Folha volante / Feuille volante

À Anne-Marie Albiach, à Claude Royet-JournoudIl faut être moderne
Tenir le pas gagné.
Rimbaud

Aceitei a regra do jogo: escrever uma única página! O tamanho assim reduzido, radicalmente aplanado, re¬vela uma tentação à qual me renderei: escrever um pro¬grama, um manifesto, ou até mesmo um testamento.

1º) Ainda que citássemos os nomes dos poucos artistas que acima de tudo são nossos contemporâneos e até mesmo nossos predecessores, mas que também pertenceram às suas épocas, ainda que confiássemos nossos livros à Biblioteca, e os inscrevêssemos sob a rubrica ESCRITA, no repertório das escolas literárias, ainda assim nossos textos não pertenceriam à literatura. Como indicar esta diferença?

2º) Nossa proposta não se reduz a somente produzir uma metamorfose análoga à da pintura abstrata em relação à pintura figurativa, porque nós contamos com uma transformação; nós provocaremos a emergência de um novo elemento: escrever, tão vital que Kafka, em uma carta de 5-7-22, confiou a Max Brod: “A existência do escritor depende realmente de sua mesa de trabalho; na verdade, nunca lhe foi permitido se afastar dela”.

3º) É preciso inverter a relação viver-escrever: Rousseau desdobra sua vida ao escrever suas Confissões, enquanto a vida do homem, mesmo a vida social, deve desdobrar, ampliar, ou pelo menos acolher esta escrita pela qual ela será “modificada” (o que seria impossível se escrever não introduzisse em cena uma vida outra).

4º) Aquele que escreve pertence a esse mundo diferente uma vez que, ao explorar suas dimensões múltiplas e instáveis, ele também se busca a si próprio e, no entanto, ele permanece perdido, inencontrável. Entretanto, não seria esta terra inóspita a pátria selvagem de um nômade?

5º) Aos tentados a responder: SIM à solicitação desta página, asseguramos uma vida, apesar de tudo, tão exaltante, que jamais terão nenhuma nostalgia genuína da vida comum: nós lhe prometemos trabalho, um trabalho tão desmesurado que se morre antes de havê-lo realmente começado; nós lhes antecipamos à glória secreta de uma paixão inútil, uma vida cruel a ponto de secar toda lágrima, prevemos o desgaste extremo, interminável de todas as suas forças, uma pobreza que em momento algum será desconfirmada, pois o que tentamos subtrair, e dissimular, é continuamente disseminado pelo vento do caminho.

É preciso acrescentar algo? Se essa tarefa pudesse ser realizada por uma só pessoa, esta página não teria sido escrita.

Em Llanfairpwllgwyngyllgogerrychwyrndrobwlllantysiliogogogoch, n. 8, 1972.

Tradução: Micaela Kramer

 

***

J’ai accepté la règle du jeu: écrire une seule page! Le volume ainsi réduit, radicalement mis à plat, démasque une tentation à laquelle je céderai: écrire un program-me, un manifeste, ou bien encore un testament.

1º) Même si nous citions les noms des artistes, peu nombreux, qui ont aussi appartenu à leur temps, mais qui sont d’abord nos contemporains, voire nos devanciers; mêmes si, par mégarde, on rangeait nos livres dans la Bibliothèque, si on les inscrivait, sous la rubrique ECRITURE, dans le répertoire des écoles litté¬raires, nos textes n’appartiendront pas à la littérature. Comment marquer cette différence?

2º) Nous entendons non seulement opérer une transformation analogue à celle de la peinture abstrai¬te par rapport à la figurative, mais nous attendons une mutation, nous provoquerons l’émergence d’un nouvel élément: écrire, si vital que Kafka, dans une lettre de 5-7-22, confiait à Max Brod: “l’existence de l’écrivain dépend vraiment de sa table de travail; en fait il ne lui est jamais permis de s’en éloigner”.

3º) Il faut renverser le rapport vivre-écrire: Rousseau redouble sa vie en rédigeant ses Confessions tandis que la vie d’homme, voire la vie sociale, doit redoubler, amplifier, ou du moins accueillir cette écriture par laquelle elle sera “changée” (ce qui serait impossible si écrire ne mettait pas en scène une vie autre).

4º) Celui qui écrit appartient à ce monde différent puisqu’en explorant ses dimensions multiples et instables il est aussi à sa propre recherche, et pourtant il demeure égaré, introuvable. Cette terre inhospitalière ne serait-elle pas cependant la patrie sauvage d’un nomade?

5º) A ceux qui seraient tentés de répondre: OUI à la sollicitation de cette page, nous les assurons d’une vie, en dépit de tout, si exaltante, qu’ils n’auront jamais aucune véritable nostalgie de la vie ordinaire: nous leur promettons du travail, un travail si démesuré que l’on meurt avant de l’avoir réellement commencé: nous leur prédisons la gloire secrète d’une passion inutile, une vie cruelle au point de tarir toute larme, l’usure extrême, interminable de toutes leurs forces, une pauvreté qui jamais ne se démentira, car ce que l’on tente de soustrai¬re, de dissimuler, est sans cesse disséminé par le vent du chemin.

Faut-il ajouter? Si cette tâche pouvait être accomplie par un seul, cette page n’aurait pas été écrite.

Dans Llanfairpwllgwyngyllgogerrychwyrndrobwlllantysiliogogogoch, n. 8, 1972.