ELISA BIAGINI

Vejo meus textos como ferozes, lúcidos, nunca como bonitinhos ou resignados.
– Elisa Biagini

(Uncanny) bone

(afinal esta é
uma zona sísmica)

Um ovo quebrado na goela
a cada passo,
leite velho de anos
que coalha dentro
da jarra,
cheiro de pão, escuro:

este espelhamento
penteia-me os ossos,

marmoriza
o respiro.

Tu me arrastas a
ti e pelo peso
a ponta do
joelho risca
o lenho:
o tiquetear
da concha
segue meu
pulso e
torce
o olho.

erva-se minha
mão
na espera,

floreia-se a perna
de passos
indigestos.

gota de teu osso
que desbasta ao toque,

cintila, acende
o negro do ouvido.

Essas tuas mãos
que agora geram
a luz
enquanto o resto
escurece e se torce,

plástico no fogo.

E aqui te toco
(pela primeira vez)
e o braço se
irradia de
vogais
e racha-se
a mão
em consoantes.

Estalemos os dentes
para nos sentirmos

(código morse que brune
e veia o mármore).

(chuta a tina,
prende-te na linha
de som
que nos amarra e que
nos ranha o pulso.)

Sentamos em cadeiras
no vácuo,
meadas de olhos
desenroladas aos pés,
os dedos evaporados
a abraçar-te a sombra.

Ponho-te
a mão
na testa

busco os
cabelos-rastilho

mas acho
tua/minha pele,
folha de cola
que teu rastro
retém.

tu levas uma pedra
em cada olho,
cílios que
batendo
raspam,

crepitante
olhar-me.

Ponho
Uma das mãos
em teu esterno
assopro
no osso.

(e depois
nos afastamos
feito pálpebras ao amanhecer)

Estás suando
o não-dito
e o lenço enegrece
de palavras:
a nosssa língua
fechada na gaveta,
sem  puxador.

Te aproximas
desparafusando os joelhos,
lascando a distância
densa feito o retro
do espelho.
(Frio de uma luz
de súbito acesa)

Osso de mármore,
ombro onde
estrear os dentes

enquanto desfocas,
fazes te ver
deslabiado, tropeças
no outro cordão
umbilical.

(e após tanto
sacudir
estas palavras afloram
feito bolhas de um óleo
que jamais com a tua água
liga)

Eu passo por
teu corpo como
mão dentro d´água,
entro em tua casa
de ossos e na
soleira
toco-te

a sombra da boca.

Sonido que sobe
do retro do
joelho, funda
gaveta de tampas
e pálpebras, de elásticos
trançados feito
rugas.

dedo no olho
apertando até
ficares
da cor do
gesso apagado,
água que vibra,

espelho turvo.

Te perdi,
atentamente,
e caso acenda
um fósforo a teu rosto,
o tempo queima-me
de encontro.

(livremente inspirado em “Osso” de e com Virgilio Steni, 2006)

Tradução: Aurora Bernardini

 

(Uncanny) bone

(dopotutto questa è
zona sismica)

Un uovo rotto in gola
ad ogni passo,
latte di anni
che caglia dentro
al bricco,
odor di pane buio:

questo specchiarsi
mi pettina le ossa,

mi immarma
il respirare.

Tu mi trascini in
te e dal peso
la punta del
ginocchio riga
il legno:
quel ticchettar
di mestolo
segue il mio
polso e
sloga
l’occhio.

mi si erba
la mano
nell’attesa,

s’infiora la gamba
di passi
indigeriti.

goccia del tuo osso
che scartavetra al tocco,

scintilla che accende
il nero dell’orecchio.

Queste tue mani
che adesso fanno
luce
mentre il resto
s’abbuia e si torce,

plastica nel fuoco.

E qui ti tocco
(per la prima volta)
e mi si irradia
il braccio di
vocali
e mi si crepa
la mano
in consonanti.

scricchioliamoci i denti
per sentirci

(segnale morse che imbuia
e vena il marmo).

(scalcia il catino,
impigliati nel filo
di suono che
c’annoda e che
ci riga il polso.)

Sediamo su due sedie
sottovuoto,
matasse d’occhi
srotolate intorno ai piedi,
le dita svaporate
ad abbracciarti l’ombra.

Ti metto
la mano
sulla testa

cerco i
capelli-miccia

ma trovo
tua/mia pelle,
sfoglia di colla
che la tua traccia
tiene.

tu porti una pietra
in ogni occhio,
ciglia che
al battere
raschiano,

crepitante
guardarmi.

Ti metto
una mano
sullo sterno
soffio
nell’osso

(e dopo
ci allontaniamo
come palpebre al mattino)

Stai sudando
il non-detto
e s’annera il fazzoletto
di parole:
la nostra lingua
chiusa in un cassetto,
senza maniglia.

Ti avvicini
svitandoti i ginocchi,
scheggiando la distanza
densa come il retro
di uno specchio.
(Freddo di luce
all’improvviso accesa)

Osso di marmo,
spalla su cui
provare i denti

mentre ti sfuochi,
ti fai slabbrato
vedere, inciampi
nell’altro cordone
ombelicale.

(e dopo tanto
scuotere
queste parole affiorano
come bolle d’un olio
che mai con la tua acqua
lega)

Io ti passo
nel corpo come
mano nell’acqua,
t’entro la casa
d’ossa e sulla
soglia
ti tocco
l’ombra della bocca.

Suono che sale
dal retro del
ginocchio, fondo
cassetto di coperchi
e palpebre, d’elastici
intrecciati come
rughe.

dito sull’occhio
a premere finché
tu mi diventi
color di
gesso cancellato,
acqua che vibra,

specchio incupito.

Ti ho perduto,
attentamente,
e se accendo
un fiammifero al tuo viso,
il tempo mi si brucia
incontro.

(liberamente ispirato ad “Osso” di e con Virgilio Sieni, 2006)

Sobre Elisa Biagini

Nasceu em Florença, Itália, em 1970, onde se formou em História da Arte Contemporânea. Logo em seguida ao mestrado, mudou-se para os Estados Unidos para estudar e escrever uma tese de doutorado em Literatura Italiana Contemporânea. Trabalhou como professora em universidades norte-americanas, onde viveu por cinco anos. Seus poemas têm sido publicados em revistas literárias italianas importantes. Elisa Biagini publicou dois livros de poemas: Questi nodi (1993) e Uova (1999), este em versão bilíngüe italiano/inglês. Além disso, é tradutora da poesia de Sharon Olds e de Alicia Ostriker.