Por que ler Cesário Verde?

Em 1901 Silva Pinto, editor português, publicou O livro de Cesário Verde, uma reunião da obra completa de Verde, poeta nascido em 1855 – ano em que foram publicados, em um jornal parisiense, dezoito poemas inéditos de Fleurs du Mal, de Charles Baudelaire, e Walt Whitman editou Leaves of Grass, nos Estados Unidos. Cesário Verde não chegou a ver nenhum volume reunindo seus poemas, morreu em julho de 1886. Em vida, apenas os estampou em cadernos literários da imprensa portuguesa. Foi um poeta pouco lido e recebido com muitas dificuldades por seus contemporâneos, entretanto, tem importância crucial no desenvolvimento da poesia moderna em língua portuguesa.

Verde propõe uma objetividade jamais vista antes na poesia de sua língua. Essa arte, geralmente, é caracterizada por pertencer aos domínios do gênero lírico, aquele que se costuma definir como apropriado à expressão do “eu” e da subjetividade. Como é sabido, o século 19 vivenciou, na esfera da arte, o conflito entre propostas estéticas mais ligadas à elaboração formal da subjetividade e aquelas outras mais voltadas à representação objetiva do mundo.

Como Baudelaire, em língua francesa, entretanto, de modo também original e bastante diverso de sua poesia em termos formais, Cesário conjugou esse conflito de modo inventivo e novo para seu tempo. Ele o fez por meio de pesquisa das técnicas e prerrogativas teóricas da prosa analítica realista, segundo suas leituras do historiador e crítico positivista Hippolyte Taine, com a finalidade de compreender criticamente as transformações profundas vividas pela sociedade portuguesa no final do século 19 e entender como essa realidade poderia determinar a subjetivação, completando o arco de negação do gênero lírico e sua incorporação por outra via.

Não se trata de comparar a poesia de Cesário Verde àquela de Baudelaire. Interessa constatar, isso sim, o fato de que, como o mestre francês, que tem uma poética ligada à radicalização formal e temática da técnica romântica, reelaborando o lugar o poeta no mundo moderno – do progresso industrial e da definitiva expansão da vida nas cidades por todo o mundo ocidental –, a obra de Verde atesta a elaboração dessas mesmas questões, em sua língua e na sociedade portuguesa.

Como já observou o teórico Roman Jakobson, a modernidade poética não se fundamenta no uso ou na alteração de determinada técnica, mas, antes, no valor que adquire cada uma dessas técnicas – que, diga-se de passagem, existem milenarmente entre os poetas ocidentais – no contexto estético que elenca tal repertório técnico. É por isso que a obra de Verde é extremamente original e importante. Ao reelaborar o método analítico tainiano, em forma de poesia, Verde realoca o lugar da metáfora e da metonímia na criação poética e faz notar a necessidade crescente de se produzir uma poesia que, ao invés de expressar a subjetividade do indivíduo que cria, submeta a arte e a realidade à análise, levando em conta que tal indivíduo é parte desse todo real. Assim, o poeta redefine o papel e o lugar da poesia – ou do artista – nessa ordem que começa a se estabelecer a partir de seu tempo.

Segundo o poeta e ensaísta português Helder Macedo, “o método de Taine pode ser definido, sumariamente, como a aplicação da análise ao real com o propósito implícito de exacerbar a sua compreensão crítica” [1]. Com isso, Cesário confere à técnica lírica a possibilidade de análise concreta do real, o que antes havia apenas se manifestado em prosa. Em última análise, a poesia de Cesário Verde, portanto, habilita a concretude de linguagem nas poéticas em língua portuguesa.

A partir disso, o “eu” lírico é caracterizado como “persona”, item dramático integrante da cena ou ação narrada pelo poema e, assim, desenvolve um discurso, em forma de monólogo na maior parte das vezes, sobre a cena na qual está inserido. Toda a obra de Verde – e, nela, pouco menos de cinquenta poemas escritos entre 1873 e 1886 – caracteriza-se por esse tratamento épico-dramático do eu lírico – personagem que descreve e narra em discurso para si mesmo.

O desenvolvimento de sua obra, no sentido de evolução, ocorre, sobretudo, nos campos da imagística e da temática, que aos poucos deixam de tratar de temas amorosos e bucólico-medievais, como nos poemas “Eu e Ela” (Num mimoso jardim, ó pomba mansa,/ Sobre um banco de mármore assentados./ Na sombra dos arbustos, que abraçados,/ Beijarão meigamente a sua trança.) e “Responso” (Num castelo deserto e solitário,/ Toda de preto às horas silenciosas,/ Envolve-se nas pregas dum sudário/ E chora como as grandes criminosas// Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas/ Em que ela esconde as lágrimas singelas.) [2] e passam a designar os conflitos entre a vida rural e a vida urbana, como em sua obra-prima “O sentimento dum ocidental”, que termina com a seguinte quadra:

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

As peças, ao longo de toda a obra, constituem-se em passeios e paisagens. O “eu” “persona” – que pode ser visto como uma antecipação de Personae, de Ezra Pound, e a partir do qual Fernando Pessoa concebe sua heteronímia e sua técnica de justaposição de imagens – está sempre em movimento, como o flâneur baudelairiano, e observando os fatos da cidade e da vida urbana, como se percebe no poema “Cristalizações”:

Eu julgo-me no Norte, ao frio – o grande agente! –
Carros de mão que chiam carregados,
Conduzem saibro vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Como afirma Macedo, a técnica por trás dessa narratividade, que cria efeito de perspectiva e quadro cinematográfico nos poemas de Cesário, vem do uso da metonímia e do recurso retórico do assíndeto – “justaposição ou contiguidade textual, sem copulativas, de vocábulos geralmente de valor adjetivo ou nominal” [3] –, que se expandem do nível da palavra para toda a estruturação formal e imagética de cada peça. Diga-se de passagem, é essa a técnica retórica empregada no mais que célebre verso de Mallarmé, “Solitude, récif, étoile”.

Na estrofe acima, a oitava do poema “Cristalizações”, observa-se o uso desse recurso nos dois últimos decassílabos. Helder Macedo explica que esse uso sem elementos de ligadura entre os termos gera, metonimicamente, um efeito de cena. Assim, o poeta provoca um “efeito estilístico semelhante ao da perspectiva em óptica e passa a compor por meio da sucessão por justaposição de objetos e cenas”.

Desse modo cria-se uma técnica lírica “realista”. Esse termo é explicado por Jakobson como oposto aos recursos das estéticas romântica e simbolista:

O primado do processo metafórico nas escolas romântica e simbolista foi sublinhado várias vezes, mas ainda não se compreendeu suficientemente que é a predominância da metonímia que governa e define efetivamente a corrente literária chamada de “realista”, que pertence a um período intermediário entre o declínio do Romantismo e o aparecimento do Simbolismo, e que se opõe a ambos [4].

Entre um termo e outro, na quintilha, as duas funções semânticas da linguagem – descrever e designar – são ativadas simultaneamente, deslocando o leitor da posição de ouvinte e colocando-o na de testemunha ocular, que, com a visão, passa pelos objetos da cena; estes, por sua vez, também observados pelo “eu” “persona”.

Esse personagem andarilho, que se encontra no meio de uma cena urbana, vai passando pelas ruas, descritas em cada quadro cristalizado, e refletindo um sentimento tensionado entre aquilo que se perdeu da vida rural (Não se ouvem aves nem; nem o choro duma nora!/ […] E o ferro e a pedra – que união sonora! –/ Retinem alto pelo espaço fora, […]) e o que a nova vida urbana demanda e obriga aos trabalhadores que a conduzem e sustentam (Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!/ Que vida tão custosa! Que diabo! […]).

Com isso, a poesia realista de Cesário Verde coloca em oposição, por meio de seus diversos quadros e andanças de personagens reflexivos, imagens da contradição, vivida em Portugal no século 19, entre a vida e os valores desenvolvimentistas do norte europeu e a vida simples do sul, rural, subdesenvolvida em relação às potências do norte − inglesa, francesa e alemã.

Conflito

O próprio Cesário Verde personificou essa contradição. Ao mesmo tempo em que trabalhava, ele mesmo, junto aos camponeses na quinta herdada do pai – como leitor de Proudhon, que necessitava praticar o uso para justificar sua propriedade sobre a terra –, era dono e administrador, em Lisboa, de uma loja de comércio local e internacional de produtos portugueses, como azeite e vinho.

Ao longo de sua produção de poemas, Verde transcende essa contradição entre cidade e campo ao formular, em seus últimos poemas, a questão a partir do ponto de vista do conflito social entre trabalhadores e proprietários, o que, enfim, acaba caracterizando sua obra como a elaboração do modo de vida burguês e do protesto social em forma de denúncia das cenas de exploração e subcondicionamento da vida: “Recolhes-te, pálida e sozinha,/ À gaiola do teu terceiro andar”, em “Noite fechada”, “As burguesinhas do Catolicismo/ Resvalam pelo chão minado pelos cano;”, em “O sentimento dum ocidental”, ou a quadra final de “Humilhações”:

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
– Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?

Desde os poemas iniciais de sua produção, Cesário Verde demonstra uma enorme perfeição formal – Verde foi mestre dos decassílabos, dos alexandrinos, das quadras e dos tercetos, eventualmente entrecortados por redondilhas de sete sílabas –, como se vê na série, mais ligada ao início de sua carreira, “Ecos do Realismo”. Nesse conjunto de quatro poemas, destacamos o soneto “Proh Pudor!” (reproduzido, na íntegra, abaixo).

Composto por versos de dez sílabas, o poema segue o esquema lógico do soneto, de apresentação do assunto e desenvolvimento nas duas primeiras quadras e agravamento e síntese nos dois últimos tercetos. Nas duas quadras desse poema, o sintagma “Todas as noites” funciona como motivo que desencadeia a repetição cotidiana da cena doméstica noturna, que mostra o homem sendo cuidado e servido pela mulher. Nas duas últimas estrofes, joga com a ambiguidade do ato da mulher em “descalçar” / “desvestir” seu homem, que pode ser o de servir doméstica ou sexualmente.

Assim, é composto um quadro assindético – o assíndeto aparece no primeiro verso do primeiro terceto e no penúltimo verso do segundo terceto –, que retrata a cena íntima do casal, com imagens substantivas da vida sexual do mundo burguês, que de dia tem vergonha, mas, à noite, quebra esse sentimento com “Furor original, impertinente…”. Notem-se as reticências como fator formal de suspensão que, no caso, reforça a ambiguidade mencionada acima.

Como nos outros poemas da série, “Proh Pudor!” (do latim, “em defesa do pudor”) descreve, com certa ousadia, a relação entre homem e mulher. Nesse caso, pautada pela quebra íntima desse pudor, sentimento moral de inocência, na relação noturna do casal, que resulta em uma análise, quase debochada, da moral burguesa. Nos outros poemas da série, a relação entre homem e mulher é retratada de diferentes formas. “Lágrimas” descreve a relação dos amantes, “Impossível” trata do jovem que se declara à moça, entretanto, fugindo à obrigação social de matrimônio, enquanto “Manias!” trata da rejeição feminina a um pretenso amante.

Este breve ensaio pretendeu delinear um panorama geral da poética cesarina. Foram recortados e comentados diversos trechos de poemas distribuídos ao longo de toda a obra desse autor, sempre procurando destacar suas questões mais relevantes. Desse modo, concluo afirmando a importância do conhecimento dessa obra, em razão de ela ser uma das primeiras e mais consistentes afirmações, em língua portuguesa, de uma poética direta que, acima de tudo, transmite um grande apuro formal e um discurso absolutamente concreto e claro ao leitor.

De modo mais radical, e formalmente inovador, é nesse sentido que caminharam as obras de grandes autores brasileiros que certamente foram leitores de Cesário Verde, como o Carlos Drummond de Andrade de “E como eu palmilhasse vagamente/ uma estrada de Minas, pedregosa,/ e no fecho da tarde um sino rouco// se misturasse ao som de meus sapatos/ que era pausado e seco […]” [5] ou o João Cabral de Melo Neto de “Trouxe o sol à poesia,/ mas como trazê-lo ao dia?// No papel mineral/ qualquer geometria/ fecunda a oura flora/ que o pensamento cria” [6].

 

Proh Pudor!

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada langorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original impertinente…

Todas as noites ela, ah, sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés…

 

O sentimento dum ocidental

I

Ave-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro onde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

II

Noite fechada

Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de “dom”!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções retas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.

III

Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

“Dó da miséria!… Compaixão de mim!…
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!

III

Horas mortas


O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nômadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

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Notas:

[1] MACEDO, Helder. Nós, uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Presença, 1989.
[2] Todos os poemas transcritos neste ensaio foram retirados de: VERDE, Cesário. Obra poética integral de Cesário Verde (1855-1886). Organização, apresentação, tábua cronológica e cartas reunidas por Ricardo Daunt. São Paulo: Landy Editora, 2006.
[3] MACEDO, Helder. Nós, uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Presença, 1989, p. 21.
[4] JAKOBSON, Roman. Linguística e comunicação. 27. ed. Prefácio de Izidoro Blikstein. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 2008, p. 57.
[5] ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 43. ed. Organizada pelo autor. Rio de Janeiro: Record, 1999.
[6] NETO, João Cabral de Melo. O artista inconfessável. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.