Conversa com João Cabral de Melo Neto

Documentários às vezes são pouco conhecidos do público em geral por não fazerem parte dos circuitos comerciais de cinema. É o caso de Recife/Sevilha, exibido apenas em um canal fechado de TV e em festivais, a exemplo da XXVII Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e do XXXI Festival de Cinema de Gramado, ambos em 2003.

Gracián e Vieira: o lugar do “mistério”

O topos do “mistério”, aplicado por tratadistas e oradores do século XVII, funda-se no postulado de uma natureza cujas espécies repõem uma substância infinita e invisível, análoga e proporcional à divindade. Enquanto sobreposição do infinito no finito, a proposição de uma “presença sem vista” tem sido interpretada, na história da cultura, como paradoxo e artifício gratuito, como efeito típico de uma época que se toma por “miracular”[1] e afeita a toda sorte de irracionalismos. Entretanto, retomadas algumas de suas referências históricas, aqui exemplarmente atinentes ao emprego que delas é feito pelo jesuíta aragonês Baltasar Gracián (1601-1658) e pelo jesuíta português Antonio Vieira (1608-1697)

A poesia de Stéphane Mallarmé

A palavra demonstra a inutilidade da ficção, o esforço inútil que seria tentar reproduzir, representar um objeto tal como ele é. Mallarmé em “Crise de Vers” aponta muitas características da linguagem. Entre elas se encontra, como exemplo, o fato de que as línguas são muitas e imperfeitas, um único objeto corresponde a uma palavra diferente em cada língua, o que evidenciaria que estas não tocam matériellement la vérité, mas, sim, commercialement. Mas a teoria da linguagem de Mallarmé vai muito além desta constatação.

Abolicionismo

A escravatura – escrevia o Correio Brasiliense em Londres – é um mal para o indivíduo que a sofre e para o Estado onde ela se admite, lemos no O Brasil e a Inglaterra ou o tráfico dos africanos. No intuito de esboroar, derruir a montanha negra da escravidão no Brasil, ergueram-se em toda a parte apóstolos decididos, patriotas sinceros que pregam o avançamento da luz redentora, isto é, a abolição completa.

Darwin: a escravidão no Brasil

Darwin: a Life in Poems é um livro incomum, que mescla poesia e autobiografia, para recontar cronologicamente episódios da vida de Charles Darwin através de poemas. A autora do livro, a prestigiada poeta britânica Ruth Padel, tem dois dados importantes na sua própria história: além de ser trineta de Darwin, tem um interesse particular em poesia e ciência, tema que é objeto da sua escrita e atividade acadêmica como professora no King’s College London.

Sôbolos rios que vão

Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Alli lembranças contentes
N’alma se representárão;
E minhas cousas ausentes
Se fizerão tão presentes,
Como se nunca passárão.
Alli, despois d’acordado,
Co’o rosto banhado em ágoa,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não he gôsto, mas he mágoa

Os filhos esquecidos do império português

– Se vai ao meu país, não se esqueça de visitar a ilha dos portugueses. – Foi com estas palavras que se despediu de mim o jovem secretário da embaixada de Myanmar em Pequim quando aí fui solicitar um visto de turista, já lá vão uns bons anos. Dessa vez, não chegaria a utilizar o visto requerido, mas aquilo da «ilha dos portugueses» ficou-me na ideia durante algum tempo.

Quando, finalmente, visitei pela primeira vez essa nação que já se chamou Birmânia e que um punhado de generais teimava em considerar um feudo seu, levava a lição minimamente estudada, graças à informação que em Macau me fora fornecida por um amigo entusiasta dessas coisas das miscigenações.

Quem primeiro nos relata o pioneirismo dos portugueses na Birmânia é o cronista Duarte Barbosa, que em 1501 ruma à Índia com uma frota de várias dezenas de navios, só regressando a Portugal quinze anos depois.

Rubem Braga comemora os quarenta anos de Vidas secas

“Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas a retalho, a jornais e revistas. E, como José Olympio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas criaturas que pus em circulação.”

Assim Graciliano se referiu certa vez (em 1939) ao seu romance Vidas secas.

O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais”.

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

Teoria do medalhão

O conto “Teoria do medalhão”, de Machado de Assis, é bastante conhecido. Talvez valha a pena relê-lo tendo-se em vista o atual momento do circuito institucional da literatura brasileira: alguns cadernos de grandes jornais, com resenhas elogiosas sobre livros das mesmas duas ou três editoras, o destaque a um ou dois institutos de “cultura” devidamente rouanetizados, o protagonismo midiático de um certo “festival literário”, o protagonismo da rediviva ABL, o obscurantismo dos prêmios literários etc. A literatura brasileira deste circuito tão prestigiosa neste circuito do Brasil seguiu à risca os conselhos do pai ao filho, únicos personagens dessa trama curta; principalmente, aquele que assinala ao jovem varão: “Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem …”.