A África mascarada de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa foi para a África do Sul dois anos depois do falecimento de seu pai. Em razão das segundas núpcias de sua mãe com o cônsul de Portugal em Durban, Pessoa passou a morar nessa cidade, onde ficou por praticamente dez anos. Exceto o período entre 1901 e 1902, quando esteve de férias, lá viveu dos 7 aos 17 anos de idade. Morreu apenas 30 anos depois.

O fim do século 19 marcou a África do Sul pela consolidação da hegemonia britânica sobre a Europa e a África. Influência atuante até o primeiro quarto do século 20, essa cultura montada no calvinismo, e admirada por Fernando Pessoa, tornou-se a responsável por moldar a educação do jovem poeta.

Apesar de ter sido um momento-chave para a estratificação da(s) sua(s) personalidade(s), não há nenhuma referência por parte de Fernando Pessoa ao tempo em que viveu na África. E, nas raras vezes em que mencionou a educação que teve na juventude, o fez como tendo sido de procedência inglesa.

A escola que frequentou naquela época chama-se Durban High School, em tudo voltada para os padrões ingleses, da grade curricular ao corpo docente. Foi nela que ele estruturou seu paideuma, essencialmente em inglês, incluindo Shakespeare, Milton, Carlyle e Macaulay.

Alexandrino E. Severino atribui a esse distanciamento que surgiu entre o poeta e cultura e língua portuguesas a possibilidade de Pessoa ter operado uma renovação no idioma lusitano. Mais que isso, os heterônimos que marcaram a obra pessoana são a evidência de uma exploração única do conceito de alteridade, principalmente, e contraditoriamente, com relação a si mesmo.

Shakespeare e as máscaras

A maior fama de Pessoa – e também o maior risco de cair em um psicologismo estéril – vem de sua capacidade de se exteriorizar e, com isso, enxergar-se de fora e produzir máscaras heterônimas. Sobram casos psicanalíticos ou lendários sobre essa habilidade dramática nas letras do poeta, como o de sua correspondência com psiquiatras e colegas sob o esconderijo de pseudônimos para tentar descobrir o que pensavam sobre ele.

A aproximação com Shakespeare – o “inventor do humano”, como quer Harold Bloom – é inevitável e demonstrada por mais de um crítico. Entre os discordantes, João Gaspar Simões e Jacinto do Prado Coelho entendem que a diferença entre o gênero dramático de Pessoa e o de Shakespeare diferem com relação à evolução das personagens.

Enquanto em Shakespeare as ações de Otelo ou de Lady Macbeth nascem em função das intrigas, da experiência de vida que essas personagens obtêm durante o drama, em Pessoa seus heterônimos pensam e agem sempre de acordo com suas convicções. Enquanto Alberto Caeiro, se pudesse, teria sido um border collie, Ricardo Reis foi um pagão sereno a “vida” toda.

Por outro lado, se acompanharmos o raciocínio de Alexandrino Severino, encontraremos no caso do raivoso Álvaro de Campos uma matização dessa personalidade em tons cada vez mais contidos com o passar do tempo. Hanging on in quiet desperation is the English way, diria Roger Waters.

O desespero enrustido

É esse mesmo desespero que encontramos no poema “Terceiro” de Mensagem (outro achado de Severino), destoante dos demais de sua trilogia pelo tom de incerteza e insegurança que dita seus versos interrogativos.

Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Note que, quando partiu para a história e para um patriotismo peculiar, e até hoje questionado, não foi a sua própria, nem a da África, nem a da Inglaterra − foi a História de Portugal que ele escreveu em Mensagem.

Uma das leituras constantes durante esse período em Durban, Thomas Carlyle lhe proporcionou o conceito de “aristocracia”, segundo a qual “homens superiormente iluminados surgem, de quando em vez, para conduzir a Humanidade” (Fernando Pessoa e o mar português, p. 21).

Há ainda Whitman e o “verso livre” de Orpheu, o rigor produtivo de Milton, mas essa ideia aristocrática chama a atenção em Pessoa, que sentiu, pela ótica branca, o processo de dominação aplicado à África do Sul, bem como a distância entre brancos e negros.

Não à toa, a distância e o ocultismo são características semânticas da produção de Fernando Pessoa. Mesmo quando ele escreveu em seu próprio nome, ele o fez em terceira pessoa (“O poeta é um fingidor”). Quem questiona o seu silêncio sobre a África precisa levar em conta que Pessoa pode não ter visto a África.

Tanto faz estar em Durban ou em Oxford, como disse em carta a Mário de Sá-Carneiro: “V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é a primeira vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si” (Fernando Pessoa e o mar português, p. 138).

Se Fernando Pessoa ainda tivesse algo a dizer sobre sua juventude, é que recebeu uma educação inglesa em um ambiente inglês. Essa formação o presenteou com uma metafísica e um drama ingleses, um distanciamento e um temperamento britânicos. E uma África para inglês ver.

A África do Sul, como todos nós, sofre com o modelo do capital protestante. E se esse modelo rendeu algo útil aos sul-africanos, foi o tal desespero maquiado pelas vuvuzelas. Assim como em “Tabacaria”, a África do Sul não é lírica, é dramática. A África do Sul tem a Europa pegada à cara.

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Mais:

El desconocido de sí mismo. In Octavio Paz, Los signos en rotación. Barcelona: Ed. C. L., 1971, pp. 87-106.
Fernando Pessoa e o mar português. Alexandrino E. Severino (org.). Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1988.
Fernando Pessoa na África do Sul. Alexandrino E. Severino. Lisboa: Dom Quixote, 1983.
Obra poética. Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.
Os dois exílios. Hubert Jennings. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1984.

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.