DOIS POEMAS DE YASMIN NIGRI

Separar as tarefas do dia

Sair do acordo com o pântano

Enumerar lugares mais penalizados
Me convidar para um ménage
Recusar o convite por medo de decepcionar duas ou mais pessoas de uma vez

Traçar estratégias para quando a vida me derrubar tal como
Contratar um dublê

Traçar espaços para os quais estou indisponível em ordem decrescente

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Começar, apesar das desvantagens linguísticas
Fazer pegar o apelido comedor de batatinhas fritas novamente

Se é que tudo isso me compete
Se é que tudo isso não seja reabsorvido

Ser aquela que grita “o rei está nu!” enquanto todos elogiam seus trajes
Ser um embuste maior que o rei

Chegar numa conversa e dizer
Obtusa monocultura stripes and stars!
Com entonação solene

Ser uma dessas pequenas personagens que recebem mais atenção do que merecem
E vocês se lançarão em cima da isca

Pintar por passatempo ou terapia e ganhar milhões
Tirar desses milhões a grana pro dublê

Bolar um último recurso

Como Bart Huges o fez ao perfurar o terceiro olho com uma broca de dentista
Tornando-se o precursor da trepanação e um dos expoentes do happening

Elencar recortes de classe

No linguajar comercial P.A é calculado através da soma de peças vendidas dividido pela quantidade de atendimentos  
No linguajar universitário P.A é um pau amigo

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Manuais

Essa desistência é provisória
Tudo será superado
Domingos transgênicos tabagismo danças húngaras

Você me diria ah,

   mas qual a necessidade disso
   tudo que fazemos vira poesia, tem eco

Ao passo que eu ué,

   você fez uma panela enorme de lentilhas essa semana
  qual a necessidade de toda essa lentilha?

A gente sabe que está vencendo no capitalismo
Quando nos procuram pra falar só de trabalho

Talvez seja mesmo de aceitar
Que a toda hora há alguém traduzindo
– mal traduzido
Uma obra do Nietzsche

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