A poesia em trânsito de Ricardo Domeneck

Vem de sair Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009, 127 p.), quinto livro de poemas de Ricardo Domeneck, de 33 anos. O livro é composto de 35 poemas e se divide em cinco partes. A segunda delas, nomeada “Oral do Usuário”, segmenta-se em três seções –K, W e Y –, e é a maior do volume. K contém 29 poemas, distribuídos entre capítulos com numerações aparentemente aleatórias – capítulo 7, capítulo 23, capítulo 60 etc. –, cada qual com uma pequena indicação, espécie de mote, a respeito do que se segue.Essa divisão, aparentemente aleatória, é um artifício fundamental do conjunto. Desse modo, o poeta aponta para o signo de fragmentação, que pretende efetivar através de todo o percurso de leitura. Signo que é, junto a algumas imagens e recorrências (obsessões) lexicais, o único elemento agregador que promove unidade ou organicidade às peças entre si.

Em Sons: Arranjo: Garganta o que se vê é, portanto, a recorrência da fragmentação e da hipersegmentação (a lógica hipo e hipertática do pensamento metonímico) como canal de expressão de episódios e imagens da separação, da deformação dos corpos e da interferência do ruído. O que desencadeia no leitor um deslocamento do senso de unidade, criando-se uma inusitada inquietação que passa a atrair a atenção e dar sentido ao texto. Ela me parece negativa. Há uma tendência do poeta em perder-se nessa rede (ou teia, para usar o termo de Wittgenstein, tão frequente nos poemas) e, em alguns momentos, vacilar pelo excesso de adjetivos e formulações herméticas que não se conectam, em qualquer nível, ao corpo do poema.

Exemplo: o poema “Proposição contra a música ambiente”, em que se realiza uma tentativa de proposição – como o título indica –, acaba por deixar o leitor à deriva, já que o excesso de ruído – fragmento – encobre qualquer possibilidade de revelação da forma e, assim, impede, igualmente, que o sentido se construa diante dos olhos de quem lê: “distância, proximidade,/ questão de desejo/ e impossibilidade da posse./ Exponha o imposto./ Relação de pessoa e núcleo, pessoa/ e fonte, como a corrente/ incompreende a teia”.

No trecho acima, a questão do deslocamento e impossibilidade de relação entre sujeito e objeto é explicada pelo poeta, mas de modo algum é demonstrada pela forma: o modo de organizar e dispor o material do poema – as palavras, o espaço da página etc. Assim, nesse poema, há mais o desejo de representação de um sentido do que uma realização. A transmissão é “oral”, por isso prosaica – vide o corte dos versos –, não demonstra concretamente um problema ou situação entre as palavras.

No poema “Efeitos colaterais: vide bula” há, por exemplo, uma sequência razoável: “[…] Erigir/ o monumento à migrânea/ ou instituir a arqueologia/ da aspirina. Civil ilação”. Daí, o poema segue com: “Afim e içado, à pergunta/ se experimentava certo/ desligamento/ de si: “infelizmente,/ não”./ Deslocamento/ do chão inconsciente,/ onde mesmo o uno/ e seu verso fazem-se/ relativos, contingentes”.

O que se passa é que, ao invés de sustentar o sentido concreto que se construía na primeira estrofe transcrita, os versos seguintes se lançam à abstração e ao lugar-comum (verso – uno – universo), dissipando o “discurso” do poeta e do poema. Este tipo de procedimento leva Domeneck a se utilizar da citação que se encontra, nessa peça, adiante, no trigésimo sexto verso: “solitude, récif, étoile”, velhas palavras mallarmaicas hoje mais do que gastas – não dizem nada além da diluição.

Fingerprints, Nam June Paik

O maior problema do livro, núcleo que acaba se desdobrando através dos procedimentos composicionais de vários poemas, é certa falta de rigor em relação à concretude do discurso e das imagens – tudo é abstrato. Leia-se a seguinte observação de João Cabral, que conceitua bem a “concretude de linguagem”:

Eu sempre procurei fazer uma poesia concreta, quer dizer, com predominância dos vocábulos concretos. […] Em Berceo [Gonzalo de Berceo, 1195?-1253?], na Vida de santa Oria, tem outra coisa sintomática também. […] Diz a lenda que santa Oria, ela era freira, foi levada dormindo ao céu. Ser levada para o céu é uma coisa abstrata. Em Berceo, não. Berceo faz santa Oria dormindo num convento, dois anjos vêm carregá-la, sobem até o céu como se ela fosse um passarinho, chegam no céu, o céu está fechado! […] De forma que eles pousaram, os anjos e santa Oria pousaram numa árvore que tinha defronte das portas e esperaram o dia seguinte para que as portas abrissem para ela poder entrar. Você vê como é uma descrição inteiramente concreta. (Sibila 13, 2009, pp. 20-21)

Contudo, a despeito de certos descaminhos do livro, há que se destacar seus inúmeros êxitos. A começar pela série que o abre “Bruit Pur Pour Les Brutes” (Ruído Puro Para os Brutos). Cada um desses poemas – que vão aparecendo entre as seções do conjunto: “Bruit II”, “Bruit III” – tem duas “imagens”: “Dos sons do sentido” e “Dos sentidos do som”. Eles operam, assim, uma construção que elege como material palavras estrangeiras e portuguesas descontextualizadas, organizadas de modo a revelar ao leitor apenas seus sentidos fonéticos e os resultados dinâmicos de suas combinações – choques, suspensões etc.

Domeneck, aqui, retoma – desse modo – uma linha de composição Zaum, pensada no início do século passado por poetas como Vielimir Khlebnikov e Aleksei Kruchenykh, entretanto recontextualiza essa concepção para a poesia em língua portuguesa, ao trabalhar os sons de palavras que existem e têm uso corrente, ao invés de compor, à moda, a partir de unidades mínimas de som verbal (fonemas).

Dessa perspectiva, ele intenta novas possibilidades de sentido por meio da omissão e da imposição do não sentido às palavras comuns, e ainda trabalha, ao modo da música concreta e seus objetos sonoros (objet trouvé), a questão da incorporação do ruído ao som – note-se a aparição do sinal € (como um ruído) no meio do poema. Ressalve-se que esse procedimento já foi usado por poetas brasileiros vivos, às vezes de maneira mais contundente.

Outro ponto bom do livro é o “Relatório de condições para pesquisa sobre o prefixo ‘ex’”, em que se cria uma situação de ruptura amorosa por meio da conjunção de fragmentos de imagens e metáforas para o lamento amoroso. “A espera que 7/ minutos e 33/ segundos de mudez/ deem início/ oficial ao inverno” são os versos que dividem o poema em dois e abrem uma série de imagens do corpo como cisão, corte e separação. Ao rejuntar os fragmentos, conclui na estrofe final: “Incha-me/ sem pomadas, aprovo/ teu fogo de paliativos./ Nina-me,/ embala-me/ como o martelo/ ao prego”. O uso dos pronomes é da gramática, o que torna a coisa meio forçada.

Nesse poema, como em alguns outros, há uma giro em relação ao eu lírico. O poeta parte de uma tópica clássica – o desencontro amoroso – mas, em vez de embalar uma canção lamentativa, reúne os fatos desse desencontro em forma de fragmentos que revelam a situação. Não é subjetivista, mas mostra o sujeito, e suas tensões, ao deparar-se com os objetos.

Nessa linha encontram-se boas formulações como os versos “ah! Amar é/ inter-/ ferir,/ salvar/ se de si”, em que, ao cindir o termo “interferir”, criam-se relações de sentido entre “amar” e “interferir”. Ou a revelação ao leitor do desespero, com o poema “Pequeno estudo sobre o desespero”, que se compõe de um dístico apenas: “Dormi; e acordei/ no mesmo lugar”.

Outros dois ótimos poemas são Six Songs of Causality – um jogo com uma série de palavras da língua inglesa predeterminadas, permutadas em seis poemas, gerando seis diferentes possibilidades de sentido na relação sintática entre elas – e “Janela do Caos”, uma colagem feita em paralelo entre línguas – inglês e português – a partir de trechos e versos de textos de Murilo Mendes, João Cabral, John Cage e Gertrude Stein. Todavia, os procedimentos também não são novos, como o poeta é, em termos de idade. No entanto, revelam-no em senda muito mais ousada que a dos poetas de sua geração.

As imagens do corpo, das feridas, dos mapas, dos saltos entre lugares e dos blocos sonoros vão se desdobrando entre os melhores poemas do livro e formulando uma poética que parte do jogo de palavras, do arranjo dos sons em direção à garganta (à expressão, à comunicação) e da despersonalização do eu lírico, para tratar de situações (emocionais, discursivas, sonoras e verbais) que dizem muito respeito à língua contemporânea.

O que quero dizer é que, nesse sentido, quando o poeta não se perde em abstrações, citações, homenagens e hermetismos – o que, no fundo, é escrever para si (e seu grupo) e ignorar o leitor –, consegue produzir uma poesia que interfere na língua e no modo como a tratamos e, portanto, se torna capaz de fazer língua, fazer linguagem, fazer poema, fazer mundo. É raro isso na poesia dos jovens poetas brasileiros – que ainda tentam – em termos temáticos – imitar Bandeira e Drummond.

Dessa forma, apesar de algumas falhas, recomendo ao leitor Sons: Arranjo: Garganta como um encontro com uma poesia inquieta, em movimento, e pronta para projetar-se em novos patamares. Explico-me: o contexto de produção de poesia no Brasil é, há algum tempo, carente de poetas jovens e densos o suficiente para buscar novas formas de comunicação poética, suscitar questões relevantes na leitura dos poemas e revitalizar essa forma de expressão em nossa língua. É por isso que, assim, celebro, pelo êxito de provocar e produzir movimento “desprogramado”, o novo livro de Ricardo Domeneck.