Animal Collective: uma tautologia da novidade

Álbum: Merriweather Post Pavillion
Animal Collective
Domino Records
Janeiro 2009

Merriweather Post Pavillion, considerado pela crítica o “melhor álbum de 2009”, é o mais recente trabalho do grupo baltimore-nova-iorquino Animal Collective, que lançou seu primeiro trabalho, Spirit They’re Gone, Spirit They’ve Vanished, em 2000 e, desde então, produziu mais sete álbuns, quatro EP’s, e uma espécie de álbum visual, intitulado ODDSAC.

O grupo faz música pop eletroacústica, que parece dialogar com o rock-pop dos Beatles e a assimilação dos experimentos da música eletroacústica de vanguarda do pós-guerra – feita, também, pelos quatro de Liverpool, pelo grupo Kraftwerk (1970) e pelo que ficou conhecido como a Escola de Berlim (1970-1984), caracterizada por combinar a guitarra elétrica ou melodias produzidas por sintetizadores com linhas de baixo de sequenciadores analógicos.

O Animal Collective é formado por David Portner (Avey Tare), Noah Lennox (Panda Bear), Josh Dibb (Deakin) e Brian Weitz (Geologist), que operam como colaboradores. A participação de qualquer dos membros do grupo em um projeto no trabalho in progress é livre e varia de álbum para álbum. Os quatro músicos se conheceram na adolescência, em Baltimore, e, mais tarde, quando alguns deles ingressaram na Universidade de Nova York (NYU), fixaram-se, como grupo, em Nova York.

Em seu segundo trabalho, Danse Mantee, Portner, Lennox e Weitz chegam ao que seria o procedimento de composição que define o projeto. Ele consiste na criação e gravação instrumental que, quando finda, passa por processo de montagem e arranjo, realizado por meios eletrônicos e digitais, para, finalmente, ser apresentada ao vivo com a interação entre músicos e registros manipulados, a tempo, por Weitz, em aparato eletrônico – exatamente como propôs Karlheinz Stockhausen em Kontakte (1950-1960).

Em 2003, os quatros animals permaneceram em Nova York apresentando-se em clubes da cidade e aprimorando esses processos de composição, dos quais resulta o álbum Here Comes the Indian. Em 2004 lançam  Sung Tongs, que, junto com Feels (2005) e Strawberry Jam (2007), compõem um período de turnês, em que abrem shows para outros grupos em festivais nos Estados Unidos e na Europa.

Nesse período, os quatro membros do grupo aperfeiçoaram suas performances ao vivo e seus métodos composicionais. Mantiveram parcerias com músicos de fora do projeto e acrescentaram, ao seu estilo, diferentes fórmulas de composição, estilemas e elementos musicais de diversas origens, como a transfiguração rítmica de melodias folclóricas inglesas e a incorporação eletrônica de ritmos africanos.

Merriweather Post Pavillion: pseudovanguarda

Merriweather Post Pavillion é considerado pelos próprios músicos o trabalho mais maduro de sua produção. Nota-se, nesse álbum, um resultado que remete à música dos Beatles, de diversas maneiras. Primeiro, é evidente uma aproximação no que se refere à incorporação de elementos eletrônicos nas peças, elaborada a partir das técnicas concebidas pela música de vanguarda dos anos 1950. Nota-se igualmente clara influência dos mesmos Beatles, vá lá, como espécie de paródia, no modo de cantar e, especificamente, na faixa “My Girls”, no verso de “I want to walk around you” (“I wanna hold your hand”). Os Beatles foram, em proporções globais e em termos de mass media, os introdutores dos recursos técnicos e estéticos da música eletrônica e eletroacústica no universo da música popular urbana. O que foi feito, principalmente, no White Album (1968). Na década de 1970, na Alemanha, forma-se a Berlin School, com os trabalhos de músicos como Karl Schulze e o grupo Tangerine Dream. Essa “escola”, no caso “estilemas-em-comum”, esteve ativa até a década de 1980 e foi bastante influenciada, posteriormente, pela música minimalista dos compositores norte-americanos Philip Glass e Steve Reich. Também é desse período o trabalho do grupo de Düsseldorf, Kraftwerk, nome que quer dizer “usina elétrica”, cuja música combinou a repetição rítmica com elementos da harmonia clássico-romântica tradicional, uma instrumentação essencialmente eletrônica e uma lírica futurista, cantada por vozes tratadas eletronicamente.

É nesse contexto de produção de música popular de origem pop-rock por meio de aparatos eletrônicos e digitais – amplamente difundidos nos anos 1980 e 1990 pela disco music e pelos subsequentes “estilos” eletrônicos conhecidos como dance, drum’n bass, trance, lounge etc. –, somada a instrumentos musicais e a performances ao vivo, que se desenvolve o trabalho do Animal Collective.

Em sua música, como na dos próprios Beatles – exceto por “Revolution 9”,  de Lennon, que, ainda assim, é, digamos, um pastiche da música de Edgard Varèse ou Henri Pousseur – ou, ainda, da de Schulze e do Kraftwerk, são incorporados à técnica eletrônica e eletroacústica os parâmetros da música tonal, como o uso do tempo cronológico linear com desenvolvimento melódico constante como motor discursivo. O ruído só se incorpora ao discurso musical enquanto elemento meramente timbrístico/rítmico.

Em Merriweather Post Pavillion isso fica muito claro. A técnica eletrônica aparece como atributo semântico-discursivo apenas, não como forma ou estrutura. Exceto pelo seu caráter inusitado e seu valor de atualidade – por incorporar tecnologia à música –, em nada modifica a lógica tonal – nesse contexto, kitsch e emocionalmente apelativa – que rege a construção discursiva das canções do álbum. Nesse sentido, não é um trabalho exatamente radical e vanguardista como insinua o crítico da revista eletrônica Pitchfork, Mark Richardson (“Animal Collective have wandered the territorial edges of music, scoping out where boundaries had been erected and looking beyond them”), embora não deixe de ser, em certa medida, original e inventiva.

Há, nesse trabalho, pontos altos e baixos. Os rifs – espécie de tratamento temático cíclico que tem origem no blues – são recriados pelo universo dos sons sintéticos e ruídos maquínicos com bastante habilidade e inventividade. A banda sabe bem atrair a atenção do ouvinte com boas introduções, pontes interessantes e texturas instrumentais-eletrônicas bem projetadas e de cor timbrística criativa.

Além disso, há a incorporação, a amalgamagem e a fundição de traços e estilemas musicais da música de várias partes do mundo e de diferentes tradições ¬– como a mistura de ritmos orientais com melodias europeias tradicionais –, o que corresponde a certa tendência contemporânea que se justifica por narrativa que retira os objetos de seus contextos histórico-temporais específicos: o tempo da simultaneidade.

Considerando o álbum como um todo, pode-se dizer que os seus melhores momentos estão nas faixas “No More Runnin”, “Summertime Clothes” e “Taste”, em que se atingem resultados mais precisos e consistentes. As três se destacam das outras por criar uma atmosfera interessante e trabalhar determinados clichês da música pop com criatividade, conduzindo melodias simples e bem cantadas. Os piores momentos do disco, em contrapartida, estão em músicas como “My Girls” e “Also Frightened”, em que predominam certa monotonia, má qualidade das letras e obviedade nas escolhas melódicas, harmônicas e interpretativas (como o eventual exagero no apelo emocional das entonações e conduções melódicas).

É certo que a banda e o álbum em questão são bastante atuais e criativos no modo como constroem e divulgam sua música – construção e divulgação voltadas à internet e às novas mídias. E tem relevância entre a produção musical desse meio main-stream-underground no sentido de atualizá-lo. Esse modus operandi é, por um lado, extremamente fragmentário e restrito a um público universitário e de classes média e alta, e, por outro, por conta dos meios criados pela internet, massificado e internacional.

É difícil determinar qual será o alcance da música do Animal Collective. Entretanto, já se pode observar que ela, ao invés de ser uma novidade avant-garde, como se costuma dizer a respeito de Merriweather, descrito como experimental e radicalmente novo, é, mais propriamente, uma releitura interessante, em uma “roupagem contemporânea”, embora sem ter a grande densidade e complexidade de um Franck Zappa, da tradicional canção popular, que vai migrando, desde o início do século XX, de sua forma estática (que tem origem no folclore) para os modelos, no caso dos Estados Unidos, do folk, do rock, do soul, da música pop propriamente dita e, hoje, com os Collective, da música eletrônica.

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