Poema exemplar (2)

Encarnação

Cruz e Souza

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos…

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
láteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos…

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas…

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!

Comentário:
Poema animado de sensualidade ondulante que se vai enrodilhando em si mesma como uma fumaça, fumaça que sobe. Notem-se os acentos oxítonos na 6a. sílaba dos primeiros versos e, no 3o, esse proparoxítono “frêmitos”, duro e incisivo. Depois, “trêmulos”. Ele desenha a sensação com o som.