Pound: paraíso destruído

Seria possível ser um grande poeta e, ao mesmo tempo, um fascista assumido e um antissemita fervoroso? Não, não é verdade? Mas, por um lado, sim. Eis o problema. “Se Ezra Pound não tivesse existido”, escreve Humphrey Carpenter em sua monumental biografia, a mais detalhada e objetiva até agora, “teria sido muito difícil inventá-lo.” Poucos escritores têm uma vida tão extravagante, diversificada, impetuosa. Seria ele um visionário geral? Um traidor da pátria? Um louco? Um iluminado? Um fanático? Sim, mas também, e talvez principalmente, um artesão preciso, um explorador generoso, um autodidata erudito e sempre original, um revolucionário da percepção e da linguagem, um criador e apresentador de uma parte fundamental da literatura e da arte desses tempos caóticos.

Poderíamos preferir um medíocre funcionário das letras que pensa bem a um grande artista que pensa mal? Isso se vê todos os dias e mesmo assim a Terra continua girando. Então seria algo para além do bem e do mal? Não, a discussão continua possível. Tentemos desemaranhar os fios principais:

 

“O Paraíso, eis o que tentei escrever
Não se mexa
Deixe falar o vento
O paraíso está aí
Que os deuses perdoem o que eu fiz
Que aqueles que eu amo se esforcem para perdoar o que eu fiz.”

 

Pound nasce em 1885 em uma América profunda, burguesa e lendária, presbiteriana, puritana, utopista, pregadora, bíblica, mas antibancária. Os nomes são proféticos, mas seu pai se chama Homer. “Eu fui filho do meu pai em oposição à minha mãe. Meu caso é o mais distante possível do complexo de Édipo.” Durante toda sua vida, Pound terá a melhor relação com seus pais, que, segundo ele, são seus aliados. Eles se orgulham por sua precoce vocação de poeta, encorajam-no a escrever, leem-no (é como um sonho!), e enviam-no muito cedo à Europa (em 1908, com 23 anos, Pound já se encontra em Veneza, cidade que será sua capital interior e onde será enterrado). Ele tem uma mulher oficial: Dorothy Shakespear (sem e) e um filho: Omar. Mas também terá Olga Rudge, a violonista com quem ele ressuscita a música de Antonio Vivaldi, e uma filha: Mary. Dois casamentos ao mesmo tempo, ambos sem drama. Nada, absolutamente, nenhuma aventura, vai perturbar essa ordem privada à qual, aliás, Pound nunca se refere. A batalha em que ele está engajado pertence a outro lugar.

Desde a universidade (onde tem William Carlos Williams como amigo), ele se apaixona pela literatura provençal e por Dante. O grego, a Idade Média – e é assim que ele se convence de que a tradição foi perdida e deve ser renovada do começo ao fim. Ele não é o único a pensar que o século XIX, salvo algumas exceções, marcou uma completa decadência da civilização. Para dar uma ideia a respeito disso, é preciso lembrar que em Londres, em 1910, uma exposição reunindo quadros de Manet, Cézanne, Van Gogh e Gauguin suscita, conforme as próprias palavras de Virginia Woolf, um “paroxismo de raiva e de riso”.

Pound encontra-se aí, em pleno obscurantismo vitoriano. Se depois ele vem a Paris, como tantos outros naquela época, é porque aí, pelo menos, muitos estão à frente da exploração e da definição do novo. O novo subversivo também é uma redescoberta de todo um passado censurado: desenterramos, vasculhamos, reavaliamos, traduzimos, “desesquecemos”. Encontram-se aí, sucessivamente, dois continentes trazidos à luz: a Itália e a China. Imaginemos hoje uma sociedade que nunca teria ouvido falar (ou que teria ouvido falar pouco) de Vivaldi, Monteverdi, Homero, dos trovadores, da Divina Comédia, da existência milenar dos ideogramas. Era o que acontecia, no entanto, às vésperas da primeira guerra mundial. E foi justamente em inglês e em francês que aconteceu o movimento mais enérgico de criação.

Em inglês: Eliot escreve The Waste Land; Joyce, desde seu exílio, em Trieste, começa a enviar sinais consideráveis de Ulisses; Gertrude Stein olha para Picasso; Hemingway aponta seu alvo. Quanto a Pound, depois das experiências londrinas do imagismo e do vorticismo (“uma arte carregada de intensidade”) e a leitura iluminada de Fenollosa (o “método de ideograma”), ele passou a escrever a grande epopeia de seus Cantos: “Uma epopeia é um poema que compreender a História. Ninguém pode entender a História se não tiver entendido o que é a economia”.

Como escreve Denis Roche, primeiro tradutor para o francês dos Cantos pisanos, em seu prefácio à edição completa francesa publicada somente em 1986: “Trata-se da língua em ação de um único homem. A polifonia universal por meio de sua única voz”. Ulisses, os Cantos, Finnegans Wake: quanta resistência! que negação positiva do horizonte estreito e lento da visão do século XIX! Temos sempre que nos lembrar disso, sobretudo quando, hoje, todos fingem que nada aconteceu.

Pound na arena? Ele está por todo lado, escuta e lê, apoia tanto uns quanto outros. Joyce: “Pound é um milagre de efervescência e entusiasmo, uma caixinha de eletricidade com descargas imprevisíveis”. Hemingway (que ensina Pound a boxear): “Esse grande poeta dedica um quinto de seu tempo à poesia e o restante a ajudar os amigos, de um ponto de vista material e artístico. Ele os defende quando são atacados, leva-os a publicar em revistas e os tira da prisão. Empresta-lhes dinheiro. Vende os quadros deles. Organiza seus shows. Dedica-lhes artigos. Apresenta-os a mulheres ricas. Faz com que seus livros sejam aceitos pelos editores. Passa a noite ao lado deles quando sentem agonia. Adianta o pagamento do hospital e os tira do suicídio. No final das contas, alguns deixam de apunhalá-lo pelas costas na primeira ocasião”.

Hemingway, que virá testemunhar de modo soberano e emocionado a favor de Pound, quando este está preso em Washington, também vai dizer “Era um tipo de santo. Ele era impetuoso, mas muitos santos devem ter sido assim”. Pouco importa qual foi o mal-entendido posterior entre Pound e Joyce (a “inflação Joyce”, diz Pound, que não entende o “amphigouri” de Finnegans Wake). “Estúpido preconceito”.

Naquele tempo, todos produziam, e um extraordinário Renascimento parecia se projetar apesar das nuvens cada vez mais ameaçantes. É aí que Pound, arrastado pela obsessão “econômica”, derrapa e comete seu grande erro (como tantos outros, em outros aspectos). Ele passa a acreditar num homem que seu amigo Hemingway, bem mais lúcido, logo diz se tratar de “um grande fanfarrão”: Mussolini. Pound o chama de Boss, escreve a ele, quer convertê-lo às ideias do “Crédito social”. Antissemitismo e fascismo: uma das duas doenças nervosas degradantes daquele tempo. O antissemitismo? “Estúpido preconceito da periferia”, dirá Pound, por fim, ao jovem poeta judeu Allen Ginsberg, que foi encontrá-lo em Veneza. Mas isso não impede que o “estúpido preconceito” invada seus pensamentos, seus fantasmas de reestruturação monetária, seus julgamentos cada vez mais fervorosos contra Roosevelt e a América.

A usura: tal é, para Pound, a serpente venenosa onipresente, o Mal radical que ele denuncia tanto em suas cartas quanto em seu grande poema fulgurante, num sermão parecido ao de um pastor. A guerra explode, Pound se lança na rádio (técnica que o fascina), blasfema, em Roma, contra os Estados Unidos, não quer ver nem ouvir nada, vai preso por traição e é colocado numa cela em Pisa. Em seguida, é transferido para Washington em um inferno psiquiátrico. Um médico faz a seguinte anotação: “suas bases de informação sobre os objetos históricos, geográficos, políticos, econômicos e artísticos, bem como vários outros, é de notável nível superior. Sua inteligência é aparentemente muito superior”. Aqui, não podemos evitar a lembrança da anotação de um famoso psicanalista após ter observado Antonin Artaud em Sainte-Anne: “Pretensões literárias”.

Aí está Pound (assim como tantos outros, sobretudo Wilhelm Reich) sendo tratado como paranoico. Sim? Não? Naquela época, melhor teria sido se ele passasse por um maluco, o que sem dúvida lhe salvaria a vida. Outra observação de um psiquiátrico: “Sua produção mental é extremamente difícil de acompanhar. Ele fala sobrepondo ideias”. Pound, de fato, “é exatamente como ele escreve”, ou seja, como nos espetaculares Cantos pisanos escritos nas “celas de morte”, em Pisa (onde ele acredita estar no pé do monte Tai, na China). “Como uma formiga solitária fora de seu formigueiro destruído / tendo escapado do naufrágio da Europa, ego scriptor”…

Mas não estaria louco quem, na verdade, acreditava que “o cérebro é, em sua origem e em seu desenvolvimento, um grande coágulo de fluido genital” e que “essa hipótese explicaria o enorme conteúdo do cérebro como fabricante ou preservador de imagens”? Ou que ele que, por sinal, introduziu esse seu próprio verso no Canto 36: “Sacrum, sacrum, inluminatio coïtu” (“Sagrado, sagrado, a iluminação no coito”)?

Não seria demente aquele que diz em alto e bom som que “todo um corpo de fina e sutil doutrina” corre desde os mistérios de Elêusis, passando pelos trovadores, até chegar a ele? Pound: “Os mistérios de Elêusis. Coisas sobre as quais não devemos falar, a não ser em segredo. Os imbecis não podem profaná-las. O idiota não pode penetrar o segredo, nem divulgá-los aos outros”. E também: “Desde o instante em que você proclama os mistérios existentes, você deve reconhecer que 95% de seus contemporâneos não entendem, e não podem entender, uma única palavra do que você pretende dizer”.

O “paganismo” de Pound, originário de uma reação violenta ao calvinismo, explica muito bem algumas coisas. A Eliot, ele escreve que o cristianismo é “uma merda”. Por outro lado, a Bíblia (de onde ele tira seu nome) é, para ele, o livro envenenado por excelência (antes da guerra, ele até recomenda a leitura dos Protocolos dos sábios de Sion). Histeria do século e, talvez, de todo século. “É difícil”, disse ele, “escrever um paraíso quando tudo parece levar a escrever um apocalipse. Evidentemente, é muito mais fácil habitar um inferno ou mesmo um purgatório”.

E também:

 

“O paraíso não é artificial
mas spezzaro na aparência
ele só existe em fragmentos inesperados”
(Spezzato, em italiano, quer dizer “cortado”.)

 

Em Cantos pisanos, existe um duplo movimento de penitência

 

(“Rebaixe sua vaidade
Mesquinhos são teus ódios
Alimentados no erro”)

 

E de orgulho

 

(“Por ter feito brotar do ar uma tradição viva
Ou de um velho olhar sagaz a chama obstinada
Não se trata de vaidade
Aqui em baixo o erro é por não ter nada concluído
Todo erro se deve, no último caso, ao medo).

 

Pound vai então admitir o erro (“Tem algo de podre por trás dos Cantos”), mas continuará obstinado.

 

Ele vai repetir – orgulho derradeiro? tática chinesa de artifício? – que os Cantos são um “confusão” ou um “engano”, um “tecido de ignorância”. Depois vem o estado de mutismo dos seus últimos anos em Veneza (onde o envio, de fato, sob minha janela, tão bonito à margem de um canal, com o olhar fixo em suas mãos e petrificando-as, uma contra a outra, como se estivesse à espera de uma embarcação vertical). Certa noite, em Paris, ele mostra um dos personagens de Fim de partida, de Bekett, no lixo, e diz: “Este sou eu”. Perguntam a ele onde mora e ele responde: “No inferno”, apontando seu coração.

 

Ele não fala mais: “Eu não entrei em silêncio, foi o silêncio que me capturou”. Ele ainda vai viajar, visita o túmulo de Joyce, em Zurique, escreve algumas palavras do tipo: “Tomei o sintoma por causa. O problema não é a Usura, mas a Avareza”. Deixa escapar: “Eu estava 90% enganado. Perdi a cabeça numa tempestade”. Em 1946, ele também cochichou a Charles Olson: “Eu sempre disse o que não era necessário, acabei deixando cair à minha volta toda a porcelana maldita”.

 

Ele morreu lentamente em Veneza, dia três de novembro de 1972. Os beneditinos de São Jorge fizeram o que tinham que fazer. Em seguida, gôndola, ritual até a ilha dos mortos, uma placa com seu nome, nada mais. Hoje, ao abrir os Cantos, essa estupenda armadilha ao devaneio e à memória imediata, por meio da música e de uma via direta – “dança do intelecto entre as palavras”, o leitor pode se lembrar simplesmente daquilo que o próprio Pound disse sobre um de seus heróis, Sigismundo Malatesta: “Um xadrez que vale todas as realizações de sua época”.

 

 

Ezra Pound em 1971, um ano antes de sua morte.