New Poets

Júlio Castañon Guimarães
    (1951)

3 MOVIMENTOS

  1. Veneza 86

guarda
de um passado
que se liquefaz
uma cor uma luz
uma música em silêncio
e o que recolhem
da memória de um olhar

  1. Londres 89

em um tudo de um museu
tropeça-se em aparas do passado
mármores granitos gestos
para sempre fragmentos
frustra-se a insistência
em recuperar em recompor
para além do devaneio
sequer o olhar será o mesmo
devassará brumas e hiatos
no improvável reencontro

  1. Bruxelas 89

da fachada art nouveau
o vento arranca um motivo floral
que começa a se desfazer
entre o sorriso o sotaque russo
as reticências o olhar sua voragem
o aceno já no trem para Berlim
e segue a se redesenhar
como imagem da dispersão

(Inscrições, 1992)

3 MOVEMENTS

  1. Venice 86

save
from a past
which liquefies
a color a light
a music in silence
and what they collect
from the remembrance of a look

  1. London 89

in one an entire museum
stumbles on scraps from the past
marble granite gestures
forever fragments
the insistence frustrating
on recuperation on recomposition
beyond the reverie
even the look will be different
will penetrate mist and opening
at the improbable second meeting

  1. Brussels 89

from the art nouveau façade
the wind tears off a floral motif
which begins to unravel
amidst the smile the russian accent
the reticence the look its vortex
the wave from the train to Berlin
and continues redesigning itself
as image of dispersion

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

ÚLTIMA CANÇÃO

  Como esquecer a noite crivada de estrelas, cravada fundo no destempero? Se o céu se abria adiante, abrigando o alcance do olhar, todas as penhas e o cenário de adornos.
  Por uma mínima trilha de Minas, entre capins e capelas, era possível erguer não a voz, não o tranco, mas a espera. Que avançava, alerta, pelas curvas de cada pausa. Que sabia, pelas margens, aonde ainda não se chegava. Embora o hálito de músculos tesos, embora o tato sem controle, embora súbito vagas de dissolução.
  (Alguns ruídos de insetos, carrapichos na barra da calça, latidos ao longe.) Vertigem de fumos no ar enregelado ou tentativas de ardor desfeitas por uma lógica em precipício não desvendarão, sequer sujarão, as miúdas cifras interpostas entre o quase entrelaçamento.
  Aqui mais vasto podia ser o pasmo, mais vasto podia ser o avesso. Sem cismas, assim como sem resignações. Rente ao chão, sentindo no corpo a terra úmida de sereno.

(Matéria e Paisagem, 1998)

LAST SONG

  How to forget the night perforated with stars, penetrated deep into the disorder? If the sky opened up ahead, sheltering the reach of sight, all the cliffs and the decorated setting.
  On a narrow trail in Minas, between grass and chapels, it was possible to increase not the voice, not the trot, only the anticipation. Which advanced, alert, through curves of each pause. Which knew, by the banks, where it had yet to arrive. Despite the scent of taut muscles, despite sudden waves of dissolution.
  (Sounds of insects, burrs stuck to the pant-leg hem, barking in the distance). Swirls of smoke in the frozen air or attempts at ardor undone by a logic on the precipice they won’t reveal, not even soil, the small ciphers located between the almost interlacement.
  Here vaster could be the wonder, vaster could be the reverse. Without illusions, as without reservations. Close to the ground, the body feeling the earth humid with dew.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

TRÍPTICO

1.
como um morro
(que não chegue a destruir
um horizonte
suas figuras de nuvens)
e com o risco
do que por trás dele

com uma árvore
para sempre debruçada
na curva do rio
sobre as águas que passam
– e seus galhos
espalmados no meio da cena
(da lembrança da cena)

como as pedras
espalhadas na corredeira
com que também
se atropela a enumeração
das peças da paisagem

2.
uma paisagem se faz ainda
com alguns nomes
mesmo que
vazios da coisa
esvaída no tempo

alguns nomes
seus rastros de afeto
o nome onde os avós
alguns nomes
Tabuleiro Pomba Guarani Piau
todos os nomes que travam
os nós de uma história
e mais
sua paisagem

TRIPTYCH

1.
like a hill
(which fails to destroy
a horizon
its figures of clouds)
and at the risk
of what is behind it

with a tree
forever stooped
on the curve of the river
over the passing water
— and its twigs
flattened in the middle of the scene
(of the memory of the scene)

like the stones
scattered in the rapids
which also
smash the enumeration
of the pieces of the landscape

2.
a landscape makes itself
with some names
even if
emptiness of things
emptied in time

some names
their wake of affection
the name where the grandparents
some names
Tabuleiro Pomba Guarani Piaui
all the names that unite
the we of a history
and more
its landscape

3.
mas uma paisagem
talvez venha apenas de um foco
pois a paisagem é quando
cada vez mais longínquos
ao olhar de Patinir
os personagens
quase apenas musgo das pedras
quase apenas sombras das árvores

quando então a paisagem
em controle telescópico
– composição de distâncias
acidentes e amplitude
sem subtração de aventuras
e ausência

(Matéria e Paisagem, 1998)

3.
but a landscape
perhaps come just from focusing
for a landscape is when
ever farther
at the sight of Patinir
the characters
almost just moss on stones
almost just shadows of trees

when then the landscape
in telescopic control
— composition of distances
accidents and amplitude
without subtraction of adventures
and absence

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

Horácio Costa
    (1954)

O INVISÍVEL

Sempre a invisibilidade esculpi
abstraindo da pedra a forma fácil
e, contra os sentidos, negando até
cada artifício em que me refletisse.

Olhar e tato, agentes do pensamento
de quem esculpe, dão acesso ao ser
que a escultura da matéria pascento
ao longo da história, revelar quer.

Fiz de mim a não-forma que no vácuo
entre golpe e golpe o escultor em dúvida
não perfaz nem cessa de acometer:

desta iminência veio à luz um sólido
de insuspeitável visibilidade,
um ser-de-ar que refuta o buril.

(Quadragésimo, 1999)

THE INVISIBLE

I always sculpted the invisibility
separating the easy form from the stone
and, against sense, negating until
in each artifice I would be reflected.

Sight and touch, agents of the sculptor’s
thought, giving access to the being
which the sculpture from the material shepherded
the length of history, reveals want.

I made myself the anti-form which in the emptiness
between blows the sculptor in doubt
does not perfect nor cease to provoke:

from this imminence came to the light a solid
of unsuspicious visibility
a being-of-air which refutes the chisel.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

NEGRA

já escrevi “tentei tudo”
já te escrevi que já me tinhas visto
não como um gato mas seu novelo
enrolado em teus babados:
queria perder-me
na periferia do teu corpo
respirando o ar que o que exalas
– frio? fumo? perfume?
compulsória epifania? –
modifica
ou nos faz
– hilário gás lacrimógeno? –
crer que modifica

negra mina
aqui me tens de novo:
persegui teu rastro
& consultei horários que levavam
à tua evasiva região
servi compêndios & li filosofias
& abracei meu umbigo & sonhei
& abri dicionários & me tornei
expert em trivia
& aqui me tens
de novo

& aqui me tens
irreduzindo-te
imemorial oh desmemoriada:
volteias o rosto
para a escuridão em que procrias
tuas dezenas de ninhadas cegas
com teus peitos duros & teus gestos puros
teu escarninho sorriso desdentado
tua baba de loucura & sabedoria

musa: aqui me tens
mais uma vez vim ouvir-te
sussurrar
tua viscosa & negra

palavra

(Quadragésimo, 1999)

SISTUH

i wrote “i tried everything”
i wrote to you that you’ve seen me before
not like a cat but a ball of yarn
rolled in your new loves:
i wanted to loose myself
in the margins of your body
breathing the air that you exhale
— cold? smoke? perfume?
compulsory epiphany? —
modifies
or makes us
— hilarious tear gas? —
believe it modifies

black mine
here you have me again:
i chased your trail
& i consulted schedules they brought
to your evasive regions
i studied text-books & i read philosophies
& i clasped my navel & i dreamt
& i opened dictionaries & i became
an expert in trivia
& here you have me
again

& here you have me
you irreducible
immemorial oh unforgotten:
your face dances
for the darkness in which you procreate
your dozens of blind hatchlings
with your hard breasts & pure gestures
your flouting toothless smile
your wise & crazy spit

muse: here you have me
one more time i came to hear you
murmur
your viscous & black
word

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

CANÇÕES DO MURO

1

Quem botou o reboco neste muro
não tinha o domínio de espátula,
ignorava a mescla correta da argamassa,
não era bom pedreiro.

Ou será o tempo apenas o culpado
pela destruição do seu trabalho?
Não faz assim tantos anos
que levantaram este muro.

Pintaram-no de branco
e várias vezes repintaram-no,
de branco primeiro, depois só de tons ocres.

2

O sol batia a pino sobre o muro
que parecia estar ali
desde que é o mundo mundo:
os passantes não o percebiam mais.

Usaram-no como suporte
de campanhas políticas & publicitárias,
Kolinos & logos
& siglas & partidos
impressos com tinta barata.

3

Usaram-no também para grafites:
escreveram sobre rostos & restos
de affiches & argamassa
como se sobre uma folha em branco.

Virou a carne do muro
uma espécie de pasta: um Tàpies
esquecido num canto de cidade, obra in progress
de significado igual & forma instável
(do lado de lá, escondia-se /
esconde-se
o velho jardim de rosas).

SONGS OF THE WALL

1

Whoever applied plaster to this wall
wasn’t handy with a trowel,
didn’t know the right mixture for mortar,
wasn’t a good mason.

Or is time to blame
for the destruction?
This wall was raised
not so long ago.

It was painted white
and repainted several times,
first white, then just tones of ochre.

2

The sun shone full on the wall
which seemed to have been there
ever since the world, world:
passersby no longer took note.

It was used as a stage
for political & ad campaigns
Kolynos & logos
& acronyms & factions
printed in cheap ink.

3

It was used for grafitti too:
scribbled faces & scraps
of posters & mortar
as if it were a blank page.

The flesh of the wall became
a sort of paste: a Tàpies
forgotten in some corner of the city, a work in progress
of equal significance & unstable form
(on the other side, was hidden/
is hidden
the old garden of roses).

4

Quem reparou na progressão das gretas
sobre a sua superfície & mediu
a deslavagem & a erosão milimétricos?
Quem leu as pautas que se formavam?
Quem viu o reboco cair como icebergs
no oceano da calçada?

A sós se desfazia /
se desfaz o muro,
sua música para ninguém cantada,
surdina para surdos, cantochão para o chão,
nu descendo a escada numa casa vazia,
natividade num museu antártico.

5

Por isso cantaria eu o muro?
Por isso eximiria eu
o pedreiro do mau reboco
de seu mau trabalho
de há quarenta & mais anos?

Sua obra resultou em obra d’arte
– que vive na retina, que não no espaço –,
mas não é esta a razão,
nem este poema a sua defesa
nem a épica do descobrimento súbito
do muro.

6

Canto o muro porque sim,
porque sua pele & a minha se assemelham
posto que também já tomei sol & tomei chuva,
posto que sobre o meu corpo discursos
& campanhas se imprimiram /
imprimi:
já tive tantas caras & sorri
como foram da minha vida os meses
& as idéias políticas ou não
que se sobrepuseram
umas sobre as outras

4

Who noticed the growing cracks
on its surface & measured
the fading & the kilometrical erosion?
Who read the score that took shape?
Who saw the plaster fall like icebergs
into the ocean of the sidewalk?

The wall was collapsing/
collapses by itself,
its music sung for no one,
mute for the deaf, plainsong for the plain,
nude descending the staircase in an empty house,
nativity in an Antarctic museum.

5

For that shall I sing of the wall?
For that shall I absolve
the mason from shoddy mortar
his shoddy workmanship
of some forty years ago?

His work resulted in a work of art
–which lives in the retina, not in space—
but this is not the reason,
nor this poem his defense
nor the epic of the sudden discovery
of the wall.

6

I sing the wall just
because its skin resembles mine
since I too have been under the sun & beneath the rain,
since on my body speeches
& campaigns were printed/
I printed:
I had as many faces & smiles
as there were months of my life
& ideas, political or not,
which have layered themselves
one atop another.

7

Canto-o & dou-lhe olhos & ouvidos
para cantar-me a mim;
ao emprestar-lhe minha voz /
tomá-lo emprestado para a minha voz
Eu canto a mim.

edificado por acaso numa esquina do tempo
(do outro lado, o velho jardim de rosas)
ruminando, cantarolando o que me apraz
(sim que há rosas, me disseram)

& os Tàpies, os topázios
sobre a minha pele
(& as pétalas)

8

& as fraturas
& os desmoronamentos
& as cantigas da gravidade
& o caminho ao pó

o meu caminho
& o muro.

(poema inédito em livro)

7

I sing of it & give it eyes & ears
to sing of me;
when I loan it my voice/
borrow it for my voice
I sing of myself,

built by chance on a corner of time
(on the other side, the old garden of roses)
ruminating, humming whatever pleases me
(yes there are roses, I have been told)

& Tàpies, the topazes
on my skin
(& the petals)

8

& the fractures
& the crumbling
& the canticles of gravity
& the road toward dust

my road
& the wall

(previously unpublished)
(Tr. Martha Black Jordan)

Régis Bonvicino
    (1955)

COMPOSIÇÃO

Cano com furos eqüidistantes fixo no teto lançando jatos de água destilada lance de paralelepípedos desalinhado ninguém neles se ajustando grades de ferro pontiagudas em parapeitos de vitrine e janela de alcance mínimo para que ninguém se deite nos espaços vazios ferros retorcidos em portas no teatro além dos jatos câmera canteiro árvore de onde sai a água flores vaso espinho

(Céu-eclipse, 1999)

COMPOSITION

Pipe with equidistant holes fixed on the roof sending jets of distilled water descending misaligned cobblestones nobody on them balancing grates of iron with spikes in window sills and window in decent reach so that nobody lays down in the empty spaces iron twisted on theatre doors along with the jets camera flowerbed tree from where the water flows flowers vase thorn

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

O AGAPANTO

O agapanto se lança em janeiro alamanda talvez canto de magnólia branca mil folhas florena esporinha em fevereiro manacá-março o que é flor o que é azul brinco-de-princesa insigne em abril camélia branca de maio íris numa agulha de sol de junho lápis-lázuli lacunas de campânulas embora chamadas de flor rododendro caliandra que se lança jasmim ou miosótis no mês seguinte o que é sépala de outubro fulvo antúrio cinerária petúnia jacarandá-mimoso no mês de janeiro e dezembro sálvia a pétala deslocou a parábola a flor secou a fábula

(Céu-eclipse, 1999)

THE AGAPANTHUS

The agapanthus blooms in january yellow bell perhaps song of magnolia white milfoil yarrow floret larkspur in february manaca-march that which is flower which is blue princess-jewels eminent in april white camelia of may iris in a needle of june sun lapis-lazuli lacuna of campanulas though called flower rhododendron calliandra which blooms jasmin or myosotis on the following month which is sepal in october tawny snapdragon cineraria petunia jacaranda-tendergrass in january and december salvia the petal plucked the parable the flower dried the fable.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

220294

Você toma a avenida como marco. Desce uma de suas transversais até o largo. O que ressalta no caminho é o asfalto pesado. Automóveis. A forma dos automóveis contrasta com a da rua. Farmácia em seguida cortiço. A fachada da igreja neoclássica encoberta pela fuligem. Travessas com asfalto carbonizado. O céu, apesar de claro de verão, espelhando exatamente o asfalto morto. Árvores de tamanhos semelhantes. Apagadas. Paredes de prédios. Nas esquinas, lanchonetes sujas. Ruído igual dos motores. Pouco antes do largo, em frente à farmácia das prostitutas, uma rua aérea, com janelas despencadas. Entre as avenidas, o posto de gasolina. Como se as sombras fossem imagens. O neon do cinema. E, na praça, uma mulher nua inteira de pedra exposta ao sol.

(Ossos de borboleta, 1996)

022294

Takes the avenue as a landmark. Goes down one of the cross streets until reaching a square. On the way, notices the heavy asphalt. Cars. The shapes of the automobiles contrast with the roads’. Pharmacy followed by projects. The façade of the neoclassic church covered with foliage. Cross streets with lanes of charred tar. The sky, despite its summer clarity, perfectly mirrors the dead asphalt. Trees of similar sizes. Burnt out. Walls of buildings. Dirty diners on the corners. Noise from the motors. Just in front of the square, directly facing the prostitutes’ pharmacy, an aerial street, blown out windows. Between the gas stations, the avenues. As if the shadows were images. The movie house neon. And in the square a naked woman entirely of stone exposed to the sun.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

POEMA
    para Wilson Bueno

Iemanjá
de tão branca
Vela o vento
erva

que cobre os leitos
Arzúa, estrela
León
Virxen

Um de teus nomes
Jaca, Nájera
Sangüesa
Las Médulas

Ou Ruta
de los Dinosaurios
acordando
Santiago

*

A lua em Virgo minúcia pura
exuberante
ramo de arruda
azul

Cangas de Onís
Estella, úmida
luxo
para o Buda

*

manjar azul
dos deuses arco-íris
de Dan
Eco de Liríope

POEM
    for Wilson Bueno

Iemanja
(so) white
Veil the wind
herb

covered beds
Arzúa, star
León
Virgen

One of thy names
Jaca, Nájera
Sanguesa
Las Médulas

Or Route
of the Dinosaurs
waking
Santiago

*

The moon in Virgo pure detail
exhuberant
grass path of
blue

Cangas of Onís
Estella, humid
luxury
for the Buddah

*

blue flan
of the rainbow goddesses
of Dan
Echo of Lirope

Excelsa Mãe
dança
e seu cavalo
balança o mar

(Céu-eclipse, 1999) ??

Exalted Mother
whirl
and your horse
twirls the sea

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

171196

 1
Nunca morei numa rua chamada Vidro. Chutei uma vez paralelepípedos. Cada dia passava como se num espelho — de ecos. Telefones, fios. Uma vez andei de barco num lago. Nunca me vi em meu próprio reflexo. Falas, conversas — uma só figura e pessoa. Alto-falante mudo. Também morei num apartamento minúsculo. Gosto do nome das ruas de alguns amigos. Amherst, Mílvia, Sírius. Não tenho tempo para nada. Meus cabelos caíram. Talvez isto seja tudo.

 2
Meus antepassados vieram da Itália. Sicília. Nápoles. Veneza. Alessandro Bonvicino — Il Moretto. Também de Pontevedra, na Galícia. Meus antepassados, de mãe, vieram de minas. Meu nome: meu pai tirou de um cartão de visita.

 3
Nunca passei por uma rua chamada Tesoura. Uma lacraia se move, por atalhos. Formigas caindo no olho. Giuliano Della Casa, água e tinta, gosta dos quadros de Alessandro Bonvicino. Giuliano vive em Modena, via Sant’Agostino, 33. Passei alguns anos fechado, aqui mesmo, num quarto. Há uma rua chamada Tesoura. Inhambu é o nome de um pássaro. Gosto de tomar aspirinas e hipnóticos. Uma onda de luz me abandona agora — como a um fósforo, antes de partir. Há um sol e uma lua, ao mesmo tempo, no Boulevard Wilshire. Sabine Macher mora no 7 bis rue de Paradis. Alguém mora na Legion Dr. O pneu da bicicleta não é um círculo. Há uma avenida chamada Precita. O céu, ontem, estava oblíquo.

 4
Vejo você mais tarde. O filho de onze anos de David gosta de selos estranhos. Alguém está fazendo garage sale, neste momento. Não senti uma queixa abafada na docilidade das flores, esta manhã. Também não vi um pássaro esguio, comendo insetos, esta manhã. Alguém mora em Gumtree Terrace. A água corre para o mar. A lua não fica cheia em um dia. Há uma rua chamada Lepic. Há uma outra, Lindero Nuevo Vedado. Aquela calçada está suja. Sweet William é o nome de uma flor. Elefantes não fiam pontas de agulha.

 5
Talvez tenha morado numa rua chamada Sí dar. Há uma rua chamada Campeche. Rose e Andy moram com certeza na Cedar Street. Maçãs não significam nada. Dizem que existe um sedativo especial para lesmas. Ninguém explica certas expansões do verde. Árvores grandes não dão frutos, apenas sombra. Sequóias e conchas enlouquecem os homens. Uma mulher esmerilha, pelo telefone. Há uma rua chamada Cedro. Cilícios consentem dias e arames. Estátuas

          fazem parte
      do
        universo

(Céu-eclipse, 1999)

111796

 1
I have never lived on a street named Glass. Once I kicked cobblestones. Each day passed as in a mirror—echoes. Telephones, wires. Once I took a boat out on a lake. I’ve never seen myself in my reflection. Words, conversations—only one character, one person. Megaphone mute. I’ve also lived in a tiny apartment. I like the name of the streets of some of my friends. Amherst, Milvia, Sirius. I don’t have time for anything. My hair fell out. Maybe this is it.

 2
My ancestors came from Italy. Sicily. Naples, Venice. Alessandro Bonvicino.—Il Moretto. Also form Pontevedra in Galicia. My maternal ancestors come from mines. My name: my father took it from a business card.

 3
I’ve never run across a street named Scissors. A centipede moves sideways. Ants fall in the eye. Guiliano Della Casa, water and paint, likes the paintings of Alessandro Bonvicino. Guiliano lives in Modena, Santa Agostino Street 33. I spents some years, right here, closed up in a room. There is a street called Scissors. Inhambu is the name of a bird. I like to take aspirin and opiates. A light wave abandons me now—as a match before leaving. There is a sun and a moon, all at once, on Wilshire Boulevard. Sabine Macher lives at 7 Paradise Street. Somebody lives on Legion drive. The bicycle tire is not a circle. There is an avenue called Precita. The sky, yesterday, was overcast.

 4
I’ll see you later. David’s eleven year old son likes foreign stamps. At this very moment someone is having a garage sale. I didn’t feel like complaining due to the docility of flowers this morning. I also didn’t see a thin bird, eating insects, this morning. Some- one lives on Gumtree Terrace. The water runs to the sea. The moon doesn’t fill in during day. There is a street called Lepic. There is another, Lindero Nuevo Vedado. That sidewalk is dirty. Sweet William is the name of a flower. Elephants don’t thread needles.

 5
Maybe I’ve lived on a street called Si Dar. There is a street called Campeche. Rose and Andy, certainly, live on Cedar Street. Apples mean nothing. They say that a special sedative exists for snails. Nobody explains certain expanses of green. Large trees don’t bear fruit, just shade. Sequoias and shells drive men insane. A woman investigates by phone. There is a street called Cedro. Cecilia senses the millennia and wires. Statues

          are part
      of the
        universe.

(Tr. Jennifer Sarah Frota and Douglas Messerli)

CASAS SEM DONO
     para Lucio Costa

Farol — caixa de madeira, parede de viga, um sofá — sacos, onde a cabeça, talvez abrigo. Meia-parede, o domínio do jardim, feldspato: cabeça reclinada na pedra — olhar, profundo, à noite, para a rua, cega. Largar-se, num muro baixo, tragando o cigarro, à vista, para quem passa — variação da casa, sob o toldo em frente, onde dorme, sempre. Dorso nu, braços cruzados à cabeça: colcha vermelha entre o corpo e o degrau — vaso oferecendo sombra, trama de branco e azul, na calçada, sob a lona. Outra caixa, vazada, como cadeira. A rua, estreita, como porta, atravessando. Luz da tarde: a escada-passagem como quarto, sob árvores-frechais — acima, de plástico leve, cadeira branca — arbusto, prédio, varanda.

(Céu, eclipse, 1999)

OWNERLESS HOUSES
     for Lucio Costa

Traffic light — wooden box, slat walls, a sofa – bags, maybe to shelter the head. Half-wall, garden’s realm, feldspar: head leaning against stone – looking deep into night, the street, blind. Lounging on a low wall, dragging at a cigarette, in sight of a passerby, housing variant, under the awning in front where he always sleeps. Bare back, head in crossed arms: red bedspread between body and step – flowerpot casting shade, white and blue weave, under canvas on the sidewalk. Another box, emptied out, as chair. The narrow street, crossing, as door. Afternoon light: stairway as room, treeroot-groundsill below—above, white chair of fragile plastic – bush, building, veranda.

(Tr. Michael Palmer)

Josely Vianna Baptista
     (1957)

O QUE SONHO…

     Araño en la pared con la uña,
     la cal va cayendo
     como si fuese un pedazo de la concha
     de la tortuga celeste.
     ?La aridez en el vacío
     es el primero y último camino?
     Me duermo, en el tokonoma
     evaporo el otro que sigue caminando.
     “El pabellón del vacío” (frag.)
     José Lezama Lima

o que sonho apenas
uma idéia, o aceno
de uma orquídea ou
o avesso e o só de
uma odisséia íntim

  1. o que sonha nad

a mais que sulco,
tokonoma oco na pa
rede nua, meia-lua
tinta no olho de d
aruma quando
o dia ainda
são brumas em
f u g a

(AR, 1991)

WHAT I DREAM…

     Araño en la pared con la uña,
     la cal va cayendo
     como si fuese un pedazo de la concha
     de la tortuga celeste.
     ?La aridez en el vacío
     es el primero y último camino?
     

Me duermo, en el tokonoma

     evaporo el otro que sigue caminando.
     “El pabellón del vacío” (frag.)
     José Lezama Lima

what I dream only
an idea, the wave
of an orchid or
the opposite and the
lonely of
an intimate odysse

  1. what dreams

nothin
g more than furrow,
tokonoma hollow on
the w all nude,
half-moon
paint on the eye of
the aroma when
the day still
are mists in
f l i g h t

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)

me
guarda
contigo
como
teu
umbigo
,
raso
e
narciso
,
te
abraça
comigo
como
se
a
perigo
,
paraíso

(AR, 1991)

keep
me
with you
like
your
umbilicus
,
shallow
and
narcissus
,
embrace
yourself
with me
as
if
in
peril
,
paradise

(Tr. Marta and Scott Bentley)

leonado o desenho d
e um verso fosforec
e no escuro: brilho
próprio de órions,
pós de ferrugem no
espelho curvo, velo
s, reflexos, núcleos
de sentido que o ve
rso caranguejo sid
era à superfície e
m vermelho-coríndon
, grafismo sangüíne
o onde se abismam e
perdem os outros s
entidos: a olho nu
asteróides marinho
s parecem meteoros
(teu nome à margem
de um poema abandon
ado), espuma os ve
rsos que esta cart
a esquece, brancos
, no sudário de est
relas – idéia avessa
a tua desgeografia

(Corpografia, 1992)

tawny the
sketch o f
a verse phosphoresc
e the dark: brilliance
peculiar to orions,
rust powders in the
curved mirror, fleece s,
reflexes, nucleus of
meaning that the ver se
crab a mazes to the
surface and
m red-
corundum ,
bloody graphism o
where it is sunk in and
lost the other s
enses: with a naked
eye marine
asteroid
s resemble meteors
(your name at the
margins of a
poem abandon
ed), foam the ver
ses that this lette r
forgets, white,
in the cerement of st
ars — opposite idea
to your
disgeography

(Tr. Marta and Scott Bentley)

Carlito Azevedo
     (1961)

FÁBULA (REAL) DOS LAGOS DO MÉXICO
     Para Enylton de Sá Rego e Sarah

Veja estes
lagos de montanha

irão secar

(como da fruta o
azedo do carvão o êxodo da
cor como fibrilas cristais vítreos
xistosidades como tudo o
que a vista vê)

mas deles

mas da larva dispensando
brânquias e
nadadeiras

despertará adulta
agora já a

salamandra

ex-larva
axolotl tigrinum

que nenhum sol

há de secar

(Collapsus linguae, 1991)

(REAL) FABLE OF THE LAKES OF MEXICO
     For Enylton de Sá Rego and Sarah

Look at those
mountain lakes

they will dry up

(as of the fruit the
sour from the coal the exodus from the
color like fibrils crystals vitreous
foliations like all that
which the sight sees)

but from them

but from the larva dispensing
branchias and
flippers

will awaken adult
now the

salamander

ex-larva
axolotl tigrinum

that no sun
will dry up

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)

VENTO

A manhã e alguns atletas desde cedo que estão dando voltas – à Lagoa.
Outros seguem para o Arpoador (onde o ar é de sal e insônia
e a beleza ri com uma flor de álcool entre os dentes).
O mar desdobra suas ondas sob o violeta dos
olhos da menina no alto da pedra.
Um falsete fica reverberando sem querer morrer.
Dos cabelos desgrenhados do meu filho
se desprega, ao vento, como um
sorriso, como um relâmpago,
um pensamento triste.

(Sob a noite física, 1996)

WIND

The morning and a few athletes since early on go around—to the Lake.
Others follow to Arpoador (where the air is of salt and insomnia
and beauty laughs as a flower of alcohol between the teeth).
The sea unfolds its waves under the violet of the
the girl’s eyes atop the rock.
A falsetto reverberates without wanting to die.
From my son’s disheveled hair
loosens, in the wind, as a
smile, as lightning,
a sad thought.

(Tr. Marta Bentely and Scott Bentley)

PENNA: UMA EXPOSIÇÃO

Na fazenda – onde os insetos
ganham residência no cristal;
na casa em Botafogo – esmagada
pela luz e pelo pulso da pedra;
ou na paz final das Laranjeiras:
a caixinha-de-música fia
– pela eternidade adentro –
o sono da menina morta.

(Sob a noite física, 1996)

PENNA: AN EXPOSITION

At the farm — where the insects
gain residence on the crystal;
at the house in Botafogo — smashed
by light and by stone pulse;
or at the final peace of Laranjeiras:
the little music-box spins
— throughout eternity —
the sleep of the dead girl.

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)

MULHER

Rude calcário
lacera a pele
fina, de arroz;

carícia oculta
corais, e luvas
mudam-se em puas;

cristal, graveto,
farpa, granito:
qualquer palavra

fere este corpo
(que entanto a guarda
e afia como

novo esqueleto:
interno em gume,
externo em grito).

(Sob a noite física, 1996)

WOMAN

Rough calcareous
lacerates the fine
skin, of rice;

occult caress
corals, and gloves
change themselves into prongs;

crystal, kindling,
splinter, granite:
any word

wounds this body
(that meanwhile guards
and sharpens as

a new skeleton:
internal in edge,
external in scream).

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)

HOTEL INGLATERRA

I

Hotel
Inglaterra

não o negro
pórtico,

a escadaria
dourada

ou a gravidade
da insígnia:

dois leões
empinados

(diz-se
rampantes)

II

se penso
na morte

nem sobre
as lavândulas

à porta o
dulçor da

brisa que
encrespam,

tampouco
o corpo

jacente (e
por terra

HOTEL ENGLAND

I

Hotel
England

not the black
portico,

the golden
stairway

or the gravity
of the insignia:

two lions
rearing

(so-called
rampant)

II

if I think
about death

not even about
love and you last

at the door
sweetness of the

breeze that
ripples,

either
the body

lain (and
on the ground

III

a navalha
aberta

e enfim
cumprida,

a grossa
toalha

— já se esvai
a vida —

freando o
repuxo

de sangue
dos pulsos)

IV

se penso
na morte

apenas
me fala

tua
tabuleta

na noite
mais clara

— concisa,
sincera:

Perdão
Não Há Vagas.

(As Banhistas, 1993)

III

switchblade
open

and at last
accomplished

the coarse
towel

— now vanishes
the life —

braking the
recoil

of blood
from the pulses

IV

if I think
about death

your
signboard

only
shows me

on the clearest
night

— concise,
sincere:

Sorry
No Vacancy.

(Tr. Marta Bentley and Scott Bentley)

Claudia Roquette-Pinto
     (1963)

GEORG TRAKL

sete vistas esperam atrás do nome
jardim que foi salvo, tonsura de muros:

árvore branca do desejo,
coberta de flores-do-equívoco

poças gêmeas olheiras
sob uma rajada de pétalas

um astrolábio, perdido na fuga

um par de seios – faróis
que os dedos acabaram de acender

a criança de olhos-guilhotina:
razão (manhã) decapitada

a palavra sarça ardente

um punho fechado teu coração

(Zona de sombra, 1997)

GEORG TRAKL

seven views wait beyond the name
saved garden, tonsure of walls:

white tree of desire,
covered with flowers-of-equivocation

twin pools circles under the eyes
below a squall of petals

an astrolabe, lost in the flight

a pair of breasts—highbeams
which the fingers have just lit

the guillotine-eyed child:
reason (tomorrow) decapitated

the word bramble ardent

a closed fist your heart

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

CADEIRA EM MYKONOS

I

nela não se auréola nem é falsa
a idéia, que dela se alça,
como o fogo da lenha
um grego, aliás, quem a
aprisionou, como a um inseto
sobre a camurça-conceito:
na língua, terceiro objeto,
menos cadeira, se a escrevo
tampouco devo (se a quero)
nos arrabaldes das sílabas
buscar madeira de mobília
preciso (para que a tenha)
adestrar-me ao negativo,
ao branco contíguo
da parede, hauri-la
como figura: literal
(modo-de-éden) nua
entre lençóis de cal

II

ícaro sem penas
noiva muda em cendais de secagem rápida
quadrúpede engendrado para solidões

(Zona de sombra, 1997)

CHAIR IN MYKONOS

I

it gets no glory not even false
the idea which emanates
like fire in a woodpile
a greek, by the way, who
imprisoned it, like one would an insect
about the suede-concept:
in the language, third object,
minus chair, and i write it
much less must i (if i want it)
on the outskirts of the syllables
to fetch furniture wood
(i need in order to have it)
to become skilled in the negative,
in the continuous white
of the wall, absorb it
like figure: literal
(mode-of-eden) naked
between sheets of whitewash

II

icarus without feathers
mute bride in fine ashen quick-drying veils
quadruped created for solitudes

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

MEIA-ÁGUA

duas conchas
tua sombra quando encosta à minha
areal mais exíguo da
fronha, língua
de areia confinando com a escuridão

corpo
casca de borco (ambos)
quando abandonamos o nítido
por um pouso menos claro

poço
e poço de sono
sobre nossas águas gêmeas
a noite hesita em refletir

(Zona de sombra, 1997)

MID-WATER

two shells
your shadow when up against mine
shoreline thinner than
pillowcase, tongue
of sand bordering with darkness

body
hull upside down (we two)
when we abandon the well-marked
for a less clear landing

waterwell
and well of sleep
around our twin pools
the night hesitates to reflect

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pelos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância seus disfarces
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

(Zona de sombra, 1997)

IN EDEN

ask her to undress
begin with the eyelashes
followed by the wire of
daily utensils
(insomnia alleviating itself
of shots,
childhood its disguises)
it’s necessary
to strip the entire face
to rest the eyes
side by side with the shoes
in the oscillating suede
of a bedroom
this, if you wish (even if you distrust)
to touch what one trusts (a pair
of prey, topazes)
between the rib’s voids
opens the closure she discloses
in the dark the quadrant where
the light and her edges
spill

(Tr. Jennifer Sarah Frota)

Da banda dos metais operosos
sobe um tinir, um retinir caduco
– a tosse aguda do serrote,
o mote renitente, cego,
do martelo, quente no prego.
Agora a serra dispara
o ruído que espirala,
quer chegar a um lugar mais alto,
mais raro, feito de ar.
Canto que só se interrompe
de encontro ao tronco de eucalipto
(no atrito
que desce um tom na escala)
e rasga a tarde esticada com um grito.

(previously unpublished, 2000)

from the operable metal band
rises a sound, a falling resound
a sharp hack from the hand-saw,
the tough epigraph, blind,
of the hammer, hot on the nail.
Now, the saw discharges
a noise that spirals,
wants to arrive at a higher place,
rarer, made of air.
Song interrupted only
by meeting with the trunk of a eucalyptus
(in the friction
falls an octave on the scale)
and tears the taut afternoon with a scream.

(Tr. Jennifer Sarah Frota)