Ser drummondiano equivale à morte

Paulo Werneck: Somos todos drummondianos?

Régis Bonvicino: Se todos fôssemos “drummondianos” tal fato consistiria em um empobrecimento muito grande da própria ideia de poesia. Um verdadeiro encerramento. A poesia, por meio de um poema, não é dedutível de outro autor, mesmo que ele seja seminal, grande. Um poeta não tem seguidores. Há por outro lado vários “Drummonds”. Prefiro o “da pedra no meio do caminho”. Aliás, não há limites “nacionais” para a poesia. Existem tantos grandes poetas no mundo, em tantas línguas, que falar em ser “drummondiano” equivale à morte. A questão é que a poesia brasileira é preguiçosa, contenta-se com o que está mais à mão. Entretanto, acho que nem mesmo Drummond é tão “imitado” quanto sua pergunta sugere.

PW: Carlito Azevedo, em recente entrevista à Folha, criticou a recente publicação de “uma poesia drummondiana, de qualidade sim, mas não muito inovadora”, “nada que vá desestabilizar sua majestade o leitor”. A herança de Drummond gerou, de alguma forma, uma poesia conservadora? Qual é o caráter desestabilizador da poesia de Drummond?

(Sem resposta de RB)

PW: A poesia de matriz drummondiana se contrapõe a uma matriz mais experimental, que seria mais hermética?

RB: Drummond tem livros experimentais como Alguma poesia (1930), Lição de coisas (1962) e outros. Existe poesia experimental de fácil leitura e há poemas não experimentais de Drummond de difícil leitura.

PW: Drummond escrevia e publicava num momento em que os poetas eram lidos por um “leitor comum”, culto, porém não especializado. É possível voltar a esse momento na poesia brasileira? A poesia está encerrada num nicho? Se sim, como sair dele?

RB: Houve uma explosão de poesia no Brasil, a partir da internet e, como toda explosão, essa explosão é também amadorística, provocando tensões entrópicas. Não vejo, por isso, a poesia encerrada em um nicho, embora esteja em um nível baixo em sua média. Ela não está nos veículos mais institucionalizados – a televisão e o jornal – e, quando aparece nesses veículos, aparece sob uma dicção de coluna “social”, como no programa Espaço aberto/Literatura, do Edney Silvestre, da Globonews. A questão da leitura passa pela ausência completa de crítica, de senso crítico, na própria televisão, nos jornais, na universidade (USP sobretudo), passa pela ausência de editores que invistam nos autores com seu próprio dinheiro e não com dinheiro do governo, passa pela ausência de bons editores de poesia nas editoras (grandes ou pequenas) etc. A questão da leitura passa pela deseducação geral. A questão da falta de leitura passa também pela apatia dos autores. Um veículo grande de comunicação tem especialistas em economia, política, direito, mas tem poucos especialistas em literatura. A situação, entretanto, pode ser revertida.

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Entrevista de Régis Bonvicino a Paulo Werneck (editor da Ilustríssima), 23 de outubro de 2011.

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