A dança-teatro de Pina Bausch

Em 2014, assisti na Brooklyn Academy of Music (BAM), em Nova York, à apresentação de Kontakthof, que há 30 anos fazia seu début no mesmo teatro.

Ao contrário da considerável resistência ao trabalho da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e do Tanztheater Wuppertal, no início dos anos 1970, deparei-me com um teatro lotado de espectadores entusiasmados, que riam, aplaudiam e interagiam com a peça.

A respeito dessa resistência, Pina dizia que a dificuldade já começa com o conceito da palavra dança: “A palavra dança estava relacionada a um número muito particular de ideias. Mas a dança não consiste numa técnica particular. Isso seria extremamente arrogante, pensar que muitas outras coisas não seriam dança.

Sobre Querer falar de Luci Collin

Há pouco me perguntaram sobre o livro que marcou a minha vida, com ênfase na escolha em singular: apenas um deles. Certamente nos parece uma resposta impossível, já que entre dezenas de livros lidos e por ler, diversos nos marcam de distintas maneiras, por motivos diferentes, conforme os momentos que vivemos. Não haveria um livro e sim diversos deles, com os quais nos encontramos e desencontramos ao longo da vida.

Qual é o momento do encontro? Quanto tempo há que se esperar por ele? Na opinião de escritores como César Aira e Alan Pauls, por exemplo, os livros de Júlio Cortázar teriam um encanto especial na adolescência e primeira juventude e, depois disso, em um reencontro na maturidade, haveria um descompasso.

“As nossas humildes coisas”: Ablativo de Enrico Testa

Sottoripa é sem dúvida um ponto nevrálgico, cantado por Camillo Sbarbaro e Dino Campana, passagem para os carrugi, para restaurantes e lugares que falam sobre a história da cidade, que não se abre facilmente, sabendo preservar seus mistérios. “il segno smarrito”, de um dos versos de Montale, para reforçar o fato de as indicações se perderem quando o emaranhado de ruazinhas inicia. Espaço desconfiado desde o primeiro encontro, muitas vezes, áspero, que não se mostra e se abre facilmente; respeitá-lo é importante para aos poucos conquistá-lo. Aqui são necessários calma, atenção, paciência e exercício do olhar. Contaminações presentes na escritura de Enrico Testa, que se aproxima, deglute a herança literária e poética, e vai traçando o seu próprio percurso: “quem é o dono da sombra?/ a luz que a reflete/ ou o corpo do qual emana?”.

A poesia merece ir para o saco

Mas quem ainda não notou haver atualmente inúmeros poetas escrevendo exatamente do mesmo jeito? Quem ainda não teria percebido que isso é fomentado por cursinhos de truques & macetes para candidatos a escritores que já sem pejos lançam-se à cena pública sem uma mínima carga de leitura? Quem ainda não percebeu que o jogral dos contemporâneos dissimula com frequência uma desafinação generalizada? Quem já não concluiu que as desabridas loas em órgãos de imprensa provêm de meros contatos privilegiados no campo jornalístico? A despeito da ausência de projetos estéticos consistentes, e diante da avidez pela notoriedade a qualquer custo, é crucial que os concursos literários estejam muito bem precavidos contra as ingerências desses partidos estéticos que, outrora revolucionários na época áurea das vanguardas, agora já se tornam títeres de espúrios interesses comerciais.

Kafka ou Sob o Signo de Odradek

Fábula às avessas, a “Tribulação de um pai de família”, de Franz Kafka, em suas poucas linhas, opera por meio de uma lógica desconcertante. Se nas fábulas tradicionais, os seres inanimados ganham vida e protagonizam uma história de cunho edificador e moralizante, nesta obra-prima de Kafka tudo se passa de maneira inversa. A narrativa se constrói na medida em que a humanização de um ser é apresentada por meio da sua desumanização. Uma técnica de narrar em que o esvaziamento existencial de um personagem, que percorre toda a história, encobre outro personagem que fica, por assim dizer, escondido nas entrelinhas. Neste caso, a moral da história que nos é apresentada é ácida e corrói as estruturas essenciais de poder e dominação por dentro. Talvez mais que isso, trata-se de uma moralidade que é quase que autofágica.

A poesia de Ronald Augusto e de Sangare Okapi

Ronald Augusto percorre um processo talvez ainda mais radical de desenvolvimento de uma poesia não-verbal, vasculhando os extremos da síntese e demonstrando pleno conhecimento do seu ofício ao mesclar suas experimentações com incontáveis referenciais das culturas afro-brasileiras, tanto no campo linguístico quanto da religiosidade. Tais códigos rasuram a linguagem tradicional da literatura brasileira, impactando o leitor desavisado, ainda mais que a presença negra na poesia de Augusto não é explícita para os que não são iniciados nesses códigos com o uso de palavras de origens africanas, das etnias que foram retiradas à força da África e aqui reconfiguraram seus falares, subvertendo e enriquecendo a língua portuguesa com esses outros vocábulos.

O conto popular ancestral na Rússia e no sertão

Quanto às histórias brasileiras semelhantes àquela que se desenrola na tela, Jerusa assinala que elas perfazem um esquema semelhante ao do trovador Kerib. Basta lembrar que a peregrinação do trovador Kerib “é a do herói em caminho, em serviço amoroso e busca de riqueza, mas é também a do religioso à procura de unidade, integração e compatibilidade do sagrado e do profano” (p. 188). Nos contos populares brasileiros, sobretudo do Nordeste, destaca-se a figura do herói pobre: “vaqueiros, boiadeiros, jardineiros e mesmo heróis sem profissão, que se apaixonam pela filha do poderoso fazendeiro ou ‘coronel’ de terras”. Em razão do amor proibido, esse “herói” é expulso e se autoexila para enriquecer. Passa a peregrinar e, depois de vencer todos os obstáculos, volta à sua terra natal.

O nonsense em Finnegans wake

Finnegans wake igualmente incorporou o nonsense, tal como este foi praticado por escritores da Inglaterra vitoriana. Acredito então que o problema da estabilidade e da instabilidade no romance joyciano não pode mais ser discutido sem se levar em conta esta herança.

Uma conversa sobre música brasileira

Villa foi o músico brasileiro que dialogou com a Europa no sentido de aproveitar toda a tradição da técnica de escrita da música do chamado “velho mundo”. A música que se fazia no Brasil (1900-1920) era calcada na tradição portuguesa somada aos cantos e toques de tambores africanos (os escravos foram fundamentais na formação de nossa cultura, de nosso ritmo). Villa, o pioneiro, queria a informação musical onde estivesse, fosse da sala de concertos, fosse dos terreiros de samba. Importantíssimo, mostrou ao mundo que a partir das diferentes manifestações culturais (Europa/África/Brasil) se pode fazer uma música original.

O corpo e os corpos em Samuel Beckett

Mesmo não sendo um gnóstico, Beckett parece compartilhar das ideias expostas por Le Breton, uma vez que, nos seus textos, o corpo é muitas vezes um tipo de sarcófago, que aprisiona a alma inquieta de seus personagens. É preciso ressalvar, no entanto, que o conceito de “alma” em Beckett tem dimensão própria, pois, ao manifestar-se por meio da polifonia, ela é uma rede de vozes internas e externas que falam incessantemente, atravessando o sujeito.

Outra afirmação de Le Breton poderia também ser usada para analisar o “modelo” de corpo beckettiano, que é o que me interessa destacar aqui: “a alma caiu no corpo […] onde se perde. A carne do homem é a parte maldita sujeita ao envelhecimento, à morte, à doença. É o cadáver em decomposição, a carne. O mal biológico”. Considerações que aprofundam a imagem de corpo-sarcófago, atravessado por vozes.