Uma releitura das contradições de Ezra Pound

A ‘Idade pedia’ acima de tudo uma impressão em gesso,
Feita sem perda de tempo,
Um cinema em prosa, não, não certamente o alabastro
Nem a ‘escultura’ da rima.
“Ode pour l’élection de son sépulcre”, 1918

Por que ler Pound? Fascista recalcitrante, antissemita rubicundo, traidor de sua pátria, além de desequilibrado mental (psicótico). Como Heidegger, como Céline, como Paul de Man, como Blanchot, como Cioran, como Eliade, como Pessoa, como Michels e como tantos, outros o problema em qualquer esboço biográfico desses intelectuais são os anos que transcorrem entre o fim da Primeira Guerra Mundial (1918) e a derrota do Terceiro Reich (1945). Todos abraçaram com fascinação o nascente fascismo. Porém, Pound não apenas merece estar na galeria dos suspeitos de sempre da história intelectual: revolucionou a literatura direta e indiretamente. Ademais de ser o maior dos poetas do século XX, foi editor, corretor e artífice da publicação de “No Man’s Land” de T.S. Eliot, o primeiro poema realmente modernista que formatou tudo o que vinha do passado, fazendo-o caduco e ridículo. Não obstante, enquanto Eliot passou a converter-se no principal crítico e poeta de seu tempo, apesar de sua carga teológica, a posição de Pound foi ofuscada por seu apoio incondicional a Mussolini e Hitler, por seus programas radiofônicos de agitprop fascista em Roma durante a Segunda Guerra Mundial e por seu antissemitismo visceral. Como nos debates sobre autores enfeitiçados pelo fascismo, no caso de Pound temos também interpretações opostas, uma ferradura hermenêutica que oscila entre separar artificial e absolutamente a obra do homem (o clássico é Julia Kristeva) ou diretamente fazer preceder à poesia sua adesão política ao fascismo (Massimo Bacigalupo). A conclusão é um silogismo ridículo: Pound não foi fascista (quando efetivamente foi); Pound não foi realmente um poeta (quando foi, e como!). Ou, aprofundando um pouco, Pound foi um fascista sui generis porém sua poesia não. Haveria um Pound bom, o tecelão de stanzas e rimas livres, um Pound essencial e um Pound mau, demente, irracional, louco, um pobre desequilibrado que acreditava ser fascista ainda que não fosse fascista no fundo. Obviamente, a maioria dos estudiosos, em ambas as margens de interpretação, não tem ideia do que era o fascismo em sua versão italiana. Ao não compreender a originalidade, projetam sua própria ignorância em Pound. Para muitos segue sendo impensável que o fascismo tenha atraído verdadeiramente ilustrados da magnitude de Pound. Como assinalava Connor Cruise O’Brien sobre Yeats, como se pode conciliar a poesia que mais amas com a ideia política que mais odeias? Este é o dilema Pound. Há uma terceira variante de hagiografia clínica que tenta exculpar Pound por sua suposta demência durante a Segunda Guerra Mundial. Inclusive sustentam-no autores progressistas ou de esquerda. Esta via de exoneração está clausurada há tempo, temos as declarações do Dr. Jerome Kavka, que examinou Pound no manicômio de St. Elizabeth, que repetiu que ele não sofria de psicose e que a internação se deveu aos temores de Pound de ser enforcado durante a épuration. A entrada em cena céliniana de Pound foi ideia de seu círculo de amigos para evitar um juízo catastrófico. A discussão sobre a deriva fascista em torno a Pound reaviva-se na Inglaterra pela edição de algumas cartas inéditas a intelectuais chineses, algumas das quais falam não apenas de seu trabalho como escritor, poeta, e editor senão também de suas afinidades políticas e de sua decisão de apoiar o fascismo (Pound não diferenciava entre fascismo e nacional-socialismo). As 162 cartas, escritas em um raro acento fonético, foram rastreadas e localizadas ao longo de quinze anos pelo professor Zhaoming Qian, da Universidade de Nova Orléans. Abarcam um período de quarenta anos e deixam-nos ver sua adesão a formas políticas do confucionismo, comentários sobre como se recebia no Ocidente sua ópera magna Os Cantos e opiniões sobre poetas e escritores da época, incluindo obviamente seu alter ego T.S. Eliot. Um dos biógrafos mais profundos de Pound, David Moody, assinala que essas cartas nos permitem explicar o distanciamento entre os dois grandes poetas, separação marcada por critérios políticos. Eliot, através de sua revista The Criterion, aplicava sua mandarinesca Kulturkritik contra o capitalismo e seu modernismo bárbaro. O escalpelo eliotiano afiava-se com pedra de amolar católica e seus parâmetros podem qualificar-se de “reacionários”. Nunca chega a desembocar na decisão pelo fascismo. Eliot era um Edmund Burke revivido e redimido. Clamava por uma nova terceira via, nem bolchevique, nem capitalista, porém seu modelo era um renascimento do corporativismo com espírito latino. Era isto, e não nenhuma luta dialética pela estética, o que enfurecia Pound. Em suas cartas chama Eliot “Elephant”, “Buzzard”, que tem a “Head full of Mouldy Old Christianity”. A correspondência ademais explica-nos a tensão ideológica e a tentativa de sincretismo entre a teoria fascista e Confúcio. Evidentemente, uma síntese para nada absurda ou produto de uma loucura em amadurecimento, que em realidade nunca existiu. E de como se produzia a retroalimentação com seu projeto subversivo de escritura poética.

Um “poeta economista” na Itália Fascista

“Mussolini é um macho da espécie e aturo da consegna deste ano”, escrevia Pound em Make it New, uma coleção de sua melhor prosa literária. Os diários fascistas, como o reconvertido Gazzetta del Popolo, chamavam-no “o poeta economista”. Em seu último domicílio em Veneza, onde morreu, localizado na rua Querini 252, figura uma plaqueta em mármore branco na qual reza “Titano della Poesia”. Nunca tão bem dito. É um dos poetas mais revulsivos e decisivos do século XX. E sabia-o. Sua fiel Penélope foi Gustav Flaubert, como lhe agradava repetir. Há uma imagem curiosa onde se pode vê-lo, uma foto em preto-e-branco, como um símbolo futurista encarnado: hiperativo, atlético, vigoroso. Joga tênis em sua residência em Rapallo, Itália. O país é governado por Il Duce Benito Mussolini, o líder que tinha “sentido do tempo”. Sabe que o “jogo com a arte” mudou. Porém, Pound, apesar do New Criticism que vê artistas imaculados dedicados em alma e vida à causa literária em impolutas torres marfilescas, não era um poeta em sentido estrito e débil. Não era simplesmente um jogador de estilo a mais. Não era um Mallarmé. Sua própria grandeza não lhe permitia isso. A escrita para Pound devia ajustar contas com o terremoto da guerra, com a matança coletiva e com a crise das democracias liberais. O estilo deve fazer um controle de danos para remover da bancarrota à Kultur ocidental. A poesia, “essa velha puta desdentada”, é parte da decadência sem fim. Ao liberalismo chama sem pudor “a running sore”. Sua poesia é uma tomada de postura política, é a “impressão em gesso” que a idade do modernismo reacionário exigia. Pound, artífice do Imagismo primeiro, do Vorticismo depois, experimentador raivoso, crítico furibundo do Futurismo. O diagnóstico do esvaziamento do sujeito da cultura humanista e da dissolução da linguagem também é hiperpolítico. Igualmente políticos são os de seus companheiros de viagem Yeats e Eliot. E não poderia ser de outra maneira. Trata-se de atravessar transversalmente a todos (e “todos” não é retórica) os modelos de formalização da linguagem literária antes que a cultura ocidental desse a si mesma uma forma econômica baseada na mais-valia (com a passagem do valor de uso ao valor de troca). Se Pound mergulha incansavelmente no vers libre dos poetas mélicos, nos classicistas isabelinos ou nos trovadores franceses, nos haikus da poesia provençal ou nos menestréis bretões, é que busca uma linguagem, em forma e ritmo, que supere a irreversível reificação capitalista e a lenta fragmentação-alienação do material por meio do qual a literatura (e a poesia) trabalha. O retorno às origens “que fortifica, porque implica um retorno à natureza e à razão”, não é romantismo banal (para isto está Filippo Tommaso Marinetti!), senão a tentativa de buscar o início autêntico fora das mediações do capital. O homem da nova era “não quer fazer o que deve onde não deve”. Tradição não significa ataduras que nos liguem ao passado: é algo belo que conservamos e que se mantém imune ao circuito dinheiro-mercadoria-dinheiro. O fetichismo do dinheiro é o que faz da própria linguagem uma mercadoria. Para entender Pound e sua revolução poética, deve-se compreendê-lo como um pensador em toda a extensão do termo. Pound é como a Quimera homérica: poeta pela frente; economista por trás, e no meio um político. Pound, como Heidegger, como Blanchot, como Céline, como tantos, abraçou a solução fascista não como resíduo de uma fantástica psicose, não como um erro por inexperiência política, senão como resultado coerente de suas próprias reflexões sobre a economia e a política de seu tempo. No século XX a rebelião ideológica liberal precedeu à política, a vontade de purificar o mundo burguês das hipotecas do século XVIII assim como o rechaço ao “mal-estar” liberal e burguês unem-se em um mesmo impulso nas mais importantes vanguardas literárias e artísticas da Europa.

Pound preso

Pound preso

Modernismo e Protofascismo

“A revolução fascista foi feita PARA a preservação de determinadas liberdades e PARA a manutenção de um certo nível de cultura, de certos padrões de vida, porém NÃO foi feita para fazer diminuir um nível de riquezas ou de pobreza, senão que é uma denegação a entregar certas prerrogativas imateriais, uma denegação de entrega de uma grande porção de nosso patrimônio cultural… É possível que todas as demais revoluções produziram-se somente depois, quer dizer, muito consideravelmente DEPOIS de uma mudança nas condições materiais, porém a ‘revolução contínua’ de Mussolini é a primeira revolução que ocorre simultaneamente com a mudança das bases materiais da vida.” (Jefferson e/ou Mussolini, escrito em 1933, publicado em 1935). Assim resumia Pound a positividade do fascismo como fenômeno epocal e, em suas próprias palavras no prefácio da edição norte-americana do panfleto, explicar-nos-ia “a ideia statale do fascismo tal como eu testemunhei-a”. Essas ideias não o contagiaram ao ver a rivoluzione contínua ao vivo na Itália: sempre confessou que sua virada para a nova direita havia ocorrido na Inglaterra. Pound foi um intelectual comprometido com seu tempo. Como tantos intelectuais do ’900 e como seu futuro herói, Mussolini, Pound também começou sua deriva fascista desde o socialismo. Seu lugar foi o diário New Age, no qual escreveu sem interrupções por dez anos: de 1911 a 1921. O diário pertencia às Fabian Arts Society e portava como motto “An Independent Socialist Review of Politics, Literature and Art”. Antes da Grande Guerra era considerado o melhor diário da esquerda britânica. Ali escreveram Shaw, Chesterton, Belloc, e muitas futuras figuras intelectuais do Labour Party. O diário tentava realizar uma rara síntese, que já veremos em outros tipos de fascismo, entre socialismo evolucionista e o sindicalismo. A formação econômica de Pound realizou-se integramente graças a esse diário através da difusão de economistas heterodoxos, alguns importantes ainda hoje em dia, como Silvio Gesell e outros que passaram ao justo esquecimento como C.H. Douglas. Já em pleno fascismo italiano Pound deu conferências sobre economia planificada e a base histórica da economia na Universidade de Milão ao longo de 1933. No início do século XX em sucessivos artigos Pound defende as reformas socialistas chamadas “Social Credit”, ou seja, proudhonistas e seu economista de cabeceira é sempre Gesell. Como muitos pré-fascistas, Pound crê que, modificando a esfera da circulação e da distribuição, poderia nascer uma nova sociedade sem tocar as estruturas sociais e políticas, sem tocar o direito de propriedade básico. O fascismo é o único, entre o comunismo e o capitalismo liberal, a levar a bom termo a justiça econômica. Paralelamente a sua atividade como socialista da terceira via (nem bolchevique, nem liberal), Pound inicia outro tipo de atividades político-literárias. Em dezembro de 1913, Ezra Pound escreve ao poeta William Carlos Williams uma carta onde chama à cena artística literária de Londres “The Vortex”, o vórtice. Será um termo que fará história. A aparição em Londres da revista Blast, em junho de 1914 anuncia publicamente o nascimento do “Vorticismo”, um movimento vanguardista aparentado com o futurismo porém que rompia com ele no essencial. Até o New York Times da época destacou a ruptura que se avizinhava. Segundo a definiu Pound em carta a seus pais, “a mais inteligente revista de Londres. Vocês a detestariam”. Lewis havia tomado a ideia de Blast dos cubistas. Marinetti esteve em Londres em 1913. A revista não somente destacava em conteúdos senão revolucionava a forma até nas cores (rosa choque em plena época vitoriana!) e na tipografia. Seu objetivo era “devastar”: devastar a cultura francesa, o humor inglês, a igreja anglicana, a cultura popular, a imprensa tradicional, as vanguardas arrogantes, a burguesia segura e estabelecida. Na revista escreverão, entre outros, Ford Madox Ford e T.S. Eliot. Mais tarde Pound empregará o termo “Vortex” para definir a especificidade da arte de seu amigo Wyndham Lewis. Lewis é “um verdadeiro mestre”, foi ele o que redigiu o Manifesto Vorticista, e para Pound deveria estar ao lado de Gaudier, Picasso ou Joyce no que concerne a seu papel revolucionário na arte e na literatura. De Ernest Hemingway, que o conheceu, não gostava, e disse que ele tinha olhos de um “estuprador fracassado”. Pound arrepender-se-á de não ter escrito um livro sobre ele toda sua vida. Do romance de Lewis Tarr (1918, reescrito em 1928), Pound dirá que é “o romance inglês mais vigoroso e veemente de seu tempo e seu autor o fenômeno mais excepcional da época”. O único escritor contemporâneo que pode comparar-se a ele é Joyce. O escritor e pintor Wyndham Lewis escreverá um livro em 1931 elogiando Hitler, editado por Chatto&Windus, ainda que nunca chegará ao extremo do intelectual fascista comprometido como Marinetti, Drieu, Brasillach ou Paul de Man. Lewis considerava o nacional-socialismo (todavia na oposição) como uma resposta ao comunismo, na qual o conceito de raça é um antídoto saudável contra a ideia de Klassenkampf, de luta de classes sociais. O programa hitlerista é um excelente plano para salvar a Europa frente ao perigo do bolchevismo asiático. Em síntese: o fascismo, dirá Lewis sem arrepender-se nunca (de maneira similar a como Heidegger seguia justificando o nacional-socialismo até sua morte), é a expressão revolucionária mais adequada e mais acabada da oposição ao status quo burguês. O modernismo revolucionário. Curioso ou não, Lewis foi amplamente difundido na Argentina através da revista Sur, de Victoria Ocampo. Porém, a figura de Lewis personifica perfeitamente o intelectual modernista reacionário atraído pela vitalidade à energia do irracional, à força do instinto, todos os fenômenos dessa rebelião contrailuminista, antimaterialista, antiburguesa e antimarxista que representará em um primeiro momento o fascismo italiano, logo o nacional-socialismo e os diversos fascismos menores da Europa. O vorticismo contribuirá a ilustrar a natureza das afinidades entre revolta cultural, modernismo reacionário e a ascensão irresistível do fascismo. As raízes do modernismo encontram-se entrelaçadas com as afinidades eletivas da direita revolucionária, o passado perfeito do futuro fascismo.

Direita Revolucionária e Filosofia

No grupo vorticista havia um ideólogo mais profundo, um filósofo em toda linha, uma espécie de Heidegger ou Drieu la Rochelle inglês. Seu nome era Thomas Ernest Hulme. Sua ascendência sobre Pound, Yeats ou T.S. Eliot é inquestionável. Já o perspicaz Borges havia notado quando escreveu “foi discípulo do filósofo Hulme, com o qual inaugurou o Imagismo, destinado a purificar a poesia de todo o sentimental e retórico” (Terá influenciado por sua vez o reacionário Hulme a Borges?) Tanta era a admiração de Pound por Hulmes que em seu quarto livro, Ripostes (1912), inclui um curioso epílogo, composto pelos pomposamente qualificados “Complete Poetical Works of T.E. Hulme”. Trata-se de cinco poemas, breves, no estilo dos haikus. Hulme era uma personalidade excepcional e o verdadeiro teórico do classicismo revolucionário, do qual beberão tanto o fascismo como o nazismo. O jovem filósofo e crítico de arte reacionário reunia no café Tour Eiffel do Soho, às quintas pela tarde, um grupo de escritores que constituíam uma secessão do tradicional Poet’s Club londrino criado por um banqueiro. Na quinta-feira 22 de abril de 1909, Pound chegou pela primeira vez a esse cenáculo, convidado por seu mestre Hulme. Um membro do grupo, F.S. Flint, que junto com Hulme e Pound criarão o “Imagism”, recorda essa primeira e memorável ocasião: “(Pound) deve ter esquecido, ou nunca se inteirou, da excitação com a qual os clientes das demais mesas ouviram-no declamar sua Sestina: Altaforte…que forte vibrava a mesa em ressonância com sua voz.” Os imagistas editarão uma antologia que fará época, chamada Des Imagistes e será publicada em 1914 nos Estados Unidos e no Reino Unido. Integravam-na Richard Aldington, F.S. Flint, Skipwith Cannell, Amy Lowell, William Carlos Williams, D.H. Lawrence, James Joyce, Ford Madox Hueffer, Allen Upward, John Cournos e Ezra Pound. Havia ali ao menos três dos maiores escritores em língua inglesa do século (Lawrence, Joyce, e Williams), reunidos por mérito exclusivo do quarto deles. O livro foi recebido com desprezo e indiferença. Porém, sigamos com Hulme. O filósofo tomou a iniciativa de traduzir ao inglês as Réflexions sur la violence de Georges Sorel, o teórico sindicalista que revisava Marx em um sentido antimaterialista. Mussolini declarava que “minhas modestas ideias encontraram confirmação autorizada na obra de Georges Sorel”. O fascismo considerava a obra soreliana como uma fonte de inspiração e um antídoto saudável contra as perversões marxistas. Hulme também traduziu ao inglês Henri Bergson e seu vitalismo antikantiano, outra das fontes filosóficas do futuro fascismo. Hulme apresentou-se como voluntário entusiasta e morreu na Grande Guerra em setembro de 1917, em Flandres, aos 34 anos. Em sua época, segundo relatam diversos testemunhos, havia-se transformado em uma das inteligências mais influentes e um dos principais protagonistas da cena intelectual. T.S. Eliot disse que era “o grande precursor de um estado de ânimo novo, o estado de ânimo do século XX” e definia-o como “um clássico, um reacionário, e um revolucionário nas antípodas do espírito eclético, tolerante e democrático do século passado”. A medula do pensamento de Hulme, ainda imaturo devido à idade, é um violento ataque ao humanismo, à perfectibilidade humana, à empatia artificial e à ideia de progresso. Seu objeto de demolição é a ideia segundo a qual a existência é ou deve ser a fonte da qual emanam todos os valores. Hulme arremete contra todo o espírito e a arte do Renascimento (Donatello, Michelangelo, Marlowe) e contra a ética e a política derivada dele: Descartes, Hobbes, Spinoza, Rousseau. Seus textos declaram guerra ao romantismo, porém ao romantismo de 1789 (o da Grande Revolução Francesa) e à concepção rousseauniana do indivíduo (o homem é bom por natureza). Hulme adota o ponto de vista do grande reacionário Burke, as posições e definições de Charles Maurras, de Laserre, e dos protofascistas da Ação Francesa. Os românticos creem na infinitude do homem, nós, dirá Hulme, em seus limites. É necessária, sobre a lenta Untergang do Ocidente, uma estrita disciplina religiosa (ou um substituto a este laço) que implica, nas formas institucionais, disciplina política (já não baseada nessa invenção chamada “contrato social”) e obediência ao Estado. Este é o fundamento da chamada “Anti-Democratic Intelligentszia”: rechaçar de plano a tradição humanista; criticar com violência extrema e subversiva a democracia liberal. A tarefa do século XX, assinalava Hulme, era lograr dissociar a classe operária da democracia. Neste marco é que há que entender o trabalho poético e o alcance da criação literária de Pound. Hulme, admirador de Sorel, ofereceu um retrato do teórico da violência e do sindicalismo revolucionário que poderia aplicar-se a seu discípulo Pound: “Um revolucionário que é um antidemocrata, um absolutista em questões de ética, que rechaça todo tipo de racionalismo e de relativismo, que concede a maior importância ao elemento místico em religião, elemento que está convicto de que nunca desaparecerá, que fala com menosprezo do modernismo e do progresso e utiliza um conceito como a honra sem o menor toque de irrealidade”.

Pound e Pasolini

Pound e Pasolini

Confúcio e Mussolini

Pound começou a ler Confúcio de traduções do francês em 1914-1915. Fez várias pequenas traduções e em 1928 apareceu sua primeira grande versão inglesa de um dos clássicos O Grande Compêndio. Já em seus Os Cantos encontravam-se numerosas citações dos Analectos. Em suas cartas recentemente descobertas vê-se a tensão de Pound em sua busca de uma ética comunitária que pudesse complementar-se com o fascismo sobre o terreno. Como tentou realizar Pound uma síntese hegeliana entre confucionismo e fascismo italiano? Confúcio, “que tinha em suas costas 2 mil anos de história documentada, que ele condensou de maneira que fosse de utilidade aos homens que ocupam cargos oficiais”, permitia uma Sittlichkeit, uma moralidade estatal baseada em saídas pragmáticas, evitando a politicagem e as discussões abstratas da burocracia. Confúcio ademais sustentava uma antropologia pessimista sobre o homem e um regresso a uma época dourada imperial, na qual os homens de letras e eruditos gozariam de uma posição de classe vantajosa. Os funcionários superiores do Stato Totale deveriam ser instruídos nos Analectos confucionistas e como regra geral “não se deve permitir que nenhum cristão desempenhe cargos executivos”. A Mussolini, o fondatore dell’Imperio que havia já mudado o governo burguês por “algo positivo, por uma máquina útil”, podia-lhe ser de enorme ajuda o aporte autoritário, centralista e prático do confucionismo. Do judaísmo nem se precisa falar, ainda que poderiam conservar-se “alguns judeus sérios”. Confúcio mais Mussolini eram o Estado ideal, que superaria o comunismo bolchevique e as plutocracias ocidentais. Pound pensava que o nacional-socialismo estava mais próximo que o fascismo nos ideais confucionistas de seu Estado. O final ignominioso de Pound já é conhecido. Há algumas anedotas que nos pintam o quão longe estava ele em sua adesão ao fascismo da esquizofrenia. Um Pound entusiasmado contava que a Mussolini, “que tem sentido do tempo”, agradava-lhe mais a música clássica do que a música ligeira contemporânea. O classicismo revolucionário encarnava-se em il Duce. E que o Fascio (como chamava em sua linguagem florida à ditadura fascista) era “um fenômeno interessante”, por trás do qual “há perspectiva histórica”. O “estado imperialista capitalista” não somente tinha que ser julgado em comparação com o fascismo desenvolvido ou com as utopias ainda não realizadas, senão também com as formas passadas de sociedade. A época não era de passividade, de espectadores, senão de ação: em seu entusiasmo reacionário pôs-se a preparar um roteiro cinematográfico em 1932 sobre a história do fascismo, enviando um exemplar a Mussolini com dedicatória. Finalmente logrou o encontro mais desejado: em 30 de janeiro de 1933 entrevistou-se com il Duce no Palazzo Venecia, presenteando o ditador com uma lista de propostas sobre reformas monetárias, econômicas e ademais, como confessou, vislumbrar a grandeza mental de Mussolini. Presenteou-o com um esboço de XXX Cantos, o ditador folheou, leu alguns poemas e disse-lhe que o considerava divertido. Pound considerou essa frase um comentário muito sério que indicava que o grande homem de Estado em um instante havia chegado à alma de sua obra. Emocionado como Hegel quando viu Napoleão em Jena, Pound reconsiderou o fato como uma prova do brilhantismo de Mussolini e o fato de que Os Cantos seria uma obra para Übermenschen, super-homens. Sua impressão em gesso para essa época. Desde aquele dia Pound não chamava Mussolini por seu nome, senão se referia a ele como “Muss” ou “The Boss” (como o chama nos primeiros versos do canto 41). Era o “artifex”, um gênio sem medida. Eliot em The Criterion publicou um artigo intitulado “Assassinato pelo Capital”, em que apresenta Mussolini como “o primeiro Chefe de Estado dos últimos tempos em perceber e proclamar que a qualidade era uma dimensão da produção nacional”. Em “Guia da Cultura” (1937), impressionado por esse encontro (que será o último), Pound dizia que “Mussolini, um grande homem, demonstravelmente em seus efeitos sobre os acontecimentos, inadvertidamente na rapidez mental, na velocidade com que se expressa sua verdadeira emoção em sua face, de tal modo que unicamente um homem retorcido poderia interpretar errado o que quer dizer e quais são suas intenções básicas”. E Os Cantos tem seus próprios capítulos fascistas: os cantos LXII a LXXII, conhecidos como The Adams Cantos. Quis escrever um livro sobre il Duce que nunca pôde. Quando viajou pela última vez aos Estados Unidos, em 1939, ao descer do transatlântico italiano Rex (sem dúvida em uma suíte de 1º classe), declarou à imprensa que “Mussolini e Hitler fizeram mais coisas pela paz que todas as democracias liberais”. Já nesses momentos Hitler havia anexado a Áustria e os Sudetos, Mussolini já havia conquistado com sangue a Abissínia para seu novo Imperium romano, e Pound apoiava a operação colonialista: “A Abissínia está melhor sob o mandado de il Duce que de Negus (o imperador nativo)”. Em tão somente uns meses o Terceiro Reich atacaria a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Pound utilizava um papel de desenho próprio para escrever, tinha um desenho de si mesmo feito por Wyndham Lewis e tinha um motto fascista no cabeçalho que dizia: “A liberdade é um dever, não um direito”. À volta a Rapallo desde os Estados Unidos desatou a guerra. Pound ofereceu seus serviços ao governo italiano para montar uma série de emissões radiais que levassem os americanos a apreciar e simpatizar com o fascismo. A primeira emissão foi em janeiro de 1941. A ideia geral de Pound era que as guerras eram criadas pela codícia dos usurários e dos fabricantes de armas. Quando o Japão atacou Pearl Harbor, obrigando os Estados Unidos a declararem guerra ao Eixo (dezembro de 1941), Pound decidiu seguir emitindo com seu próprio nome e assinalou que “Roosevelt está nas mãos dos judeus mais do que o presidente Wilson esteve em 1919”. Em 26 de julho de 1943, uma corte federal dos Estados Unidos acusou Ezra Pound de aderir aos inimigos do país. Em outras palavras, traição. A pena ia desde cinco anos de prisão e $10.000 à cadeira elétrica, ou, melhor dito, à forca.

A Queda dos Deuses

Em 10 de julho de 1943, tropas britânicas e estadunidenses desembarcam no sudeste da ilha da Sicília e ocupam-na em pouco mais de um mês. A invasão aliada do território italiano provoca que, em 24 de julho, produza-se um putsch palaciano, o rei da Itália Victor Emanuel III ordena a detenção de Mussolini e nomeia o marechal Badoglio novo presidente do país. O governo de Badoglio rendeu-se aos aliados e os alemães ocuparam toda a Itália. Um comando libera Mussolini que estabelece a Itália fascista no norte, com capital em Milão. Será conhecida como a Repubblica Sociale Italiana (RSI), porém seu nome popular será República de Saló, devido a que a residência de il Duce estava em Saló, pequena cidade no lago Garda. Pound estava nesse mês crucial de setembro de 1943 em Roma. Um empregado do Minculpop (Ministério de Cultura Popular fascista) recorda ter visto Pound perambulando por escritórios desertos, buscando manuscritos de seus discursos radiofônicos. Os dias finais foram um caos, com os fascistas recuando para o norte. Pound também foi, ao melhor estilo de Céline: saiu de Roma pela via Salaria, cruzou o município de Fara Sabina e dormiu sob as estrelas. Tomou um trem lotado e depois a pé conseguiu chegar ao Tirol, zona segura. Toda essa experiência de fuga para Saló também aparecerão em Os Cantos 77, 78 e 79. Reincorporar-se-á ao movimento e põe todo seu talento para sustentar a república de opereta de um Mussolini já quebrado. Compõe canções para as milícias fascistas, traduz e escreve panfletos, artigos, manifestos e pôsteres, tudo isso em italiano. Os pôsteres eram impressos com máximas confucionistas ou slogans fascistas da época reformados por Pound. Entre 1943 e 1945, data em que é preso, Pound imprimiu seis obras na República de Saló, incluído o testamento de Confúcio. Escreveu artigos na revista propagandística do regime Gladio. Pound apoia o fascismo de esquerda, uma espécie de volta às origens, de Mussolini, aportando ideias e projetos culturais. Sua foto e descrição haviam sido distribuídas no front e buscavam-na não só o exército, como também um fiscal-geral e o FBI. Quando o pegaram em Sant’Ambrosio, estava traduzindo o Livro de Mencio, o seguidor mais fiel de Confúcio, porém o mais populista. Para vergonha de seu etnocentrismo, Pound rendeu-se em maio de 1945 a uma raça inferior: um soldado negro com uma carabina que o levou preso a Lavagna. Em uma conversa com um dos ministros de Saló, Pound explicou-lhe a amálgama do fascismo e confucionismo, seu valor para elevar a moral do combate: “The Value of Philosophy (or of a Philosophy) is that it Reinforces Courage. Confucius is the Staff to take in the Trenches”.