Sigmund Freud

Quando tinha três anos, em outubro de 1859, seu pai Jacob Freud e a família partiram de Freiberg, pois os negócios não prosperavam em virtude do desenvolvimento da industrialização. Instalaram-se então em Leipzig, esperando encontrar nessa cidade melhores condições para o comércio de têxteis. Um ano depois, não tendo conseguido modificar essa má situação econômica, Jacob decidiu estabelecer-se em Leopoldstrasse, o bairro judeu de Viena. Entre 1865 e 1873, o jovem Freud freqüentou o Realgymnasium e depois o Obergymnasium, onde conheceu Eduard Silberstein, com quem manteve sua primeira grande correspondência intelectual, notadamente a respeito do filósofo Franz Brentano.

Em setembro de 1886, depois de um noivado de vários anos, casa-se com Martha Bernays, com quem terá cinco filhos. Pouco antes, havia sido nomeado docente-privado (que equivale, na França, ao título de mestre conferencista).

No ano de 1885, Freud obteve uma bolsa de estudos para estudar em Paris. Começou a trabalhar com Jean Martin Charcot, cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. No entanto, Charcot não se interessou pelas pesquisas do futuro inventor da psicanálise.

De volta a Viena, Freud instalou-se como médico particular, abrindo um consultório na Rathausstrasse. Ele também trabalhava, três tardes por semana, como neurologista na Clínica Steindlgasse.

Freud conheceu o médico judeu berlinense Wilhelm Fliess em 1887. Na época, Fliess fazia amplas pesquisas sobre a fisiologia e a bissexualidade. Foi o início de uma longa amizade e de uma rica correspondência íntima e científica.

No decorrer dessa intensa correspondência, ocorreram alguns episódios importantes na vida de Freud: sua auto-análise, a publicação de um primeiro grande livro, “Estudos sobre a histeria”, no qual são relatados alguns estudos de casos clínicos. Também nesse momento, Freud abria mão da teoria da sedução da maneira como até então era pensada, segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real.

Depois disso, Freud começou a elaborar sua doutrina sobre a fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, teoria centrada no recalcamento e no complexo de Édipo.

Publicado em novembro de 1899, “A Interpretação dos Sonhos”, tem como premissa inicial uma ruptura radical com todos os discursos anteriores. Nos sonhos, estamos lidando com um texto nos ensina Freud. Apesar do sonho ser constituído principalmente de images/stories, o acesso a elas só pode ser obtido pelo discurso do sonhador, que se apresenta através do ‘conteúdo manifesto’, que é preciso decifrar, para alcançar o “conteúdo latente”. No entanto, sempre uma parte do sonho fica sem ser decifrada. Fica “cifrada”.

Em uma nota autobiográfica escrita em 1899 por Freud, e publicada em 1901 em alemão nas “Biographisches Lexicon hervorragender Arzte des neunzehnten Jahrhunderts” de J. L. Pagel, lemos:

“FREUD, SIGMUND, Viena. Nascido a 6 de maio de 1856 em Freiberg, Moravia. Estudou em Viena. Aluno do fisiólogo Brücke. Promoção (título médico) em 1881. Aluno de Charcot em Paris de 1885-1886. Habilitado em 1885 (designado Privatdozent). Tem trabalhado como médico e docente na Universidade de Viena, desde 1886. Proposto como Professor Extraordinário, em 1897. Inicialmente os trabalhos de Freud trataram sobre histologia e anatomia do cérebro e posteriormente sobre temas clínicos de neuropatologia; tem traduzido os escritos de Charcot e de Bernheim. Über Coca, de 1884, é um trabalho introdutório da cocaína na Medicina. De 1891 é Zur Auffassung der Aphasien. De 1891 e 1893 são as monografias sobre as paralisias infantis, que culminaram, em 1897, no volume sobre o tema Handbuch, de Nothnagel. Studien über Hysterie, de 1895 (com o Dr. J. Breuer). Desde então Freud tem-se dedicado ao estudo das psiconeuroses e especialmente a histeria, e em uma série de breves ensaios tem enfatizado o significado etiológico da vida sexual nas neuroses. Também tem desenvolvido uma nova psicoterapia da histeria, do qual muito pouco se tem publicado. Um livro está no prelo: Die Traumdeutung (“A Interpretação dos sonhos”).”

Em 1901, Freud publica um importante estudo visando à propagação de seu conceito de inconsciente. O texto “A psicopatologia da vida cotidiana” trata dos temas das “lembranças encobridoras”, dos lapsos da palavra, dos equívocos, dos atos falhos, etc. Freud esclarece que todos esses fenômenos permitem que se alcance os materiais psíquicos recalcados que não perderam a possibilidade de se manifestar.

Com a publicação do texto “Os chistes e sua relação com o inconsciente” em 1905, acompanhamos o pensamento de Freud, priorizando a expressão verbal. Os mecanismos são os mesmos do sonho, com a condensação e o deslocamento. Nos chistes, há um ‘terceiro’ que ocupa um papel principal, e é isso o que o distingue do cômico. “O espírito em geral precisa da intervenção de três personagens: aquele que faz a palavra, aquele que se diverte com a verve hostil ou sexual e, enfim, aquele no qual é realizada a intenção do espírito, que é a de produzir prazer”. E só é espirituoso aquilo que é aceito como tal.

Podemos ainda assinalar algumas outras obras freudianas importantes:  A tríade “Mais-além do princípio do prazer” (1920), “Psicologia das massas e análise do eu” (1921) e “O eu e o isso” (1923), com as quais Freud definiu sua segunda tópica (isso, eu e supereu) e reformulou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional; “A Negativa” (1925), que irá dar a palavra uma primazia na experiência psicanalítica, na qual o manejo do inconsciente, já presente em tantas obras metapsicológicas de Freud, terá grande importância; “Inibições, sintomas e angústia” de 1926, com as novas considerações sobre a angústia, como sinal de perigo; “O futuro de uma ilusão” de 1927, que examina a questão da religião; “O mal-estar na civilização” (1929), dedicado ao problema da impossibilidade de se atingir o amor oceânico e a  felicidade. Além disso, o texto traz a constatação paradoxal de que quanto mais o sujeito satisfaz os imperativos morais impostos pelo supereu, mais ele (o supereu) se mostra exigente.

Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor que devia ser logo extirpado. Precisou se submeter a mais de trinta cirurgias após uma intervenção radical de ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Freud teve que usar uma prótese pelo resto de sua vida.  Stefan Zweig escreveu: “Com seu palato artificial, ele tinha visivelmente dificuldade para falar […]. Mas não abandonava seus interlocutores”. Tragicamente, Zweig prossegue: “Cada vez que eu o via, a morte jogava mais distintamente sua sombra sobre seu rosto”.

Freud morreu às 3 horas da manhã de 23 de setembro de 1939, em Londres. Quase quarenta anos antes, ele escrevera a Oskar Pfister, indagando o que faríamos “quando as idéias falhassem ou as palavras não viessem?”. Freud refletiu sobre essa possibilidade: “É por isso que, com toda a resignação perante o destino que convém a um homem honesto, eu tenho um pedido totalmente secreto: apenas nenhuma invalidez, nenhuma paralisia das faculdades pessoais devido a uma degradação física. Que morramos em nosso posto, como diz o rei Macbeth”.José Eduardo Barros