Os Alfenins sem açucar de Adrain

CONSUBSTANTdJETIVOS COMUNS de ADRIAN’DOS DELIMA

O artesanato-culinário do poeta no livro anunciado no título de meu texto não é, óbvio, vindo de uma cozinha industrial. Seus doces são, paradoxalmente, feitos sem açúcar. Com afetos, penso que sim, uma vez que crítica, derrisão, corrosão podem ser afetos. Não obstante, não é nada disso que quero falar, nada disso entendo, não entendo nada, não estou entendendo nada.

Quero e vou falar que, embora eu não seja leitor da maioria dos poemas de  CONSUBSTANTdJETIVOS COMuNS (Vidráguas/Gente de Palavra, 2015), tenho que reconhecer seu lugar, pertinência e importância, não apenas por suas filiações, influências, citações, inclusões, diálogos, pontos de contato, com (e de) artes poéticas de vanguardas, como denunciam bem Ronald Augusto (que apresenta o livro e assina a quarta-capa também), Douglas Dieges e Ricardo Silvestrin (que assinam também a quarta-capa).

Mesmo eu não sendo leitor, por escolha, incompetência ou incapacidade, dessa radicalidade de experimentação, e pensando que experimentações podem, devem e vão pintar por aí, posso dizer algo sobre esse instigante, desconcertante e  inquietante livro, pois penso que não é preciso projetar a nós mesmos no que lemos, não aplicar nossos critérios para ler qualquer livro e deles falar algo. Ainda mais esse, que sacode o marasmo poético.

Adrian’dos Delima no livro em questão é poeta aglutinador, age por aglutinação, cria neologismos, traz de volta arcaísmos que passam a ser neologismos por meio do novo uso. É poeta que age também por justaposição. Sua arte é arte combinatória, de composições em tensão. Ele carrega, de saída, em seu nome de artista, em seu pseudônimo, poesia. Seu pseudônimo é um poema de uma linha, um verso, ou uma imagem explodida na folha de papel ou em outro suporte que se queira. O poeta Lima a palavra, lixa, atrita, desbasta, estica, adjetiva, substancializa, mistura, compõe.

 

Em CONSUBSTANTdJETIVOS COMuNS Adrian’dos propõe reescrever, re-significar, recomeçar o novo de novo que já foi Rabelais, das gravuras do livro, que já foi Oswald, Mallarmè …

O projeto gráfico, de Renato de Mattos Motta, põe essa poesia como se em um fanzine, pois o livro é uma espécie de livro-álbum-revista com poemas explodidos nas páginas, com bastante ritmo e voz própria, a reboque das influências. Há, nele, muito interesse pela frase inusitada, pelo arranjo não-arranjo, por uma sintaxe inesperada, cujo mundo que constrói por meio das imagens e sons é um nadadissonadadoce, torpe, cheio de desconforto, crítica e polissemia, como os textos, por exemplo, das páginas 12, 13, feitos de morfemas, sememas, camadas de sentido, cadeias de sentido escorrido de um poeta explorador.

Talvez pudesse fazer o retrato de seu leitor. Retrato, claro, imaginado por mim, um não-leitor da poesia de Adrian’dos Delima. Ele calçaria chinelos, vestiria camiseta sem mangas, camiseta cavada e bermudas. Estaria sentado de pernas abertas, seria punk, marginal, hiper-sensual com a linguagem, pois penso que os poemas e o poeta no livro em questão, em oralidade, trepam com a linguagem, comem a linguagem, dão para a linguagem.

Ao ler o livro-álbum-revista CONSUBSTANTdJETIVOS COMuNS deparo-me com a recusa de uma borracha “com cheirinho de morango” (página 16). É, realmente, participo dessa recusa. Talvez seja ela que me faça escrever sobre o livro. Sinto muito, mas cheirinho de morango não tem nada a ver com poesia, embora muita poesia que se diz, que se arvora poesia, tenha esse cheirinho e reivindique para si isso. Penso, definitivamente, que a poesia de Adrian’dos Delima não se apaga com uma borrachinha com cheirinho de morango. Ela é bem mais vigorosa que isso.

 

A partir da página 27, eu que já não era leitor da poesia desse livro de Adrian’dos Delima, exceto de textos como “Ascenso Selecionado”, “Asa”, “Vestígios do meu Português”, “Movimento para os meus mestres”, “Esperanto das Boas-novas” e “Decomposição”, entre outros mais verbais, fiquei analfabeto-poético-funcional. Como leitor não-leitor, no efeito, fiquei um bebê sem cabeça, nem touca, chorando, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar.

O livro-álbum-revista adquire, a partir daí,  uma radicalidade de poesia obstáculo, que não é poesia espetáculo em tempos de espetáculos líquidos, descartáveis. Os textos passam a ser escritos e proferidos com pedras na garganta. São calculados, montados, avessos a qualquer irritante espontaneidade ou ideia de poesia fácil.

Vejo uma espécie de poesia para não ser lida, que não ser quer comunicativa, nem quer comunicar. Os textos, muito matemáticos, acumulativos, parecem listas babilônicas, sedimentos semânticos. São avessos a qualquer cartesianismo, regra, sistema, embora sistemáticos apareçam, sejam feitos em linguagem compulsiva.

Na página 46, por exemplo, parece que os textos denunciam algo, mas sem denunciar. Ou parece que a denúncia se arruína na ideia da impossibilidade. Então, o que fica, sobra sobre, sobressai, é a linguagem, à deriva, experimentada, experimentando-se. Poesia batendo, como parece bater todo o livro, na pedra como água de mar na praia, na areia. Poesia batendo no batente, na janela, na cabeça, nas frestas como dobras aglutinadas, justapostas. E de sonoros ecos de seu todo e seus restos, como caco de telha, caco de vidro urbano, cosmopolita.

Posso não ser leitor desse livro por escolha, arbitrariedade, tópica da humildade ou, como ficou evidente, não leitor de boa e significativa parte dele, mas admito se trata de poesia vigorosa, sem “cheirinho de morango”. Tenho que reconhecer: o livro CONSUBSTANTdJETIVOS COMuNS me deu um beijo na boca, e eu correspondi aquele beijo. Sem açúcar, mas com afeto: disso esse livro é feito.

 

Santana, 28 de setembro de 2015.