Amadeo Cavalcanti

O defensor, Dr. Eurípides Miranda, começou sua exposição questionando a competência do tribunal para julgar a questão. “Por sua parte, ao revés, a defesa recusa categoricamente aos tribunais essa competência, alegando que as reformas decretadas no ano passado legalizam atribuições soberanas, absolutas e irreparáveis em seus efeitos, a não ser por deliberação da própria autoridade que as resolveu, et cetera.” Habilmente, evitou sugerir que os julgadores fossem ineptos, concentrando-se em outros pormenores. Entretanto, o promotor, Dr. Ubiratan Marcondes, não pareceu abalar-se. “Este sistema de raciocínio, espécie de órbita cometária que foge, alongando-se, a perder de vista, do curso das leis da nossa harmonia constitucional, obriga-me a tomar o assunto no seu complexo, qual ele se ramifica, através de todas as diversificações subalternas, pelas várias ações intentadas, mostrando que a defesa renega o nosso direito em suas bases elementares, em seus elementos sagrados. Com este intuito, procurarei evidenciar o delito. O Sr. Amadeo Cavalcanti empregou um conhecido impressor estabelecido em Dijon, Maurice Darantière, para a produção do livro, ciente da impossibilidade de encontrar um profissional aqui em nosso país disposto a desafiar a lei. Ou seja, deliberada e conscientemente tentou burlar a lei.”

Os juízes, três no total, começaram a confabular. O decano, Dr. Demóstenes Torga, invocou os poderes legais atribuídos ao tribunal pela Junta Militar. “Sob essas diversidades superficiais, o estofo da questão é o mesmo em todas as causas, quer as encaremos no que respeita aos fundamentos da ação, quer no que toca às objeções da defesa. Prossigamos. A acusação: obscenidade.”

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Amadeo Cavalcanti havia nascido em Santa Rita do Passa Quatro, família simples, pai operário, mãe costureira, sem irmãos. Frequentou o seminário de São Roque por quase um ano, mas fugiu do local no dia das “Proclamações Gerais”. Os pais nunca mais ouviram falar dele. Atravessou a fronteira com a Argentina e estabeleceu-se em Mendoza, onde foi acolhido pelo grupo que gravitava ao redor de Dom Jaime Castillo, o principal nome do criollismo na região. Passou a ser conhecido como “Il Brasiliano”. Fundou a revista literária Facundo, atraindo a atenção de escritores como Bernardino Echevarría, Miguel Feliciano e Asmodeu González. Instado por seus admiradores, decidiu lançar uma edição privada de suas poesias, Anti-Klaxon, que dedicou a Sylvia Castillo, filha única de Dom Jaime. Engravidou-a. Logrou escapar de três cuchilleros enviados por Dom Jaime Castillo. “Muerto. Vivo no vale nada.” Dizem que foi para Punta Arenas, Chile, onde casou e passou a trabalhar no setor de pesca. Ainda hoje há um pequeno restaurante chamado Marisquería Il Brasiliano. O fato é que seu nome começou a circular algum tempo depois na Europa. Há uma menção em uma correspondência de Guimarães Rosa, então em Hamburgo. Outra menção numa carta de João Cabral de Melo Neto, então em Barcelona. A mais estranha, contudo, está em uma correspondência de Samuel Beckett endereçada a Mania Péron: “But I could have a game of billiards with Amadeo Cavalcanti at 4, at the Café des Sports (…).”

A primeira referência ao Manifesto do Amorfismo aparece em carta de Jean-Paul Sartre a Louis Aragón. O eminente filósofo francês comenta a repercussão da publicação do manifesto em Les Temps Modernes e lamenta estar muito cansado para abraçar mais uma vanguarda. O Manifesto se alastra pelo continente europeu com velocidade de fazer inveja a Marinetti. Um exemplar da revista Little Egoist, célebre por publicar Joyce e Eliot, chegou às mãos de Murilo Mendes. Nela, um artigo assinado por Pound celebra “o gênio de Amadeo Cavalcanti.” Murilo Mendes consegue que o Manifesto seja publicado em O Cruzeiro, para escândalo da época. O título perguntava “Quem é esse brasileiro?” A publicação enviou Joel Silveira a Paris para uma entrevista com o autor do manifesto, mas o jornalista não o conseguiu localizar. O Cruzeiro procurou então Oswald de Andrade. “Quem?”, perguntou o eminente escritor. Após ler o Manifesto do Amorfismo, o “bardo antropofágico mergulhou em silêncio profundo”, segundo a revista.

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Manifesto do Amorfismo

Só o Amorfismo nos une. Sexualmente. Brutalmente.

Única razão do mundo. Maior do que qualquer indivíduo. Triunfo do gregarismo. O homem formiga. O homem cupim. O homem vespa. O homem abelha.

A luta contra o fumigamento da beleza.

O Amorfismo tem um olhar discriminatório. Não importa a saia, importa quem a veste. Contra os padres, a favor das freiras.

Só interessa ao Amorfismo o que é Amorfismo. Tudo o mais é simetria irrelevante.

A ordem amórfica é o aleatório ordenado.

Amórfico é o indivíduo pego pelo marido traído com as calças nas mãos. Amórfico são as calças nas mãos. Amórfico são as partes pudendas.

Exterior e deglutido, interior e expelido. O Amorfismo não pretende entender os caprichos dos movimentos peristálticos, pretende ser movimento peristáltico, independente da vontade para concretizar seu objetivo, a saída.

O Amorfismo prescinde de mapas e atlas porque tem a vista ruim e recusa-se a adotar a lupa para não aumentar as distâncias.

É somente através do Amorfismo que todas as revoluções triunfarão, todas as rebeliões serão vitoriosas, exceto a demanda por aumento salarial.

O Amorfismo admite e abarca todos os campos do conhecimento, incluindo a gastronomia: um garfo para cada homem, uma colher para cada mulher. De plástico.

Não nega a história, despe-a de seus andrajos, os fatos, para vesti-la com as mais belas sedas, as versões.

O Amorfismo também é antropofágico.

Pegue um corpo.
Pegue a tesoura.
Escolha no corpo um membro do tamanho que sacie a sua fome.
Recorte o corpo.
Recorte em seguida com atenção alguns pedaços que formam esse membro e meta-os num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Grelhe cuidadosamente na ordem em que eles são retirados do saco.
O prato se parecerá com você.
E eis um amórfico saciado, com a digestão fácil, ainda que incompreendido pelos gourmands.

O Amorfismo é a única tendência verdadeira da arte. É bestialmente simples. É simplesmente bestial.

Um movimento internacional, mundial, interplanetário, corpóreo e extracorpóreo.

Só o Amorfismo pode livrar os homens da loucura, da impaciência, da agonia e da hipovitaminose.

O amórfico não diz bom dia, manda o vizinho para aquele lugar do qual nunca deveria ter saído. E transa com a mulher dele.

É tudo que anda, tudo que rasteja, tudo que nada, tudo que voa. O Amorfismo é uma wok dentro da sua cachola.

Estaremos protegidos das tempestades que assolam os promontórios dos séculos devido à lona maleável do Amorfismo.

O Amorfismo glorifica a covardia, a única higiene do mundo, e todas as belas ideias que causam gases. Assim purificamos o corpo e o civismo.

Ninguém será esquecido. Mesmo um anão de jardim será glorificado pelo Amorfismo.

E as portas misteriosas do impossível? Que permaneçam onde estão, porque interessam apenas os batentes.

Já que não há mais fechaduras.

As galáxias do medo aparecerão nas palmas de nossas mãos. As estrelas do pavor explodirão e os buracos negros arrotarão saciados.

O Amorfismo não cria obras cinéticas, cria pensamentos cinéticos.

Nenhuma obra de arte que não conduza ao orgasmo será permitida.

O gozo. O gozo. O gozo. O gozo. O gozo. O gozo.

Os índios podem continuar pelados, mas longe de nós.

O Amorfismo dá ré e faz baliza com apenas uma das mãos.

Não importa a sequência. Se a sobremesa tiver que ser servida primeiro, será.

Dabadabadabadabadabadabadaba.

O Amorfismo é naufrágio. Cada amórfico que chegar até a costa terá que seduzir seu próprio Sexta-Feira.

Na sauna da imaginação, o suor do artista.

Se a arte está com as unhas compridas, o artista tem que cortá-las. Se a arte está cansada, o artista tem que massagear os ombros dela. Mas se a arte tiver halitose, o artista manterá uma distância prudente.

O Amorfismo não usa salto alto e não desanda.

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A Lágrima da Anta foi publicada serialmente na revista belga Le Passeisme, traduzida para o francês pelo poeta português Herberto Helder. A livraria Brasiliense importou quarenta exemplares da edição XXI. O lote foi confiscado na alfândega brasileira – o que significava a queima dos livros. Mesmo assim, a editora tentou novamente e importou outros quarenta exemplares da edição XXVI. O resultado foi o mesmo: confisco.

“Senhores”, disse o Dr. Ubiratan Marcondes, “em duas ocasiões a referida obra foi confiscada. Todos nós aqui conhecemos o resultado do confisco. Porém, apesar da indulgência, quiçá cristã, que indivíduos desterrados de responsabilidade não percebem, o senhor Amadeo Cavalcanti, como um trovador de cantigas de escárnio e maldizer, foi capaz de comentários sardônicos, reproduzidos por O Estado de São Paulo: ‘Essa é a segunda vez que tenho o prazer de ser queimado enquanto ainda estou na terra, então espero passar pelo fogo do purgatório tão rapidamente quanto meu padroeiro, São Luís Gonzaga.’ ”

O Dr. Eurípides Miranda objetou que o comentário não era relevante à questão. “Parece-me, pois, enfeixar em um só caso a apreciação geral de todas as espécies individuais, ainda que, num ou noutro tópico, daqueles em que se estabelece a dessemelhança, o arrazoado comum se desvie das circunstâncias peculiares a cada lide.” Ignorando o dito, calmamente, o Dr. Ubiratan Marcondes retorquiu: “No trabalho desta investigação, os vários casos particulares, tratados cada qual no seu feito, são modalidades, ora ligeiramente díspares, ora idênticas, do mesmo abuso, de um atentado múltiplo, a que o critério jurídico depara a mesma reparação.”

O Dr. Agamenon Itapevi, ao lado do Dr. Demóstenes Torga, folheava um exemplar d’A Lágrima da Anta, salvo do holocausto a bem do serviço público. Na página 67, cutucou o terceiro magistrado, Dr. Passos Mourão. Este, após ler o trecho “abriu as pernas e disse ‘vem conhecer o inferno’ ”, sorriu de maneira cúmplice. A autoridade judiciária orgulhava-se de pertencer à Academia Brasileira de Letras, cadeira 17, fundada por Silvio Romero – partilhavam das mesmas ideias a respeito da relação entre raças superiores e raças inferiores. Thomas Buckle e o Progresso do Conhecimento era considerada a obra mais importante do magistrado.

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De mãos dadas com a fama, crescia a lenda em torno de Amadeo Cavalcanti. Testemunhas afirmaram tê-lo visto no Déjeuner Ulysse, no Hôtel Léopold, Les-Vaux-de-Cernay, em 27 de junho de 1929. Já Robert Moses afirmou tê-lo visto na Feira Mundial de Nova York em 1939. Ao ser indagado sobre a aparência do escritor brasileiro, desconversou. Já a diva portuguesa Eunice Muñoz não se furtou a elogiar o brasileiro: “Muito giro. Chamava-me de morgadinha.”

Em sua famosa edição especial dedicada à literatura latino-americana, logo após a Segunda Guerra, a Paris Review trouxe uma entrevista “respondida por carta” com o autor brasileiro. À pergunta “Quais seus autores preferidos?”, Amadeo Cavalcanti simplesmente respondeu que “a literatura, por sua própria natureza, é essencialmente incapaz de expressar qualquer coisa.” Declarou que preferia o Código Penal.

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“Onde está o Sr. Amadeo Cavalcanti?”, inquiriu Dr. Agamenon Itapevi. Os operadores do Direito, Eurípides Miranda e Ubiratan Marcondes, entreolharam-se.

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Ao ter a sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada pela sexta vez, Jorge de Lima foi consolado por seu colega José Lins do Rego: “O Amadeo Cavalcanti nunca poria os pés no Petit Trianon.”

Entre tantos equívocos a seu respeito, o mais surpreendente foi a notícia da sua morte. Dizem que o escritor ouviu a notícia num hotel, através de um homem que estava lendo sobre o relatório do legista em um artigo de jornal. Ele pediu para ver o jornal e o homem lhe disse: “é extraordinário que o Amadeo Cavalcanti tenha se enforcado logo após o sucesso do seu livro, mas ele sempre foi um sujeito estranho.” O escritor respondeu: “É verdade, senhor, é uma coisa realmente extraordinária que ele tenha se enforcado, seja objeto de uma investigação e ainda esteja neste exato momento conversando com o senhor.” Um homem havia sido retirado de uma árvore na Praça Sáenz Peña e a única identificação era o nome “Amadeo Cavalcanti” bordado no forro do paletó e um exemplar d’A Lágrima da Anta em seu bolso. Ao que parece, o escritor tivera sua mala roubada alguns dias antes.

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“Quem é exatamente o Sr. Amadeo Cavalcanti?”, inquiriu Dr. Demóstenes Torga. Dr. Eurípides Miranda e Dr. Ubiratan Marcondes franziram os sobrolhos.

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O Daily Telegraph, em uma nota, menciona Amadeo Cavalcanti: “eminente escritor argentino (sic)”, como padrinho do vigésimo segundo filho do pintor Lucian Freud. O Le Monde cita o lançamento da edição francesa de Tapir Larmoyant ocorrida no La Closerie de Lilas, sem a presença do autor. O Hindustan Times registra “a visita de Amadeus (sic) Cavalcanti a Patna. O escritor brasileiro pretende visitar Vaishali, Rajgir, Nalanda, Bodhgaya e Pawapuri.”

O papa João XXIII teria dito: “Existem os mistérios de Fátima e o mistério de Amadeo Cavalcanti”, mas o Vaticano prefere não se pronunciar sobre o assunto.

Corre a história apócrifa que uma edição de Tränen der Tapir foi encontrada no bolso do cadáver congelado de Robert Walser. As autoridades suíças informaram que não comentariam sobre o que consideravam “mero boato.” De maneira irônica, um membro da Universidade de Berna, que preferiu o anonimato, comentou: “daqui a pouco vão dizer que Amadeo Cavalcanti é Shakespeare. Ou Homero.”

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“Os senhores já se encontraram pessoalmente com o Sr. Amadeo Cavalcanti?”, inquiriu Dr. Passos Mourão. O insigne Dr. Ubiratan Marcondes espirrou. O Dr. Eurípides Miranda estendeu-lhe um lenço de papel.

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Hunter S. Thompson: “Tudo que sei aprendi com o Oscar Acosta. Tudo que ele sabe aprendeu com o Amadeo Cavalcanti.” Allen Ginsberg afirmou que “se Kerouac é o rei e Cassidy o príncipe dos Beats, então Cavalcanti é o sacerdote.”

Dizem que o famoso sofá da Factory fora um presente de Amadeo a Andy Warhol, mas ele nunca foi visto lá. “Eu moro aqui desde o início e posso garantir que ele nunca esteve aqui”, afirmou Billy Linich.

“Não sou antipop, como dizem. Mas não venero vacas sagradas, nem quando elas mugem melodiosamente”, afirmou o escritor em uma entrevista à revista Playboy, em março de 1966 – edição, aliás, que também trazia uma entrevista com Bob Dylan, além de um texto de Ian Fleming (Octopussy) e outro de Vladimir Nabokov (Despair). A playmate do mês era Pricilla Wright – cabelos curtos, loira, marcas de biquíni na pele bronzeada.

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A 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça em sessão realizada (data rasurada) declarou nulo o processo. Os ministros ressaltaram que a anulação é medida excepcional, mas concluíram que, neste caso, não há justa causa para o prosseguimento de injustificável ação. Com efeito, a acusação não logrou comprovar ter o réu praticado conduta delitiva, aliás tampouco restou provado se o autor do fato realmente existe ou se é pessoa desconhecida. Assim, remanescendo o crime sem autoria definida, foi decretada a nulidade do feito.