O SENTIDO DE ORFEU NA HISTÓRIA UNIVERSAL: DA GRÉCIA A PORTUGAL

Orfeu, segundo alguns, era filho de Calíope e Oragro, rio da Trácia. Outra versão do mito nos informa que este era filho de Apolo.

Sua biografia, por assim dizer, é a de um herói: casa-se com a ninfa Eurídice, que certo dia, quando colhia flores, é mordida por uma serpente, vindo a falecer. Orfeu não aceita a vontade do destino e inconformado vai ao inferno para tentar resgatá-la da morte. Cantor e tocador de lira, Orfeu consegue vencer os obstáculos que o separam da amada, e consegue por fim ver-se frente a frente com o senhores do inferno, Plutão e Perséfone. Estes autorizam-no a levar de volta Eurídice para o mundo dos vivos, mas fazem uma exigência: ao sair com ela do inferno, caminharia na frente, não podendo sob qualquer pretexto voltar-se para trás até o momento em que se encontrasse fora do Hades. Contudo, não resistindo à curiosidade, Orfeu se volta para rever sua companheira, assim desobedecendo aos deuses do inferno. Como resultado de sua transgressão, Eurídice desaparece na escuridão.

Além disso, participa juntamente com os argonautas de uma expedição liderada por Jasão com a finalidade de conquistar o velocino de ouro, que se encontrava sob a guarda de um dragão. Na referida aventura, cada participante contribuía com uma virtude que possuísse. Orfeu a ela empresta o poder mágico de sua lira e de seu canto, “capaz de dominar as discórdias dos homens e da natureza”, e sua tutela espiritual[a();1].

O mito de Orfeu nos diz ainda que este era sacerdote de Apolo (filho de Zeus e Leo e irmão gêmeo de Ártemis), identificado, por sua vez, com o Sol (ao passo que a irmã o era com a Lua), e  “deus da beleza, da serenidade, do equilíbrio, da adivinhação”[a();2]. Em dado momento se converte à religião de Baco, religião de mistérios. Porém, acaba “reformando a religião de Baco de acordo com o espírito de Apolo, harmonizando o apolíneo com o dionisíaco. Apolo modera Baco. Baco se heleniza e se civiliza”[a();3]. Funda-se assim o orfismo.

Com efeito, a religião órfica mescla e equilibra a vocação apolínea e a vocação dionisíaca. Sendo esta última orgiástica e selvagem — e aquela toda serenidade e equilíbrio.

O orfismo, difundido em toda a Grécia antiga, possuía uma revelação escrita, postulava o panteísmo imanentista, no qual deus é a única realidade e tudo deriva de sua substância; o dualismo alma e corpo; a  preexistência e sobrevivência da alma; a reencarnação; e o desejo de salvação e purificação, assemelhando-se com o cristianismo.

O homem órfico possuía uma dupla natureza em conflito: titânica (foram os Titãs que devoraram Baco), que era má e material, e dionisíaca, por sua vez boa e espiritual. Matéria e espíritualidade, o homem no orfismo tem o espírito aprisionado no corpo e almeja sua libertação. Com efeito, “todo esforço ascético pregado pelo orfismo visa eliminar do homem a parte titânica e liberar a parte divina”[a();4].

Após a morte, acreditavam os adeptos do orfismo que a alma comparecia frente aos juízes infernais “que, de acordo com os méritos, a destinam a um lugar feliz ou a um lugar de penas, mas não penas eternas. O homem deveria completar sua reparação através da metempsicose ou reencarnação”[a();5].

Para o orfismo, ainda, todo homem pode ser éntheos, ou seja, possuído pela divindade. Basta que se dedique com afinco, uma vez que já nasce parcialmente divino. Por essa razão a teogonia órfica “arquiteta-se no sentido de um antropogonia, ou seja, visa a mostrar como a raça dos mortais descende dos deuses e participa de algum modo de sua natureza”[a();6].

A ida de Orfeu ao Hades o habilita a ser portador de uma mensagem escatológica e salvacionista para o homem antigo, o que é de suma relevância. Reduzido à forma mais simples, pode-se afirmar que o traço que fundamenta o orfismo “é a penetração de um herói num mundo paralelo ao dos seres vivos, mundo paralelo e diverso do real”[a();7]. Mundo que, em suma, complementa o mundo dos vivos. Conhecê-lo é abolir as fronteiras do tempo, da vida e morte, do corpo e do espírito. É vislumbrar a satisfação de uma grande aspiração humana: a reintegração na unidade.

É sem importância terem os livros de práticas órficas sido escritos efetivamente por ele, Orfeu ou não. “Muito provavelmente a maior parte teria sido mesmo composta após o século IV, no contexto da difusão do orfismo pelos territórios helenizados”[a();8]. O que concretamente importa aqui é o fato de Orfeu ter sido considerado poeta por excelência, e que seu canto, que atraía os animais e comunicava com os espíritos de caça da floresta, era um canto de revelação e de ensinamento.

O orfismo marcou filósofos gregos, como Tales de Mileto, Anaximandro, Xenofonte. Contaminou Parmênides, Heráclito, Empédocles, e Platão — que menciona o orfismo em diversas passagens da República, do Banquete — além de outros.

Igualmente, poetas como Eurípedes, Ésquilo e Píndaro sofreram  influências do Orfismo. O mesmo se deu com Virgílio e, inegavelmente, Dante.

Nos tempos modernos, Orfeu interessou poetas como Victor Hugo, Nerval, Leconte de Lisle, Banville, Apollinaire, Valéry e Gide.

Valéry via no mito grego um meio eficiente para “ilustrar sua crença na poesia, que resulta de um aumento da consciência da linguagem”[a();9].

Ainda: Valéry “viu em Orfeu o poeta-cantor, mágico, que ao som de sua lira e de seu canto cria um novo mundo, todo ele intelectualizado, espiritualizado, em constante devir e, portanto, nunca concluído, fechado, acabado”[a();10]. Em 1891, Valéry conclui um ensaio, que tem por título “Paradoxe sur l’architecte“, com um soneto: “Orphée“, publicado isoladamente no mesmo ano[a();11]. Anos mais tarde, em 1926, faz publicar novo poema com o mesmo nome, em que o sujeito do poema é um poeta — como Orfeu[a();12].

Apollinaire em Le Larron, de 1899, cita Orfeu em virtude da atração que este exercia nas mulheres, combinando misticismo e erotismo. No Le Poète assassiné o herói, Cronia- mantal, guarda analogia com Orfeu. O poeta grego foi assassinado pelas Mênades, que  não  suportavam sua  indiferença,  enquanto  o  herói  de  Apollinaire é atacado por mulheres que lhe são, ao contrário, indiferentes[a();13] . Em nota ao Bestiaire ou Cortège d’Orphée, Apollinaire afirma:

quando Orfeu tocava cantando, até os animais selvagens vinham escutar seu canto. Orfeu inventou todas as ciências, todas as artes. Apoiado na magia, ele conheceu o futuro, e predisse, de maneira cristã, a chegada do Salvador[a();14].

Para Apollinaire,  Orfeu era uma espécie  de poeta sagrado e visionário — e fez uso de suas “aventuras  míticas  como protótipo não apenas da busca  gnóstica,  isto  é, do conhecimento da divindade com a qual se identifica  através do rito, da iniciação, mas também como modelo” em que sua existência de poeta e homem e suas experiências poéticas ele vê refletidas[a();15].

Seria descabido avançar mais numa investigação de teor histórico sobre Orfeu e que fugiria inteiramente ao rumo que traçamos para este trabalho. Fiquemos todavia com a notícia de que Orfeu deixou marcante influência na produção de poetas da antiguidade até aos nossos dias, e o fez por ser justamente uma das mais duradouras representações da  elocução poética. Orfeu é o arquétipo de poeta, seu equivalente absoluto.

E minha indagação inicial sobre as razões que levaram os pares de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa a escolherem, como nome da revista, Orpheu? Como responder a ela?

Dizer por exemplo que Apollinaire, estreitamente vinculado a Delaunay e por tabela também ligado a artistas portugueses residentes em Paris, ao definir o orfismo pictural consagrou Orpheu como nome da revista portuguesa de Montalvor, Pessoa, Sá-Carneiro,  Santa-Rita Pintor, Almada e outros é descabido. Ou ingenuidade, apesar das coincidências.

Sim,  porque  há de  fato uma  coincidência  invulgar, não restam dúvidas: Apollinaire define o orfismo a partir do exame de trabalhos de Robert Delaunay, que por sua vez influencia e é influenciado por Souza-Cardoso. Nasce o simultaneísmo órfico na França; nasce em seguida uma revista chamada Orpheu.

Com o que contamos então para justificar a origem do nome da revista? Sem dúvida, contamos, o leitor e eu com a inconteste associação do nome Orfeu ao fazer poético, à magia e musicalidade de seu canto poético e, por que não, à individualidade poética (não era Orfeu um herói solitário?). Aí se explica a origem do nome da publicação que, no que respeita o nome, não faz mais do que prolongar a milenar tradição órfica nas Letras e Artes portuguesas.

Tudo isso que acabo de dizer se torna cristalino quando nos lembramos de que o movimento do Orpheu está centrado na “aceitação sem limites da seriedade da poesia, ou se prefere, da poesia como realidade absoluta”[a();16]. E que “na expressão mítica [do Orpheu] a poesia vive uma existência plena”[a();17]. E, ainda, que para os integrantes do Orpheu, a palavra poética “é reconhecida como encantatória, mágica e atuante”[a();18]: sendo palavra, é ao mesmo tempo ato[a();19].

É oportuno e utilíssimo, já agora, examinar os conceitos órficos exarados no número inaugural da  revista  Orpheu — e  o  faremos retomando a discussão sobre o editorial de Montalvor, que tem sido indevidamente relegado a plano de importância secundário, quando na verdade é, como veremos, muito esclarecedor sobre a índole e propósitos do movimento:

o que é propriamente revista em sua essência de vida e quotidiano, deixa-o de ser  Orpheu, para melhor se engalanar do seu título e propor-se.

E propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras de formas de realizar arte, tendo por notável nosso volume de Beleza não ser incaracterístico ou fragmentado, como literárias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal.

Puras e raras suas intenções como seu destino de Beleza é o do: — Exílio!

Bem propriamente, Orpheu é um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento…

Nossa pretensão é formar, em grupo ou idéia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em ORPHEU o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos.

A fotografia de geração, raça ou meio, com o seu mundo imediato de exibição a que freqüentemente se chama literatura e é sumo do que para aí se intitula revista, com a variedade a inferiorizar pela igualdade de assuntos (artigo, seção ou momento) qualquer tentativa de arte — deixa de existir no texto preocupado de ORPHEU.

Isto explica nossa ansiedade e nossa essência!

Esta linha de que se quer acercar em Beleza, ORPHEU necessita de vida e palpitação, e não é justo que se esterilize individual e isoladamente cada um que a sonhar nestas cousas de pensamento, lhes der orgulho, temperamento e esplendor — mas pelo contrário se unam em seleção e a dêem aos outros que, da mesma espécie, como raros e interiores que são, esperam ansiosos e sonham nalguma cousa que lhes falta, — do que resulta uma procura estética de permutas: os que nos procuram e os que nós esperamos…

Bem representativos da sua estrutura, os que a formam em ORPHEU concorrerão a dentro do mesmo nível de competências para o mesmo ritmo em elevação, unidade e discreção, de onde dependerá a harmonia estética que será o tipo da sua especialidade.

E assim, esperançados seremos em ir a direito de alguns desejos de bom gosto e refinados propósitos em arte que isoladamente vivem para aí, certos que assinalamos como os primeiros que somos em nosso meio alguma cousa de louvável e tentamos por esta forma já revelar um sinal de seleção, os esforços do seu contentamento e carinho para com a realização da obra literária de ORPHEU[a();20].

No texto acima, destaco as seguintes posições editoriais de Motalvor, na qualidade de editorialista, evidentemente falando em nome dos fundadores da revista:

1. Orpheu não pretende ser uma revista “em sua essência de vida e quotidiano” — o que quer dizer isso? Basta que procuremos definir o que vem a ser uma revista: um periódico não diário,  com linha editorial  e corpo de colaboradores definidos, com uma estrutura de comando delineada, um conselho editorial, outro, administrativo, etc. Portanto, distanciando-se do padrão de uma revista, em se considerando a época em que é fundada, Orpheu mais se assemelha a uma tertúlia impressa, em que convidados os mais diversos participam.

2. Orpheu foge ao padrão de uma revista como a que apontei acima, que me parece, digamos, comum, burocratizada, e o faz para “melhor se engalanar de seu título e propor-se”. Entendemos pelo que aí está dito, inicialmente, que Orpheu quer fazer jus a Orpheu (sic), ou seja, quer fazer jus ao empréstimo de um nome que é, como já vimos, o que identifica o poeta arquetípico. Em outras palavras, os fundadores da revista querem que a contribuição poética a ser publicada na revista não desmereça aquele que, também poeta (e cujo canto tem poder mágico, como se pode ler no Alceste de Eurípedes), e paradigma, emprestou seu nome à publicação. Ambicionam os fundadores, ademais, que a revista, harmonizada com os valores  implícitos nesse nome, melhor se proponha, ou, em outras  palavras, melhor possa se apresentar (ao público).

3. A revista defende o direito de se “desassemelhar” dos modos e formas de realizar arte existentes, permitindo-se por conseguinte a originalidade. Repare que a originalidade não é condição sine qua non para a publicação, conquanto estabeleça como necessário que o conjunto de contributos (“volume de Beleza”) não seja “incaracterístico ou fragmentado”, ou seja, confundível (com outras manifestações não órficas), por vulgar, e não apresentado por inteiro.

4.Orpheu defende que suas intenções artísticas são “puras e raras”; informa que seu destino de Beleza é o do Exílio, e se identifica como um espaço destinado ao que denomina de “exílio de temperamentos de arte”. Entendo que pureza e raridade são atributos da estesia decadentista/simbolista, como já se sabe — e podemos  acatar por ora, num sentido amplo e genérico –, que a estesia órfica de parte dos integrantes do movimento do Orpheu, como Cortes-Rodrigues, Guisado e o próprio Montalvor, faz coro com a daqueles poetas que, situando a poesia como objeto autônomo e desvinculado do contexto da realidade, têm justamente como intento poético  elaborar a linguagem até  um inalcançável estado-limite de  pureza absoluta. E o fazem por intermédio de um exaustivo processo sele-tivo/combinatório de images/stories, vocábulos, sons, metáforas, etc.

E quanto ao destino do exílio? É evidente que exílio, uma vez logradouro ambicionado da Beleza, como quer Montalvor, nada mais  é que o poema, ou, a poesia, lato sensu, única realidade — e destino —  possível para o poeta órfico.

5. Orpheu tem como pretensão, ainda, diz Montalvor, “formar, em grupo ou idéia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte”, ficando pois cristalino, com esta afirmação, que a direção da revista almeja não a colaboração intelectual eventual, episódica, mas reunir um grupo (número escolhido de revelações), surgido de um critério seletivo. Qual é esse critério? O estarem  voltados para o fazer artístico (seu princípio aristocrático). De que modo? Tendo na própria revista “seu ideal esotérico” para o qual convirjam sentimentos e relacionamentos do grupo.

Na expressão “ideal esotérico”, acima, parece-me, aflora uma proposta editorial que pretende que a revista venha a ser uma via de duas mãos,  aproximando temperamentos de arte diversos, como já foi dito acima, favorecendo assim o intercâmbio entre eles, mas também objetivando ser um foco de estimulação criadora. Isto fica ainda mais claro quando, adiante, Montalvor salienta que a revista necessita de vida e palpitação, e que não considera justo que se esterilize cada um que sonhar a Beleza, reafirmando a necessidade de uma união “em seleção”, bem como apontando como resultado dessa agregação dinâmica “uma procura estética de permutas”.

6. Afirma ainda que “a fotografia de geração, raça ou meio” não interessa ao grupo, repudiando o exibicionismo, “a variedade a inferiorizar pela igualdade de assuntos (..) qualquer tentativa de arte”.

7. Montalvor propõe para a formação de Orpheu que todos tenham o mesmo nível de competência, ou seja,  propõe a não existência de hierarquias poéticas –, concorrendo cada colaborador “para o mesmo ritmo, em elevação, unidade e discreção, de onde  dependerá a harmonia estética” da revista.

Entende-se portanto que tal nivelamento de competências não se extrai pura e simplesmente a partir de um nivelamento do contributo poético de cada um, mas é pressuposto da revista — de modo que a harmonia no plano estético, de que fala o editorialista, embora não decorra diretamente de um consenso administrativo, por assim dizer, dele depende diretamente. Em outras palavras, o editorial de Montalvor deixa evidente que a revista ambiciona ser um órgão colegiado aberto. E mais: que só assim, numa gestão harmônica de individualidades socialmente compreendidas como tal, poderá Orpheu realizar a harmonia das individualidades estéticas.

8. Finalmente, Orpheu espera atingir um público leitor “de seleção”, ou seja, “de bom gosto e refinados propósitos em arte”, tornando transparente que o movimento órfico não visa granjear um acolhimento genérico, ao contrário, destina-se, para usar um chavão gasto, aos poucos apenas: destina-se àqueles que lograram desenvolver seu gosto de arte.

O editorial do primeiro número de Orpheu foi cumprido à risca? Sabe-se que   não. Pessoa  e  Sá-Carneiro,  por  razões que  não  cabe  aqui  apontar,  tomaram  a  trela  e  são   mais responsáveis pelo sucesso e fracasso da revista do que os demais. O real perfil da revista saiu menos de uma prancheta calculista e objetiva, e mais do jogo de circunstâncias que aproxima pessoas com interesses comuns, em um meio acanhado e provinciano. Isto não importa. O que efetivamente importa é que o conteúdo do editorial permite antever claramente que a revista Orpheu desde os primórdios pretendia  se confundir inteiramente — e de fato o fez —  com as propostas díspares, heterogêneas, dos indivíduos que se integraram a ela, de tal sorte que a publicação era, lato sensu, o movimento do Orpheu, independentemente de ter sido, como o foi, financiada pelo abastado pai de Mário de Sá-Carneiro, o que só teve real importância quando o mesmo deixou de fazê-lo e a revista aparentemente não tinha como prosseguir — e independentemente de ter tido vida breve, obrigando o orfismo a transbordar para outras publicações, como Exílio, Centauro, e por último Portugal Futurista, que assinala o término desse movimento.

Outro fato que parece ter relevância no editorial assinado por Luís de Montalvor é a forma de gestão aberta da revista, que acabou por fazê-la se assemelhar adminis-trativamente a outras centenas de revistas que com acanhada competência mercantil não lograram firmar uma imagem editorial, nem mesmo uma personalidade literária definida, evoluindo ao sabor de conveniências, mas que parece ter sido certeira no caso da revista Orpheu uma vez que foi exitosa em canalizar informalmente uma produção intelectual despertada pelo novo, para que desse modo tudo o que viesse a ser publicado em Orpheu estivesse em sintonia com um espírito de mudança acima de qualquer barreira. Independentemente de um enquadramento em um critério qualquer, preestabelecido, de novidade. O novo em Orpheu era a somatória do novo de cada um.

Aqui, uma ressalva: a produção que denomino órfica não principia com a revista. Em outros termos, as colaborações literárias e plásticas que Orpheu canaliza não são necessariamente adrede preparadas, mas de fatura anterior. Desse modo, quando se fala em movimento órfico, fala-se de um conjunto de acontecimentos que tiveram início com o surgimento do número 1 da revista, na planilha de seus idealizadores — mas quando se fala em produção órfica, estar-se-á falando, e me parece o mais correto, sempre de uma produção literária ou plástica que abrange um período de tempo que precede o surgimento da revista. Como o contrair da musculatura da face, já antevendo o destino da bala, precede igualmente o movimento do dedo sobre o gatilho.

Aliás, no encalço dessa bala seguimos nós todos, até hoje e talvez para sempre. Como dissera, creio, primeiramente Almada-Negreiros e por gentileza ao amigo repetira Fernando Pessoa em carta a ele endereçada, “Orpheu acabou. Orpheu continua.”[a();21]

Desde a Grécia, até nosso futuro cada vez mais incerto.

São Paulo, junho de 2007

[i = 1; a();1]Cf. TRINGALI, Dante — “O orfismo”. In: CARVALHO, Sílvia Maria S. Orfeu, orfismo e viagens a mundos paralelos. São Paulo, UNESP, 1990, p. 15-23. Cf. especialmente p. 16.

[a();2]Ibid., p. 18.

[a();3]Ibid., p. 18.

[a();4]BRANDÃO, Jacyntho José Lins — “O orfismo no mundo helenístico”. Ibid., p.25-34. Ver p. 31.

[a();5]TRINGALI, Dante — Op. cit. p. 21.

[a();6]BRANDÃO, Jacyntho José Lins — Op. cit., p. 32.

[a();7]CARVALHO, Sílva M. S. — “Introdução”. Ibid., p. 9-13. Cf. p. 11.

[a();8]BRANDÃO, Jacyntho José Lins — Op. cit., p. 33.

[a();9]MACHADO LEITE, Guacira Marcondes — “O mito de Orfeu na modernidade poética francesa”. Ibid., p. 67-78. Cf. p. 73.

[a();10]Ibid., p. 78.

[a();11]Cf. ibid., p. 69.

[a();12]Cf. ibid., p. 72.

[a();13]Cf. ibid., passim.

[a();14]APOLLINAIRE, apud MACHADO LEITE, Guacira Marcondes — Op. cit., p. 77.

[a();15]Cf. MACHADO LEITE, Guacira Marcondes — Op. cit., p. 78.

[a();16]LOURENÇO, Eduardo — “‘Orpheu’ ou a poesia como realidade”. In: FRANÇA, José Augusto. Tetracórnio (antologia de inéditos de autores portugueses). Lisboa, Ed. do Autor, 1955, p. 33.

[a();17]Ibid., p. 33.

[a();18]Ibid., p. 34.

[a();19]Cf. ibid., p. 34.

[a();20]Montalvor, Luís de – Introdução. Orpheu. Lisboa, 1: 11-12, Orpheu, 1915.
Vide também a edição fac-similada da revista, editada pela Ática em 1971.

[a();21] PESSOA, Fernando – “Nós, os de ‘Orpheu’”. In:  SOBRAL CUNHA, Teresa e SOUSA, João Rui de (orgs.). Fernando Pessoa: o último ano. Lisboa, Biblioteca Nacional, 1985, p. 60 (exposição comemorativa do cinqüentenário da morte de Fernando Pessoa).