A face mais banal de Francisco Alvim

O metro nenhum (Companhia das Letras, 2011), de Francisco Alvim, é a celebração de uma poética evidente já no título. Um livro cheio de advertências: montado por encomenda da editora; obra que realça a face mais “antipoética” do escritor, segundo Paulo Franchetti, e a mais “revolucionária”, como Zuca Sardan escreve na orelha, aquela diante da qual o “público mais fino pigarreia”.

Quando Franchetti mencionou, n’O Estado de S. Paulo de 5 de novembro de 2000, esse viés centrado na frase-feita e nas expressões típicas de classe, referia-se a Elefante, livro anterior de Alvim, lançado onze anos antes, mas a discussão, embora muitos já a conheçam, vem a calhar, pois O metro nenhum escolhe a rota na encruzilhada em que seu predecessor empacou, embora coexistam, ainda, alguns poemas da vertente mais “poética”. A continuação dessa história está no artigo publicado por Roberto Schwarz no Jornal de Resenhas da Folha de S.Paulo em 10 de fevereiro de 2001, que depois foi desenvolvido com referência implícita à crítica negativa de Franchetti para o caderno Mais!, da Folha de 10 de março de 2002.

Paulo Franchetti lê esse lado mais caricatural e mínimo de Alvim como uma tensão entre a “expressão banal” e a “inteligência culta”, que provocam aquele riso distante no leitor que compartilha da elegância erudita do autor, identificando aí o leitor ideal dessa poesia, aquele que se interessa pela alegorização do país presente no conjunto dos poemas de Elefante. Seu julgamento com relação a esse procedimento, tomado por outros como uma espécie de excelência técnica, é enfático: “Quanto a mim, concordo com Mário de Andrade: o poema-cocteil é uma das piores coisas da literatura brasileira”.

Mas esse leitor ideal, para quem a virtude de Elefante está na retomada da pesquisa modernista sobre aquilo que o Brasil tem de peculiar, especialmente aquilo que se esconde nas falas populares, para chegar a uma formação social singular, discrepante da norma da civilização contemporânea, é, justamente, Roberto Schwarz, mestre em jogar com essas relações regionais entre informalidade e norma:

ao mesmo tempo (sic) que leva a condensação ao limite, o artista a compensa noutro plano, buscando a soltura e a amplitude do universo histórico-social. Este é representado sem recurso às continuidades de intriga e personagem, ou seja, fora dos pressupostos individualistas e dos travejamentos épico e dramático oferecidos pela tradição.

E por isso, “participa da categoria especial das obras em que a verificação recíproca entre as formas artísticas e a experiência histórica está em processo”.

Nessa linha de produção do poema de Alvim, o que permanece, para Schwarz, é a “constelação de classe”, que coloca de um lado a “gente distinta e esclarecida” e de outro “a massa dos sem-direito”, estabelecendo o clássico choque entre civilização e barbárie, mas em  pequenos recortes, retratos, desse choque. Como veremos, essa é a tônica de O metro nenhum, cuja “atitude antipoética” é nada mais que uma recusa à poesia enquanto recusa ao senso comum. Logo, poesia tratada como uma espécie de elogio do óbvio. Mais do mesmo com intenção de ser.

O poema de abertura do livro recém-lançado é “Velhos”, um microconto sobre as relações sociais entre representantes de diferentes classes. Um retrato do operário cordial. É o oposto daquilo que Schwarz fala quando escreve que “na grande tradição de Machado de Assis, o poeta conhece a ligação interna entre os opostos da sociedade brasileira e recusa as fixações estereotipadas”. É uma estereotipia dessa mise en scène.

A matéria-prima da poesia de Alvim é a fala que não tem mais dono, de tão gasta. Aquela fala que, de tão dita por tanta gente, pode ser dita pela metade, que todo mundo entende. Roberto Schwarz mostra isso quando fala que “a inteireza ultranítida cultivada num par de espanholadas verbais contrasta com a malandragem, ou com a falta de acabamento, das dicções nacionais”. Mas o que há de mais óbvio que estampar a malandragem brasileira por meio das falas recortadas e preconceituosas do senso comum tupiniquim? Isso é feito todos os dias na novela das nove.

Não há nada mais comum para o público brasileiro do presente que mostrar os ditos esclarecidos agindo como bárbaros e os ditos bárbaros agindo com civilidade peculiar, creio que a civilização ocidental nasceu assim. O brasileiro, que carrega nas veias sua herança colonial, sabe disso como ninguém. É ensinar o padre a rezar missa. Isso ocorre em “Acontecimento”, dedicado “Ao Roberto”, que traz sua carga inusitada ao colocar o dominante fazendo as vezes de dominado, em “Muito ótimo” e em muitos outros.

Quanto à técnica, os recursos são parcos. Um pouco de visualidade em poemas como “A minha pessoa”, que faz por merecer uma resposta um tanto quanto mal-educada: “Só tem / Serve?”. Às vezes há alguma música, que nem de longe chega a ser algo relevante em O metro nenhum. Também há uma extensiva exploração da alusão, da elipse e de enunciados cíclicos (geralmente com o título fazendo parte do corpo do poema) como em “Avaliar”: “Quem sou eu / para”. “Bochecha”, nesse caso, seria um choque entre religião e etiqueta regional: “ofereça a outra”. O poema “Signos”, que na verdade é um recorte de “A bomba”, é mais uma “pílula do péssimo”, na feliz expressão do próprio Alvim, que compartilha da “moral diminuta” que dá corpo a todo o livro.

Em versos como “De dados lançados / A esmo no vácuo” ou em poemas inteiros como “Sente-se”, Francisco Alvim busca justificar o trajeto escolhido para a sua poética. Destaco o poema “A poesia”, que resume essa opção:

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinicius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
ele comentou
alguém já  me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta?

Estava certo
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro –
nem o mais
nem o menos
– só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas

Quem deseja fugir ao juízo alheio e transformar tudo em licença de expertise poética pode encontrar nesse poema um bom argumento para isso. “Títulos” é um exemplo de como a ideia de poema como corpo, funcional e orgânico, desaparece, dando espaço a um texto em que nada justifica a presença dessa ou daquela palavra, nem mesmo a fala ordinária.

Caçoar da arte é uma forma de pensar e fazer arte. Meio antiga, mas é. Válida para cativar o leitor, mas não como fator de originalidade. Assim como originalidade já foi algo muito importante para a arte, mas já não é. Roberto Schwarz coloca, não por acaso, Francisco Alvim ao lado de Machado de Assis, Mário de Andrade, Drummond, João Cabral e Brecht, chama essa poesia de fácil mas substanciosa (e a substância é justamente essa atitude um tanto quanto paparazzi sobre o brasileiro típico e ordinário), silenciando sobre alguns aspectos.

Não menciona o fato de que, nessa relação íntima entre arte e história, afinal, não há uma categoria especial de verificação recíproca, não existe artista fora de seu tempo. Mas há lugares onde artistas foram antenas. Aqui temos âncoras, chamando de poesia o que há de mais retrógrado em nossas heranças coloniais, com seus preconceitos (e a reprodução interminável deles), sua malandra política de levar vantagem em tudo e a desculpa de uma certa ironia. E há quem chame essa integração da herança maldita brasileira à crise do presente um acerto de originalidade.

Alvim, assim como todos nós, é devedor e tem parte na pesada herança político-moral que seus poemas condensam, por mais que eles não revelem isso. Com toda sua experiência e erudição, levou onze anos para se repetir. Passou da hora de se reinventar. Contra as acusações sobre o subjetivo em poesia contemporânea, os poemas de Alvim, ao se esconderem nessa voz dos outros, olhando de fora sob a suposta prerrogativa da objetividade construtiva, trazem implícito eu-lírico que se quer acima de seu “problema-país”, sem dele participar senão com um riso discreto e irônico. Teoricamente, um “adensamento contemporâneo da experiência internacional”.

No breve espaço que destina a responder as ponderações de Paulo Franchetti, Roberto Schwarz lança três perguntas que sintetizam boa parte do debate no campo literário brasileiro há um bom tempo: “Não convém à poesia pensar sobre o país? A intimidade do poeta com o debate social e político diminui o alcance do que escreve? A tentativa de dar consequência ao universo modernista em circunstâncias mudadas é em si mesma um defeito?”.

Pois bem, com relação à primeira pergunta, convém não me parece o verbo mais apropriado, mas vale dizer que nada impede a poesia de pensar sobre o país, caso ela considere isso necessário a si mesma. Há outras questões. Algo impede a poesia de pensar sobre si mesma? Algo impede a poesia de pensar? Algo a obriga? Já na segunda pergunta, Schwarz tem boa parte de razão, pois sua posição crítica sofre algumas generalizações – que a muitos parecem óbvias, mas não são – de grupos, classes e instituições. E a poesia de Chico Alvim se mostra participante do debate, em diferentes esferas, inclusive, embora sob um ponto de vista defasado, distanciado e pouco eficiente.

Por fim, entendo a tentativa a que a última questão se refere como uma qualidade, mas alguns caminhos escolhidos para levar isso a cabo já provaram que não dão conta do nosso problema, embora Chico insista em percorrer um deles com este O metro nenhum. O desvio está em supor, como Schwarz o faz, que essa face da poesia de Alvim dê “consequência ao universo modernista em circunstâncias mudadas” de maneira substantiva, substanciosa ou digna do “investimento cultural” que tem recebido. Do jeito que as coisas vão, de fato é…

Sobre Fabio Riggi

Jornalista, canhoto. Escreveu mundo menor e mio cardio entre 2002 e 2004, publicados em tiragem ínfima e distribuída aos amigos, e os vem reescrevendo desde então. Também apresentou em 2009 a dissertação Ideograma do caos, sobre a poesia e a experiência de Mário Faustino entre 1956 e 1959.