A MÁQUINA DO MUNDO

Para  tratar da poesia de Camões  com a tópica deste ciclo de conferências,  “poetas que pensaram o mundo”,  vou-lhes falar de categorias da  mundaneidade do seu mundo. Por “mundaneidade”, entendo a estrutura temporal constitutiva da sua  existência histórica como homem e como poeta, ou seja, a presença do seu presente. Hoje, quando  esse presente está extinto e se tornou estranho para nós, qualquer leitura da poesia de Camões é determinada pela descontinuidade e estranheza da ruína. Assim, também a minha fala sobre ela  é necessariamente parcial e provisória.

Todos que  leram Camões sabem que sua poesia transforma matérias de  diversos tempos que fazem o seu presente, o século XVI,  muito mais largo e extenso que os 100 anos convencionais. Como tradições de autoridades poéticas, filosóficas e históricas de extensão e duração diversas, algumas dessas estruturas são antiqüíssimas, como o grande bloco greco-latino ou as doutrinas e a poesia gregas e latinas da arte como mímese: a doutrina aristotélica da épica exposta na Poética; a doutrina da reminiscência de Platão e Plotino; a doutrina do  sublime de Longino e Hermógenes; as epopéias de Homero, a bucólica de Teócrito, a épica de Virgílio, a ode de Horácio, a  elegia erótica de Ovídio etc. Outras, mais recentes, datam do século XV, como o platonismo reciclado por Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Cristóforo Landino e Angelo Poliziano  na academia florentina de Careggi. Muitas datam dos séculos XII e XIII, como a poesia da coyta e do amor cortês dos trovadores galego-portugueses e provençais; e o “doce estilo novo” italiano,  mescla de língua vulgar, formas poéticas e culto da Antigüidade, exercitado  nos anos iniciais do século XVI por poetas portugueses, como Sá de Miranda e Antônio Ferreira, que imitam o soneto e a canção de Petrarca, o terceto de Dante, a elegia e os capítulos de Bembo, as éclogas de Sannazzaro, a oitava rima de Poliziano, Bocaccio e Ariosto. Principalmente em Os Lusíadas, Camões figura o conhecimento cosmográfico antigo, fundamentado em Ptolomeu e Euclides, e a experiência empírica das navegações portuguesas dos séculos XV e XVI  sistematizada por autores de tratados de cartografia e história natural, como Pedro Nunes, Duarte Pacheco Pereira, Garcia da Orta etc. Também imita outros gêneros da prosa, como a história de seus contemporâneos João de Barros, Rui de Pina e Diogo do Couto. E tratados teológico-políticos escolásticos  que tratam das virtudes do príncipe cristão e da  “guerra de devaçam”, expressão de Gil Vicente para a cruzada contra não-cristãos da África e da  Ásia. Quando imita essas várias tradições, a racionalidade de Camões é modelada nas tópicas aristocráticas da racionalidade de corte com que autores italianos e portugueses do século XVI, como Baldessare Castiglione, Giovanni Della Casa, D. Jerônimo Osório, definem a excelência do uomo universale, o homem universal, cortesão perito em letras e armas, caracterizado por “engenho”, “discrição”, “prudência”, “agudeza”, “honra”, “amor”, “gentileza” e “graça”. No  presente de Camões, o capitalismo monárquico da dinastia de Avis está arruinado e  a Contra-Reforma doutrina a política católica do reino contra a heresia luterana e maquiavélica, reeditando Aristóteles e Santo Tomás de Aquino.
Em seu presente, Camões é antes de tudo um poeta pantécnico ou politécnico, engenhosíssimo e agudo. Domina várias tradições poéticas simultaneamente, compondo poesia que se filia ora a uma, ora a outra, conforme seus   gêneros e  estilos específicos. Não é necessário classificar sua arte unitariamente por meio de etiquetas evolucionistas exteriores, dedutivas e fechadas, como  “clássico”, “maneirista” ou “barroco”. Essas classificações datam dos séculos XIX e XX e não dão conta do seu presente poético. Quando aplicadas, eliminam ou tendem a eliminar justamente o que mais interessa, a especificidade histórica dos seus estilos.

A poesia de Camões não é um reflexo do seu mundo, mas um meio simbólico que  põe em cena as figuras relevantes do seu presente, estabelecendo relações entre a experiência do passado e a expectativa do futuro. Desde que  foi publicada pela primeira vez, esse presente só tem existência  em atos de leitura que produzem versões particulares e parciais da experiência encenada.  Para fazer essa experiência,  que põe em contato um enunciador e um destinatário, o leitor deve ser coautor e refazer as operações do pensamento do enunciador, efetuando a ilusão da extratextualidade de um “real” –  “o mundo de Camões” –  como se existisse efetivamente no momento da leitura como  causa do poema. Não existe, obviamente, e, como acontece em qualquer poesia, as leituras refazem de modo mais ou menos verossímil e apenas parcialmente- quero enfatizar o advérbio- o ato intelectual da  sua invenção.
Esse ato compõe os poemas como  interação dinâmica do poeta e seu público, ativando uma experiência imaginária e simbólica refratada e  interpretada por normas sociais e preceitos técnicos comuns ou coletivos partilhados assimetricamente por eles em seu presente. Camões constrói figurações, metáforas ou images/stories dos discursos do seu mundo, imitando ficcionalmente as opiniões tidas por verdadeiras nos campos semânticos das várias atividades letradas e não-letradas dele. Ele as compõe intelectualmente, com proporção, medida e graça: “Eu cantarei de amor tão docemente,/ por uns termos em si tão concertados,/que dous mil acidentes namorados/faça sentir ao peito que não sente”. Simultaneamente, sua enunciação  faz referência ao  ato inventivo,  pondo em cena, na variação dos estilos das tradições que escolhe imitar, a experiência  anônima das normas sociais e dos preceitos técnicos que aplica. Assim, se relacionamos os poemas com outros regimes discursivos que constituem o seu presente, observamos que suas images/stories  transformam tópicas extraídas deles,  evidenciando os preceitos técnicos com que o destinatário deve avaliar a eficácia da  forma efetuada.
Com Norbert Elias, sabemos que, numa sociedade de corte como  a portuguesa do século XVI, a capacidade de determinar a natureza e o valor das relações de troca simbólica estava em jogo como padrão de distinção social também nas metáforas intelectualmente proporcionadas da poesia, o que implica a existência de modelos retóricos, poéticos, éticos, filosóficos e políticos partilhados pelo poeta e por seus públicos,  por meio dos quais as transferências metafóricas  eram processadas, avaliadas e fruídas. Diferentemente da poesia moderna, em que a invenção é uma liberdade livre, a arte de Camões é mimética: sua liberdade de invenção é  restrita pelos preceitos retóricos que funcionam como limites convencionais do seu arbítrio poético. Em seu tempo, a maior ou menor deformação engenhosa das images/stories operada nos limites prescritos de cada gênero indicava para o destinatário constituído nelas e por elas a maior ou menor amplitude do engenho e da arte  aplicados à construção do ponto de vista poético e político adequado para recebê-las. No seu presente, a funcionalidade mimética e valorativa da imagem poética constituía dois tipos de destinatários textuais definidos por padrões da racionalidade de corte, discretos e vulgares, figurados como tipos intelectuais conhecedores do artifício aplicado (discretos) e ignorantes do mesmo (vulgares). Em sua poesia, principalmente a lírica de medida nova de tradição italiana  e de medida velha peninsular, a agudeza intelectualista das images/stories especifica a superioridade do destinatário discreto, capaz de refazer as operações dialético-retóricas aplicadas à maior ou menor deformação das tópicas tratadas. Como um sinônimo do sujeito da enunciação, o destinatário discreto recebe a representação duplamente, pois é figurado como tipo capaz de compreender não só a significação engenhosa da imagem, mas também a perícia técnica do artifício aplicado à invenção dela. Quanto ao destinatário vulgar, a imagem poética era construída contra ele, como nos autos de Gil Vicente, acusando-o da falta das virtudes convencionais, e para ele, divertindo-o com vulgaridades sem regras aparentes do juízo.