A PASSAGEM DE RONALD DE CARVALHO POR PORTUGAL

Antes de examinar a contribuição de Ronald de Carvalho para o projeto do Orpheu, que é efetivamente o que parece mais importante, quando se fala de Portugal, conviria repassar muito rapidamente alguns aspectos de sua biografia naquilo que ela tem de européia. No ano de 1913 o poeta fixa residência em Paris e estuda Filosofia e Sociologia. O simbolismo, o decadentismo e a poesia finissecular, bem como os novos rumos da arte na Europa atraem sua atenção. Em 1914 exerce a diplomacia e passa a residir em Lisboa.

Concomitantemente, conhece alguns dos futuros integrantes do Orpheu e imprime trabalhos na revista A Águia, abrigo dos saudosistas, mas que acolhera o Fernando Pessoa de “Na floresta do alheamento”, um ano antes.

Com efeito, no número de jul.-dez. de 1914 desse periódico publicam-se “O soneto da Amphora ou a morte de Byblis” e “Ophelia”[1]. O primeiro ocupa-se do lendário grego, explorando nevrosidades decadentes, o segundo agrega uma sensibilidade de jaez parnasiana, como se pode depreender da estrofe de abertura do soneto.

Longa irmã de um jardim de silêncio e de bruma
Onde há mãos pela sombra abrindo escrínios de ouros,
Num gesto de colher uma asa que se esfuma
Num tom de lilás velho entre topázios louros…

No ano seguinte, publicaria um curto ensaio na mesma revista. O primeiro intitula-se “O irreal na arte”[2]. Aí ocupa-se das artes plásticas, mas menciona Correia d’Oliveira e Antonio Patrício, seus contemporâneos. Embora persista em sua linguagem uma preocupação descritiva parnasiana, Ronald de Carvalho defende o temperamento individual do artista, a sensibilidade como ponto de partida do exercício estético. Nesse sentido, acata algumas posições que fazem parte quer das expectativas do movimento moderno europeu, quer do temperamento do homem modernista. Ouve-se um sussurrar de Fernando Pessoa quando Ronald de Carvalho afirma que “todas as sensações estão na nossa alma em princípio”[3], bem como quando defende que “a arte é um fenômeno do temperamento de cada um”[4]. No número seguinte, assina “Do amor da beleza e da vida…”[5] Nesse ensaio Ronald de Carvalho persiste na defesa da experiência vital como elemento aglutinador da sensibilidade do artista, mas se mantém na parnasiana postura da contemplação assistida pelo raciocínio, pela inteligência e pelo cálculo, oscilando entre uma linha e outra, entre o temperamento individualista e a atitude parnasiana.

Mais significativo entretanto é o poema que no mesmo volume assinaria. Trata-se de “ A hora de penumbra e ouro”[6]. Intersecções, cruzamentos sintáticos, transgressões semânticas, e uma receptiva leitura de Sá-Carneiro estão aí presentes. Eis as estrofes de abertura.

A hora é veludo!
quero beijá-la
no espelho mudo
da minha sala

Anda por tudo,
passa e não fala…
a hora é veludo
quero beijá-la.

Pousa num vaso,
Roça-lhe o flanco
De crisópaso,

Ah! Vou tocá-la!
e um lírio branco
tomba na sala…

Mesmo após ingressar na fileiras do Orpheu, o poeta brasileiro persistiria como colaborador d’A Águia. Em 1916, no número  de jan.-jul.  imprimiria um canto de amor, denominado “Balada”[7], que é de certo modo um retrocesso na evolução modernista do autor. E em 1921 o poeta encerraria sua participação na revista do Porto, publicando no volume de jan.-jul. desse ano o poema ‘De “Sob a vinha florida”’[8].  O núcleo do poema expande-se a partir da constatação de que a vida é breve. “Vive depressa”, recomenda o sujeito lírico do poema, “a vida passa…” E, adiante: “Louco! Que esperas tu na vida rude e incerta? /Imita a ave feliz de asa serena e leve, / pois serás no esplendor dos mundos, dentro em breve, / um punhado de pó sobre a terra deserta…”, acusando assim um momentâneo sinal de fadiga existencial, ou, talvez, o reconhecimento de que tivesse falhado aqui e ali. Sinal de maturidade?

Entretanto, A Águia não foi a única revista, além de Orpheu, a receber colaboração do poeta brasileiro em Portugal; em 1916, Ronald de Carvalho faria imprimir “A estrada sem fim” na revista  Alma nova[9] (número de abril), de Lisboa, poema que renovaria o apego do poeta ao descritivismo parnasiano. Não nos esqueçamos também que ainda em 1916, mais precisamente no final do ano, o poema “Claro de Lua” de sua autoria seria publicado na revista lisboesta Atlântida[10]. Nele, o poeta revisitaria o motivo do repuxo – que comparecerá, verá o leitor, em sua colaboração órfica –, mas aí ao lado de plangentes violoncelos que choram e o sujeito lírico evoca uma “inatingida e irreal criatura”[11]

Já é tempo de examinarmos sua contribuição como poeta participante do movimento do Orpheu. Vamos a ela. Constitui-se de cinco trabalhos: “A alma que passa”, “Lâmpada noturna”, “Torre ignota”, “O elogio dos repuxos” e “Reflexos (poema da Alma enferma)” e comparecem enfeixados com o título geral de ‘Poemas’[12].

Nesses versos, Ronald de Carvalho realiza, genericamente falando, a passagem do Simbolismo/Decadentismo ao paulismo, fixando entre ambos um pontilhão. Sua lírica, por essa razão, transita entre o lado simbolista-decadentista e a outra margem, de onde espreita ora certo sensorialismo assemelhado ao de Sá-Carneiro, ora uma lírica intelectualizante de um Fernando Pessoa paúlico e pessimista.

De fato, se na primeira parte do poema “A alma que passa”, intitulada ‘Sentido’, Ronald se aproxima de Sá-Carneiro — e o faz mais pelos motivos que visita,  do que por tentar um paulismo à maneira, na segunda parte, ‘Legenda’, se apresenta francamente decadente (“A vida é uma princesa dolorosa / no seu castelo de rubis e opalas, tangendo ao poente em harpa silenciosa / uma agonia de almas e de falas…”), ao passo que, ainda, na última, denominada ‘Gênese’, se imbui de um intelectualismo exploratório, aparentado ao de Pessoa ipse e ao de Guisado. Claro, o parnasianismo não o abandona.

Vejamos a primeira parte do poema.

I — Sentido

Fujo de mim como um perfume antigo
foge ondulante e vago de um missal
e julgo um alma estranha andar comigo,
dizendo adeus a uma aventura irreal.

Sou transparência, chama pálida, ânsia,
última nau que abandonou o cais.
No alvor das minhas mãos chora a distância
proas rachadas, longes de ouro, ideais…

Sonho meu corpo como de um ausente,
náufrago e exsurjo dentro da memória,
acordo num jardim convalescente,

vago perdido em outros num jardim,
e sinto no clarão da última glória
a sombra do que sou morrer em mim…

Aí temos uma revisitação de motivos que já deparamos em Sá-Carneiro, como a fragmentação do ser e o estranhamento (“fujo de mim”; “julgo uma alma estranha andar comigo”) , ao lado da exacerbação dos sentidos de modo que o sujeito lírico se imagina “transparência, chama pálida, ânsia” — como se física e espiritualmente se diluísse no mundo.

Apaixona-o o movimento de evasão, a partida, a lírica do exílio para dentro, enfim, em que a “última nau que abandonou o cais” é uma metáfora da viagem dentro de si, bem como do desejo de se libertar, e se evadir para um mundo diverso do que o rodeia,  num comportamento escapista que se repetirá inúmeras vezes entre os do Orpheu.

Igualmente, como em Sá-Carneiro, presenciamos  um processo alucinatório dos sentidos em que estes, bem como a mente, se encontram espacialmente desligados do corpo, (“sonho meu corpo como de um ausente). Assim, vagam como espíritos, enquanto o ser cai no desvanecimento (“sinto no clarão da última glória / a sombra do que sou morrer em mim…”).

Passemos agora diretamente à última parte do mesmo poema, em que, como sugerimos, Ronald de Carvalho pratica uma lírica mais cerebral,  tangida por uma ambição metafísica de discernir.

III — Gênese

Antes a alma que tenho andou perdida,
foi pedrouço a rolar pelo caminho,
topázio, opala, pérola esquecida
num bracelete real; foi caule e espinho,

bronze que a mão tocou, áurea jazida
por entre as ruínas de um país maninho,
e refletiu, fatal, o olhar da Vida
no corpo em sangue de um estranho vinho…

Foi casco medieval, foi lança e escudo,
foi luz lunar e errante lanterna,
e depois de exsurgir, triste de tudo

veio para chorar dentro em meu ser
a amarga maldição de ser eterna
e a dor de renascer quando eu morrer…

Nesse último trecho do poema, percebemos que a “alma”, a que o poeta alude, tem os atributos da própria existência, amealhando vivências e sofrendo mudanças, como um ente viajante, apartado do sujeito, que regressa. Essa alma ronaldiana existe primeiramente sem destino ou objetivo (“foi pedrouço a rolar pelo caminho”); depois cambia e ganha experiências (“foi […] topázio, opala, pérola esquecida num bracelete real”); para, após, se fixar (“foi caule”) e ferir/brigar (“espinho”), etc., etc. — e por fim, ainda, “chorar dentro” do ser o destino de viver sempre.

O mesmo se pode observar em “Reflexos”, poema-fecho da participação única de Ronald de Carvalho no documento órfico assinalado — e cujos primeiros versos são os seguintes: “Minha alma treme como um lírio / dentro da água dos teus olhos — / minha alma treme como um lírio, / com as mãos varadas por abrolhos”.

Examinemos, ainda, de Ronald de Carvalho, o poema  “O elogio nos repuxos”, em que se reafirma o resistente jaez parnasiano, contaminado de simbolismo, transfundido a partir da influência de Sá-Carneiro:

Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando
em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz…
Canto da água que desce em poeira, leve e brando,
canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma — a cinza tem afagos…
Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,
passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,
(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos —
curvos leques a abrir e a fechar num adejo,
— mão vencida que vem de vãos incitamentos,
mão nervosa que vai mais cheia de desejo…

Volúpia de fugir  — ser longe e ser distância,
e tornar logo ao cais e de novo partir!
Volúpia — desejar e não possuir, ser ânsia…
Repuxos a descer, repuxos a subir…

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,
Andar dentro de si perdido na memória…
(Caçadores ideais de mundos e de estrelas —
repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória…)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!
desespero, alegria — o lábio, a mão… e um beijo.
Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando —
Ir tocar a ilusão e morrer em desejo…

Analisando a disposição dos motivos no poema, constatamos que o repuxo, e o entardecer,  presentes no primeiro verso e descritos de modo impressionista, são o primeiro plano paisagístico. Do plano de fundo fazem parte, como  espectros, naus, velas, lagos, mencionados na estrofe seguinte. A primeira estrofe e a terceira estrofes cuidam, assim,  do plano imediato. A segunda, do plano de fundo. E na última predomina um enunciado psicológico, não descritivo, onde por fim ressurge a imagem do repuxo, subindo e descendo.

Percebe-se aí claramente o predomínio de images/stories simbolistas, tais como o entardecer, as tonalidades frias outonais, a sombra; os espectros, que nos fazem recordar a produção dos colaboradores da revista  A Águia, e que se multiplicam sem justa definição no plano de fundo (que é também o plano do imaginário): “naus”, “lagos”, “velas”. Notamos ainda um gosto por certo luxo extático (“plumas”, “marfins”) herdado da decadência — e que contaminou a produção órfica e pré-órfica. Mas o cerne do poema vamos encontrar no “repuxo”, metáfora da oscilação do sujeito lírico entre a ânsia e o abatimento[13].

De fato o repuxo é a única realidade do poema, além da presença do enunciante. Todo o resto pertence ao imaginário, ou, melhor, ao imaginado (no âmbito da equação sujeito-repuxo).

O que vemos então nesses versos de Ronald de Carvalho? Vemos sem dúvida um paulismo, mas a sequência de  estados de alma-paisagens não está presente. No lugar dela temos a paisagem fixa, estimulando estados de alma conflitantes (“volúpia de fugir — ser longe  e  ser  distância, / e  tornar logo no cais e de novo partir!”).  Temos   pois  um  paulismo refreado pela herança simbolista, e que, por esse motivo, se fixa numa imagem geradora central, explorando sua tensão metafórica ao longo de todo o poema. Assim, no paulismo dos versos acima não vamos encontrar uma sucessividade de estados de alma-paisagens, como no paulismo à moda pessoana. Nem tampouco iremos encontrar um paulismo à Sá-Carneiro, ou seja, um paulismo lastreado na utilização de sucessivas metáforas concreto-abstratas. O que temos no poema de Ronald de Carvalho é um outro paulismo, que podemos chamar de simbolismo-paulismo.

Há muito o que refletir sobre a experiência portuguesa do poeta, e, cremos, sobre sua importância no movimento moderno das artes. O debate sobre o tema está reaberto.

Ao regressar ao Brasil, o poeta aderiu ao movimento modernista aí em franca evolução, integrando-o, mas sempre trazendo na bagagem a veia parnasiana, mais ou menos conturbada pela releitura do simbolismo e pela experiência modernista em Portugal e, mais adiante, pela que auferiu no retorno a seu país de origem. Isto, contudo, já não cabe discutir aqui. É coisa para outro ensaio.

 

Ronald de Carvalho ao centro com Oswald de Andrade (primeiro à direita)

 

 

 


[1] CARVALHO, Ronald de — O soneto de Ânfora ou a morte de Biblis. A Águia Porto, 2. série, v. 6: 16, jul-dez 1914; e Ofélia. Ibid., p. 16, respectivamente.

[2] Id. – O irreal na arte. A Águia, Porto, 6ª. Série, v 7:30-3, ja.-jul 1915.

[3] Ibid. p. 30.

[4] Loc. cit.

[5] Id. – Do amor, da beleza e da vida. Op. cit.,. Porto, 2. s, v 8:22-4, ago-set 1915

[6] Id. – A hora de penumbra e ouro. Op. cit., p. 114-16.

[7] Id. — Balada. Op. cit, 2. série, v. 7: 143, jan-jul 1916.

[8] Id. — De “Sob a vinha florida”. Op. cit., 2. série, v. 19:122-3, jan-jul/1921.

[9] Id. – A estrada sem fim. Alma Nova. Lisboa, ano2 (4): 55, abril/1916.

[10] Id. – Claro de Lua. Atlântida. Lisboa, ano 2 (14): 122-3, 15/dez/1916.

[11] Ibid., p. 122.

[12] Id. – ‘Poemas’. Orpheu, Lisboa, ano 1, n. 1, p. 29-34, jan-fev-mar 1915.

[13] Clara Rocha entendeu bem a questão: “o fulcro do poema é o símbolo do repuxo — representação da dualidade elevação/queda, variante do complexo de Ícaro em Mário de Sá-Carneiro e, dum modo mais geral, figuração da ilusão, do engano do mundo” (Cf. ROCHA, Clara – Revistas literárias do século XX em Portugal. Lisboa, Imp. Nac.-Casa da Moeda, 1985, p. 336).