Não é preciso despender grande esforço para concluir que Tina Turner (circa 1980) serviu muito bem de prefiguração aos nossos dias da cantora Beyoncé que, por ironia, tem em sua carreira o single “Déjà vu” (2006). Entretanto, Tina, devido às suas características vocais, tem a ver com o rock (migrou do R&B para este gênero), e sua biografia parece ser mais acidentada – para não dizer dramática –, ficando por isso mesmo nas antípodas da atual representante do R&B de acento entre rap e pop. A vida de Beyoncé, ao que se sabe, tem todos os ingredientes para ser definida como a de uma patricinha, em que pesem as referências ao racismo de que se ressente no país de Obama, referidas pela cantora, filha do estado do Texas. O certo é que não teve grandes frustrações. De resto, muitas coincidências podem ser invocadas para um possível cotejo entre as cantoras. Por exemplo, Beyoncé e Tina lembram por contiguidade: condenação às convenções do sex appeal; iconofilia gestual à maneira de pin-ups pós-modernas; imagem controversa da “cantora gostosa”, já que seus dotes físicos, os corpos cobiçáveis, se equiparam (ou mesmo suplantam) olimpicamente à beleza imaterial de suas vozes. Conjunto de conveniências que, talvez como consequência, favoreceu a que ambas se tornassem atrizes de cinema, ou coisa parecida. Aquilo que um jornalista do The Daily News escreveu, a saber, “A forma como Beyoncé usou o seu corpo intensificou o sentimento de triunfo. O seu cabelo parecia o de uma Medusa, suas pernas longas dariam orgulho a Tina Turner”, sintetiza tudo isso. E para as duas vale a velha tirada-clichê, ou seja, como atrizes são excelentes cantoras e dançarinas.

Beyoncé
http://www.youtube.com/watch?v=Gbfnh1oVTk0
Mick Jagger e Tina Turner
http://www.youtube.com/watch?v=eTLgiROX5f8&feature=related
Tina Turner solo
http://www.youtube.com/watch?v=CHXA4_O-MXM
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Ronald Augusto é poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com.
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