Quatro poemas de Separação

Maquiagem

no facebook o vídeo faz de mim
espelho, tela sobre tela, câmera
subjetiva que reflete o ritual da
moça no computador ao som do
jazz: base blush corretivo sombra
delineador lápis batom vermelho
kind of blue tatuagem.
rosto imagem de cinema look
piscina de cartão-postal pele
paisagem narcisa beleza digital
sem impureza nem vício.
mas o que me atrai nela não
é o que a maquiagem elimina,
repara, disfarça ou apaga, mas
o que a vaidade não mascara:
o olhar triste e doce que revela
a menina, poema sem voz,
truque ou artifício.

*

Dialética

sinto sua falta quando está longe,
mas de perto me falta espaço.
se a distância nos aproxima, algo
sempre nos separa quando estou
com ela – e nos liga depois da partida.
algo em mim resiste e fica do lado
de fora quando entro nela: procuro
aquilo que só existe quando ela vai
embora, deserto desejo que só me
assalta quando não a vejo.
na sua presença não sinto o que sua
falta provoca, a unidade que almejo
quando somos dois. se a sua ausência
me assalta, na sua presença minto.
e assim seguimos nessa novela,
equilíbrio precário, poema sem rima,
abraço que não toca. dança solitária
e sem cenário, soma sem resultado,
presente sem futuro, labirinto.

*

viver é ato provisório
imagem desfocada,
conta errada, idioma
estrangeiro do qual
desconheço a gramática,
o vocabulário, a sintaxe
e o repertório.
personagem precário
e transitório que mal
se esconde nesse roteiro,
ignoro a matemática
que tudo transforma
em seu contrário:
rio em foz,
silêncio em voz,
mar em aquário,
noite em dia.
acho que, se eu quisesse,
enlouquecia

*

a pegada inesperada na areia
de uma praia deserta.
a porta que se fecha com violência
numa casa vazia,
sob a lua cheia.
o segredo que ninguém sonhava.
o telefone anotado num papel
amassado e esquecido no bolso
de uma noite insone.
é muito estranho como a inocência
se perde de repente. sequer percebi
que entrava em uma vida diferente.

Sobre Luciano Trigo

Luciano Trigo nasceu no Rio de Janeiro em 1966. Como jornalista, foi editor do caderno de livros "Prosa & Verso", no jornal "O Globo" e editor da revista "Poesia Sempre", da Biblioteca Nacional, entre outros cargos. É autor de obras de ficção, ensaios literários (como "O Viajante imóvel" e "Engenho e Memória - Prêmio José Lins do Rego da ABL), de um ensaio sobre arte contemporânea ("A grande feira") e de quatro livros infantis. Seu primeiro livro de poesia foi "Motivo" (2013).