Obra reunida de Plínio Marcos

Um autor da grandeza de Plínio Marcos tem o direito de ter o conjunto da sua obra publicada de maneira correta e fidedigna, e foi exatamente esse o primeiro objetivo e a principal preocupação deste trabalho: dar a público uma edição absolutamente confiável do texto das peças de Plínio Marcos, baseada sempre na última modificação feita em vida pelo autor.

Outro critério universal adotado aqui foi o de apenas publicar, neste momento, as peças cujos originais, ou mesmo cópias, constassem do acervo de forma íntegra, e dadas como finalizadas pelo próprio Plínio Marcos.

Assim, o conjunto apto para esta edição ficou definido em 6 volumes e 29 peças.

Cada um dos volumes foi feito com base numa linha de força principal, suficientemente distinta em termos de significação e de composição, a ponto de ser possível destacá-la no conjunto da obra de Plínio Marcos.

A forma final da coleção é a seguinte:

Volume 1- Atrás desses muros;
Volume 2- Noites sujas;
Volume 3- Pomba roxa;
Volume 4 – Religiosidade subversiva;
Volume 5 – No reino da banalidade;
Volume 6 – Roda de samba/Roda dos bichos.

 

Volume 1- Atrás desses muros

Este primeiro volume das Obras Teatrais de Plínio Marcos reúne as peças cujas personagens encontram-se na prisão—notadamente, Barrela, a primeira peça do autor, cuja primeira versão é de 1958, A mancha roxa, escrita 30 anos depois, e Oração para um pé de chinelo,de 1969, ano em que, a despeito de proibidas, as peças de Plínio balizavam todo o teatro brasileiro: críticos, público universitário ou não, e ainda o surgimento da chamada “nova dramaturgia”.(de Atrás desses muros, Alcir Pécora)

 

Volume 2- Noites sujas

O segundo volume das Obras Teatrais de Plínio Marcos traz peças cujo núcleo conflituoso reside em personagens e situações características do grupo social usualmente chamado de lumpesinato ou de subproletariado, pessoas sem ocupação ou com ocupação precária, que lidam, no limite da sobrevivência, com o dia a dia das grandes cidades, e que são destituídas tanto de recursos materiais como de consciência de classe, para usar o jargão marxista. No caso do teatro de Plínio Marcos, esse grupo é especialmente importante e va­riado, incluindo estivadores, chapas do mercado, mendigos, catadores de papel, pequenos golpistas, bêbados, drogados etc. E, sobre conflitos situados aí, Plínio compôs uma obra-prima do teatro brasileiro, Dois perdidos numa noite suja, de 1966. Integram ainda este vo­lume Jornada de um imbecil até o entendimento e Homens de papel, ambas de 1968. Também nesse grupo se inclui os desempregados sem qualificação de ofí­cio, isto é, não aqueles que apenas ocasionalmente perderam o em­prego, mas os que já não conseguem encontrar função numa nova situação do mercado de trabalho e arriscam receber a pecha de irres­ponsáveis ou vagabundos pela falta de atividade rentável. É justamente o caso do Zé de Quando as máquinas param (1967). Por essa razão, a peça também foi incluída neste volume.”(de Noites sujas, Alcir Pécora)

 

Volume 3- Pomba roxa

O terceiro volume das Obras teatrais de Plínio Marcos reúne as peças cujo núcleo de conflito é produzido em torno da persona­gem da prostituta, concebida em seus vários ambientes — a saber, principalmente, o quarto de pensão, o bordel, as ruas e o cabaré —, e em suas situações típicas — as agruras do ofício, com suas doenças, vícios, espancamentos; as contradições entre a explora­ção comercial e o amor do cafetão; as taras e carências dos clien­tes; a constância do suicídio; o precário glamour; a esperança de deixar a prostituição; as dificuldades da gravidez e os sacrifícios para criar filhos; a decadência física etc. Nesses termos, fazem parte deste volume duas das peças mais bem-sucedidas de Plínio Marcos: Navalha na carne, de 1967 — cuja protagonista, a prostituta Neusa Sueli, é provavelmente a per­sonagem mais célebre de toda a sua dramaturgia —, e O abajur lilás, de 1969.

Além dessas duas peças extraordinárias, o volume inclui também Querô, uma reportagem maldita, de 1979, texto que foi reinventado por Plínio Marcos como peça de teatro três anos depois de tê‑la concebido como novela. Embora não tenha exatamente uma prostituta como protagonista, Querô, ainda mais a peça que a novela, envolve a prostituta tanto no argumento central como no desfecho do conflito, o qual, de resto, é desenvolvido por ações quase todas situadas entre o bordel e o cabaré.(dePomba roxa, Alcir Pécora)

 

Volume 4 – Religiosidade subversiva

Este quarto volume das Obras teatrais de Plínio Marcos traz as três peças que o próprio autor reuniu sob o título de “Religiosidade subversiva”, num livro que editou em junho de 1986, a saber: Jesus‑Homem, de 1978; Madame Blavatsky, de 1985; e Balada de um palhaço, de 1986. Julguei pertinente acrescentar ainda o monólogo O homem do caminho, cuja versão final é de 1996. Trata‑se de uma adaptação para teatro feita por Plínio de um conto seu intitulado “Sempre em frente”, que apareceu originariamente no segundo volume de Histórias populares: canções e reflexões de um palhaço, de 1987. No conto, comparecem explicitamente as principais tópicas do emprego particular que Plínio Marcos faz da noção de “religio­sidade subversiva”.(de Religiosidade subversiva, Alcir Pécora)

 

Volume 5 – No reino da banalidade

Neste volume das Obras teatrais de Plínio Marcos trata-se de reunir textos nos quais ocorre uma inversão da dominante esotérica ou pseudofilosófica, passando agora para o primeiro plano das peças a descrição crítica, predomi­nantemente cômica ou tragicômica dos hábitos pequeno-burgueses. A esse tom geral respondem particularmente nove trabalhos de Plínio Marcos, entre peças completas (Signo da discoteque, de 1979; O assassi­nato do anão do caralho grande, de 1995; O bote da loba, de 1997; A dança final, cuja última versão é de 1998) e textos curtos, esquetes que repas­sam acontecimentos ou contingências da vida política brasileira (Verde que te quero verde, de 1968; Ai, que saudade da saúva, de 1978; No que vai dar isso, de 1994; Leitura capilar, de 1995; e, enfim, Nhe-nhe-nhem ou índio não quer apito, do mesmo ano).(de No reino da banalidade, Alcir Pécora)

 

Volume 6 – Roda de samba/Roda dos bichos

O sexto e último volume das Obras Teatrais de Plínio Marcos reúne três musicais, a saber: Balbina de Iansã, de 1970; Feira livre, de 1976; O poeta da vila e seus amores, do ano seguinte. Aos musicais, junta-se, neste volume, o teatro infantil de Plínio, com mais três peças: As aventuras do coelho Gabriel, de 1965; História dos bichos brasileiros: O coelho e a onça, que também levou o título alternativo de Onça que espirra não come carne, de 1988; e, enfim, Assembleia dos ratos, de 1989.

Diferentemente, portanto, de todos os volumes anteriores desta coleção, este sexto reúne duas linhas dominantes de criação e não apenas uma, ainda que elas sejam mantidas separadas, em sucessão uma da outra: primeiro, os musicais; depois, as peças infantis. Daí também o título duplo do volume, que busca identificar as duas linhas de força, sem misturá-las, mas, por fim, não deixando de propor alguma semelhança entre elas. Tal semelhança ou relação de parentesco está contemplada na noção comum de “roda”, na maneira como ela se formula genericamente em termos de cul­tura popular, isto é, como ciranda, em que se formam grupos que brincam, dançam e cantam alguma canção de repertório folclórico, regional ou nacional, acompanhada dos instrumentos tradicionais pertinentes. (de Roda de samba/Roda dos bichos, Alcir Pécora)

             

Isto dito, será ainda preciso acrescentar que a convicção que animou todos os esforços necessários para o preparo da atual edição foi a de introduzir a obra de Plínio Marcos no âmbito de um repertório cultural atuante no século XXI, pois, a nosso ver, a sua presença na atualidade se justifica plenamente.

 

Lançamento no dia 5 de setembro de 2017 na Livraria da Travessa, Rio de Janeiro