Adriano Wintter: Quatro poemas

Teus poemas

se teus poemas
posam
para foto
ou buscam
elogio
o ulular da turba
o prêmio
em dinheiro

ri
e depois
morre

ninguém
virá
pedir
um autógrafo.

Aorta

I

descubro
diante do bar
o bairro

dezenas
de pássaros
numa
só árvore

cantos
ao fim de tarde.

II

que importa
se ruas
sequem
absurdas
entre prédios?

irriga-se
a Musa: aorta
etérea.

Infloração

árvore magna, seca
na rua nublada
um bulbo
negro com braços
grossos
que sobem tortos
bem
diante da igreja
gótica
em Porto Alegre.

diria que ora
nua
ao céu pedindo
cura
pura e flórea
– ácida –
da lepra dos musgos
e
da praga das barbas.

Oh brutal

oh
brutal
baobá

meus
músculos nus
não
podem tombar
teu caule

nem
minha razão
cortar
tuas raízes
ávidas

só a suave
clave
da Caridade

com sua flauta
solar
e límpidas árias
de água.