Manifesto: Estamos vivos…

Quem aqui está nom precisa ouvir manifestos substantivos, imperativos, provocativos, trilhando lugares comuns de razom e reintegraçom que todos e todas compartilhamos. E quem aqui nom está nem quereria estar, aqueles que mais precisavam ouvir, parece como que se incomodam com o tom substantivo, imperativo, provocativo. Parece que o tempo do Manifesto acabou há 114 anos com Moreás advogando polo “simbolismo”, há 91 com Marinetti lançando o Futurismo, há 85 com Almada abominando do Dantas, há 76 com Breton fundando o surrealismo, ou há já 78, toda umha vida humana, com o nosso Manoel Antonio, rompendo para um Mais alá que ainda hoje nom acaba de chegar. Parece que todo isso fica longe, dilatadamente longe, e, contodo, quando me falárom de estar aqui, quando pensei na categoria “manifesto”, reparei que nestes últimos meses tinham passado polo meu computador até quatro manifestos (o dos notáveis, o de escritores novos, o de estudantes universitários, o Carvalho Calero), todos em maior ou menor grau do teor que aqui se podia esperar ouvir. Parece, entom, que volta o tempo dos manifestos, o sentido dos manifestos, a necessidade dos manifestos.

Mais, insisto, quem aqui está já sabe, porque é quem compartilha a substáncia dessas manifestaçons, e quem nom quereria estar nom quererá saber, e nom vale a pena cansarmo-nos por esse caminho, de modo que no lugar do substantivo quero conjugar apenas o verbo MANIFESTAR. E no modo indicativo de realidade, na forma simples do presente, no tom mais calmo de estar entre nós, mas também para quem queira ouvir: manifesto que estamos vivos. Assi de simples, estamos vivos, e temos forças, confiança, um pensamento positivo e criador, de trabalho e capacidade para ele em defesa do galego. Estamos vivos e em nós está vivo o milagre de que falava Murguia neste mesmo lugar em 1891. É inevitável citar, e umha fortuna imensa poder fazê-lo, o famoso discurso do agora reverenciado pai da pátria, esse Murguia do que, a propósito do seu polémico discurso, comentaria no mesmo ano o em aparência antigo aliado Castelar:
“Ese Murguía tiene mucho talento, y escribe a maravilla la lengua castellana, pero está loco. Cuando todo tiende a la concentración, el separarse constituye un crimen de lesa humanidad.”

E de que falou Murguia, nesse famoso discurso dos Primeiros Jogos Florais de Tui, em 1891? Seguramente já sabedes, mais vale a pena recrear no essencial que continua vivendo em nós, porque aí estám por primeira vez os argumentos do reintegracionismo galeguista. Murguia era na altura o porta-voz mais autorizado da chamada “causa regionalista”, e o seu discurso ocupou o lugar central desses épicos actos, sendo reproduzido em várias publicaçons da época. Murguia, marido da “inmortal Musa gallega señá Rosalía de Castro” (discurso de Alfredo Brañas), honrada nos Jogos, apresenta as bases e as expectativas do regionalismo, entre as quais a relaçom com Portugal, colocando nomeadamente a língua como centro da identidade e da acçom regionalista que postula, a começar polo uso público da mesma, a primeira vez que o fai Murguia. As linhas de força reintegracionistas desse discurso, que já resumiu o companheiro Elias Torres (Ler História 36), um dos filhos com que se honra esta cidade, um discurso com um ambiente tam propício como o presente (em Tui, com Portugal ao fundo), som estas:

    • o nosso idioma, que determina a existência de um sistema intercultural e legitima a diferente nacionalidade, passando pola apaixonada defesa do celtismo;

 

  • a apropriaçom de Camões e a mitificaçom das glórias galaicas em benefício da unidade dos dous povos, unidos por umha fatalidade do destino, e a comum origem literária;

 

 

  • a lírica popular, locus privilegiado das essências fundadoras da nacionalidade, que é compartilhada com Portugal;

 

 

  • o auxílio da erudiçom portuguesa, os romances portugueses “que son com’os nosos. somellan duas gotas d’orballo que tembran nun-ha mesma rosa”;

 

 

  • a patrimonializaçom de Portugal, legitimada na unidade lingüística, porque “nunca, nunca, nunca pagaremos ôs nosos hirmans de Portugal o que nos haxan conservado estes e outros recordos, e sobre todo qu’haxan feito d’o noso gallego, un idioma nacional”.

 

 

  • a componente racial ariana que fai deste um país europeu, o postulado da transferência do sistema português defendendo a comunhom literária e etno-lingüística galego-lusa, o rejeitamento das transferências estrangeiras, etc.

 

No discurso de Murguia concentram-se todas as linhas do desenvolvimento sistémico galeguista relativas ao sistema português. O reintegracionismo cultural está presente desde as mesmas origens galeguistas como traço definidor e legitimador, para cuja construçom teórico-prática fôrom importantes as ideias dos eruditos portugueses. Teófilo, Leite, Herculano, iam sendo consagrados como fundamentos da “causa regionalista”. Mais, sem pretender abusar da maçada erudita, só quero aludir a Oliveira Martins, que fora convidado aos famosos Jogos Florais de Tui de que estamos falando, a que nom pode acudir por lhe ter chegado tarde a comunicaçom, mas que escreve umha carta a Salvador Cabeza, secretário dos Jogos:

(…) portugueses e gallegos somos um e o mesmo povo na lingua e no sangue (…) Desde o Finisterra pelo menos até o Mondego, o povo é absolutamente o mesmo, e se não tivesse sido o facto da cisão política pelo Minho, a lingua seria absolutamente identica. O portuguêz não é outra coisa senão o galleciano que tomou caracteres poprios com a cultura principalmente quinhentista. Antes, as duas fallas não se distinguem. (…)

Portugal porem, tornou-se independente e progrediu aparte, enquanto á Galiza como provincia da monarquia hespanhola ficava com a sua linguagem adscrita ás condições de um dialecto pela primasia dada ao castelhano.

Essa independencia portugueza, ninguem o ignora, largos tempos, porem, aspirou á ser a autonomia de todo o oeste e noroeste da península; e ainda hoje, no entrelaçamento das familias e propriedades dos dois lados do Minho vemos os restos de uma historia antiga.

Há annos, residindo eu na Mancha, região onde se confundem os estremenhos e os andaluzes limitrophes, succedia ter sob-as minhas ordens mineiros gallegos e mineiros beirões portuguezes. Pois a gente da terra denominava-os a ambos gallegos -gallegos de España e gallegos de Portugal.

(…) As empresas navaes que tão grande fizeram Lisboa, prepararam-se no Porto e a semente da força maritima do norte portuguez ha de ir encontrar-se nos armamentos do bispo de Compostella Gelmires durante o periodo da reconquista.
Galegos somos pois, qualquer que seja o aspecto por onde nos observemos quando olhamos para as nossas origens historicas.

Ja V.E. ve, portanto, como eu folgaria em me associar a celebração merecidissima que a sua sociedade tem a peito effectuar. O nome da autora dos Cantares Gallegos, esse livro em que vibrantemente pulsa a alma nacional, acode a ideia de quantos respiram os Ayres de miña terra do seu patricio Curros Enriques.”

Quem aqui está nom precisa ouvir este Oliveira nem aquele Murguia, o passado mais ou menos rico em nomes e palavras do género, nem imaginar o futuro reparando no presente. E quem aqui nom está, nem quereria estar, nom vai querer ouvir. Mais vale a pena, agora si, cansarmo-nos, mesmo sem substantivos, sem imperativos, conjugando apenas o calmo estamos vivos no modo indicativo, porque a realidade de há cem anos continua sendo pavorosamente similar e reclamante das mesma afirmaçons, enfrentando a loucura da normalidade que se nos dá para nós e os nosso filhos com a confiança no nosso pensamento positivo e criador. Nom podemos querer ser vítimas porque temos propostas construtivas e encarnamos o milagre de que falava Murguia. Estamos vivos e vamos seguir estando para mudar a normalidade. Arno Gruen, num livro que fala precisamente de A loucura da normalidade, escreve que “A tortura de Estado e o atentado terrorista são as duas manifestações extremas do conformismo e da rebelião. O sádico conformista costuma ser uma pessoa com poder oficial -ou, como os membros dos Esquadrões da Morte latino-americanos, com a cobertura do aparelho de Estado- que precisa de calar a sua vítima para apagar a recordação da sua própria subjugação. O terrorista não tem poder oficial; a sua vingança visa o poder dos opressores, pelo reconhecimento dos quais secretamente anseia.”

O poder oficial na sua forma extrema quereria calar-nos, mais nós nom vamos pôr-nos no outro extremo nem estamos à espera de sermos vítimas. Isso acabou. “Chegou en verdade d’abondo o sabedes como tamén que pasado o tempo d’os queixumes, n’hay outro remedio (…) que lembrarnos d’o qu’os alleos nos magoaron…”, dizia Murguia em 1891. E a nossa melhor memória é estarmos vivos e seguir estando-o, em positivo e sem extremos, para que os conformistas se abominem subjugados a si próprios. A única vingança por nossa parte é seguir construindo, com a cordura e vida que para os conformistas se desqualifica de aparente rebeldia, como se desqualificava há cem anos nos primeiros galeguistas.

Antes deste último quarto do século todas as posiçons quanto à língua compartilhárom, em princípio, um alto grau de compromisso político que reconhecia nesse instrumento o melhor meio para manter a identidade. Assi tinha sido durante a resistência ao franquismo, quando o simples facto de escrever em galego, fosse qual fosse a grafia, já era um desafio para o poder central e espanhol. Mas nestas últimas décadas só o reintegracionismo supom algum modo de desafio, porque o uso do galego administrativo nom só é politicamente correcto mas está subsidiado e dá para muitas pessoas viverem exclusivamente dele. Durante os últimos 30 anos, o capitalismo de terceira geraçom também precariamente aqui criou um mercado (escolar) e um campo literário em galego (administrativo), e a maioria dos escritores colocou o seu compromisso apenas em assegurar-se um lugar ao sol neles, e até no espanhol via traduçom. Os autores mais velhos abandonárom na sua prática as orientaçons reintegracionistas que em geral defendêrom no plano teórico, salvos os casos de Jenaro Marinhas e Carvalho Calero, e a maior parte dos novos, num tempo de suposta democracia, entrárom no campo despreocupados polo passado e pola questom identitária. Se algumha consciência crítica existiu neste sentido, foi ficando arrumada a um canto diante de aspectos que, num presente de enganadora normalidade de mercado (a loucura da normalidade), com editoras, prémios literários e recompensas docentes, prometia um futuro igual de feliz (“Nom estou disposto a perder o meu lugar na História da Literatura Galega por causa de umha normativa”, frase de escritor consagrado).

Durante estes anos só na posiçom reintegracionista se tem conservado o compromisso aludido, aparecendo organizaçons de resistência, como a AGAL, o MDL, Artábria, que formulam críticas fundadas da chamada norma oficial, ou elaboram instrumentos coerentes para a escrita do galego dentro do sistema português. Do ponto de vista desta postura, espalhada a grupos de base e a publicaçons de “vida dificultada”, sente-se a língua própria como signo vital em termos identitários, e vê-se o apoio nos prolongamentos lusos e brasílicos como contributo imprescindível para o reforço e sobrevivência do galego. E é que o temor por umha Galiza absolutamente castelhanizada nom carece de fundamento, tendo em vista a presença esmagadora dos mass media espanhóis, tendo em conta que o galego retrocede, que é respeitado mas nom promovido, que se tende para a fase de modalidade folclórica. A posiçom reintegracionista inspira-se na tradiçom do galeguismo que fundava aqui Murguia há mais de cem anos e que aspira a outra fortuna para o galego: a de nom ser umha relíquia na vitrina da Uniom Europeia como língua minorizada. É a mesma tradiçom daqueles intelectuais e instituiçons que propugnárom o galego como língua da Galiza, e que já antes da ditadura virom claro o único caminho possível a seguir. Umha tradiçom nom completamente apagada, felizmente, porque nós estamos vivos.

No outono de 1999 transpareceu de novo um momentáneo debate público, favorável à orientaçom ortográfica lusista para o galego, em cujas circunstáncias propiciatórias nom faltou a voz de vários escritores “oficiais”. As vozes que se levantárom, brevemente consentidas polos media mas rapidamente silenciadas e proibidas (e escrevo em consciência essas palavras, porque conheço por dentro todo o breve processo), indicárom que este assunto nom está fechado, e que a inibiçom nom é absoluta por parte dos escritores e do poder. Até porque de várias perspectivas se pode ver com interesse o alargamento do mercado editorial com a mudança ortográfica. No próximo século, se o controlo dos poderes instituídos nom for definitivamente estrangulante, deverá haver algumha reforma neste sentido que contribua para salvar o galego e a sua literatura do caminho de espanholizaçom oficial, e portanto de morte, que está tomando.

Depois dessa primavera em pleno outono-inverno, propiciada por um reintegracionismo em positivo, voltámos ao desalento a que o quase sadismo do poder nos tem habituados. Confirmámos mais umha vez que isto nom é umha revoluçom, é umha evoluçom. Se o presidente do Conselho da Cultura Galega, digamo-lo bem à luz de Tui e com a boca cheia, acredita na conveniência de aproximar a extravagante ortografia do galego dito oficial à norma portuguesa; se se somam muitas vozes, de empresários, banqueiros, escritores… se todos e todas descobrem de repente a maravilha dessa mudança, que nos permitam parabenizar. Alboroçadamente. Já ensaiámos a voz alta, como Antero 135 anos atrás, erguida em nome da liberdade e da justiça. Já atacámos, como Almada outros 85 anos antes, o deus sentado no cadeirom azul da altura. Agora o Sr. António Feliciano de Castilho, todos os Dantas de turno, que levem as nossas palmas cordiais, coitados conformistas. Som muitos anos vendo-os passar, depois de Murguia, para saber que os conformistas nom ousam. Os conformistas encontram-se em qualquer sítio onde haja poder, para nom ousar. Mas vamos ajudá-los porque podemos e sabemos, desde a rebeliom de estarmos vivos.

Carlos Quiroga,
III Descida em Defesa da Língua,
Tui, em 22 de Julho de 2000.