João Concha: Dois poemas

(dignidades)

I

depois do corpo havia mais corpo
e mais interior
me tornava

(a condição de nascer
dentro
da concha)

a tragédia de só haver fora
brilhos pérolas
falsos

(um corpo tende para um corpo
e num trono
se torna)

II

rainha sem saber
pelos escravos escolhida
Vénus tende para uma cidade

*  *  *

(marte descendo uma escada)

No lastro da sala
e eu à espera:
impressão de estar
nunca parado:
as paredes rodeando
vazios:
tudo forte
e sem função:
a geometria dos quartos
sempre fictícia:
só a distância entre
as estrelas:
uma escada não faz
uma cidade:

Sobre João Concha

Nasceu em Évora, 1980. Vive entre Lisboa e Londres, entre a escrita e as artes visuais. É um dos editores da “Inútil”, revista de poesia e imagem. Em 2013 fundou a “não (edições)”, chancela da qual é editor.