A poesia na “era digital”

O artista norte-americano Kenneth Goldsmith publicou agora em 2016, no Brasil, a obra trânsito*. O livro é uma versão em português de Traffic, lançado em 2007 nos Estados Unidos, dublada agora, no caso, por dois jovens poetas, que ainda sondam um caminho mais próprio. Uso o termo “dublado”, pois foi assim que o livro foi exposto no papel por seus tradutores. Também em sua apresentação, na internet, lê-se que o trabalho é composto “de textos que transcrevem os engarrafamentos transmitidos por uma rádio de trânsito em São Paulo na véspera de um final de semana prolongado”, acrescentando-se que “a versão brasileira dublou o mecanismo do original, chegando a um texto que, entre o ready-made e a crônica, transforma o material descartável das ondas de rádio em livro”.

A Poesia Viva de Paulo Bruscky

Nesse sentido, a influência de alguns mentores do poema/processo, como Wlademir Dias Pino e Moacy Cirne, é notável na produção de Paulo Bruscky, que compactua a noção de participação do público e transformação inerente a uma poética que não se encerra em si mesma nem no pé da página, mas sim em uma ideia, um conceito.

Clarice Lispector: graça e exceção

Uma mensagem perdida, informe, desterritorializada entre o não-tempo da literatura e o datado do jornalismo, larga pelo caminho um fragmento desconexo do texto que a antecede: “P.S. Estou solidária, de corpo e alma, com a tragédia dos estudantes do Brasil”. O recado póstumo ao final da crônica “Estado de graça (Trecho)”, assinada por Clarice Lispector (2004, p. 118) e publicada no Jornal do Brasil, em 6 de abril de 1968, precisava chegar do exterior às multidões que carregavam o corpo do menino Edson Luís nas ruas do Rio de Janeiro. Aparentemente descontextualizado, separado do todo, fraturando, minando o tempo da diegese, a passagem do calabouço despista a sua própria localização, pois o trecho que se disfarça como um corpo intruso na máquina da escrita pode ser o território todo.
Contra o poder da linha dura, a escrita-cigana dissimula suas formas e conteúdos, largando pelos caminhos pegadas-fantasmas, intempestivas porque podem sempre ser recuperadas pelo corpo ferido das multidões, como um epílogo que continua.

A Amazônia devastada

Na Amazônia, fala-se muito em preservação da floresta. A afirmação de que o homem precisa conviver com a natureza já é frase surrada  entre ambientalistas e simpatizantes da causa ambiental. O homem, há anos, devasta a mata (ou o que resta dela). Mas qual a importância da cobertura vegetal nas cidades? Seria possível a vida em uma cidade sem árvores? Nas cidades, as áreas verdes diminuem o estresse de seus habitantes. Sossega os inquietos. Anima os tristes. À sombra de uma árvore quem não se anima a caminhar a  segunda milha?

Má-fé na tradução

Má-fé, no sentido sartriano de enganar não apenas os outros, mas também de enganar-se, é o conceito usado por Cyril Aslanov para discorrer sobre A tradução como manipulação (Ed. Perspectiva e Casa Guilherme de Almeida, 2015). Em seu livro, o professor israelense expõe e comenta casos de falsificações, negligências, censuras, motivações políticas, boicotes, deficiências do Google Tradutor, bajulações, apropriações e também casos em que a má-fé percorre outras camadas do texto, por vezes chegando ao seu estatuto ontológico.
Apesar do cinismo contido nas atitudes descritas acima, Aslanov considera a boa intenção de tradutores, mas considera também o resultado desse tipo de tradução “fiel e laboriosa” quase sem salvação. É inevitável nos lembrarmos de traduções de títulos de filmes e livros que encontramos sempre que vamos às lojas ou ligamos a TV. A propósito, o autor também dedica um capítulo à fraude na tradução simultânea.
Para Aslanov, “o tradutor não está traindo ninguém. Ele apenas procura subterfúgios que tornem o texto aceitável para o leitor”

Os Alfenins sem açucar de Adrain

CONSUBSTANTdJETIVOS COMUNS de ADRIAN’DOS DELIMA O artesanato-culinário do poeta no livro anunciado no título de meu texto não é, óbvio, vindo de uma cozinha industrial. Seus doces são, paradoxalmente, feitos sem açúcar. Com afetos, penso que sim, uma vez que crítica, derrisão, corrosão podem ser afetos. Não obstante, não é nada disso que quero falar, […]

A dança-teatro de Pina Bausch

Em 2014, assisti na Brooklyn Academy of Music (BAM), em Nova York, à apresentação de Kontakthof, que há 30 anos fazia seu début no mesmo teatro.

Ao contrário da considerável resistência ao trabalho da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch e do Tanztheater Wuppertal, no início dos anos 1970, deparei-me com um teatro lotado de espectadores entusiasmados, que riam, aplaudiam e interagiam com a peça.

A respeito dessa resistência, Pina dizia que a dificuldade já começa com o conceito da palavra dança: “A palavra dança estava relacionada a um número muito particular de ideias. Mas a dança não consiste numa técnica particular. Isso seria extremamente arrogante, pensar que muitas outras coisas não seriam dança.

Sobre Querer falar de Luci Collin

Há pouco me perguntaram sobre o livro que marcou a minha vida, com ênfase na escolha em singular: apenas um deles. Certamente nos parece uma resposta impossível, já que entre dezenas de livros lidos e por ler, diversos nos marcam de distintas maneiras, por motivos diferentes, conforme os momentos que vivemos. Não haveria um livro e sim diversos deles, com os quais nos encontramos e desencontramos ao longo da vida.

Qual é o momento do encontro? Quanto tempo há que se esperar por ele? Na opinião de escritores como César Aira e Alan Pauls, por exemplo, os livros de Júlio Cortázar teriam um encanto especial na adolescência e primeira juventude e, depois disso, em um reencontro na maturidade, haveria um descompasso.

“As nossas humildes coisas”: Ablativo de Enrico Testa

Sottoripa é sem dúvida um ponto nevrálgico, cantado por Camillo Sbarbaro e Dino Campana, passagem para os carrugi, para restaurantes e lugares que falam sobre a história da cidade, que não se abre facilmente, sabendo preservar seus mistérios. “il segno smarrito”, de um dos versos de Montale, para reforçar o fato de as indicações se perderem quando o emaranhado de ruazinhas inicia. Espaço desconfiado desde o primeiro encontro, muitas vezes, áspero, que não se mostra e se abre facilmente; respeitá-lo é importante para aos poucos conquistá-lo. Aqui são necessários calma, atenção, paciência e exercício do olhar. Contaminações presentes na escritura de Enrico Testa, que se aproxima, deglute a herança literária e poética, e vai traçando o seu próprio percurso: “quem é o dono da sombra?/ a luz que a reflete/ ou o corpo do qual emana?”.

A poesia merece ir para o saco

Mas quem ainda não notou haver atualmente inúmeros poetas escrevendo exatamente do mesmo jeito? Quem ainda não teria percebido que isso é fomentado por cursinhos de truques & macetes para candidatos a escritores que já sem pejos lançam-se à cena pública sem uma mínima carga de leitura? Quem ainda não percebeu que o jogral dos contemporâneos dissimula com frequência uma desafinação generalizada? Quem já não concluiu que as desabridas loas em órgãos de imprensa provêm de meros contatos privilegiados no campo jornalístico? A despeito da ausência de projetos estéticos consistentes, e diante da avidez pela notoriedade a qualquer custo, é crucial que os concursos literários estejam muito bem precavidos contra as ingerências desses partidos estéticos que, outrora revolucionários na época áurea das vanguardas, agora já se tornam títeres de espúrios interesses comerciais.