquilo que critico no livro de fragmentos de Joaquim Nabuco, que é muito ruim. Por isto busquei tensionar este aspecto próprio da forma em duas dimensões, creio que não sentenciosas, abertas, que ampliam e justificam mais amplamente os argumentos: a do fragmento mínimo e concreto, e a do ensaio, mais amplo e refletido.

Por outro lado, o fragmento, por sua vez, foi novamente fragmentado, por necessidade histórica e de forma, chegando ao nível mínimo do apontamento, estado de choque e de espanto do sujeito/linguagem, de difícil determinação. Um nível limite de consciência na linguagem. Creio que muito do nosso mundo funciona assim, sobre seus humanos dispostos a tudo para a vida de mercado, como uma coisa, uma pedrada significante excitada e bárbara, que desconstrói mesmo a capacidade do sujeito em enunciá-la, embora a coisa exista de fato. Por outro lado, na medida em que certos problemas, leitura ou temas de interesse – como o da relação de Machado de Assis com o texto volúvel do jovem José de Alencar, ou a dimensão da música de Caetano Veloso, diante da crítica política forte de Roberto Schwarz – exigiam reflexão bem mais detida, o texto foi estendido até o ponto mínimo da fronteira fluída e artificiosa entre o fragmento e o ensaio, até o ponto em que os principais argumentos me pareciam dispostos. Assim, espero, temos no livro uma constelação de formas de reflexão breve que tecem entre elas alguma perspectiva, mas que o leitor deve enquadrar por si próprio: fragmentos opacos e materiais, mínimos, no limite do dizível e da frase, como os que você citou, aforismos, desaforismos, piadas, fragmentos, fragmentos de ensaios e ensaios…

E ainda, entradas do tipo apontamentos, de diário, ou de diário clínico de psicanalista, rememoração de sonhos, anotações de leitura, textos de revistas… Este material bem heterogêneo, como a simples multiplicidade do mundo, convive de modo não hierárquico, de modo a levar o leitor constantemente para dentro e para fora do sujeito da enunciação, em qualquer das direções propostas. Eles dão imagem da visão do todo e, também, da dispersão do todo.

Talvez apenas a crítica e o eu despedaçado, mas que parece buscar alguma integração, ainda ordenem o que não tem arranjo, diante da massa de absurdos que se tornou a vida. O todo, por fim, a velha forma e o velho meio, anacrônico, de um livro, no mundo da excitação pop geral da tempestade virtual e eletrônica, é também uma forma tematizada.

Sibila: A tendência à dissolução dos Estados nacionais pelo capital transnacional privatizante (cujos critérios de autoridade correspondem aos interesses dos conglomerados no Poder) e a determinação de todas as esferas da vida pelas leis do mercado apagam a separação entre o público e o privado, transformam o espaço público em imagem pública e o cidadão em cidadão-consumidor. Onde entram nessa história Machado de Assis e José de Alencar, tratados em seu livro?

Tales Ab’Sáber: Esta história da perda de integridade política e histórica dos Estados Nacionais frente à aceleração extremada da globalização do capital contemporâneo é também, noutra perspectiva, a história da construção de sujeitos mundiais subjetivados para o consumo, cidadãos mundiais do Estado do espetáculo contemporâneo, movidos pela vida e pela imagerie fragmentada pop, o imaginário geral da mercadoria, que tendem, mais ou menos, na grande esfera das massas mundiais de consumidores, com direitos simplificados, a dispensar a vida trabalhada do espírito, a experiência da leitura, da crítica ou do pensamento, que não seja o ligado à própria reprodução. Bem como a exigência de historicidade das coisas. A dissolução das mediações modernas pelo império tempestuoso da circulação direta do dinheiro global, que dissolveu e aplainou as políticas nacionais em um mesmo pacto pelo capital universal, corresponde à determinação da vida voltada para o ato, e seu espírito de imagem, de consumir. Esta é, talvez, penso, a grande questão do livro, na medida em que a escolha da forma fragmento permita que algo se torne grande.

Mas busquei colocar este campo geral na perspectiva da singularidade da cultura brasileira e sua história, aquela que, formada por quatrocentos anos de escravidão, deságua, por fim e hoje, no sujeito do consumo pós-moderno, sem passar, ou passando por um segundo que terminou em algum momento dos anos 1960, exatamente pela etapa da sociabilidade e da construção nacional modernas, o que não é um mero texto, uma “narrativa”, mas sim estruturas sociais e históricas reais.

Daí meu interesse, certamente tardio, minimamente erudito, e por isso mesmo dispensável, mas talvez, por isso mesmo, relevante como constituição de um sujeito que escolhe e que conta a própria história, pelas origens desta cultura e os nós estruturais de sua autoformulação, o que estudo, com muito recorte, em Alencar e Machado, Caetano Veloso e Roberto Schwarz. Não há dúvida de que estes personagens, e suas obras, representaram marcos no entendimento do Brasil, até a tempestade contemporânea da dissolução de quase tudo no mercado acelerado. Além de muitos outros autores mortos e esquecidos, que aparecem em um momento ou outro do livro, definitivamente irrelevantes para o estado das coisas, de resto, como quase todo aquele que escreve hoje, como Brito Broca, Capistrano de Abreu, Lúcia Miguel Pereira, Aníbal Machado, Dona Gilda de Mello e Souza, e por aí afora…

Sibila: Ao analisar o Facebook, o senhor – com razão – verifica que tudo se transforma em comentário. É preciso então retomar a ideia de crítica e debate? Há espaço ainda para isso?

Tales Ab’Sáber: A questão é exatamente esta. Retomar crítica e debate sobre o pano de fundo de uma cultura que dispensa, estruturalmente, pelas práticas concretas ligadas à colonização do espírito pela forma mercadoria, ligadas à mercantilização da vida e sua fantasmagoria cultural, os valores de crítica, de arte negativa e de pensamento, que não estejam diretamente ligados ao Estado geral do espetáculo. Por causa deste estado das coisas fiz minha aposta fragmentária, como uma hipótese de verdade. Homens como Machado de Assis, ou mesmo Caetano Veloso, por exemplo, nos mostraram que, nas piores condições, é possível encontrar uma forma significativa para dar notícia do espírito, e do estado das coisas ao redor.

Sibila: O senhor afirma que: “há um desgaste intenso da forma estética quando não há mais sujeito que a forma possa habitar”. Há sujeitos na arte de hoje e ou na crítica de hoje?

Tales Ab’Sáber: Creio que, se olharmos em detalhe, e descermos ao nível do bairro, sim. Todavia, são produtores sempre bem isolados, membros de grupos fragmentados, circuitos de autorreferência, grupos ou departamentos, ou apartamentos. Isto quando a obra e o trabalho não se tornam espetáculo, ao encontrar estruturas sociais de interesse no capital cultural, e aí então ela existe e deixa de existir ao mesmo tempo. Interessam principalmente os produtores que reconhecem a necessidade de observação da cultura pelo negativo, pelo ausente de toda imensa presença do comércio. Há artistas, há poetas, há músicos, há cineastas, há grupos de teatro, há críticos, que, de modo pontual e concentrado em suas esferas possíveis de atuação, de mínimo alcance de suas obras diante do espetáculo compulsivo do todo, apesar de toda a internet, fazem coisas de real interesse. Mais ou menos como ocorre no campo da política, com um Movimento Passe Livre por exemplo.

Porém, por outro lado, também há uma explícita cultura de brincadeira, da tentativa meio adolescente, ou de pequenos adultos que nunca crescem, correspondendo à juventude eterna da mercadoria, de apenas configurar um próprio eu, e apenas ser feliz, em meio ao absurdo geral. Uma cultura em que, literalmente, a arte muito rapidamente serve à propaganda do mundo mais ou menos como ele é.

O que não há, de modo algum, é a coordenação de um movimento amplo da consciência e de consistência pública, de exigência crítica e histórica, através da cultura – a cultura deixou de exigir horizontes – tomada pelo espetáculo, pelo show geral da circulação, reprodutor constante da ideia de cultura como mero pão de açúcar de cada dia. Parece que, no fim das contas, todo artista ou trabalho intelectual é quase apenas uma mônada remetida ao seu próprio mercado, onde acima de tudo trata-se de salvar a própria pele. Sendo assim, não é por acaso que, ao fim e ao cabo do processo histórico da redemocratização brasileira, por exemplo, seja uma classe média conformista, conservadora, mal formada, que convive muito bem, por exemplo, com demandas de ditadura militar, que, aproveitando-se da implosão programada do muito problemático governo de esquerda, ocupe o espaço público em nome de valores universais, como querem que seja a sua indignação, muito seletiva.

Após a congregação, as fotos e os selfies com a polícia militar paulista nas ruas – atos poéticos e estéticos muito autênticos desta cultura –, todos devem, por fim, ir ao shopping center, comer sanduíches trufados, tomar sorvetes gourmet, comprar calças com pregas de cristal Swarovski  e assistir ao último block buster do lixo americano, de extrema violência e de grande vulgaridade. Como um dia cantou um antigo artista, por que não? E mais tarde, depois do Faustão, todos assistirão ao elogio espetacular do seu esforço cívico no Fantástico. E assim parecem estar bem resolvidas, para este povo, a política e a cultura. Estas pessoas são sujeitos exatamente do quê? Qual é a sua relação real e possível com a arte, se não o conformismo e o elogio das próprias prerrogativas?

Sibila: O senhor não acha que a canção – que o senhor discute através de Caetano Veloso – é um episódio pequeno demais na história da música? A canção não representaria a própria dissolução da cultura? Ela também em 99% dos casos não é um comentário? Ela seria a predecessora do Facebook? Por que o senhor não trabalha com um músico erudito brasileiro e escolhe Caetano Veloso?

Tales Ab’Sáber: Na verdade, creio que é o andamento geral da cultura que vem dissolvendo, entre tantas outras coisas, a forma e o uso social da canção, como entre nós já apontou bem Chico Buarque. Heine observou precisamente isto, no início do século XIX, quando anotou, e ele foi o primeiro a perceber, que as novas fábricas e os trens velozes, com a sua imposição da má vida prática e interessada, liquidavam com dois patrimônios da vida alemã: a filosofia e… a canção.

Provavelmente você está pensando na exigência paradigmática que a alta cultura e a cultura de vanguarda modernas, operando na raiz das estruturas de linguagem, representação e sentido do mundo, realizaram, no tempo das grandes esperanças. Se não estou enganado, esta dimensão trabalhada da vida das formas, no limite das suas razões, também perdeu lastro no andamento imensamente vulgar e imensamente produtivo da vida contemporânea. Mais do que nunca, com o pacto travado já há tempos com a mercadoria, vanguarda e conformismo se aproximaram de modo perigoso. Não é possível negarmos que a verdadeira vanguarda hoje é a vanguarda do desenho das coisas, mistura dos controles mundiais de mercado com boas intuições a respeito do que será o desejo das massas, coisas do tipo Iphone ou Facebook. E não há dúvida quanto a isto: segundo a propaganda oficial geral da época, do Estado do espetáculo, Steve Jobs e Mark Zuckerberg são os verdadeiros gênios do tempo… Não vivemos mais em um mundo de Michelangelos ou Joyces… Afinal aqueles homens fizeram gadgets que produziram bilhões… Eles são a ciência e a arte ao mesmo tempo, condensadas na forma comercial que mais circula, portanto, por princípio, a mais bela. Ou, ainda, uma modelo qualquer desfilando uma bolsa e um sapato para milionários, segundo a mesma cultura, também é uma grande artista. Esta é a nova arte, muito simples e explícita do tempo, acoplada ao comércio na raiz, efeito estético próprio de um simples realismo capitalista. O que gera dinheiro, além de ser bom, é sempre belo.

No entanto, a canção tem longuíssima história de contribuição pública e subjetiva ao mundo da vida e da experiência. Ela é um derivado do gênero lírico, e nas origens da experiência ocidental não deve ter se diferenciado dele. Com a modernidade ela pode inclusive chegar a se aproximar da épica. Ela existiu como modo de pesquisa no período avançado da modernidade romântica, sustentando sujeitos tristes ou amorosos sobre o limite de toda a dissolvência que a história anunciava, em um Schubert ou um Schumann. Ela permitiu a explosão concentrada da hipermodernidade de um Schoenberg, com seu Pierrot lunar, ou de Brecht e Kurt Weill, com o cabaré popular erudito, de choque, de imensa insolência crítica antiburguesa. Ela fazia parte, como um conto de Poe, ou um poema em prosa de Baudelaire, da própria dimensão fragmentária da modernidade, que também impactava a poesia, embora ela vivesse mesmo no registro da vida média e comum. Ela serviu, na relação encarnada e encantada entre o público e seus ídolos, para a própria definição do espaço do que é o popular, na nova sociedade moderna, de massas e de espetáculo.

Por fim, a canção movimentou uma parte muito significativa da experiência contracultural do século XX, e permitiu, no tempo das vanguardas culturais, a dissolução crítica e a reconstrução de comportamentos sobre a égide libertária, para um imenso público, já mundial, que se formava com ela. A canção, na forma de choque do rock, acompanhou o primeiro tempo da globalização mundial do capital, e só perdeu força como fundo organizador da experiência do tempo, paradoxalmente, com o advento da internet, que, de resto, parece ter substituído todos os discursos pela experiência do seu próprio fluxo.

No Brasil, talvez, a canção tenha conhecido quatro grandes fases, que se atravessam e se sobrepõem: a da fusão original da modinha e dos ritmos africanos originários da estética da nação, na música urbana das várias formas do samba e do choro, a da grande canção organizadora da experiência emocional das massas, melodramática, irônica e animada, na era do rádio dos anos 30, 40 e 50, a da canção moderna, com um olho na praia e outro no mundo, que tem início com a bossa nova, e o ápice da função pública da canção, com os grandes artistas que interferiram fortemente no processo de modernização de costumes e de exigências políticas de modernização, após o golpe de 1964: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento e o seu grupo mineiro, Luiz Melodia, Jards Macalé, Paulinho da Viola… Hoje estamos na quinta, e mais complexa, era da canção entre nós: a da fragmentação, e da perda de função subjetivante e política.

É uma longa, profunda e complexa história de contribuição da formação do espaço de alguma consciência pública, talvez moderna, no país atrasado e iletrado, em uma presença muito mais constante, no mundo da vida, do que toda nossa produção literária e crítica jamais teve. Por isso, por me interessar principalmente por forças e móveis concretos da cultura, eu quis definir melhor aspectos do artista que primeiro percebeu, e se pôs a pensar e dar forma social pela canção, o impacto da cultura de mercado e de mercadorias sobre nossas vidas, meio insólitas, meio modernas, meio atrasadas. Também quis pensar o fato, de interesse para um psicanalista, e um segredo da cultura, de por que, apesar das confusões, Caetano Veloso foi um artista tão verdadeiramente e profundamente amado pelas pessoas. Qual o lastro real, de valor utópico, deste amor?

Estes fenômenos sociais de sentido e vida política da cultura, expressos e vividos na forma canção, vista por meio de um de seus maiores artistas, não poderiam ser investigados na obra de um músico erudito, que produz coisas importantes mas muito distantes da vida corrente. Este registro de forma não alcança o espaço concreto da cultura, embora possa funcionar como horizonte de possibilidades do humano. É a velha teoria da vanguarda, que, como disse, creio que hoje foi subsumida na Apple.

E, no entanto, nos últimos tempos, tanto canção quanto o exercício da vanguarda estética também conheceram a sua específica crise. Muitas vezes, o artista se isola em seu autoerotismo obsessivo, afinal, por que olhar excessivamente de frente a dimensão real de nossa grande irrelevância?

Sibila: Se nos seus apontamentos é o psicanalista como crítico da cultura que fala, o que tem a dizer o crítico da cultura como psicanalista? Ou seja, como é a clínica de um psicanalista que segue a trilha do próprio Freud de que pensar a cultura é pensar o sujeito. Como se dá a relação entre a clínica e uma crítica da cultura? Há mudanças na sua escuta e técnicas? E sobre o projeto/desejo de uma crítica/suspensão ao “eu” (penso nos fragmentos “é possível pensar ‘para além do eu’?” ou “esse tipo de eu é o que já não me interessa mais. De modo algum”), se o projeto freudiano de um fim de análise não prescinde de um “eu” que responda por suas ações, é possível uma metapsicologia sem eu? Em certo sentido, as ilusões de uma autoidentidade são objetos fundamentais numa análise, mas em que sentido é preciso sustentar ainda um “eu”? E em que sentido se pode falar em “eu” no capitalismo? E, se o livro tem algo de diário, de uma subjetividade de que se expõe, como é possível “pensar para além do eu”?

Tales Ab’Sáber: Acredito que uma leitura simplesmente atenta da obra freudiana, desde A interpretação dos sonhos, até os grandes textos sobre psicologia de massas e de análise da cultura, dos anos de 1920 e 1930, permite o entendimento da dialética na qual o sujeito do inconsciente, que está sendo desenhado e isolado conceitualmente por Freud, de fato, jamais é isolado da sua situação histórica e ideológica concreta, da rede social, simbólica e de poderes em que ele habita. Embora ele esteja marcado por uma lógica autônoma e radical referida à sexualidade infantil, este outro sujeito, do inconsciente, está também, ao menos em Freud, sempre contíguo e referido à sua própria situação histórica. Sua descontinuidade interna, seu salto para as formações inconscientes que contradizem aspectos do próprio eu, e da moral oficial, para ser compreendida sempre necessitará, em algum ponto, de uma mediação externa que também lhe pertence, seja ideológica, histórica, ou parental. Isto ao menos no âmbito da chamada primeira tópica freudiana, a do desejo inconsciente positivo. E, em Freud, esta presença da história nos próprios sonhos se dá no nível mais amplo possível.

A formação do inconsciente, embora seja de natureza negativa e enigmática, é também, deste ponto de vista, em um ponto do seu complexo de sobredeterminações, sempre uma comunicação social, também referida ao elemento histórico ou ideológico que a posiciona e estrutura. Assim, no caso de Freud, por exemplo, a presença do antissemitismo (sonho do tio Josef em A interpretação dos sonhos), da crítica dos traços sociais e políticos da sociedade austro-húngara estratificada e atrasada, ainda ao modo ancien régime (sonho do conde Thum), do déficit de valores liberais modernos, como os de uma cultura liberal de mérito científico e mesmo da plena liberdade científica, e até mesmo a autocrítica em relação ao entendimento do estágio de desenvolvimento clínico de sua própria psicanálise, ou da disputa epistemológica científica cerrada entre ele e seus pares médicos pela legitimidade da sua psicanálise (sonho da injeção de Irma), são todas formações oníricas em que importantes elementos culturais e ideológicos que cercam, forçam e constituem o homem Freud estão em jogo. Nestas formações, em que Freud acaba por destacar o elemento infantil e sexual, a sua grande novidade, nunca deixam de existir o elemento histórico e a sua crítica dialética própria do poder que circunda o sonhador. E dialética, como sabemos, é tensão de oposições, verdadeiras, mas parciais, que exige trabalho. Pois não é exatamente isto, em um novo registro genético, que Freud propõe como modo de ser de sua psicanálise?

Freud nos dá uma imensa notícia da máquina inconsciente que está envolvida no sonhar, e também, no mesmo passo analítico, dos verdadeiros embates, que tem um virtual momento emancipatório de um indivíduo, movido por valores liberais, em um tempo de constrangimentos e violências políticas reais, específicas. Na minha própria clínica eu aprendi a reconhecer o momento dialético de toda a formação sintomática, em que o sujeito se constitui quando reconhece os valores da sua própria crítica racional ao seu mundo. Estes momentos de desalienação do vínculo do desejo e da invasão interessada do mundo na esfera do indivíduo são iluminações e são fragmentos, de caráter dialético e social, em um conjunto de experiências de si semelhantes à moral mínima daqueles que aparecem no livro dos fragmentos.

De fato, no nosso caso histórico particular, por exemplo, há um forte esvaziamento do eu quando a programação geral de desejo para a sustentação do sistema das mercadorias predomina e hegemoniza o sujeito na sua direção. O eu se simplifica muito, e pulsa o seu de modo muito próximo ao gozo das formas imediatas, construídas para controlá-lo ao mesmo tempo que alimentá-lo, mas no próprio rebaixamento de todo sentido, acultura de mercado. Adorno falou um dia do pacto de superego e id. Eu penso na dissolução do desejo, regressivo, na cultura mundial do espetáculo. Muito já foi dito sobre esta dinâmica de transmissão real do desejo do todo, cada vez mais total, e cada vez mais fragmentário, sobre o eu esmaecido do presente, sujeito alienado ao outro social, e ainda acho os discursos de Adorno, Marcuse e Debord a este respeito de grande valor, mesmo porque, ao contrário de Freud, eles ainda não foram compreendidos como desejavam.

Mas, ainda, no caso brasileiro, este sujeito rebaixado e controlado na felicidade conservadora de mal consumir, nosso pequeno fascista de consumo local, é ainda um fenômeno histórico relativamente novo. Foi necessária uma estranha e longa ditadura militar, com traços autoritários profundos e ainda de outra natureza, que remetem ao passado brasileiro autoritário remoto, escravista, para encaminhar a experiência das massas, das elites e da classe trabalhadora, em uma escala meramente quantitativa das mesmas coisas, nesta direção. No Brasil pós-modernismo encontra facilmente o impulso pré-moderno, de fato autoritário antimoderno.

Sibila: O pop é tema de pesquisa que reaparece em todos seus últimos livros. A que o senhor atribui a centralidade desse objeto para pensar o presente e, sobretudo, o Brasil? Como pensar o mundo pop e a história? “O pop é o presente eterno” e “o espaço do dinheiro é onírico, compulsivo e totalmente concentrado no presente”, excertos que registram o apagamento da história ou certo presenteísmo das expectativas de vida. Diante disso, gostaria que o senhor expusesse mais as articulações entre repetição, capital e o pop. Há alguma afinidade entre a repetição, também como conceito psicanalítico, e o modo de produção capitalista? Mas em que sentido o pop também não constrói uma história, afinal lida com muitas utopias e desejos das classes médias?

Tales Ab’Sáber: Agradeço a leitura conjunta dos livros que tratam do assunto. As perguntas são muito boas e falam por si mesmas, vou pegar um caminho de minha pesquisa que talvez responda a algumas delas. O pensamento crítico local, mais tradicionalmente nomeado como de esquerda, não se constituiu através do trabalho de discriminação mais profunda do efeito político e simbólico da existência do sistema geral da mercadoria sobre os seus sujeitos, pobres ou mesmo ricos. Embora Marx tenha tido a necessidade de iniciar o seu grande trabalho sobre a forma do Capital de seu tempo com uma análise dos efeitos subjetivantes e simbólicos da própria aparição da mercadoria, na esfera da circulação, coisa que aparece como universal, mas é apropriada de modo particular, embora desde os anos 1920, Walter Benjamin, Theodor Adorno e Max Horkheimer, e mais tarde Herbert Marcuse e Guy Debord, tenham se dedicado a entender os efeitos sobre a vida humana da sociedade de mercado total, a esquerda brasileira, até mesmo pelo atraso do estabelecimento de uma verdadeira sociedade industrial e de consumo entre nós, dedicou-se sistematicamente à crítica junto à esfera da produção, da ordenação do mundo do trabalho e do salário, com seus sindicatos e partidos, esquecendo, mais ou menos sistematicamente, de modo até mesmo sintomático, a organização profunda da vida dada na própria estrutura – de angústia imaginária e mítica – da vida sob o regime total da circulação da mercadoria – o mundo do novo fascismo, dizia Pasolini, da mercadoria elevada ao estatuto da imagem da cultura, dizia Debord – com a sua contrapartida, para a autoimagem da classe dominante, da própria cultura como celebração total do dinheiro.

Esta dimensão, que só começa a ganhar a consciência social brasileira a partir da mercantilização geral da vida, quando a grande urbanização e industrialização mudam o vetor simbólico da experiência dos pobres, nos anos de 1950, tem seu momento decisivo no processo de ordenação autoritária da vida social, que dá o caráter duplamente perverso de nosso mercado, em 1964. E ela só começa a totalizar o espaço social, e a desenhar plenamente seus sujeitos de consumo, a partir de 1970, em um contexto de urbanização acelerada, com cidades cindidas por uma ordem política antidemocrática e com nova comunicação de massas universalizada, baseada no fundo da cultura como propaganda, e da propaganda como cultura, com o advento da televisão local-global. Também entre nós, como espécie específica e a pesquisar, o efeito geral do onirismo sufocante, reificador do presente, do sistema geral da vida para o mercado e as coisas, só se constituiu plenamente, tomando toda a vida social, muito tardiamente. Podemos dizer que nosso mercado total, com nosso feliz consumidor universal, começou historicamente ontem.

Sociedade do espetáculo, cultura de massa, gradual império da imagem, da imagem mercadoria e da circulação da mercadoria sobre a vida psíquica, foi algo que, para variar, se constituiu tardiamente no Brasil. Curiosamente, isso se deu a partir do estabelecimento da “acumulação primitiva” de oligopólios de uma ditadura de extrema direita de vinte anos, que realizava localmente o plano mundial de uma guerra fria Imperial. O mercado total e sua vida imaginária simbólica também se constituíram como uma das ordens de nosso atraso, e, portanto, campo duplamente descentrado: de uma ideia fora do lugar, até ontem, que, hoje, se tornou mesmo todo o lugar existente.

Por isso, considerei o marco forte do discurso de sedução e entrega subjetiva ao sistema da mercadoria de Caetano Veloso, em 1967, quando a esquerda ainda concebia a cultura como um misto de violão de bossa nova com Villa Lobos, com cantigas populares, sobre um sujeito ainda rural, inventado, meio Guimarães Rosa, meio Portinari, que devia ser o povo portador do trabalho e do autodestino do trabalho no mundo, ainda pensado como revolucionário. Nada do sistema também revolucionário, ao seu modo, da ordem das coisas do mercado sobre este próprio povo, e seus efeitos de controle, sedução, atomização, prazer, rebaixamento simbólico e dessolidarização, simultâneos. Nada da biopolítica da mercadoria como o horizonte real das coisas brasileiras, colocada por uma ditadura fascista como o único modo possível da vida. Apenas o jovem tropicalista baiano via isto, com relativa clareza, nos olhos e no corpo colorido pelo psicodelismo das próprias coisas, que passavam a guiá-lo fortemente já em 1967.

Este é de fato o momento zero da autopercepção da cultura de mercado entre nós, e um de seus nomes é o efeito euforizante narcotizante conhecido como pop – antes disso apenas Drummond, de modo encantado por um sortilégio, que parecia não soprar do paraíso, tocou no assunto com conhecimento de causa. Aquele, o de Caetano no final da década explosiva dos 60, foi o primeiro discurso pop real brasileiro, porque pela primeira vez havia suficiente sociedade urbana e industrial, de sujeitos econômicos livres, encaminhados ao mercado e formados pela própria cultura de massa, que também produziam nas fábricas, e que os produzia nas televisões, orientados pela imagem, para o desejo das coisas celebradas. Por isso, nada de boiadeiros, nada de jangadeiros, nada de pescadores, ponteios de viola, ou velhas bandas de coreto passando, para as moças tristes e para o pipoqueiro, ou mesmo, nada do grande operário mítico dos Partidos Comunistas, ou do mulato de Portinari, mas, na nova esfera titânica e total da formação da vida, as marcas eram agora os fluxos de imagem da televisão, coca-cola, Brigite Bardot, banca de revistas, propaganda, vitrines de lojas ou a camiseta com dizeres e marcas da moda – leia na minha camisa, baby – de um sujeito frágil e enfeitiçado, politicamente dominado para este mundo, que não tem mais para onde ir, se não para aí. Eu vou, por que não?..

No fascínio mítico pela produção e autoprodução pela coisa – que ainda em um bólide de Hélio Oiticica, em 1964 ou 1965, era realizada diretamente com a natureza, como assemblage e recolha artesanal, arranjo do objeto como mito (uma muiraquitã participativa, no limite da modernidade), sem marca e sem a sobredeterminação onírica da sua própria circulação, embora sonhando a circulação mágica e a força de destino da coisa como um bólide, o que na verdade era uma coisa estanque, puro continente de cor e pó – a coca-cola de Caetano Veloso, e de Cildo Meireles, já era suporte e objeto subjetivante, para não dizer o próprio sujeito, de toda a cultura, que circulava em altíssima velocidade, agora sim o verdadeiro bólide, com a energia industrial de aceleração da coisa, e de sua imagem, de mundos e de constituição de sujeitos.

Explodia entre nós, como o sol de quase dezembro – ao mesmo tempo que a ordem de uma disputa mundial pela economia era submetida internamente por uma ditadura brasileira e este é o segredo da origem política de nossa democracia, terra em transe – o verdadeiro mundo do fetichismo da mercadoria: uma sociedade periférica de espetáculo, bem ligada ao todo, até então desconhecida até mesmo do pensamento crítico entre nós. Por este atraso relevante brasileiro, atraso da própria concepção da realidade em relação ao sistema geral da mercadoria circulando pelo que passa a ser seu mundo, que tenho me dedicado a entender hoje os efeitos políticos da cultura das coisas entre nós. E do seu duplo fantasmático que é o dinheiro. Esta cultura estabeleceu uma nova ordem de repetição, bem ao contrário do que dizem os apologistas, de grande simplificação simbólica, mas de muita excitação concreta.

Criticar o capital apenas na esfera da produção, e da posse ou não dos meios, simplesmente já não é mais possível. Há que criticá-lo na esfera da sua própria formação de sujeito, e do desejo, para as suas próprias coisas. A nova ordem de repetições, sempre diferente, como o desenho constante das coisas, que se diferencia também pelo impacto de novos meios de comunicação sobre a vida – que “são a própria mensagem” – mas que é também sempre a mesma, na ordem de acumulação geral de dinheiro e de poder, pura repetição – mundial – das classes. Cultura e poder real se articulam fortemente, se diferenciam como ideologia, designe das coisas, mas se afirmam como real.

Pensar por aí revela certos processos de poder real, que as velhas categorias políticas não querem alcançar. Algo do sucesso lulista ao seu tempo, entre 2003 e 2010, se explica pelo vínculo político profundo do corpo e do sonho do ex-presidente, ex-metalúrgico, com o desejo das próprias coisas, o verdadeiro desejo do mercado, que ele sabia também, como o próprio desejo, ser o desejo da própria classe em que se originou. Da produção Lula passou à esfera da circulação massiva das coisas e sua imagem, e mais uma vez a esquerda ou não compreendeu o processo, ou fingiu não compreender.  O seu desejo desejava o desejo de sua classe, multiplicando-o como força de produção, pois quando eu te vejo eu desejo o teu desejo… Neste sentido, mais profundo, ele realizou o sujeito e o desejo do sujeito desenhado pelas coisas, percebido por Caetano em 1967.

A esquerda finalmente foi assimilada, no corpo desejante, na própria subjetivação, ao pleno mundo do desejo das coisas, para sonhar o povo brasileiro. Por que não?… E Lula, que se remetia ele mesmo ao desejo real de um corpo orientado para o consumo, capitalismo de mercado interno, era o grande guia, que caminhando e cantando seguia a velha canção, de 1967: fascínio pelas coisas, coca-cola, televisão, artistas espetaculares, telefones celulares, carros, por que não, levando, no próprio carisma pop, a sua classe que ascendia para o mundo das coisas. Ele se aproximou do máximo poder possível neste tipo de sociedade, para pobres e para os muitos ricos, ele mimetizava algo do equivalente geral. Caetano deu nome ao processo pela primeira vez, Lula deu a sua integridade universal, a unidade ideológica da sua unificação para todos, democracia de massa como sociedade de consumo, mesmo que falsa, pela primeira vez. Ele completou, com o próprio corpo, popular, de um sujeito de consumo brasileiro, o significante do todo, uma sociedade para a vida referida ao mercado. Por isso o seu tradicional carisma, do desejo de política, transformou-se em carisma do desejo de mercado, ao que nomeei na época como carisma pop.

Por isso, em algum fragmento, e já anteriormente no livro sobre Lula e a fundamentação da cultura de espetáculo, de efeitos pop sobre a subjetivação, eu aproximei esta esquerda de resultados, para a subjetivação de mercado, da ideia pop-tropicalista de Caetano, que brincava com o novo império das coisas, incompreensível para a esquerda de sua própria época, em 1968. Esta distância fala de mais um atraso de nosso pensamento social, incompleto, como o nosso próprio capitalismo, incompleto. Como a esquerda etapista do passado, a esquerda crítica moderna também sabia pouco sobre a verdade do poder de mercado sobre a cultura, e sua crítica. Ocultar este ponto, mas saber plenamente dele, foi a estratégia para o predomínio lulista ao seu tempo. E, interessantemente, Lula brilhou, com o próprio fetichismo, enquanto dinamizou realmente o mercado de consumo interno. Brilhou ao dar um ponto de síntese concreta para a coisa toda, como o sonho com a coca-cola de Caetano na origem, que de fato nem esquerda nem direita podiam nomear: nem esquerda, nem direita podiam dizer plenamente que o governo de Lula foi o mais capitalista, pelo seu próprio amor popular pelas coisas e sua circulação, que já existiu no Brasil. E por isso todo o sistema de textos e ideologias políticas do período Lula estava embaralhado, todos, à direita e à esquerda, tinham que negar o óbvio: o rei estava vestido com a imagem da mercadoria, e seu poder vinha daí, e era, por isso, inquestionável.

E esta é a política de subjetivação e poder mais profunda, Lula sabia dela instintivamente, modulando o que deveria ser o próprio desejo de sua classe, em 2003, 2005 e 2010. E Caetano também sabia exatamente disso, para a sua própria classe, já em 1967. Não foi por acaso que o PT tenha se degradado no processo político que foi também o próprio processo de sua ascensão social, na posse do dinheiro e nas novas posições de classe que galgou. O sistema geral do dinheiro, do mercado, sempre dissolve os sujeitos que negociam com ele, que, na verdade, como dizia Guy Debord, já são ele, sob o projeto geral da mercadoria: fascínio e acumulação.

Por tudo isso, e ainda muito mais, se considerarmos o efeito global contemporâneo do hiper-pop sobre os seus estranhos sujeitos, e o destino aí da própria contracultura ocidental, como você disse, o pop tem sido tema de pesquisa que reaparece nos meus três últimos livros. Sendo muito diferentes em objetos e formas, eles são de fato a mesma pesquisa quando vista deste ponto. Penso que, com toda a diferença das formas de cada um, eles configuram um esforço de compreensão da cultura de mercado entre nós, são uma trilogia sobre o que posso alcançar a respeito do império do pop em nosso tempo e sua relação com a cultura crítica. Que, certamente, não nos é favorável.

Entrevista concedida a Bruno Carvalho e Régis Bonvicino a respeito do livro ensaio, fragmento (Editora 34, 2014).

Sobre Tales Ab´Sáber

É professor de filosofia da psicanálise no Curso de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. É formado em cinema pela Escola de Comunicações e Artes da USP, por onde é mestre em artes, e psicológo pelo Instituto de Psicologia da USP, onde defendeu doutorado sobre clínica psicanalítica contemporânea. Em 2005 recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Psicologia, Psicanálise e Educação com O sonhar restaurado - formas do Sonhar em Bion, Winnicott e Freud (Ed. 34). Publicou, em 2012,A música do tempo infinito, sobre cultura tecno e subjetivação contemporânea (Cosac Naify).