Estilo agudo em História: Ciceronianos & anticiceronianos do século XVII

Até hoje, o que se estudou, no Brasil, sobre estilo seiscentista em prosa data de 1950. Afrânio Coutinho, talvez único no Brasil a tratar da questão, caracteriza-a pela oposição ciceronianismo/anticiceronianismo dos estilos humilde/grande, mas não define, nem delimita um corpus ao chamar de “prosa barroca” os textos que estuda. Vários gêneros são apagados pela etiqueta. A tese de Coutinho não dá conta da questão por ser muito fluida. Embora trate do modelo ciceroniano em prosa, Coutinho afirma haver, no século XVII, o predomínio de um anticiceronianismo que propõe Tácito e Sêneca como modelos, ao lado de retomadas da retórica aristotélica, contra o ciceronianismo. [2]

Apoiando-se, principalmente, nos trabalhos de Morris Croll, Coutinho caracteriza o genus humile com a citação de Muret. [3]

Marc-Antoine Muret foi introdutor da “latinidade” da Idade de Prata (ou de Ouro) na Sapienza de Roma. Criador de uma nova escola e de um tipo de mestre que pensa o anticiceronianismo. Há, dele, uma recepção de Sêneca (1575), de Juvenal (1575) e de Tácito (1580-1581). O letrado é uma espécie de novo ideal de eloquência pós-tridentina. Salva a retórica humanista ciceroniana num momento em que o augustinianismo afixado pela Igreja romana reduzia essa retórica humanista a não mais que uma referência de claridade (clareza) e a um suporte para uma triunfante retórica de citações bíblicas e patrísticas.

Muret procura preservar o máximo possível, e com consentimento do Papa e da Cúria, o valor humanista de um discurso da concinnitas da Idade de Ouro ciceroniana. Conservar ao ciceronianismo laico uma existência prestigiada sobre a cena oficial da Contrarreforma implica, do ponto de vista do estilo, uma dupla renúncia. Não convêm a retórica mundana e o gosto da delectatio característicos das cortes de Júlio II e de Leão X, nem a obsessão purista e a busca do “graal ciceroniano” próprias ao humanismo dos professores e letrados aliados de Longueil e de Dolet. Muret proclama um ciceronianismo adulto, liberto de imitação única, decidindo renunciar a sacrificar a precisão de noções à ideia de belo. Vitória e revanche póstumas, na Roma dos papas, de Erasmo e de seus Ciceroninus. Os títulos e o vocabulário cristãos, muito marcados de res e de persuasão, combinam-se com elegância propriamente ciceroniana para construir, exceto os da prédica, o estilo confessional e emblemático da Igreja romana. A síntese das virtudes estilísticas exigidas pelas circunstâncias e pelas coisas modernas e cristãs eram a clareza e a adequação, mas também a vivacidade, a graça e o tempero.

Muret reabilita Tácito (1580) no coração do santuário ciceroniano (Sapienza), dando aulas para retores, oradores, poetas e para historiadores. Tácito, lido por Muret, propõe (nos Anais) uma escola de clareza e heroísmo às almas da aristocracia que frequentava os cursos modernos na Sapienza. Para favorecer essa pedagogia moral, Muret leva a obsessão estilística normalmente oposta aos historiadores do Império: obscuridade e inconcinnitas. Sem querer substituir, na sua prática de orador, o laconismo tacitista ou senequista ‘à mira tuciana’, Muret desembaraça um princípio essencial da retórica anticiceroniana do fim do século. Ele afirma a beleza admirável de um estilo em ramas, até obscuro, cheio de grandeza e de majestade. Assim mesmo, a asperitas do estilo, que Tácito imprime, com a obscuridade, segundo modelo de Tucídides, é um aspecto elegantemente em conformidade com uma prosa ornamental destinada a imprimir na alma do leitor aquela tensão a mais que a prepara ao sublime do pensamento.

Muret faz o elogio das virtudes dicendi pelo senso refinado da tradição latina, radicalmente estranho à eloquência ciceroniana e particularmente daquela rude brevidade – contrária à obscuridade – em consonância com o discurso lapidar das grandes almas da Europa cristã. Muret ergue, sem saber, o primeiro arco do “arco do triunfo” sob o qual passaria Justo Lípsio. O segundo arco foi edificado em 1582. Muret foi contratado pela Sapienza para explicar as Epistolae de Cícero. Na Oratio sobre as cartas, diz que a eloquência oral dos antigos só existe sob forma de arte epidítica (sermões, discursos acadêmicos, elogios fúnebres). A eloquência política florida de citações continua viva no gênero epistolar – meio de participar das coisas públicas, gozar intimidade dos príncipes, para os aconselhar e os esclarecer, por isso é preciso um ânimo afinado pelo exercício da sagacidade e do estilo. A carta é meio de expressão privilegiado do orador laico e de sua voz muda. A eloquência sacra reserva aos predicadores os antigos prestígios da palavra pública. Platão, Sêneca, os padres da Igreja fornecem os benefícios da interioridade e os recursos da eloquência popular – plano da dignidade e da eficácia, distinguindo-se pela elegância a vivacidade alusiva. Apesar da referência a Sêneca, Muret continua ciceroniano, pois não conjuga o estilo coupé, sentencioso e obscuro celebrado por Tácito. Muret continua partidário fiel ao tullianus stylus (tradição epistolar ciceroniana instituída na Europa moderna a exemplo de Bembo, Sadolet, Manuce, Vettori, Antoine Gouvéa, Sebastiano Corrado e Turnèbe, em oposição ao gênero epistolar lipsiano). [4]

Humile é sinônimo de um “estilo filosófico”, de “ensaio”, ao contrário da “natureza ornamental” figurativa do genus grande. O estilo anticiceroniano não apresentaria as figuras de palavra e sim as de pensamento como meios de persuasão.

Croll denomina o estilo humile de ático, porque ensaístico, subtile, familiar, em oposição ao asiático florido e copioso do genus grande. Esta oposição seria, segundo Coutinho, o “barroco em prosa”. O medium “exprimia o ideal de grandeza do século XVII”, enquanto que o genus grande, ciceroniano, é visto como redondo, periódico, oratório, peculiarao“Renascimento”. [5]

Os trabalhos de Croll, datados das primeiras décadas do século XX, eram os únicos disponíveis sobre o tema até os anos 50 do século passado. O Estilo barroco em prosa, de Croll, datado de 1929, é um estudo apenas descritivo. Ocupa-se dos estilos no âmbito da frase e do período prosaicos. [6] Seu recorte é inglês e francês, não abarca práticas discursivas ibérico-italianas. Croll não considera as moralizações teológico-políticas, apenas as “formas”. Lembre-se, por exemplo, das moralizações católicas de Sêneca, como dos Libros de Lucio Anneo Seneca, en que tracta de la vida bienaventurada, de las siete artes liberales, de la providencia de Dios, de los preceptos e doctrinas (…), Traduzidos en Castellano, por Mandado del muy alto Principe, El rey Don Juan de Castilla de Leon el Segundo e do Espejo de Bienecho Reso y Agradecidos que Contiene los Siete Libros de Beneficios de Lucio Aneo Seneca, Insigne Filosofo Moral: Agora de Nuevo Traduzidos de Latin en Castellano por Fray Gaspar Ruyz Montiano, de la Orden de San Benito (…). O primeiro exemplo não chega a ser uma tradução do texto de Sêneca, mas são comentários, glosas moralizadas do filósofo estoico. Veja-se um extrato retirado do “Prólogo” do Espejo de Bienecho Reso (…), com o qual se comprova a moralização:

em todas las partes que Seneca como gentil habla de Dioses en número plural, pongo un solo Dios: porque la gente vulgar no lea cosa que no sea conforme a nuestra Religión Cristiana. [7]

Penso, como hipótese, que as “formas” informem; pois no recorte ibérico-italiano elas são mediadas pelas doutrinas católicas que não separam formas estilísticas de funções políticas. Penso isso, apoiando-me no trabalho de Alcir Pécora. [8]

Ao contrário do que pensa Coutinho, que inverte os estilos e as épocas, o gênero histórico seiscentista parece não tão anticiceroniano assim. Ainda que se admita que o estilo na prosa histórica seja, predominantemente, médio, não se vê no gênero a “expressão do ideal de grandeza do século XVII”, nem se pensa o predomínio do ciceronianismo no “Renascimento”, como Coutinho, mas guerra entre partidários.

Entenda-se a elocutio como a ornamentação das tópicas que põe majestosamente em cena a política católica pós-tridentina e não o “ideal de grandeza” definido por Coutinho.

Neste sentido, a hipótese deste trabalho é a de que os debates sobre estilo e sobre o poder das representações no tocante ao gênero histórico seiscentista podem ser interpretados como uma história de longa duração ou longuíssima. Particulariza-se a discussão com Dell’Arte Historica (1636) [9] de Agostino Mascardi.

O Dell’Arte Historica insere-se na polêmica italiana do estilo agudo, dos estilos ciceroniano/anticiceroniano aplicados, principalmente, ao discurso filosófico, às cartas, à oratória sacra e ao gênero histórico do século XVII. Na época, há particularizações também católicas da polêmica em Portugal, na Espanha e na França, como por exemplo: Frei Vicente do Salvador, Francisco Manuel de Melo, Manuel Severim de Faria, Cabrera de Córdoba, J-L Guez de Balzac. [10]

Os debates sobre estilo e sobre o poder das representações podem ser interpretados como uma história de longa duração ou longuíssima. Desde o século XV, letrados como Paolo Cortesi movem-se tendo Cícero como modelo único para imitação em prosa; enquanto Angelo Ambrogini, entre outros, pensa em modelos que incluem Tácito, Sêneca e Quintiliano, entre outros. O chamado ciceronianismo/anticiceronianismo “humanista” dos séculos XV/XVI remonta à querela romana antiga do estilo ático x asiático. A discussão seiscentista do estilo agudo concernida à oratória e à prosa histórica pode ser pensada como apropriações e particularizações de rivalidades estilísticas e de poderes, que reciclam as disputas romanas pelo estilo; depois, as chamadas arengas “renascentistas”, cujas interpretações católicas, no século XVII, são desdobramentos específicos e singulares. É nesse sentido que se utiliza a categoria longa duração. Não se pensa uma aplicação da categoria em discursos do gênero, nem nos preceitos sobre o estilo do gênero histórico das preceptivas ou textos prescritivos. Porém, a categoria é pensada pela permanência secular dos debates sobre estilo, cujas categorias em jogo são interpretadas de modos diferentes, mas permanecendo em uso.

Em 1636, Agostino Mascardi, “Príncipe” da Academia dos Humorados de Roma, publica o Dell’ Arte Historica. Os “humorados” dedicavam-se à prática das letras e “filosofia moral” e à pratica de uma poesia sublime, em conformidade com as doutrinas da Igreja Católica pós-tridentina. Lutar contra a heresia, celebrando o florescimento das artes liberais e da filosofia moral, na proteção de uma Igreja consolidada, era o principal intuito desses letrados. Esforçavam-se por praticar uma eloquência didática, eficaz o suficiente para corresponder ao programa teológico-político-retórico de Urbano VIII, rival de Giambattista Marino.

A rivalidade estabelecia-se de academia para academia (“humorados” versus “adormecidos”), de cidade-Estado para cidade-Estado (Gênova versus Roma). A Academia dos Humorados era pública e universitária. A dos Adormecidos era privada e citadina, de formato republicano. Em discussão estava o estilo, em particular o estilo agudo, mas principalmente questões de poder. Mascardi pensava regular o engenho e a agudeza por meio do juízo, enquanto Peregrini propunha um “estilo novo”, em que o engenho e a agudeza se autonomizassem do juízo. Marino foi responsável por uma eloquência sacra, de aliança teológico-retórica, cujos modelos são menos os Padres que os sofistas, seus mestres e rivais. A “segunda sofística”, da qual Marino se apropria, caracteriza-se pelo triunfo do gênero epidítico privado da finalidade cívica, mas tendendo ao deleite.

O Dell’Arte Historica teve, ao menos, cinco edições seiscentistas e três reedições nos séculos XIX e XX. Sua tradução é: Cinco Tratados sobre Arte Histórica. [11] O texto amplifica preceitos retóricos, poéticos e historiográficos de Cícero e de Luciano de Samósata, entre outras auctoritates do gênero, sobre o modo seiscentista de escrever História. Ao que parece, a preceptiva nunca foi citada, nem lida, muito menos aplicada em nenhum estudo brasileiro sobre a História ibérica do século XVII; com exceção, talvez, do estudo que empreendi em nível de doutorado, [12] do qual este trabalho é um desdobramento. [13]

Mascardi elege Luciano de Samósata e Marco Túlio Cícero como auctoritates a serem emuladas e amplificadas, antes que Emanuele Tesauro editasse o Il Cannocchiale Aristotelico (…) (1654) [14] no qual amplifica, como o próprio título diz, com luneta, os preceitos retórico-poéticos de Aristóteles. Mascardi faz uma luneta que, editada anteriormente à de Tesauro, autoriza-se em um polígrafo grego, de origem síria, segundo o decoro da Academia dos Humorados, e em um orador e retor latino, segundo não só o decoro das academias letradas ibérico-italianas, sobretudo, segundo a querela travada com Manzini contra a posição marinista, nas discussões sobre sofística. As duas lunetas, no entanto, devem ter circulado em forma manuscrita concomitantemente, o que era comum, uma vez que compostas como parte da querela acadêmica travada, principalmente, com os marinistas.

A querela Mascardi/Manzini é querela contra os (ou a favor dos) ciceronianos. Querela sobre os usos de Cícero moralizados catolicamente no século XVII. Entre os que reciclavam a primeira sofística e os que reciclavam a segunda. Manzini era partidário de um tipo de narrativa maravilhosa, engenhosa e fantástica, da qual se julgava o opus oratorium maximum, ao contrário dos Padres Famiano Strada e Agostino Mascardi, que eram propensos a uma eloquência sagrada, cuja narrativa oratório-historiográfica deveria ser icástica e não fantástica. Mascardi era contrário à nova sofística marinista-senequista, da qual Tesauro era participante e Manzini, na Academia dos Humorados de Roma, o principal defensor. Mascardi atuava a favor do “ciceronianismo devoto”, do qual o Padre Famiano Strada, em 1617, já havia lançado as bases anti-sofísticas de reafirmação no Ratio Studiorum, exercendo uma espécie de pontificado retórico em Roma. Os Padres Mascardi e Strada formariam as bases de uma retórica “da justa medida latina contra a sofística sacra ou profana da narração e da declamação” fantásticas. Contrários, portanto, à obscura brevitas de Justo Lípsio, [15] contrários à “retórica escolar de uma sofística inchada e insincera”, cujas forças se propõem como “bastião de resistência ao marinismo”. Famiano Strada, embora tido como ciceroniano, em 1632, apresenta um modelo de narração fundamentada em pesquisas em arquivos, formulando um estilo que emula Tito Lívio, César e, ocasionalmente, Tácito. O De Bello Belgico – Décadas (1632) e o Prolusiones (1617) funcionam como justa medida latina contra a sofística poética de declamação marinista. O Dell’Arte Historica é continuador das propostas de Strada.

As Prolusiones Academicae foram conferências inaugurais do ano escolar na presença da população romana, cardeais, nobreza, corte pontifical. O adjetivo acadêmico é tirado de Cícero, em alusão à Academia romana fundada por Pomponius Laetus.

Como um tratado de crítica ciceroniana, as Prolusiones Academicae tentavam ocupar o mesmo prestígio que Lipsio ocupava entre eruditos do norte da Europa. Vale-se da doutrina de união entre sagacidade e eloquência, fundada por Sócrates e restaurada por Cícero.

As Prolusiones Academicae são exemplo de oratória católica que demanda ao judicium ciceroniano arbitrar entre extremos, cuja finalidade é empenhar a severidade espinhosa e a doçura sofística em questões de estilo. A obra doutrinária de Strada é uma grande referência de urbanidade nas letras abrangendo todas as espécies de eloquência (poesia, eloquência propriamente dita e história). Ideal de equilíbrio definido para conter os excessos tanto do norte da Europa quanto dos países meridianos, cujas reflexões ganham dimensões europeias. Strada responde notadamente a Lípsio. Submete o ingenium ao iudicium, mas é contra a tirania de um estilo único, a tripertita varietas cara a Cícero. Para Strada os três estilos se aplicam às três funções da arte oratória: provar, deleitar, comover (mover, afetar), definidoras também das diversas formas de discursos oratórios. Essas funções da arte caracterizam as três partes da eloquência que são a história (domínio do estilo humilde), a poesia (estilo médio), a arte oratória (estilo sublime, por excelência). O tratamento reservado à história é eminentemente significativo por ele. Strada propunha libertar das prisões, por meio de Cícero, o gênero histórico, cuja função é a de transmitir a verdade, fazendo dele um genus oratorium maxime. Defendendo a tese do orador que, comparando o estilo dos historiadores do gênero epidítico, Strada limita alguma parte privilegiada (narração de batalhas, discursos, arengas) proceder no genus temperatum: estilo periódico, recusando a ornamentação abundante, as críticas mais fortes que levam ao caráter do discurso histórico à maneira de Tácito. Strada prefere um estilo narrativo, que se dá por meio de um saber objetivo impulsionado por um espírito particular, a um estilo abrupto, discordante (diverso, distante), elíptico, voluntariamente obscuro, que Strada critica como de um novo estilo histórico, cujo modelo é Malvezzi, inserido em um novo panorama da prosa contemporânea seiscentista. [16] Trata-se da polêmica dos concetti contra as sententiae, asianistas meridionais, herdeiros de Marino, cuja fecundidade brilhante abalou, mais insistentemente acreditada, que os eruditos do Norte, onde a severidade viril desenvolveu o aticismo até uma secura mais filosófica que eloquente. O Padre Famiano Strada convida seu orador a dominar o dilema da graça com uma sábia dosagem no interior de um genus sublime, privilégio da eloquência da carne cujo fim último é inflamar o coração dos fiéis. [17]

As disputas estilísticas entre os letrados referidos, principalmente entre marinistas e não marinistas, incluem-se numa polêmica de longa duração, pois trata-se de apropriações católicas de antigas disputas romanas sobre os estilos que também foram comuns nos séculos XV e XVI. Pensa-se com Braudel a fórmula histórica de amplitude secular, em oposição à história ocorrencial:

A história tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituou-se há muito tempo à sua narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto. A nova história econômica e social põe no primeiro plano de sua pesquisa a oscilação cíclica e assenta sobre sua duração (…). Hoje, há assim, ao lado do relato (…) um recitativo da conjuntura que põe em questão o passado por largas fatias: dez, vinte ou cinquenta anos. Bem além desse recitativo, situa-se uma história de respiração mais contida ainda, e, desta vez, de amplitude secular: a história de longa duração, e mesmo, de longuíssima duração. A fórmula (…) tornou-se familiar para designar o inverso do que François Simiand (…) terá batizado história ocorrencial. [18]

A história do ciceronianismo, desde o início, instaura-se como polêmica. No “Humanismo”, ganha estatuto central no tocante à imitação. Envolvendo ataques e defesas; vaidades afetadas por humores sanguíneos e juízos beligerantes, letrados disputam a hegemonia das representações retóricas e políticas.

Antes de tratar da querela, nos séculos XV/XVI, que, segundo proponho, tem relações com o Dell’Arte Historica (1636), convém lembrar que, no século I da Era Cristã, a querela romana do ciceronianismo é embate entre os estilos ático/asiático, ciceroniano/anticiceroniano, nobre ou simples, dos genera grande/humile/vehemens para imitação oratória e, por homologia, para a imitação em prosa histórica. Os principais retores envolvidos são Quintiliano (Cartas a Pompeu) e Sêneca (Controvérsias; Cartas a Lucílio). Posicionando-se contrariamente ao anônimo ad Herenium e a Cícero dos diálogos sobre oratória, do Orador e do Brutus, Quintiliano e Sêneca propõem vários modelos imitativos. Selecionam e combinam essa variedade, não separando imitatio de emulatio. Cícero pensa essas categorias sem propor a ruptura delas com o costume. Para Quintiliano e Sêneca, pela variação e combinação de modelos, as categorias têm mobilidade, singularidade e multiplicidade.

Cícero, no De Oratore define o estilo do gênero histórico como “abundante y sostenido, fluído y apacible, sin la aspereza judicial ni el aguijón de las contiendas forenses”. [19] No tocante ao período da prosa de gênero histórico, Cícero preceitua:

El período más largo es el que puede decirse de un solo aliento. Puede ser natural o artificioso. Y siendo muchos los pies métricos (…) Aristóteles suele excluir de la oratoria el yambo y el troqueo, los cuales, sin embargo, ocurren naturalmente muchas vexes en la conversación y en el razonamiento, pero son pies ligeros y de poco grave sonido. Mucho más convidan los pies heroicos, el dáctilo, el anapesto, el espondeo, en el cual impunemente podemos alargar versos o algo que a versos se parezca (…) La prosa es más libre y suelta, pero no tanto que ande errante y vagabunda, sino que ella misma se modere y corrija. [20]

Por sua vez, na Retórica a Herênio, tratado anônimo, mas atribuído a Cícero, o período é definido como “constituée par un groupe de mots bien suivis exprimant une pensée complète”. [21]

Com respeito aos gêneros do discurso, aos estilos, o anônimo a Herênio preceitua:

Il y a trois genres (nous les appelons formes) dans lesquels rentre tout discours conforme aux règles; nous appelons le premier sublime, le second tempéré, le troisième simple. Le style sublime résulte de l’emploi d’expressions nobles dans une phrase pleine d’harmonie et d’éclat. Le style tempéré emploie des mots de condition moins relevée, mais qui n’ont rien de trop bas ni vulgaire. Le style simple s’abaisse jusqu’au langage le plus familier d’une conversation correcte. [22]

Nos dizeres de Angélica Chiappetta, com relação ao estilo no Orador ciceroniano, há

três genera dicendi. Um, o dos grandiloqui que usam amplamente a gravidade das sentenças e a majestade das palavras, que são veementes, variados, copiosos, graves, que estão preparados para comover e alterar os ânimos. Uns fazem isso com um discurso áspero e severo que não se mostra elaborado; outros são grandiloquentes com um discurso leve, aparentando ser construído e elaborado. No extremo oposto, há o genus dos oradores tenues, que são agudos, que ensinam todas as coisas e fazem-nas mais brilhantes mas não mais amplificadas, oradores sutis e limati, ou seja, burilados, aperfeiçoados. Nesse gênero, alguns mostram-se hábeis, mas, como os rudes e imperitos, não se valem de ornatos; outros, usando da mesma sobriedade, são agradáveis, graciosos e até compõem discursos levemente ornados. Entre os dois gêneros há um intermediário, o dos oradores temperati, que não têm nem o raio fulminante dos primeiros nem a agudeza dos últimos (Or. 20-21). O dizer pode englobar estes três gêneros; no entanto, o escrever fica circunscrito ao genus tenue, ou genus dicendi limatius. [23]

A discussão estilística se atém à tripartição dos gêneros e a seus decoros. O aticismo romano é uma espécie de reabilitação do estilo humilde oratório dos antigos cônsules. [24] Há diferenças entre os aticismos ciceroniano e senequista. O primeiro gera, por meio da clareza e de uma ponderação ornamental, efeitos de “elegância” e de “naturalidade” do genus humile da interlocução oral, com base na neglegentia diligens do decoro das cartas e dos diálogos. O segundo, estoico, caracteriza-se pela brevidade e obscuridade do estilo epigramático, “cortado”, “denso”, às vezes, “solto” ou coupé. O genus medium, asiático, é para Cícero o estilo suave e ornado do gênero demonstrativo encomiástico que visa a ensinar e deleitar, mas sem excessos.

Sêneca aconselha estilo simples, oposto ao ciceroniano:

De que serve compor obras destinadas a durar séculos? Acaso não desejas tu fazê-lo para que a posteridade não silencie sobre ti? Para a morte nasceste: menos enfado tem o funeral silencioso. Pois então escreve para ocupar o tempo em teu proveito, com estilo simples e sem afetação: de menor labor necessitam os que trabalham para o dia. [25]

Ao estudar a arte dialógica e epistolar segundo as Epístolas Morais a Lucílio, de Sêneca, Marcos Martinho dos Santos trata de “reunir os preceitos referentes ao discurso filosófico que Sêneca enuncia nas Epístolas”. Preceitos do gênero dialógico, “de que a epístola é uma das espécies”. Em seguida, trata dos “preceitos do ofício de ensinar, próprio do filósofo, que se opõe, então, ao poeta, a quem cabe deleitar, e ao orador, a quem cabe comover”. [26]A função didática do filósofo pode ser entendida, por homologia, à função do historiador, que também se opõe ao poeta e ao orador, sendo didática. Nesse sentido, percorrer os preceitos em Sêneca, estudados por Martinho, pode ser útil para pensar o estilo histórico, principalmente nas apropriações quinhentistas e seiscentistas aqui estudadas em polêmicas.

Como demonstra Santos, a matéria filosófica, segundo os preceitos da arte dialógica ou epistolar em Sêneca, “deve ser grandiosa, e a elocução, negligenciada”. Negligência deve ser entendida como efeito, conforme observa Santos, “e não defeito da elaboração do discurso”. [27] O texto de Martinho tem sua pertinência, também aqui, por mapear e demonstrar o estilo em Sêneca.

Santos se ocupa, basicamente, das “Epístolas 38, 40, 52, 58, 59, 75, 100, 114 e 115” em confronto com textos de retórica como Retórica a Herênio e com outros de retórica de Cícero, bem como com textos de poética como a Epístola aos Pisões, de Horácio. [28]

Santos propõe que:

Em suma, Sêneca opõe filósofo tanto a poeta como a orador; daí, porém, opõe o gênero do sermo tanto ao gênero poético como ao gênero oratório; daí, enfim, opõe a espécie da epistula tanto às espécies do drama, isto é, à tragédia e comédia, como às espécies da contendio (…). Ora, os mesmos gêneros, assim opostos, já comparecem na exposição que se lê no Orador de Cícero. Lá, ao tratar o gênero dos filósofos, o dos sofistas, o dos poetas, o dos historiadores e o dos oradores, Cícero arranja-os em três, ou melhor, opõe ao gênero dos oradores, por um lado, o dos filósofos e, por outro, o dos sofistas, a quem prende, por sua vez, o dos historiadores e o dos poetas (Cic. Or. 21 72) (…). A par disto, porém, Sêneca ainda articula o discurso filosófico com outro sistema de gêneros tripartite (Cic. Or. 21 69: tripartitae varietatis). Então, qualifica o discurso do filósofo por humilis (100 8), se não por submissus (38 1), remissus (115 2), tenuis (…). Tais adjetivos, porém, são empregados por Sêneca em sentido positivo, (…) para caracterizar a virtude própria do discurso filosófico. [29]

Quanto à elocução, pensada por Sêneca, Santos explica:

A elocução divide-se em duas partes, as quais Sêneca preceitua: na eleição das palavras (…) e na composição (…). À eleição das palavras pertencem as palavras metaforizadas (…), novas (…) e primevas (…), as quais Sêneca preceitua. Ora, este aconselha que o discurso filosófico eleja, antes de tudo, as palavras remissas (…), daí, porém, desaconselha as palavras inusuais, seja as que já não se usam, isto é, os arcaísmos, seja as que ainda não se usam, isto é, os neologismos (…). Enfim, ainda faz menção do uso das figuras, admitindo, primeiro, que se usem aquelas que já comparecem no falar cotidiano, tais como comparações, metáforas e parábolas, e, segundo, que se usem sem exagero, pois tanto usar das figuras mais rebuscadas como abusar das figuras mais comuns são procedimentos caros aos poetas, não ao filósofo. [30]

Em relação à composição das palavras e à oração na frase, segundo Sêneca, Santos diz:

À composição das palavras, por sua vez, ajuntam-se a concordância (…) e o ritmo (…), os quais Sêneca preceitua. Quanto à composição, este aconselha a oração submissa, desaconselha a immissa (40 6), ou melhor, aconselha a ordem natural (…), costumeira (…), desaconselha a ordem inversa (…), perturbada (…), fraccionada (…), em suma, repudia as circunvoluções da frase, [31]

pois

A arte dialógica propõe-nos elaborar o sermo como discurso vizinho à locutio cottidiana. Mas, de um lado, a locutio cottidiana é mais fácil ou descurada que artificiosa ou elaborada. De fato, é ao não elaborado (…) e fácil (…) que visa Sêneca; é ao rebuscado (…) e forjado (…), bem como ao acurado (…), que repudia. [32]

Por homologia, é possível pensar que a oração submissa, construída em ordem natural, costumeira, sem circunvoluções da frase, em estilo contrário ao rebuscado e forjado do filósofo senequiano é semelhante ao historiador anticiceroniano.

O genus vehemens, um dos cernes das censuras anticiceronianas dos séculos XV/XVI/XVII, é amplo, copioso, grave, ornado etc. Caracteriza-se como um dos principais objetos das censuras, pois é, por definição, o estilo oratório que Cícero e os ciceronianos propõem, ao contrário do lacônico senequista-tacitista reciclado no século XVII por meio das apropriações de Lípsio, principalmente. Grande parte dos jesuítas ibérico-italianos associam o senequismo-tacitismo a “maquiavelismo”. Desde o século XVI, em Portugal, há reações de teólogos às propostas de O Príncipe, de Maquiavel. Os teólogos opõem-se a Maquiavel, que se afasta do modelo sacro de virtude cristã. Jerônimo Osório, o principal teórico ibérico contrário a Maquiavel, afirma a excelência do Cristianismo frente às teses políticas do florentino, reconhecendo a vigência de uma ordem moral que a religião de Jesus pressupõe e impõe.

As teses de Maquiavel foram identificadas ao luteranismo, calvinismo, reformismo, que se insurgiam contra a ordem tradicional da Escolástica católica de que Roma era símbolo. Segundo Albuquerque, Tácito “prestava-se às mil maravilhas para a afirmação e atuação (…) do utilitarismo em política. O Tibério de Tácito era o irmão mais velho do Príncipe de Maquiavel”. [33]

O debate “humanista” de ciceronianismo/anticiceronianismo tem por objeto os modos de imitar, não a própria imitação. O que se debate é se Cícero deve ou não ser modelo exclusivo da imitação. Os principais agentes são: Angelo Ambrogni (1454-1494), Paolo Cortesi (1465-1510), Erasmo (1469-1536), Justo Lípsio (1547-1606). Ambrogni, na Lição Inaugural (…) sobre Quintiliano, em Florença, propõe reorganizar e amplificar de modo singular a definição ciceroniana de eloquência dominada pelo gênero epidítico, imitando um extrato do De Oratore (I, 8, 29). Mediado pelo conceito de urbanidade, move-se civilizatoriamente, tendo a retórica como máquina. Polemiza com Paolo Cortesi por meio de cartas. Ambrogni pensa haver leitores que preferem cartas longas, outros cartas breves, outros que desejam maior argumentação. Há leitores que exigem estilo transparente, outros obscuro; negligente, ou diligente; simétrico ou assimétrico; ático ou asiático; a alegria ou a gravidade; as figuras ou a falta delas. Para Cortesi, Cícero é de todos o melhor modelo. Ambrogni nomeia os ciceronianos de “macacos” ou “papagaios” de Cícero.

Contudo, a partir de 1528, com os Diálogos Ciceronianos de Erasmo, a querela é reeditada, ganhando dimensões continentais que se prolongam pelos séculos XVI/XVII. Seus contornos, agora, muito variados, redundam em abundância de edições, comentários e antologias. Erasmo, ao se opor ao culto italiano e/ou italianizante de letrados que elegem Cícero (cartas familiares) mestre da escrita, prolonga e enriquece a posição de Ambrogni, entre outras posições anticiceronianas. Um dos postulados é variar não só pelo prazer de variar, mas para adaptar harmoniosamente o estilo ao destinatário. Outro argumento erasmiano para rechaçar o ciceronianismo é o de que o próprio Cícero não tinha modelo único para imitação oratória. Para Erasmo, os ciceronianos fazem do orador um cristão antes do tempo, entendendo que seu culto é um modo supersticioso e fanático de transformar os próprios ciceronianos em pagãos. Nesse sentido, a censura que se faz é histórica e bíblica.

Entende-se com Luisa López Grigera que

Erasmo insiste, en su polémica contra los ciceronianos romanos, que el latín que él escribe es el mismo que habla, no como los ciceronianos – Bembo por ejemplo – que escriben un latín químicamente puro dentro del ciceronianismo, pero que no lo hablan, pues en vulgar. Entre el puro coloquio espontáneo y el cuidadísimo estilo ciceroniano está el estilo también cuidado, pero aparentemente natural y sin afectación; (…) cómo podría tomarse en outro sentido la afirmación valdesiana si aun en un diálogo, que exigía el estilo humilde, usa del isocolon y de otras figuras? Por otra parte la expresión es la traducción de una  polémica que va más alla de ciceronianos y no ciceronianos, la de la supremacía del uso sobre el arte como disciplina pedagógica. El arte, el sistematizar una lengua, es disciplina retórica válida por sí, pero el enseñar una lengua por el arte puede llevar al fracaso, a que no se hable nunca. Erasmo, al igual que otros muchos humanistas, propiciaba la enseñanza práctica, el uso. De eso trata en su Ciceronianus. [34]

Com Lípsio, o embate ganha certo estoicismo, principalmente colhido em Sêneca. Esse estoicismo define-se por meio da expressão semina virtus. Lípsio a emprega, conjugando a paz terrestre com a celeste, em trabalhos como De Constantia (1583), Manductio ad Stoicam Philosophiam (1604), Physiologia Stoicorum (1604) e na tradução das Obras de Sêneca. Justo Lípsio leva em consideração modelos dos grandes antigos como meio de organizar a cidade (a urbanidade, civilidade – urbanitas, civilitas) terrestre e de fazer uma reflexão e uma aproximação menos indigna da cidade celeste. [35] Lípsio adere à doutrina retórica e teológica de Santo Agostinho, aderindo também às virtudes romanas rejeitadas pelos ciceronianos. As apropriações lipsianas de Sêneca implicam prescrever a “arte de ser bom”, cujas bases estoicas propõem uma ética das virtudes morais mediadas pela razão e pelo controle de paixões como a ira, a inveja e a cobiça entre outras, para que, no discurso e na vida, sejam coincidentes as virtudes da esfera privada com as da esfera pública em termos de “bem comum”, estilo oratório e atividade política. Ou seja, pela concórdia, pela responsabilidade de cada membro em relação aos demais, a noção de “bem comum” implica a consciência dos interesses coletivos, cujo fim se unifica no todo.

A concórdia pertence à doutrina teológico-política de “fonte” estoica. Na mitologia, ela é Eros, o amor, a energia cósmica; na doutrina seiscentista, é uma espécie de simpatia entre as partes do corpo político definida pela doutrina hipocrática e aristotélica dos humores. No século XVII é formulada como senequismo e tacitismo políticos, sendo interpretada pelos jesuítas como antimaquiavelismo. Então, a paz e a divergência são garantidas e previstas por meio desse conceito de concórdia. Na edição de Tácito (1574), Lípsio afirma ser a herança da antiguidade imperial romana o que autoriza um patronato sobre as letras da Europa do Norte, nem sempre conveniente, politicamente, à Espanha e à França. Propõe Tácito e Sêneca como guias dos governantes das sociedades de corte, não só como modelos estilísticos fornecedores do conceito de stylus argutus. [36] Nos prólogos às edições de Tácito e de Sêneca, Lípsio afirma a narração conveniente e implicada das histórias, entendendo-as como gênero maior que combina filosofia, poesia e eloquência; e não como genus demonstrativum, pois unida à forma estilística da sententia condensada de saberes e de experiência que se destinam, como metáforas graves (agudas), a afetar os leitores mais sutis. O anticiceronianismo de Lípsio associa a brevitas com a virtus, apelativo crucial das retóricas do final do século XVI combatentes da retórica de Cícero. Para Lípsio o estilo do sintagma no período deve ser cortado, dividido, sentencioso, pontudo ou pontiagudo, contrário ao redondo e simétrico ciceroniano.

O estilo cortado (dividido), sentencioso (pontudo) ou pontiagudo que Lípsio recupera e com o qual faz o optimus stylus é derivado da história tacitista entendida como hortus et seminarium praeceptorum. Com o laconismo lipsiano impõe-se a noção de arguta dictio. É acutus ou argutus o estilo com o qual se exprime um pensamento com aparência bruta, densa, opaca, mas que exige do destinatário que este dissolva essa contração e retome em si mesmo o efeito agudo provocado pelo locutor. [37]

Entretanto, como postula Emerson Tin:

Na sua contínua insistência sobre a importância de Cícero como um modelo, o ‘anticiceronianismo’ lipsiano não é incoerente. Como Morris Croll observa, escritores anticiceronianos, do tempo do Ciceronianus de Erasmo, esforçaram-se para distinguir entre o próprio Cícero e as servis imitações dos ciceronianos. Desse seu primeiro afastamento da pura imitação ciceroniana, Lípsio da mesma forma ‘procura refugiar-se sob a garantia ortodoxa das cartas de Cícero’. [38]

O estudo da polêmica dos estilos pode se constituir um instrumento crítico bastante eficaz para o conhecimento do gênero histórico e das relações polêmicas letradas ibérico-italianas e francesas do século XVII. O debate dos estilos tem desdobramentos tanto na chamada “Literatura Colonial Brasileira” quanto na “Literatura Portuguesa”, por exemplo, nas práticas discursivas do Padre Antônio Vieira e nos textos de letrados como Frei Vicente do Salvador.

No século XVII, Mascardi opõe-se aos “vícios de seu tempo”. Para ele a história é a “pedra angular de uma oratória destinada à correção”. [39] As funções pedagógico-corretivas das variantes epidíticas com as quais o letrado trabalha dão conta de corrigir “os vícios”, entre os quais o “excesso” de ornamentação, que faz com que a elocução se autonomize e perca seu sentido sacro, icástico, ou seu modelo sacramental, como propõe Vieira, ao polemizar com a oratória dominicana, [40] e como combate Mascardi em sua Arte Histórica, ao polemizar com Marino, Manzini, Tesauro, entre outros, mencionados acima. Mascardi combate, também, o uso excessivo do ornato de modo a confundirem-se os gêneros poéticos e historiográficos. É combate semelhante ao de Vieira contra a falta de decoro no púlpito, que se faz, às vezes, como comédia, macaqueando e não emulando autoridades e virtudes, como convém à oratória sacra, consequentemente, sendo inapto a realizar suas funções pedagógico-políticas salvíficas. [41]

O estilo do gênero histórico é preceituado no Dell’Arte Historica basicamente nos tratados quarto e quinto. No quarto tratado do Dell’ Arte Historica, “Digressão sobre o estilo”, as principais auctoritates mobilizadas são: Platão, Hermógenes, Cícero, Quintiliano, Aristóteles, Luciano de Samósata, Sêneca, Plínio (o moço), Plínio (o velho), Torrentino, Scaligero, Vossio, Andrea Scotto, Plutarco, Dionísio de Halicarnasso, Filóstrato, Virgílio, Heródoto, Homero, Aulo Gélio, Demétrio, Paningarela, Macróbio e Tucídides. No quinto tratado do Dell’ Arte Historica, “Da estrutura da história”, além da auctoritates mencionadas, Mascardi se vale de modelos para doutrinar o estilo como os que se seguem: Tasso, Agatia (o escolástico), Famiano Strada, Pontano, Políbio, Salústio, Tito Lívio, Tácito, Justo Lípsio, Quinto Cúrsio, Cornélio Nepote, Pausânias, Castelvetro, Lucano, Longino, Tertuliano, Petrônio, Suetônio etc. Algumas das autoridades são mobilizadas com a finalidade de prescrever o estilo do gênero histórico, como, por exemplo, Hermógenes, Cícero, Quintiliano, Luciano de Samósata. Outras autoridades como Tito Lívio, Tácito, Suetônio, Plutarco e Salústio são mencionadas com a finalidade de exemplificar usos do estilo do gênero histórico. Outras, como Lípsio, para refutação de propostas. No tocante às prescrições, Mascardi se coloca como ciceroniano, em virtude de fechar a questão dos estilos com Cícero dos três genera dicendi. Colhe-se do Dell’Arte Historica uma doutrina que reclama para o discurso do gênero histórico um tipo de elocução que se afaste do ordinário, mas sem perda dos nexos, nem das correspondências entre as partes em relação ao todo, portanto proporcional, simétrico. Assim, o estilo ou o decoro elocutivo recomendado para o gênero histórico é aquele que comove breve e eficazmente, pois vigoroso e arrebatador. Por sua vez, o encômio no (e do) gênero deve ser construído de modo tênue, temperado, em estilo médio, que na história se divide de modo diferente do que na poesia, pois na primeira é mais dividido, mais analítico que na segunda, conforme o conceito de gênero demonstrativo-deliberativo aristotélico-escolástico. Esse estilo, contudo, assemelha-se ao estilo sofístico, porque argumentativo e de tendência ao consenso, ou que tende a fabricar o consenso das opiniões e dos juízos. A medida justa, proporcional, entre engenho e juízo, ensinamento e deleite, propõe o estilo do gênero como engenhosamente judicioso, temperado, alto e grave, e não médio ou humilde.

Pensa-se, com Beugnot, haver uma ruptura entre duas escolas históricas, no século XVII, para a questão do estilo. Uma ática, defendendo o fluens dicendi genus (Agostino Mascardi do Dell’Arte Historica). Outra, asiática, inspirada pelo modelo de Tácito e de Sêneca, procurando o factum dicendi genus, linguagem de soldado e de político, cujo estilo é o da ação. Esta obscura ou imperatória brevitas associada à palavra real e principesca nutrirá a reflexão moral ulterior. [42] Ou, como propõe Vuilleumier, a partir de 1580, contra as tendências do ciceronianismo escolar, confrontam-se dois antigos adversários, dois componentes da ‘modernidade’estilística: de um lado, os partidários de um estilo de intensidade, áticismo’de inspiração tacitista e senequista, talvez de filiação erasmiana e admiravelmente definido por Justo Lípsio; de outro, asianistas, ‘inspirados’em Sêneca, o retor, e nos mestres da segunda Sofística. A doutrina da história é particularmente marcada, em razão da reabilitação de Tácito, na qual as grandes edições vêm acompanhadas daquelas de florus e de yelleius paterculus: aos antípodas do ciceronianismo, o estilo cortado (dividido) e a proliferação das sentenças caracterizam a história de Luiz XI (Pierre Matthieu) como o Rómulo de Virgílio Malvezzi, o Marco Bruto de Quevedo ou ainda a obra de Cévisiers ou a de La Serre. Esse estilo forte a serviço da prudentia presta-se bem também no ensaio político, no qual o ‘herói’ ou o ‘oráculo manual’de Gracián são exemplos gritantes. Trata-se do triunfo do panegírico, cujo horizonte do ingenium (Gracián) está sob os auspícios do segundo Plínio, no qual o Panegírico de Trajano é para Lípsio o modelo de aticismo. O desenvolvimento do panegírico sacro praticado por Marino ou por Emanuelle Tesauro, por exemplo, elege a agudeza composta e os conceitos predicáveis colocando-se ao contrário da retórica asianista, defendida na França por Étienne Binet, dos Essais des Merveilles et de plus nobles artifices. [43]

Eduardo Sinkevisque. Doutor em Letras: Literatura Brasileira (FFLCH/USP), Pós-Doutor em Teoria Literária (IEL/UNICAMP), Pós-doutorando em História (IFCH/UFRGS-CAPES/REUNI), email: esinkevisque@hotmail.com

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Notas

[2] COUTINHO, Afrânio. “Aspectos da Literatura Barroca”. In: Do Barroco (Ensaios). Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Edições Tempo Brasileiro, 1994, p. 39. Os trabalhos principais de Morris Croll utilizados por Coutinho são, não necessariamente nestas edições, “The baroque style in prose”. In: MALONE, Kemp & RUUD, Martin, eds. Studies in English philologie: a miscellany in honor of Frederick Klaeber. Minneapolis, The University of Minnesota Press, 1929, pp. 427-56. Tradução de Ivan Prado Teixeira. In: SPINA, Segismundo & CROll, Morris W. Introdução ao Maneirismo e à Prosa Barroca. São Paulo: Ática, 1990, pp. 39-75; “‘Attic prose’ in the Seventeenth Century”. In: Studies in Philology, 28 (2), 1921, pp. 79-128; “Juste Lippe et le mouvement anticiceronien à la fin du XVIème et au début du XVIIème siècle”. In: Revue du Seizième Siècle. Paris, (2), 1914.

[3] Idem ibidem, pp. 44-45.

[4] MOUCHEL, Christian. “Les rhétoriques Posttridentines (1570-1600): La Fabrique d’une Société Chrétienne”. In: FUMAROLI, Marc. Histoire de la rhétorique dans l’Europe moderne (1450-1950). Paris: Presses Universitaires de France, 1999, cap. 9, pp. 463-467.

[5] Op. cit., pp. 15-182.

[6] Veja-se o tipo de análise feita por Croll: “(…) O estilo breve não é (…) caracterizado apenas pelo traço em virtude do qual toma o nome – a omissão de conectivos. Possui as quatro marcas que foram descritas: a primeira, calculada brevidade de membros; segunda, ordem oscilante e imaginativa; terceira, assimetria; e quarta, omissão dos liames sintáticos ordinários (…). Breve, é um estilo senequista (…). O senequismo e o estoicismo são (…) as implicações primárias do style coupé (…)”. CROLL, Morris W. “The baroque style in prose”. In: MALONE, Kemp & RUUD, Martin, eds. Studies in English philologie: a miscellany in honor of Frederick Klaeber. Minneapolis, The University of Minnesota Press, 1929, pp. 427-56. Tradução de Ivan Prado Teixeira. In: SPINA, Segismundo & CROll, Morris W. Introdução ao Maneirismo e à Prosa Barroca. São Paulo: Ática, 1990, pp. 49-50.

[7] SÊNECA. Libros de Lucio Anneo Seneca, en que tracta de la vida bienaventurada, de las siete artes liberales, de la providencia de Dios, de los preceptos e doctrinas (…), Traduzidos en Castellano, por Mandado del muy alto Principe, El rey Don Juan de Castilla de Leon el Segundo. Anvers, Juan Steelsio, Antuerpia, 1551. Cf. Espejo de Bienecho Reso y Agradecidos que Contiene los Siete Libros de Beneficios de Lucio Aneo Seneca, Insigne Filosofo Moral: Agora de Nuevo Traduzidos de Latin en  Castellano por Fray Gaspar Ruyz Montiano, de la Orden de San Benito. Tienes Notados y Declarados por el MESMO Tradutor Algunos de los lugares mas Difficiles y al Cabo de Libro Tiene Quatro Tablas de Nueva Invencion, muy Provechosas para todo Genero de Personas, Especialmente Predicadores, y para Cortesanos que los Quieren Perecer en sus Cartas y Conversaciones. Dirigido a Don Ivan de Mendoza, Duque del Infantado. Año 1606. Con Privilegio. Impreso en Barcelona, en Casa Sebastian de Cormellas al call.

[8] PÉCORA, Alcir. Teatro do Sacramento: a unidade teológico-retórico-política dos sermões de Vieira. São Paulo/Campinas: EDUSP/EDUNICAMP, 1994.

[9] MASCARDI, Agostino. Dell’Arte Historica. Tratatti Cinque. Coi sommarii di tutta l´opera estratti dal Sig. Girolamo Marcucci. Apresso Giacomo Facciotti. Roma, 1636.

[10] SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil: 1500-1627. Revisão Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia e Frei Venâncio Wílleke, OFM; Apresentação de Aureliano Leite. 7ª edição. São Paulo, Belo Horizonte: EDUSP, ITATIAIA. 1982; MENESES, Luís de. História de Portugal Restaurado. Rio de Janeiro: Livraria Civilização Editora, s/d; MELO, Francisco Manuel de. Hospital das Letras – Apólogo dialogal Quarto. Editora Bruguera. S/l, s/d; FARIA, Manuel Severim de. “Vida de João de Barros”, “Vida de Luís de Camões”, “Vida de Diogo do Couto”. (1624). In: Discursos Vários Políticos. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1999 e “Tratado dos Preceitos da História”. In: LISBOA, Cristovão de. História dos Animais e Árvores do Maranhão. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000; CABRERA DE CÓRDOBA, L. Filipe 2º Rei de España. Por Luis Sanches. Madrid, 1619; BALZAC, (J-L. Guez de). “Discurso da grande eloqüência” (1640). In: Les Oeuvres (…) divisées en deux tomes. Paris: L. Billlaine, 1665 e. “De l’utilité de l’histoire aux gens de cours” (entretien XXVI, 1644-1651). In: Les Entretiens. Ed. Critique avec introduction, notes et documents inédits par B. Beugnot. Paris: Didier (S.T.F.M.), 1972, 2 vols.

[11] MASCARDI, Agostino. Op. cit.

[12] SINKEVISQUE, Eduardo. Doutrina seiscentista da arte histórica: discurso e pintura das guerras holandesas (1624-1654). Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005. Em 2006, publiquei o segundo capítulo de minha tese, com modificações pertinentes a um ensaio. Cf. SINKEVISQUE, Eduardo. “Com Furores de Marte e com Astúcias de Mercúrio: o ‘Dell’ Arte Historica’ (1636) de Agostino Mascardi”. In: Topoi. Rio de Janeiro: UFRJ. v. 6, p. 331-378, 2006.

[13] Este artigo é oriundo do Pós-Doutorado que fiz entre 2006-2009 no IEL/UNICAMP, sob a supervisão do Prof. Dr. Alcir Pécora e com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), profissional e instituição aos quais agradeço. O título do projeto é: O Dell’Arte Historica (1636) e a Polêmica dos Estilos: um estudo sobre a tratadística de gênero histórico. Atualmente, faço Pós-doutorado em História (IFCH/UFRGS-CAPES/REUNI), sob supervisão de Temístocles Cezar.

[14] TESAURO, Emmanuel. Il Cannocchiale Aristotélico ossia idea delle argutezze heroiche volgarmente chiamata impresse examinate infonte co’ rettorici precetti del divino Aristotele, che comprendono tutta la Retorica e la Poética Elocuzione. Turin: Sinibaldo, 1654.

[15] No século XVII, Lípsio é lido quase sempre como supervalorização da técnica da dissimulação. Lípisio foi educado pelos jesuítas (1567-1569) em Cologne; em Roma foi secretário de Granvelle (1567-1569); catedrático de história em Iena luterana (1572-1574) e na Bélgica espanhola (1575-1579); na Leyde calvinista foi catedrático de antiguidades (1579-1591); na católica Louvain onde trabalhou definitivamente (1591-1606) atendeu aos interesses dos príncipes ou dos interesses das igrejas, participando da coisa pública.

[16] Alberto Asor Rosa propõe que Malvezzi “(…), si muove in una zona ibrida fra storiografia ed etica, fra etica ed eloquenza (…). Egli, andando in questo senso in direzione abbastanza diversa da quella espressa dalla corrente propriamente gesuitica di un Mascardi, di un Sforza Pallavicino e di un Bartoli, porta ad un alto grado di raffinatezza, la sua tendenza ad uno scrivere sintetico ed essenziale, per cui fu detto il ‘Seneca italiano’e stimato uno dei maestri maggiori del concettismo (alla sua lezione molto deve lo scrittore spagnolo Baltazar Graciàn). In questo senso è probabile che egli, oltre a Seneca, tenesse presente, anche se esclusivamente sul piano formale, quell’altro grande maestro di stile che è Tacito, sul quale pubblicò dei Discorsi (1622) (…)”. ROSA, Alberto Asor. La Cultura Della Controriforma. Seconda ristampa. S/l: Editori Laterza, 1982, p. 134.

[17] LAURENS, Pierre. “Entre la poursuite du débat sur le style et le couronnement de la théorie de l’ ‘actio’: Vossius et le réaménagement de l’édifice rhétorique (1600-1625)”. In: FUMAROLI, Marc. Histoire de la rhétorique dans l’Europe moderne (1450-1950). Paris: Press Universitaires de France, 1999, cap. 10, p. 502.

[18] BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 44.

[19] CÍCERO. De Oratore. In: “Obras Escolhidas”. Buenos Aires: Livraria El Ateneu Editorial, s/d, L. II, p. 96.

[20] Idem ibidem, L. III. pp. 224-225.

[21] ANÔNIMO. Retórica a Herênio. (Obra atribuída a Cícero). Tradução, introdução e notas de Henri Bornecque. Paris: Garnier, s/d, L. IV, 27, p. 199.

[22] Idem ibidem, L. IV, VIII, 11, p. 171.

[23] CHIAPPETTA, Angélica. “Alguns usos da escrita segundo Brutus”. In: Clássica. v. 13/14, 2000/2001, p. 345.

[24] Como Lembra Emerson Tin, “(…) Aticismo, segundo Massaud Moisés, ‘designa o estilo preciso, simples, irrepreensível, elegante, polido, composto de frases isentas de ornatos desnecessários ou excesso de palavras, em que a lucidez do pensamento se reveste de uma forma cristalina e sucinta. O vocábulo ‘aticismo’ prende-se ao falar da Ática, tornado o modelo de linguagem política e literária quando se processou a expansão da Grécia. Com a decadência do povo helênico, no século II. a C. passou-se nostalgicamente a encarar os escritores de Atenas (capital da Attica) dos séculos V e IV a. C. como mestres de sobriedade linguística, digna de preservação e culto. Em parte por reação contra o estilo empolado que entrou em moda no contacto do Grego com os idiomas orientais, o aticismo, transferindo-se para Roma, alcançou o ápice no século II da era cristã’ (…)”. TIN, Emerson. “Introdução”. In: A Arte de Escrever Cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de Roterdam, Justo Lípsio. Campinas, Sp: Editora da UNICAMP, 2005, p. 71, n. 79. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1992, pp. 46-47.

[25] SÊNECA. De tranquilitate animi. Edição bilíngue. Tradução, notas e apresentação de José Rodrigues Seabra Filho. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 19.

[26] SANTOS, Marcos Martinho dos. “Arte Dialógica e Epistolar segundo as ‘Epístolas Morais a Lucílio’”.  In: Letras Clássicas, nº 3, pp.45-93, 1999.

[27] Idem ibidem, p. 45.

[28] Idem ibidem, p. 48.

[29] Idem ibidem, pp. 49-50.

[30] Idem ibidem, p. 61.

[31] Idem ibidem, p. 62.

[32] Idem ibidem, p. 69.

[33] ALBUQUERQUE, Martim de. A Sombra de Maquiavel e a Ética Tradicional Portuguesa – Ensaio de História das Ideias Políticas. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Instituto Histórico Infante Dom Henrique, 1974, pp. 103-104.

[34] GRIGERA, Luisa López. La Retórica en la España del Siglo de Oro – Teoria y práctica. 2ª ed. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1995, p. 63.

[35] MOUCHEL, Christian. Op. cit., p. 460.

[36] Esse conceito é central não só em Lípsio, como será fundamental nas querelas seiscentistas da agudeza, nas quais o Dell’Arte Historica pode ser inserido, como proponho.

[37] MOUCHEL, Christian. Op. cit., pp. 470-471.

[38] TIN, Emerson. “Introdução”. In: A Arte de Escrever Cartas: Anônimo de Bolonha, Erasmo de Roterdam, Justo Lípsio. Campinas, Sp: Editora da UNICAMP, 2005, p. 162, n. 66. A esse respeito cf. “Juste Lipse et le mouvement anticiceronien à la fin du XVIe. Et début du XVIIe. Siècle”. In: J. Max Patrick e Robert O. Evans (eds. Style, rhetoric, and rhytm: essays by Morris W. Croll. Princeton: Princeton University Press, 1966, pp. 16-17. Cf. também, no mesmo volume: ‘‘Attic prose’ in the seventeenth century’, pp. 70-71, e ‘Attic prose: Lipsius, Montaigne, Bacon’, pp. 171-72.

[39] FUMAROLI, Marc. L´Âge de l’Éloquence. Paris: Albin Michel, 1994, p. 224. O estudo de Fumaroli sobre Mascardi inclui o letrado nas Aetas Ciceroniana, cuja seção do livro referido se intitula “Roma e a querela do ciceronianismo”. Cf. principalmente cap. IV: “O segundo renascimento ciceroniano”.

[40] A propósito, lembro-me do estudo de Alcir Pécora, já referido, sobre os modos oratórios do modelo sacramental em Vieira.

[41] Sermão da Sexagésima (1655). VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. 3ª reimpressão. Organização Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2001, t. I, p.49. Vieira pode ter tomado contato com o Dell’Arte Historica, pois, como se sabe, por testemunho seu em carta (1688) ao 3º Conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, foi leitor da História de Portugal Restaurado. Ocorre que o Conde vale-se do Dell’Arte Historica, aplicando-lhe as prescrições para compor sua história da restauração de Portugal No mínimo, Vieira conheceu a recepção do 3º Conde da Ericeira, mesmo que em idade longeva. Pode ter tido contato com as obras de Mascardi, em virtude de ter estado em Roma e por Mascardi estar ligado a Urbano VIII. Isso também atestaria ampla difusão do texto estudado e suas relações com o mundo ibérico.

[42] BEUGNOT, Benard. “La précellence du style moyen (1625-1650)”. In: FUMAROLI, Marc. Histoire de la rhétorique dans l’Europe moderne (1450-1950). Paris: Press Universitaires de France, 1999, cap. 12, p. 567. Concordo com a ruptura detectada por Beugnot, entretanto não uso os termos “tradicional/moderno” com os quais ele chama o aticismo estilístico de Mascardi versus o asianismo de modelo senequista-tacitista.

[43] VUILLEUMIER, Florence. “Les Conceptismes”. In: FUMAROLI, Marc. Histoire de la rhétorique dans l’Europe moderne (1450-1950). Paris: Press Universitaires de France, 1999, cap. 11, p. 518.