Veloso e Schwarz

Recentemente publicada pela Companhia das Letras, a reunião de ensaios e entrevistas de Roberto Schwarz, intitulada Martinha versus Lucrécia, tem suscitado releituras que, seja pela controvérsia, seja pelas agitações provocadas instigam algumas notas. O alarido se deu em razão do ensaio “Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”, nele, encontra-se uma análise à autobiografia de Caetano Veloso, Verdade tropical, publicada em 1997. Em linhas gerais, as críticas ao ensaio demonstram certo desatino quando acusam o autor de cometer equívocos e incoerências intelectuais que somente interpretações forçosas e calcadas na irreflexão seriam capazes de alcançar. A pressa na “defesa” ao músico tropicalista parece dar o tom aos comentários relacionados ao tema. No entanto, a atitude prestimosa não se ajusta à leitura do ensaio de Schwarz, que, em toda sua extensão não enseja manifestações desse viés simplesmente porque não se manifesta através de ataques.

De maneira bastante pertinente, Roberto Schwarz reflete a certa altura do ensaio (e utiliza semelhantes esquemas interpretativos em diversos momentos do texto) sobre a postura daquela geração “a volta de 1964” [2] e que, conforme a descrição de Caetano Veloso experimentaria o “direito de imaginar uma interferência ambiciosa no futuro do mundo” [3]; conforme a conclusão do crítico, o sentimento da época, assim apresentado, indica uma “ambição de fazer e acontecer na arena internacional – em lugar de questionar essas aspirações elas mesmas”[4] . Aqui, me parece, evidencia-se a diversidade discursiva, ou mesmo a polifonia ideológica contidas no depoimento de Caetano Veloso, contudo, perceber nesse depoimento, mesmo que antecipadamente mais identificável com a esquerda, indícios de premissas àquela época tidas como de direita não constitui imperícia da análise de Schwarz. É importante lembrar que interferências dessa ordem, bem como ambiguidades na formulação de discursos identitários serão perceptíveis em qualquer contexto histórico a que se dedique atenção, pois nada há estanque; por fim, em leituras como essa, há muito tempo, não vai acusação alguma.

Mesmo seguidas por qualificativos como “inglório”[5] , as observações de Schwarz aos vestígios do discurso “dos vencedores da Guerra Fria”[6]  em determinadas passagens do relato de Caetano estão seguramente distantes da quase condenação histericamente alardeada por Nelson Ascher em seu texto “O crítico justiceiro” publicado, na revista Veja, mais a título de subserviência ao astro pop dos recôncavos tropicais, do que para sublinhar panoramas de divergência analítica. Numa postura sem o frouxo dos aplausos fáceis, Schwarz deixa entrever sua discordância, não apenas com o que pôde perceber como resquício de uma ideologia vencedora e autoritária, como também evidencia os limites daquilo que considera esquerda e direita. Tal postura não compromete sua posição crítica – como sugerem algumas resenhas sobre o tema – já que a obra em análise não se configura enquanto literatura somente. Pretendendo-se relato de uma experiência que marcou um período da história brasileira (em todas as suas dimensões, não apenas política), Verdade tropical deve sim ser observada em razão dos próprios conceitos aos quais se vincula, ou aos quais consegue nomear. Da mesma maneira, Roberto Schwarz, apontando a obra em análise como quase romance, não atua de maneira equívoca ao demonstrar sua percepção da desfaçatez camaleônica [7] de Caetano Veloso já que se trata (a obra) de depoimento e, portanto, legitima-se em outros territórios além daqueles propícios ao fazer literário. Ainda que, no início do ensaio, o livro de Caetano seja anunciado como “romance de ideias”[8]  ou “prosa realista”[9] , Schwarz rapidamente lhe institui a legenda de história tropicalista e de crônica da geração à volta de 1964, com essa medida, não perde de vista a obviedade contida na narrativa de Caetano Veloso, e aparentemente negligenciada por grande parte dos críticos da crítica, sendo depoimento, pode ter reconhecidas, ou não, suas qualidades estéticas, mas não pode ser considerado sem a dimensão histórica que encerra – e nisto Schwarz acerta, pois evidencia essa perspectiva.

Além disso, o autor do ensaio reconhece a atualidade de onde fala; sem reservar espaços a afecções, seu estudo ressuma um Brasil sem revolução, com a experiência de vinte anos de governo ditatorial, e amargando quase trinta anos de impunidade aos desmandos e violências praticados por esse governo inconstitucional – mesmo tendo assistido a uma significativa sucessão de governos filiados ao ideário de oposição àquele período. De seu texto infere-se a falta, na equação operada por Caetano referente à época do Tropicalismo, de atualização ou de reformulação dos sentidos atribuídos à esquerda que – assim como os atribuídos ao seu lugar de oposição, a direita – acabaram se mostrando insuficientes para a nomeação dos fenômenos experimentados naquele período e nas décadas subsequentes.

O matiz opositor explicitado no título do livro ressurge na faceta dualista utilizada para a abordagem dos fenômenos destacados ao longo do ensaio. Resta saber em que medida essas ponderações de caráter dualista poderiam ser visualizadas a partir de outra representação que não a da oposição. Isto é, seria legítimo esperar que se negligenciasse a perspectiva da dualidade numa abordagem dedicada ao relato dessa experiência artística (o tropicalismo) estreitamente vinculada a um período histórico no qual praticamente a totalidade das iniciativas de reflexão sobre aquele momento seria imediatamente transposta ao cenário da violenta disputa político-ideológica?

Recuperando a Marc Bloch sua assertiva de que “para o desespero dos historiadores, os homens não têm o hábito, a cada vez que mudam de costumes, de mudar de vocabulário”[10]  é possível que tenha faltado, tanto a Caetano Veloso – na fatura de seu relato, Verdade tropical – quanto à boa parte da crítica dedicada ao ensaio de Schwarz alcançar uma outra dimensão aos vocábulos envolvidos nas legendas esquerda e direita. A partir daí, a pertinência de uma ponderação na qual, considerando limites, contradições e precariedades extraídas à leitura de Verdade tropical, a interpretação de Schwarz (e toda interpretação é uma possibilidade) estivesse mais ocupada em tornar nítidas as ambivalências discursivas que passaram a tomar o lugar daquela dualidade cujos agentes até então haviam pretendido delimitar com nitidez, do que em acusar ou condenar suas manifestações. Afinal, o próprio Schwarz considera que uma imagem totalizante da esquerda da época não corresponderia à realidade. Com efeito, as incompatibilidades ideológicas descritas por Caetano estariam mais bem dimensionadas à medida que relativizassem os diferentes componentes daquele grupo cuja amplitude não conseguiria escapar à diversidade.

Enquanto se sobrepõe, no emaranhado de releituras seguidas à publicação de Martinha versus Lucrécia, uma incoerente salvaguarda à imagem do músico e escritor, ele mesmo, embora escape ao recalque daquela crítica protecionista de plantão, tropeça na infantilidade incompatível com as representações que Roberto Schwarz entrelaça em sua análise, e faz birra numa entrevista em que, para concluir suas distorções, apresenta o descabido argumento de que Schwarz teria chegado tarde para a crítica de seu livro, reproduz assim o lugar-comum, e vazio, do imediatismo. Ora, se o tempo comprometesse a importância de qualquer análise ou reflexão, não passaríamos de felizes (?) desmemoriados, sem acesso aos prazeres da tradição, que em seu conjunto é reivindicada a cada leitura.

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Notas

Denise Freitas nasceu em Rio Grande (RS). Professora, Escritora e Historiadora. É autora de Misturando Memórias (2007); Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: Moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários. Escreve no blog: www.sisifosemperdas.blogspot.com

[2] SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia: ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 52.

[3] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. Apud: SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia: ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 74.

[4] SCHWARZ, Roberto. op. cit., p. 74.

[5] SCHWARZ, Roberto. op. cit., p. 110.

[6] Id. ibd., p. 109.

[7] Numa de suas resenhas, Euler de França Belém sinaliza uma incoerência teórica de Roberto Schwarz na forma como problematiza a narrativa de Caetano Veloso, negligenciando alguns de seus principais componentes, quais sejam, relato memorialístico e depoimento.

[8] SCHWARZ, Roberto. op. cit., p.52.

[9] Id. ibd., p. 52.

[10] BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,2001. p: 59.

Sobre Denise Martins Freitas

Nasceu em Rio Grande(RS) em 1980. Escritora e professora de história; é autora de Misturando memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais: Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Autores Gaúchos, Revista Modo de Usar, entre outros. Escreve o blog sísifo sem perdas.