Socialismo de Shopping Center

Entrevista de Carlos Guilherme Mota a Régis Bonvicino

Sibila: Como avalia a união do PT com as oligarquias regionais (Cid Gomes, Eduardo Campos, Collor de Mello) visando a vencer as eleições de 2010? O PT mudou, mudou muito? Quais perspectivas vê para a agremiação, agora que a igreja católica a deixou e que os ecologistas a deixaram?

CGM: Vejo mal, como um desvio do projeto inicial do PT, o que explica por que tantos militantes da primeira fase abandonaram o barco. A lista de desistentes é longa, com figuras de muito peso. Creio que o partido terá agora que ser repensado de alto a baixo por seus militantes, reencontrar seus fundamentos, dando mais clareza à vocação laica, que não pode ter o mesmo fim que o Solidariedade, na Polônia.  Recomendo que vejam a gravação do programa Roda Viva (TV Cultura) com o professor Florestan Fernandes, em 1994, pouco antes de seu falecimento. Dá o que pensar, importante para esse processo de reencontro do próprio PT.

Sibila: Por que não há partidos com programa partidário e eleitoral no Brasil? Por que se recorre sempre ao presidencialismo de transação, seja em governo do PSDB ou do PT? Por que o congresso desce ladeira abaixo ano após ano?

CGM: Ainda uma vez, vale a pena ler A Revolução Burguesa no Brasil, do professor Florestan, em especial o último capítulo apenas.  Sei que ninguém lê, mas fica o alerta… A Conciliação (com C maiúsculo) vem desde meados do século 19, metodologia político-ideológica que caracteriza a estratégia esperta das elites. No caso foi praticada pelos partidos, montando esse sistema que engoliu o próprio PT. Afinal, FHC não se compôs com ACM e outros? E, ainda pior, Lula com Renan, Sarney, Lobão e inúmeros outros? O problema é que o pessoal, os tucanos ou “companheiros” leem pouco ou não leem. Citam os petistas o grande Mandela, mas se esquecem de que sua palavra de ordem, dada de dentro da prisão durante 20 anos, era: “É preciso estudar, estudar muito. Sempre!!!”.

Sibila: O que significam a candidatura Dilma e a candidatura Serra? O que significou Marina Silva? O que significará o provável governo Dilma?

CGM: A candidatura Dilma representa a ascensão de uma nova classe média, que chega à esfera do consumo tardiamente, com pouca instrução e muito tosca, pois não houve tanta ênfase na Educação com E maiúsculo nestes 16 anos. Classe média, diga-se, acolitada pelo lumpesinato pequeno-burguês e pseudoproletário que vem se instalando nesse mundo opaco de erenices e waldomiros. Veja esse deputado reeleito, o João Paulo Cunha… o que faz ele, o que leu, o que “pensa”? A candidatura Serra representa uma burguesia mais moderna, cosmopolita, mas que também ainda não soube o que fazer para aprofundar a crítica social, ir às raízes da sociedade, onde estão os verdadeiros problemas sociais, da habitação ao saneamento. Se na saúde Serra vai bem, veja a precariedade de sua política educacional, representada por Paulo Renato. Aliás, o silêncio dos ministros e ex-ministros da Educação deixa-me perplexo. Deles não se ouve uma palavra durante todo o processo eleitoral… A população duplicou nos últimos 40 anos e eles parecem estar mumificados. Hora de acordar!!! A humilde porém bem formada Marina representa, nesse quadro, um protesto, um alerta de novas gerações que nela votaram e vão descobrindo que vivem num país que nem sabe o que fazer com seu lixo. País do Netinho, do Tiririca, em que essas igrejas de mentalidade tosca imperam na mídia.  O PT e PSDB acabaram com as utopias que movem a História, daí essa força nova, com preocupações socioecológicas que, com todas as limitações, dão a base do PV, que está crescendo. Não sei se um provável governo Dilma desmontará o modelo autocrático-burguês denunciado por Florestan e Faoro (Os Donos do Poder), amigos de Lula, pois nem ele nem FHC conseguiram. Lula fez composições impensáveis. E nos últimos meses perdeu o perfil de estadista que vinha construindo.

Sibila: No primeiro turno, a campanha foi muito mais silenciosa do que nos anos anteriores. Considera que os militantes de todos os partidos estão envergonhados?

CGM: Não estão nada envergonhados, ora.  Esse é de fato o verdadeiro problema da atualidade brasileira, diria Robespierre, o Incorruptível, grande líder da Revolução Francesa…

Sibila: Por que os intelectuais que ajudaram a construir o PT agora se calam no tocante aos desmandos de Lula?

CGM: Não sei; pergunte a eles. Mas noto que a lista dos que saíram desse partido é muito longa, desde José Álvaro Moisés e Hélio Bicudo até Chico de Oliveira. Vale a pergunta também para os que ficaram. Como eu nunca fui convidado para entrar no PT, não faço a menor ideia. Mas os fundadores do PSDB também não andam nada brilhantes. Cadê os novos Covas, Montoros, Teotônios? E nem pensar no PMDB, uma caricatura que por certo não permitiria hoje em suas fileiras as figuras de Ulysses ou Severo Gomes. A mediocridade é, hoje, o maior inimigo da Nação.

Sibila: Os artistas perderam parte de seu espírito crítico, creio. A que atribuiria esse fenômeno?

CGM: Parte dos artistas, sim. Veja que estamos na era do Big Brother… Mas há figuras e personalidades sempre atentas e atualizadas, como Cacá Diégues, Fernanda Montenegro e, dentre os mais novos, Wagner Moura. E na crítica, há gente como Sérgio Augusto e Lucia Guimarães, para ficarmos em dois nomes. Já o Arnaldo Jabor desrecomenda a leitura do Florestan… mas não para de citar a si próprio.

Sibila: Mudando de tema, por que ciência e tecnologia, cultura e educação nunca são efetivamente levadas a sério no país, seja pelo PSDB ou pelo PT?

CGM: Diga-se que o governo do PT deu um certo arranque em ciência e tecnologia, sobretudo no CNPq e CAPES, indo além do governo de FHC. Mas na cultura assistimos à mesmice de sempre, porém com menos competência e inovação. Cadê nosso Jack Lang, ou projetos de Bibliotecas e teatros como os do Mitterrand? Ah! a  “miséria farta” de que falava o professor Anísio Teixeira… A mediocridade campeia. O fato é que o país submerge na sociedade do espetáculo, do marketing e da cultura de massa, nas mãos dos marqueteiros despreparados e desmobilizadores, acrescido  desse evangelismo que vai do (não por acaso) discreto vice-presidente José Alencar até os mais distantes rincões, com a TV e o rádio anestesiando a consciência crítica. Nesse quadro, não dá para perceber os avanços da EMBRAER e outras frentes de pesquisa e tecnologia. Está na hora de o país acordar para melhorar os índices nessas áreas, para virar uma Nação competitiva. Antes que estoure o vulcão.

Sibila: Qual a razão de as esquerdas marxistas e mesmo social-democratas terem se esvaído?

CGM: De fato, não houve renovação e atualização, esperadas nos planos político e ideológico. A universidade adormeceu. Lula e o novo sindicalismo, que representavam a modernidade e mobilizavam as mentes novas de milhares de jovens, foram engolfados no pântano das velhas oligarquias, e para piorar se enredaram nas teias do PMDB, que vai comer um eventual governo Dilma pelas bordas. Vem sendo criada uma nova “burguesia de Estado”, com milhares de aspones no aparelho. Já o PSDB criou um ambiente de satisfação e estabilidade para o capital e para a nova classe média de então, que ascendeu, um “socialismo light”, macio e desidratado. Um socialismo de “shopping center”. Veja bem: com banqueiros como Armínio Fraga (FHC) a Henrique Meirelles (Lula) e Eike, o capitalismo vai bem, obrigado… Com tanta “situação”, nem precisamos de “oposição”.

Carlos Guilherme Mota é historiador, autor com Adriana Lopez de História do Brasil. Uma Interpretação (Ed. Senac).

Sobre Carlos Guilherme Mota

É professor titular na Universidade Presbiteriana Mackenzie e professor emérito da FFLCH-USP.Possui graduação em História (1963), mestrado em História Moderna e Contemporânea (1967) e doutorado em História Moderna e Contemporânea (1970) pela USP. Foi consultor e professor visitante no Centro de Estudos Brasileños da Universidad de Salamanca, professor visitante das Universidades de Londres, Texas e da Escola de Altos Estudos (Paris). É Presidente do Comitê Científico da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ex-diretor (fundador) do Instituto de Estudos Avançados da USP, ex-professor titular do IFCH da UNICAMP, um dos fundadores do Memorial da América Latina, ex-diretor do Arquivo do Estado de São Paulo, consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, assessor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. É membro dos conselhos editoriais das revistas Minius (Universidade de Vigo) e Estudos Avançados (USP), e das revistas eletrônicas Intellectus e Aedificandi. Recebeu a Medalha da Cidade de Paris (1998).