A razão em Camões

Ao deslumbramento dos primeiros lusíadas com os “chins” e as “cousas da China” a partir dos primeiros contactos em Malaca e que desde o Tratado de Fr. Gaspar da Cruz (1569-1570) nunca deixaram de ter expressão positiva (LOUREIRO, 2000), corresponderam os chineses com a tolerância em ter à ilharga, encravado no distrito de Hengshan, o porto de Amagao, onde os portugueses se foram deixando estar.

Todos ganharam com isso.

Porque Camões esteve no centro do turbilhão das «renovadas ideias e tendências culturais» de que ele e os seus contemporâneos (Diogo do Couto, Garcia de Orta, Fernão Mendes Pinto) foram os “portadores” do Oriente para a Europa, podendo ainda dizer-se, em complemento, ter contribuído para o esforço comum lusíada n’ “a formação da Era Moderna da História da China, que resultou da tensão verificada entre as mudanças em curso na sociedade chinesa quinhentista e a divulgação das ideias científicas europeias pós-renascentistas” (Jin Guo Ping, 2007, p. 40).

Porque Camões esteve entre o grupo de intelectuais do Renascimento português cuja atitude era a divulgação, a publicação da obra em língua vulgar, para que o novo conhecimento fosse difundido não só entre os latinos e homens de ciência, mas também entre os leitores comuns e que se inseria na “tendência moderna de abandonar o latim” começada na Itália no século XV.

E tendo passado pela China (Macau), Camões já sabia, quando compôs o Canto X e reescreveu, em Moçambique, parte do Canto VII, que a máquina burocrática do grande Império do Meio era, há séculos, dirigida por uma elite intelectual e moral e que qualquer junzi (homem de bem), ainda que plebeu mas dotado de virtude moral e de educação, podia apresentar-se com êxito aos exames da carreira administrativa, abertos a todos, independentemente da riqueza ou do nascimento.

É eco disso a exortação ao rei no Canto X (149, 5-8; 150, 1-2). Ele sabia que era possível um ‘’governo de letrados’’ estabelecido segundo a prática chinesa da virtude moral, da educação, sem consideração de nascimento ou de riqueza. Por isso a lusitanidade, segundo a entendeu Camões, não se poderia afirmar senão como heterodoxa e dissidente. A obra dele está pejada de sinais de pessimismo, por exemplo, contra o amolecimento da Pátria (Silva DIAS, 1988, p. 20): “No gosto da cobiça e na rudeza /De uma austera, apagada e vil tristeza” (Canto X, 145).

Porque Camões, que aqui soube da notícia da Grande Muralha, esse “muro e edifício nunca crido, que entre um império e o outro se edifica” – referindo-se aos dois impérios que a Muralha separava, o Ming e o Tártaro –, não deixou de falar dela no seu poema épico e de glorificar o Império que tal obra erguera: «certíssimo sinal, e conhecido, /Da potência real, soberba e rica (Canto X, 130, 1-4).

Porque Camões, patrimônio linguístico dessa pátria lusófona comum que se espraia pelos quatro cantos do mundo, é de há muito o símbolo de cada um dos falantes da língua portuguesa, mesmo em Macau, China.

Finalmente, só não teria ficado contente, quando por aí visse, ouvisse e lesse e não pudesse ignorar, quem ponha ainda em dúvidas aquilo de que há tanta prova documental, a começar pelo testemunho do grande amigo, companheiro de preleções e estúrdia em Goa, o cronista Diogo do Couto, a passar pelo próprio Poeta e a terminar em muitos outros de que já dei conta em sede própria:

  • que ele, Luís Vaz, chegou até à fronteira do “império sombra” do Império Português do Oriente com o Império Ming, Macau, tendo aí sido “provedor de defuntos”, regressado com uma moça china, que morreu num naufrágio na latitude do Mecom (Década VIII e Os Lusíadas, X, 127);

  • que, de Macau, descreveu o comércio da Nau do Trato (prata fina e especiarias) (Canto X, est. 131, 3-8), que ia em direção de umas ilhas meio escondidas, que ele chama “Japão”, que “responde de longe à China” (Canto X, 131);

  • que, de Macau, se apercebeu da existência e falou da Grande Muralha da China (1572: Os Lusíadas, X, 130), antes da data que Bergreen refere ter a própria cartografia chinesa começado a registrá-la (1579), embora saibamos, por João de Barros (1564), que já antes isso terá acontecido.

Mas, por ora, Camões descansa em paz e zela por Macau do alto do outeiro do Patane, lá onde penou de outros amores e se sepultou em vida, transformado em penedo mudo e quedo, roído de saudade e frustração, qual Mostrengo rejeitado, atemorizador, atento e vigilante, “abraçado ainda ao duro monte/ De áspero mato e de espessura brava” (Os Lusíadas, V, 56, 3-4).

Mas também de sobrolho franzido quando ouve, ainda hoje, de compatriotas seus, que ele – o primeiro escritor europeu a chegar à China e a fazer a ponte entre a Europa e o Oriente! – não esteve em Macau porque não fala de Macau! Como se, como diz Austin Coates, ele tivesse de falar, em 1562-64, de uma Macau que ele não podia adivinhar que, depois de Liampó, Checheo, Sanchoan, Lampacau e outros sucessivos portos, viesse a ser durante séculos o único «posto-avançado de toda a Europa na China». Urbe que, na sua época, “seria tão-somente a de uma fila interminável de cabanas de colmo e troncos de bambu presos uns aos outros de modo a formarem andaimes contra inúmeras paredes de pedra que se multiplicavam rapidamente pela cidade, sem qualquer garantia de virem a ser utilizadas na construção de edificações mais duradouras, dado que o estatuto de Macau como possessão portuguesa ainda não tinha sido confirmado (por Goa)”.

Mas, embora carrancudo, para já tranquilo e agradecido. Porque se nos amores sempre a “Razão foi de Amor vencida”, viu desta vez que Amor e Razão se aliaram para cumprir o aforismo de que “amor com amor se paga”, num pragmatismo de dois povos que sempre souberam estar juntos para cumprir a concepção universalista da unidade essencial do gênero humano e cumprirem um destino comum que se iniciou por assentamento em 1553/54.

 

Camões

 

13

Mas, já chegado aos fins Orientais

E deixado em ajuda do gentio

Rei de Cochim, com poucos naturais,

Nos braços do salgado e curvo rio,

Desbaratará os Naires infernais,

No passo Cambalão, tornando frio

De espanto o ardor imenso do Oriente,

Que verá tanto obrar tão pouca gente.

 

14

Chamará o Samorim mais gente nova;

Virão Reis de Bipur e de Tanor,

Das serras de Narsinga, que alta prova

Estarão prometendo a seu senhor;

Fará que todo o Naire, enfim, se mova

Que entre Calecu jaz e Cananor,

De ambas as Leis imigas pera a guerra:

Mouros por mar, Gentios pola terra.

 

Referências bibliográficas:

BERGREEN, Laurence: Marco Polo – De Veneza a Xanadu, Casa das Letras, 1ª ed. Outubro 2008.

CAMÕES, Luíz Vaz de: Os Lusíadas.

COATES, Austin: Macau-Calçadas da História, ICM/Gradiva, 1ª edição, 1991.

COUTO, Diogo do: Década VIII.

DIAS, J. S. da SILVA: Os Descobrimentos e a Problemática Cultural do Séc. XVI, Editorial Presença, 3ª edição, 1988.

JIN Guoping e WU Zhiliang: Revisitar os Primórdios de Macau: para uma nova abordagem da História, Macau, IPOR/FO, 2007.

LEYS, Simon: Ensaios sobre a China. Lisboa: Livros Cotovia, 2005.

LOPES, David: A expansão da língua portuguesa no oriente durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Porto, 1969.

LOUREIRO, Rui Manuel (introdução, leitura e notas): Em Busca das Origens de Macau (antologia documental), Museu Marítimo de Macau, 1997.

LOUREIRO, Rui Manuel: Fidalgos, Missionários e Mandarins – Portugal e a China no Século XVI. Fundação Oriente, Lisboa, 2000.

Publicado originalmente em Hoje Macau e aqui republicado com pequenas alterações.