Wang Xiaofeng: para a China mudar será preciso um outro Gorbachov

Desde a chegada da internet, os média do Estado chinês deixaram de ser a inquestionável porta-voz da população. Uma constelação de vozes compete por espaço e atenção, e, na maioria, segundo Wang Xiaofeng, o mais famoso blogger deste país, não passa de “válvula de escape” para satisfazer a crescente necessidade de um intercâmbio de opiniões, suprimido há muito tempo pelos meios tradicionais e censores do Partido Comunista.

A rede também tem algumas vozes muito diferentes, como a de Han Han, blogger e editor de uma revista literária, e Murong Xuecong, cujos artigos sobre subornos na China atraíram mais leitores do que muitas publicações importantes. Entretanto, é de Wang, de 44 anos, a voz que se destaca entre os bloggers chineses. A sua foto apareceu na capa da revista norte-americana Time quando essa publicação escolheu a comunidade mundial da internet como “personagem do ano”, em 2006. Wang parece levar uma vida dupla: além de ser um dos bloggers mais lidos do país, é redator e editor-chefe da Lifeweek, respeitada revista chinesa, avalizada pelo Estado.

Sibila: Como se sente tendo esta espécie de dupla identidade? Por que escreve num blog?
Wang Xiaofeng: Sinto-me mais livre como blogger do que ao escrever numa revista importante. Os meus leitores também são numerosos (no blog). As restrições nos meios tradicionais são tão grandes que às vezes vejo os meus artigos publicados na revista e não os reconheço. Manter um blog na China é diferente de fazê-lo no Ocidente, onde é simplesmente um espaço a mais para se expressar. Na China, o ciberespaço é o único meio no qual alguém pode ser direto e honesto.

Sibila: Está feliz na China? No passado tínhamos um país descontente porque o Ocidente o demonizava. Agora, parece que também temos um país descontente pelo nível em que está a situação interna.
WX: Parafraseando a novela História de Duas Cidades, do escritor britânico Charles Dickens, diria que “é o melhor dos tempos e o pior dos tempos” para a China. Os estrangeiros não entendem este país. Acreditam que estão a tratar com um país rico e poderoso, mas vejo um país onde as coisas chegaram quase ao limite, e no qual só há lugar para uma grande crise e um novo começo. Não conheço um só chinês que seja verdadeiramente feliz. Alegria por um dia ou dois? Sim, mas não felicidade. Mesmo os ricos neste país são infelizes, pois não têm segurança para o seu dinheiro, nem leite seguro nem estradas seguras para os seus filhos. Os chineses levam vidas miseráveis. São os melhores cidadãos do mundo: nunca se rebelam.

Sibila: A internet e a blogosfera converter-se-ão em catalisadores para a mudança política na China, como previram muitos no Ocidente?
WX: Não. A cultura chinesa preza-se por ser muito forte e ter assimilado ao longo dos anos muitas coisas do exterior, mas adaptando-as às suas próprias necessidades. Portanto, é resistente à mudança. Por exemplo, vejamos a blogosfera. Na China, tem dois propósitos: que as pessoas se expressem e que discutam entre si. Sempre que há um tema de debate, há duas partes que combatem. Como isto pode levar a uma mudança? Os chineses podem aceitar algo que é preto ou branco, mas nunca entendem que possa haver uma terceira possibilidade. Digo que há um Qin Shihuang (primeiro imperador da China e famoso tirano) em cada chinês: “Tenho de dominar, tenho de impor o meu ponto de vista e não há lugar para tolerância”, pensam.

Sibila: Como imagina a China em 2030?
WX: Não me animo a pensar no futuro da China. É quase demasiadamente tenebroso. Contudo, para o nosso próprio bem, espero que haja uma dura aterragem da economia, que sacuda a nossa sociedade até à medula. Precisamos de um impacto, ou nunca vamos mudar. A sociedade chinesa é agrícola, atada à terra, obcecada com a cultura da alimentação, e tem imensa capacidade de sobreviver e recuperar-se. Se houver uma mudança, o mais provável será que ocorra por meio de uma crise econômica. Para que a China mude politicamente, será preciso outro [Mikhail] Gorbachov [impulsionador do processo de reformas conhecido como perestroika na antiga União Soviética].

Sibila: Quem é o pior inimigo da China?
WX: Visto daqui, há apenas dois tipos de países no mundo: a China e os seus inimigos. Se não há rivais no exterior, então o inimigo será a própria China. A população é facilmente enganada. Na realidade, o nosso pior inimigo é a falta de espiritualidade. Não cremos em nada. Se a Revolução Cultural destruiu a superfície de nossa cultura, as reformas e a abertura acabaram com as suas raízes.

Antoaneta Becker, de Pequim
26 de novembro de 2011.