OITENTA ANOS DE MACUNAÍMA: REFLEXÕES SOBRE A RAPSÓDIA DE MÁRIO DE ANDRADE

Em julho de 2008, a obra-prima modernista de Mário de Andrade (09/10/1893 – 25/02/1945) “Macunaíma” completa 80 anos e o Brasil celebra os 115 do nascimento do escritor. Os 800 exemplares da primeira edição e suas 288 páginas marcaram a literatura brasileira de forma definitiva. Apesar da frase “Ai, que preguiça!” simbolizar o estado de espírito do “herói sem nenhum caráter”, o certo é que nestes 80 anos de presença na vida cultural brasileira “Macunaíma” permanece desafiando o tempo e provocando reações as mais diversas. Amado por uns e questionado por outros, o livro é uma autêntica imersão nas coisas do Brasil e, sem dúvida, é um dos marcos da língua portuguesa no século XX.

Até o Carnaval do Rio de Janeiro abriu alas para o personagem de Mário de Andrade, em 1975, quando a Escola de Samba Portela cantou na avenida o samba-de-enredo “Macunaíma”, de David Corrêa e Norival Reis: “Vou me embora, vou me embora / eu aqui volto mais não / vou morar no infinito / vou virar constelação / Portela apresenta, do folclore tradições, / milagres do sertão a mata virgem / assombrada com mil tentações / Macunaíma, índio branco catimbeiro, / negro sonso, feiticeiro, / mata a cobra e dá um nó…”.

Para marcar o cinqüentenário da obra de Mário de Andrade, em 1978, Telê Porto Ancona Lopez lançou uma edição crítica de “Macunaíma” (LTC) apresentando o texto da rapsódia ilustrado por oito guaches de Pedro Nava (05/07/1903 – 13/05/1984), feitos em 1929, e buscando desvendar o processo literário do escritor, além de refletir sobre as múltiplas leituras que o livro suscitou. Esta edição comemorativa também trazia outras ilustrações realizadas em épocas diferentes: um desenho a nanquim e lápis de cor de Cícero Dias, um desenho a lápis de cor cinza sobre papel e uma pintura de Tarsila do Amaral, duas águas-fortes de Carybé, um desenho a tinta sobre papel de António de Alcântara Machado (Totó), um desenho de Del Pino, uma ilustração de Euclides L. Santos e uma gravura de Santa Rosa para a capa da segunda edição, publicada em janeiro de 1937 pela José Olympio Editora com mil exemplares. A força de “Macunaíma” continua sedutora, oito décadas depois, e ainda inspira leituras diversificadas.

Grande Otelo

Autêntico ícone modernista brasileiro, “Macunaíma” inspirou também o saudoso artista plástico mineiro Arlindo Daibert (12/8/1952 – 28/8/1993) e ganhou adaptações no cinema e no teatro no Brasil. Em 1969, a obra foi filmada pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade, utilizando, sempre que possível, as palavras do livro. Eduardo Escorel assinou a montagem, Carlos Alberto Prates Correia foi o assistente de direção e no elenco despontavam Grande Otelo, Dina Sfat, Paulo José, Milton Gonçalves, Jardel Filho, entre outros. E, em 1978, o encenador Antunes Filho dirigiu uma premiada adaptação teatral do Grupo Pau Brasil e de Jacques Thiériot, tendo como cenário a floresta amazônica em meio a sons de água e barulhos de pássaros, de ramagens e de animais. Essa rede mágica sonora ambientava toda a ação das personagens.

Agora, em 2008, a cantora Iara Rennó lança o CD “Macunaíma Ópera Tupi” -”Macunaó.perai.matupi” (Petrobras – MinC), trazendo músicas de sua autoria a partir de letras extraídas de trechos da obra de Mário de Andrade. A cantora afirma que as formas da música popular folclórica do Brasil se misturam com a música contemporânea que ela ouviu. A partir daí, diz Iara, surgiu este disco, conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, “na fala impura”.

O disco conta com diferentes produções em cada música, articulando artistas como Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Alexandre Basa, Maurício Takara, Daniel Ganjaman, Quincas Moreira e Buguinha Dub. E ainda traz como convidados Tom Zé, a banda Fuloresta, Arrigo Barnabé, Dante Ozetti, Funk Buia, Barbatuques, Tetê Espíndola, Toca Ogã, Da Lua, Bocato e Anelis Assumpção. Segundo Iara, o CD será distribuido em escolas públicas de ginásio e segundo grau em todos os estados do Brasil, como complemento de estudo da obra “Macunaíma – o herói sem nenhum caráter”. O projeto “Macunaó.perai.matupi” ou “Macunaima Ópera Tupi” nasceu a partir de um estudo de “Macunaíma”, quando Iara cursava literatura na faculdade de letras da USP.

Pedro Nava criou os oito guaches a partir de “Macunaíma” para devolver uma provocação do amigo Mário de Andrade, que tinha enviado o livro com a dedicatória: “A / Pedro Nava, / pouco trabalhador, / pouco trabalhador, / o / Mario de Andrade / São Paulo 14 / VIII /28”. Ao aproveitar as páginas em branco da primeira edição, Nava desenhou sua visão de Macunaíma e devolveu-a a Mário estabelecendo um diálogo criativo intenso e vigoroso. Na verdade, muitos anos antes de se tornar o maior memorialista brasileiro, Pedro Nava transitava no desenho com desenvoltura e personalidade instigante. Estes oito guaches são a prova incontestável.

Grande Otelo, vivendo a personagem Macunaíma

Daibert

A arte de Arlindo Daibert (também juizforano como Pedro Nava), 14 anos após a morte do artista plástico mineiro, é outro testemunho vivo da ousadia e da inventividade de quem sempre encarnou a criação como um desafio e um estímulo, além de um compromisso com a produção do saber. O legado de Arlindo Daibert deixa explícita a inquietação, a precisão e a afiada percepção de um artista em permanente processo de reflexão sobre a linguagem do desenho. O livro “Macunaíma de Andrade” (Editora UFJF), com trabalhos de Daibert, editado em 2000, representou um verdadeiro mergulho na essência de “Macunaíma” e uma autêntica rapsódia, com direito a novas apropriações e à exploração de muitas outras vertentes.

Assim, a editora prestou não só um tributo à memória de um dos mais significativos artistas brasileiros da segunda metade do século XX como reafirmou a intenção de manter ao alcance do público uma obra impregnada de inquietação do primeiro ao último traço, da primeira à última linha. A interpretação visual de Arlindo Daibert merece ser exposta permanentemente para que mais e mais pessoas vislumbrem toda sua criatividade e, a partir daí, ampliem o debate sobre o papel de Mário de Andrade na renovação da literatura brasileira e como fonte inspiradora e questionadora.

Arlindo Daibert criou 58 images/stories em técnica mista, lançando mão do desenho, pintura e colagem, e outros 10 esboços, reafirmando o diálogo com a rapsódia de Mário de Andrade e acentuando a forte influência da matriz geradora marioandradina. A cada nova leitura, seja nas artes plásticas, seja na música, ou cênica, ou ainda cinematográfica, “Macunaíma” permanece oito décadas após seu lançamento como uma matriz expressiva e sedutora. Na apresentação do livro de Daibert, Telê Porto Ancona Lopes diz tudo: “Nessa navegação que se apropria do texto com alta exigência no artefazer, ‘Macunaíma’ se transforma, de fato, em ‘Macunaíma de Andrade Daibert’, soma de universos”. E é exatamente a possibilidade de permitir esse entrecruzamento de universos que faz da obra-prima de Mário de Andrade uma fonte permanente de inspiração, mesmo passados oito décadas da primeira edição.

A relação essencialmente inventiva expressa pelo artista plástico nos desenhos, pinturas e colagens de sua reflexão sobre “Macunaíma”, reafirma o compromisso inventivo de Arlindo Daibert. Toda a força criativa desta interpretação aberta da obra de Mário de Andrade pode ser percebida e acompanhada no Diário de Bordo, que revela como o artista juizforano iniciou um estudo detalhado da obra de Mário de Andrade e passou a se enveredar nas artimanhas de “Macunaíma”, entre 1981 e 1982, para elaborar uma de suas mais intensas séries. Como muito bem ressaltou o jornalista e crítico de arte mineiro Walter Sebastião, ao escrever sobre “Imagens do Grande Sertão – Arlindo Daibert” (Editora UFMG – Editora UFJF), lançado em 1998, a incrível rede de significados elaborada por Daibert exprime a síntese de toda a sua inteligência no manuseio de signos/símbolos e toda a sua habilidade artesanal. Tanto ao se enveredar pela rapsódia de Mário de Andrade quanto pelos caminhos do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, Daibert assumiu riscos, enfrentou o desafio de peito aberto e criou uma obra maior, onde a reflexão marca presença em cada momento, com a interpretação do artista plástico abrindo perspectivas novas sobre o original de escritos tão díspares e tão contundentes.

Um artista capaz de deixar fluir uma forte crença na responsabilidade cultural de sua arte, Daibert sempre se recusou ser um mero “produtor de images/stories” e defendia como compromisso do artista a produção do saber. Assim, Arlindo não levou em conta o contexto pessoal do escritor Mário de Andrade e não fez uma releitura técnica de “Macunaíma”. Afinal, não se trata de uma ilustração para a obra marioandradina. Na verdade, Arlindo ousou criar sem limitações, tendo como ponto de partida o estímulo literário.

No livro “Macanaíma de Andrade”, o artista plástico mineiro conseguiu, mais uma vez, romper limites e refletir sobre a linguagem do desenho. O desafio da criação nunca intimidou Arlindo Daibert, pelo contrário, sempre serviu como estímulo. Ao criar as images/stories de “Macunaíma de Andrade”, Arlindo Daibert explorou toda a diversidade de situações presente na obra-prima de Mário de Andrade, deixando muito claro que, ao realizar seu trabalho, seja em desenho seja em pintura, ou ainda em colagem, o fundamental era exercitar uma linguagem de encarar o mundo. E ressaltava que não se podia confundir um método de raciocínio com apenas uma produção de images/stories. A característica da linguagem gráfica de Arlindo Daibert não poderia deixar de ser a criação da imagem, mas sempre como conseqüência e não como fim de seu projeto. E o artista plástico explicitava este ponto de vista: “O meu projeto não é criar images/stories, o meu projeto é refletir sobre as coisas através das images/stories”. Isso criou uma dinâmica capaz de não prender a criação de Daibert a nenhuma fórmula gráfica, a nenhum estilo gráfico.

O artista plástico ainda confidenciou: “Eu tenho um estilo de raciocínio e não um estilo gráfico. Os meus estilos gráficos se adaptam às problemáticas que eu estiver refletindo em cada momento”. Este era o grande trunfo de Arlindo Daibert como um artista afiado e afinado como seu tempo. Avesso a concessões e a limitações, Daibert fazia da ousadia de dar um passo à frente o estímulo para continuar caminhando até o infinito. Essa percepção mágica diferenciava Arlindo e está viva e presente em sua arte.

Amigo de Arlindo Daibert e guardião de suas três mais importantes séries reunidas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – “Macunaíma de Andrade”, “Imagens do Grande Sertão” e “Alice” –, o colecionador Gilberto Chateaubriand ressaltou a genialidade do artista plástico mineiro: “Arlindo, no seu período de vida, foi talvez o mais completo desenhista que nós tivemos, porque ele aliava não só a habilidade e a técnica do traço, mas também a cultura e a pesquisa. Basta conferir os desenhos surrealistas do início da carreira, como também os de fundo mais histórico e narrativo, e até os que traziam um contingente autobiográfico”. Em seu pouco tempo de vida, Arlindo deixou uma obra expressiva e consistente tanto qualitativamente quanto quantitativamente. É justamente aí, segundo Chateaubriand, que se observa sua genialidade, porque era um criador frenético e sempre decidido.

Ao receber da família de Daibert a série “Imagens do Grande Sertão”, após a morte do artista plástico mineiro, complementando o acervo em sua coleção de arte contemporânea, Chateaubriand revelou: “É com muita emoção e muita saudade que recebi esta obra, porque uma das últimas visitas, senão a última visita, que recebi de Arlindo foi justamente para me dizer que fazia absoluta questão que a série sobre o livro ‘Grande Sertão: Veredas’, finalmente, compusesse a trilogia com os trabalhos que eu já tinha dele. E que eu destinasse sempre os trabalhos para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o MAM, onde ele sempre mereceu uma acolhida generosa”.

O poeta e pesquisador Júlio Castanõn Guimarães, no livro “Caderno de Escritos” (Sette Letras), afirmou que o artista, tendo iniciado brilhante carreira no início dos anos 70, impôs-se logo pelo virtuosismo de seu desenho. “Nos cerca de 20 e poucos anos em que desenvolveu sua atividade, incorporou a esse traço inicial uma série de outras peculiaridades, em que se destacava a permanente discussão da própria criação artística”. A importância de Arlindo Daibert como artista plástico, segundo Júlio Castanõn, já foi devidamente – embora não suficiente – ressaltada, não só pela sua curta trajetória, mas também pelo reconhecimento dos principais críticos de arte do país.

Sua intensa e múltipla produção era acompanhada de (e refletia) uma permanente preocupação com questões que ultrapassam os limites da técnica, ressaltou Castanõn: “A reflexão, a indagação, a especulação sem dúvida foram determinantes em seu percurso. Dos bicos-de-pena iniciais, ligados a uma tendência ao fantástico, até os objetos de fria e violenta elaboração conceitual, o caminho não envolveu apenas um arrojo de pesquisa, mas também um embate com a noção mesma de produção artística”.

“Um franco atirador que jamais erra o alvo”. Assim, o jornalista, crítico de arte, ex-secretário estadual de Cultura em Minas Gerais e atual prefeito da histórica Ouro Preto, Angelo Oswaldo, definiu o artista Arlindo Daibert, lembrando que ele enfatizava a individualidade como condição imprescindível numa época de padronização e massificação da própria subjetividade. “Incentivador de projetos à sua volta, na qualidade de professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e curador de exposições, alimentava o crescimento de valores novos, ao mesmo tempo em que reabastecia para o desafio da criação”.

Amigo e conhecedor de sua obra, Angelo Oswaldo considera Arlindo Daibert um dos mais importantes artistas da contemporaneidade brasileira. “A morte dele interrompeu uma trajetória que nos levaria definitivamente a uma das obras mais significativas do século XX”. E ressalta, ainda, que o artista foi responsável por ter colocado Juiz de Fora como um centro de referência de vanguarda no cenário artístico nacional.

A interação entre a literatura e visualidade, ponto essencial da proposta artística de Arlindo Daibert, é apontada por Angelo Oswaldo como uma contribuição ímpar: “Há um processo de integração entre a literatura e a visualidade – que ele soube resolver muito bem – em que a força da linguagem se transforma na grande energia autônoma da expressão visual. Ele conseguia extrair a poética da literatura e dar suporte à sua expressão visual, sem violentar a autonomia da imagem”. Segundo Angelo Oswaldo, a obra visual de Daibert deve um tributo à literatura, mas é também autônoma, pois cria sua linguagem própria a partir de símbolos literários. “Dentro das artes plásticas brasileiras, talvez seja a obra mais intelectualizada, porque Arlindo trouxe para o campo da criação plástico visual toda a sua rica cultura nas áreas de literatura, lingüística e filosofia”.

Daibert abordava de maneira singular, como desenhista, pintor, criador de objetos e instalações, obras de autores como Mário de Andrade, Murilo Mendes, Guimarães Rosa e Lewis Carroll, entre outros. Além do legado artístico, em termos de acervo, Arlindo deixou um trabalho muito importante para a cultura de Minas Gerais e do Brasil, contribuindo, de modo especial, para a revalorização da presença do poeta Murilo Mendes (1901-1975) no país e para a instalação em Juiz de Fora do Centro de Estudos Murilo Mendes, atual Museu de Arte Murilo Mendes, instituição da Universidade Federal de Juiz de Fora, que abriga a obra e a pinacoteca do poeta juizforano.

Cartaz do filme Macunaíma, 1969

Depoimentos inéditos sobre Macunaíma e Mário de Andrade

Já se disse que Mário de Andrade foi “autor de grandes obras falhadas” e foi “segundo em todos os géneros”.O que não deixa de valer como  grande elogio quando se sabe da existência de muitas obras primas que são capelas imperfeitas ou da quantidade de géneros cultivados pelo autor de Amar, Verbo Intransitivo. E quando se sabe que ele viveu pouco mais de meio século, bem menos, por exemplo, do que os outros grandes Andrade do modernismo.

De qualquer modo, não se pode negar que há um género em que ele foi primeiríssimo – a epistolografia. Convencido de que tinha que cumprir uma missão cultural num país atrasado, mas também com a vaidade ou a veleidade de ser ”papa do modernismo”, inundou o Brasil com cartas, gastou muito do seu tempo, num tempo sem internet, a  catequizar ou a dialogar por escrito com os seus pares e com qualquer bicho careta que o contactasse.

Nas suas incontáveis (até hoje) mensagens nem sempre a evidente cordialidade ou generosidade disfarçava alguma impreparação filosófica e alguma viciada teorização.

Por exemplo: sobre o Brasil, que tentava a todo o custo “unificar”, ele que surpreendeu o arlequinesco de S. Paulo, ou a sua própria fragmentação (“Eu sou trezentos”…), ou sobre a língua, para que inventou uma divertida Gramatiquinha, ou sobre Portugal, que em carta a Drummond chegou a dar como “paisinho desimportante para nós”.

Escrita por sinal quando em Portugal andava Pessoa, essa frase podia traduzir um normal ressentimento anti-colonialista, que aproximava o seu autor de integralistas ou de primários lusófobos então com sucesso garantido, mas até como “boutade” pareceria imprópria de um autêntico modernista, ou de um autêntico brasileiro, que ainda por cima se queria folclorista e etnógrafo.

Poucos anos antes de morrer, Mário viria a confessar que o seu antigo desprezo pela cultura “portuga” só se devia à sua ignorância dela. Mas numa das (significativamente, poucas) cartas que mandou para Portugal, uma carta-dedicatória inédita dirigida a Adolfo Casais Monteiro, já em 1934 ousava escrever, também com exagero: “Talvez dentre os brasileiros da minha geração nenhum esteja tão próximo dos portugueses quanto eu”.

E para que o seu destinatário não caísse das nuvens, logo se justificava dizendo que o “gosto de diferenciação” representava psicologicamente nele “mais um traço de amor”: “Amar Portugal por Portugal, por ser português, e não porquê /sic/ seja tradição minha”.
Arnaldo Saraiva

“De fato, é difícil se imaginar a literatura brasileira de hoje sem a existência de Mario de Andrade. Ele refez a trajetória do herói romanesco brasileiro, que tinha nas sutilezas irônicas de Machado a sua marca indelével. ‘Macunaíma’ aposta na carnavalização da vida vivida abaixo do Equador. E reencena a língua portuguesa, no sentido de explorar uma linguagem com uma brasilidade frenética, grotesca, desproporcional, patética. Esse romance parece se entreter muito mais com uma atmosfera epopéica (mesmo que paródica) do que na ordem do romance burguês, voltado com freqüência para a lenta formação de um protagonista de talhe realista, com uma narrativa conduzida com certa erudição na revelação dos detalhes físicos e anímicos. Acho que, sem Macunaíma, o ensaísmo do escritor brasileiro, de propagação modernista, correria o risco de, com o tempo, se esfarinhar. Em ‘Macunaíma’, sai do palco o herói problemático do Século XIX e entra um personagem-síntese dessas pulsões ao sul do mundo, caótico em sua complexidade, manhoso, teatral. Sim, era possível chegar aí. E Mário chegou”.
João Gilberto Noll

“Mário de Andrade não era apenas um grande poeta e escritor, era também um homem e múltiplos talentos, que incursionou com graça e agilidade por várias áreas do conhecimento e da cultura: música, artes plásticas, História, folclore. De sua obra multifacética um belo e curioso exemplo é  ‘Namoros com a Medicina’ cuja primeira edição data de 1939, livro que aliás representava a volta do autor ‘ao velho vício da literatura’, segundo sua própria expressão, pois desde 1934 estivera ‘jogado fora da escrita, por paixões talvez mais humanas.’ Os dois ensaios que compõem o livro talvez não sejam textos ‘apaixonados’ mas nem por isso deixam de despertar prazer e admiração. O primeiro, ‘Terapêutica musical’ resulta de uma palestra proferida na Associação Paulista de Medicina e nela Mário fala com assombroso conhecimento da musicoterapia. O segundo ensaio, ‘A medicina dos excretos’ é ainda mais surpreendente. Nele, e valendo de seus conhecimentos do folclore, Mário faz uma análise, psicológica inclusive, do uso da urina e de excrementos na medicina popular. E conclui, com seu típico e irônico humor: ‘Não vá a observação se algum médico diagnosticar eu seja um escatófilo também. Não creio. E nunca mais porei a mão nestes assuntos, arre!’”
Moacyr Scliar

“Mário de Andrade foi um intelectual completo, um humanista erudito e libertário, apaixonado pela cultura brasileira, mas sempre atento às boas novidades do exterior. Não por acaso ele foi um dos primeiros no Brasil a ler a obra de J. L. Borges. Ainda jovem ele estudou música, e isso foi importante para desenvolver sua sensibilidade artística. Na verdade, Mário transitou por várias linguagens: poesia, prosa, crítica literária e musical, cultura popular, patrimônio histórico, arquitetura, artes plásticas. A formação musical e a viagem pela Amazônia em 1927 foram decisivas para a elaboração da ‘rapsódia’ Macunaíma. A meu ver, essa rapsódia é uma espécie de prosa poético-polifônica, movida por uma imaginação romanesca em que os mitos ameríndios e a oralidade de uma sociedade em formação ocupam um lugar central. Macunaíma nos diz que a busca de uma identidade nacional é apenas isso: uma busca sem fim. E que a nossa identidade é mestiça, plural. Nesse sentido, ele foi um antropólogo do futuro, pois cedo ou tarde a Europa e o Ocidente serão mestiços”.
Milton Hatoum

“Mário de Andrade é desses paradoxos que enriqueceram e deram consistência à literatura brasileira do século XX. Colocou a arte literária a serviço de uma teoria, e as duas coisas resultaram boas, o que nem sempre acontece com a vanguardas, cindidas entre uma coisa e outra; ‘Macunaíma’ é um achado de linguagem, imaginação literária e realização de uma tese, que continua nos dando pano pra manga. Em alguns aspectos, Mário de Andrade antecipa Guimarães Rosa; em outros, procurou pelo faro discutir a questão da língua brasileira, sem entretanto dispor de uma lingüística (que, como ciência, chegaria aqui com muito atraso) – mas continua sendo uma boa pauta para o Brasil do século 21. Para ele, a assombração da identidade brasileira sempre teve a aura do nacionalismo crítico, e não do patriótico. O melhor elogio de todos: sua obra continua viva a provocar respostas”
Cristovão Tezza

“Em dois dos sonetos que fiz para o Mário, eu diminuía o mérito de ‘Macunaíma’, em favor do Mário contista, mas era porque nos contos ele foi mais realista, e não aprecio escapatórias surreais nesse gênero. Ocorre que, na literatura universal, são os grandes romances que, em prosa, arquetipificam os mitos, e ‘Macunaíma’ é talvez o maior arquétipo do malandro brasileiro, preguiçoso porém esperto, elevado à categoria de mito, que nas décadas seguintes seria consagrado, menos na prosa que na poesia, pelo cancioneiro popular, a exemplo do ‘mulato inzoneiro’ de Ari Barroso e do ‘rapaz folgado’ de Noel Rosa. Nesse sentido, o romance torna-se um feito invejável, e não por acaso quem mais o invejou foi Oswald, já que a mitologia macunaímica sintetizava tudo que o próprio Oswald pretendia com sua teoria da antropofagia. Se a rivalidade entre Mário e Oswald pode ser equiparada, para efeito de torcida, à que os fãs dos Beatles e dos Stones vêm fomentando, eu arriscaria a comparação entre ‘Macunaíma’ e ‘Sergeant Pepper’s’, marco que os Stones tentaram copiar e jamais conseguiram, ainda que, no conjunto da obra, tenham sido mais rebeldes que os Beatles. Na mão inversa, a negritude sonora dos Stones equivaleria àquilo que os Beatles jamais conseguiram.

‘Macunaíma’ desempenha, até às avessas, na minha óptica, a síntese intercambiante e dialética dessas contradições. O Mário Beatle foi mais negro que o Oswald Stone, que foi mais índio que Mário. O herói descaracterizado foi mais cafuzo, mais mameluco e mais mulato que todos os Marioswalds Beatlestones da vida real. A criatura devorou, antropofagicamente, seu criador”.
Glauco Mattoso

“Mário de Andrade foi um excelente poeta em parte de seu livro ‘Paulicéia Desvairada’ (1921) e de ‘Losango Cáqui’ (1924). Depois, com passar do tempo, tornou-se um poeta de nível médio. Seu livro póstumo ‘Lira Paulistana’ (começo dos anos 1950) retorna ao bom nível do início. Mário de Andrade criou o que hoje se chama cultura nacional brasileira – estratégica para certa época e inútil hoje. Foi apropriado por esquerdistas-nacionalistas nos anos 1940 e significou ‘fechamento’ nacional para o Brasil. Fez de tudo muito, desde escrever cartas a pesquisas antropológicas e musicais. ‘Macunaíma’? Vale mais como metáfora, como aquilo que os outros imaginam, do que como romance em si. Há inúmeros romances ou prosas melhores do que ‘Macunaíma’, tanto no primeiro quanto no segundo modernismo brasileiro. Cito um: ‘Primeiras Estórias’, de Guimarães Rosa. ‘Macunaíma’ é um livro – ao ouvido de hoje – rebuscado. Vejo-o como um sonífero. Andrade é como o próprio modernismo brasileiro: arcaico. É uma instituição. Precisa de um releitura que o retire do ranço em que o meteram”.
Régis Bonvicino

“Num certo sentido ‘Macunaíma’ cumpre, de forma próxima ao picaresco, a tarefa de retratar o ‘herói’ nacional em sua ‘mock-epic’, isto é, numa obra onde o que constituiria os feitos grandiosos de uma figura mítica da nacionalidade, transforma-se, pelo humor, no que seria a imitação cômica do grandioso. Assim, acompanhamos a trajetória do herói desde o norte, vindo para São Paulo, percorrendo o Brasil, para voltar ao ponto de origem, onde, para não fugir à tradição folclórica, sofre sua definitiva transformação em constelação. Nas andanças pelo Brasil, e principalmente em São Paulo, experimenta as mais diversas aventuras, no meio das quais não deixa de figurar um tom às vezes irônico. O grande feito do herói é a luta que permeia suas aventuras com figuras como Venceslau Pietro Pietra. O próprio nome indica que a São Paulo pintada por Mário de Andrade, um dos destinos do herói, é uma cidade marcada pela imigração italiana. Ao longo da história diversas metamorfoses (momentâneas ou permanentes) aparecem como ponto fulcral de uma ação. O que marca este ‘mock-epic’ é particularmente a mistura de tempos diversos. De lugares primitivos onde se pesca como no início da civilização, parte-se para uma São Paulo e para um Sul em geral onde já existe aviação. A outra ironia que permeia a obra é a maneira como Macunaíma, ‘herói sem caráter’ (até por carecer de uma personalidade bem definida) embora originário de um Brasil primitivo, convive perfeitamente bem com as condições de vida de uma São Paulo já moderna. Poder-se-ia dizer que a obra procura, por meios diversos, focalizar a marca essencial de um país jovem como o nosso, isto é, a presença intensiva de outras etnias, todas elas tentando convergir para um ponto médio de cultura e civilização. Esta mistura reflete-se ainda no uso de diferentes linguagens, estilos diametralmente opostos, ao longo da história. De qualquer forma ‘Macunaíma’ é o épico que o Modernismo quis e pôde criar, isto é, a obra que busca a marca da nacionalidade (como toda epopéia clássica) sem deixar de destruir, pela ironia, sua própria estrutura grandiosa”.
Magaly Trindade Gonçalves e Zina C. Bellodi

Mário de Andrade, por Tarsila do Amaral, 1922

1 DAIBERT, Arlindo. Cadernos de escritos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. p.25-26. (Organização de Júlio Castañon Guimarães.)
2 SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2.ed. revista e ampliada. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

N.E. As ilustrações deste tema de destaque fizeram parte de edições do romance «Macunaíma».