“As nossas humildes coisas”: Ablativo de Enrico Testa

Cidade labiríntica que se estende entre as colinas e o mar. Topografia áspera e sensual, doce e amarga, marcante pelo movimento de verticalidade necessário ao desenvolvimento do espaço urbano. Enfim, cidade feita de construções e ruas que parecem querer tocar o céu. Casas esticadas verticalmente, entre plantas, estrelas e escadas, como recita um dos versos finais do genovês Enrico Testa (1956), em Ablativo, primeiro livro do poeta traduzido para o português, por Rafael Copetti Editor, em 2014.

Gênova é esse espaço híbrido, plural, de múltiplas relações, cuja configuração geográfica é mais do que peculiar. Gênova, cidade de alturas, dos famosos elevadores, das funicolari (bondinhos) e das escadas, chamadas crosa. Um lugar de vertigens, no qual perder-se pode ser uma experiência única entre as múltiplas ruazinhas do centro histórico, denominadas em italiano de vicoli e, pelos genoveses, de carrugi. Para Walter Benjamin, o perder-se numa cidade é um dos melhores modos para se conhecê-la. Qual a sensação de andar por esses espaços do imaginário cultural e poético? As sensações podem ser muitas, curiosidade, para conhecer essa parte do centro histórico; apreensão, nas partes mais escuras; alívio, quando se consegue ver feixes de luz mais corposos que clareiam, mesmo que por pouco, o caminho; perplexidade pelos tipos humanos vistos. A lista poderia ainda continuar, porém será sempre limitada pelo fato de as palavras emprisionarem certas sensações e sentimentos indescritíveis. Via Balbi, um possível ponto de partida, é a rua que leva à estação de trem (Principe), mas é também onde se localiza a Universidade de Gênova, fundada em 1481, da qual foi professor Edoardo Sanguineti. Gênova de cultura e Gênova malfamada, cidade portuária e fascinante, que seduz os passos dos poetas que a cantaram. Muitos poetas e poucos prosadores, talvez porque a emoção por aqui é algo de imediato, é o próprio tempo do poema. Eugenio Montale, nos célebres “Mottetti” dirá: “[…] lo spiro/ salino che straripa/ dai moli e fa l’oscura primavera di Sottoripa”. Sottoripa é uma parte medieval que se estende ao longo da Piazza del Caricamento. Luz e sombra, “miele e assenzio”, sensações de frescura e calor podem ser experimentadas ao se caminhar pelos famosos pórticos, personagens estranhos e comuns, lojas de tipologias diferentes, milhares de contatos e contágios num só lugar. Tudo nessa atmosfera é efervescente, como apontam versos de Giorgio Caproni, genovês por adoção: “Gênova de Sottoripa./ Empório. Sexo. Trancaria./ Gênova de Porta Soprana,/ de anjo e de mulher-dama.”, na tradução de Aurora F. Bernardini para a Editora da UFSC. E a atmosfera borbulhante continua ainda num outro poema intitulado “A mio padre”: “un gorgo/d’altri e più acri aromi/pullula, Sottoripa, nei tuoi fondachi bui”.

Sottoripa é sem dúvida um ponto nevrálgico, cantado por Camillo Sbarbaro e Dino Campana, passagem para os carrugi, para restaurantes e lugares que falam sobre a história da cidade, que não se abre facilmente, sabendo preservar seus mistérios. “il segno smarrito”, de um dos versos de Montale, para reforçar o fato de as indicações se perderem quando o emaranhado de ruazinhas inicia. Espaço desconfiado desde o primeiro encontro, muitas vezes, áspero, que não se mostra e se abre facilmente; respeitá-lo é importante para aos poucos conquistá-lo. Aqui são necessários calma, atenção, paciência e exercício do olhar. Contaminações presentes na escritura de Enrico Testa, que se aproxima, deglute a herança literária e poética, e vai traçando o seu próprio percurso: “quem é o dono da sombra?/ a luz que a reflete/ ou o corpo do qual emana?”. Trajetória iniciada em 1988 com a publicação do primeiro volume de poemas, Le faticose attese, cuja apresentação é assinada nada menos do que por Giorgio Caproni, nas quase três páginas, com seu apurado olhar e faro, já evidencia a linguagem aparentemente simples, mas cheia de armadilhas de Testa. A escritura do então jovem poeta toca, contagia a leitura do poeta maduro, que percebe ainda a complexa questão – central para se pensarem inclusive as últimas produções capronianas – que se apresenta no título desses poemas: “um tema (ou problema) terrível, tão rico de profundas implicações sacras e profanas como é, justamente, o da espera”. “Poesia-poesia” é, por fim, a expressão usada por Caproni para definir esses primeiros versos de Enrico Testa, que, como um ímã, continuam a atrair e a instigar o leitor dentro e fora da Itália.

Herança poética, pessoal – história que está se construindo há 58 anos –, os tempos da universidade, agora vivenciada não mais como estudante, mas como professor; relações múltiplas, cujas tramas de infinitos nós continuam a ser tecidas e, quando um pequeno pedaço se esgarça é remendado com outros novos fios que se misturam àqueles que estão ali. Vestígios de uma convivência. “Viver com” com os poetas preferidos, como Edoardo Firpo, Edoardo Sanguineti, Eugenio Montale, Giorgio Caproni, Vittorio Sereni; com as atmosferas frequentadas nas colinas perto de Gênova; com os imigrantes que habitam a cidade portuária e seus arredores; com as cidadezinhas nas redondezas. Todos elementos presentes, de algum modo, nos versos emblemáticos e sedutores de Ablativo. A explicar esse título é o próprio poeta em uma recente entrevista de agosto de 2014:

A escolha do título Ablativo é ligada às seguintes razões: entre as muitas funções, o caso latino do ablativo reenvia, para além dos vários aspectos já descritos (distanciamento, deslocamento…), também para o instrumental e o comitativo: o para e o com. Assim, distingue-se do nominativo com tudo o que ele implica: papel central do eu, demarcação dos confins, princípio substancial de referência, eminência do espaço do predicado. Disso tudo deriva nas intenções, que se descobrem sempre no depois da escritura, uma abertura, como indica a pergunta, na direção da complementariedade, as possibilidades do existir e as suas relações, para a escavação, a oferta e o pedido de sentimentos, afetos, figuras. Bom, no fundo, só se escreve poesia para ser amado…

ablativo_autor_600xEnrico Testa é, sem dúvida, uma das vozes mais intensas e sensíveis da poesia contemporânea italiana. O ato de marcar de preto as páginas, apagar, refazer, reescrever é perfilado pelo exercício do olhar, do pensamento: um ethos. Um colocar-se à prova constantemente. Essa é uma das possíveis propostas de leitura de Ablativo (vencedor de dois importantes prêmios literários na Itália em 2013), um livro delicado e incisivo. Arrisco a dizer essencial nos dias de hoje. Um inscrever-se que pode significar, inclusive, um distanciar-se do espaço tão vivido na sua fisicidade e nas suas transfigurações literárias. E é, justamente, isso o que se dá e se desenvolve em um dos poemas de Ablativo, no qual o espaço de origem é mediado por um outro, longínquo, demarcado por uma outra (estranha) língua. E é seguindo (e me apropriando) os passos de Testa que se percebe que é possível na(s) diferença(s) encontrar pontos de contatos e tangentes nas pequenas coisas:

Do cais de Alcântara, percorrido em diferentes momentos, no mais das vezes invernais ou primaveris mas sempre posteriores a alguma festividade (cafés desolados, poucos barcos atracados, garoa, o bonde 5 partindo para a sua longa volta pela cidade) avista-se nítida, dando as costas para o rio, a colina dos Prazeres. Aqui e ali, atrás dos densos ciprestes verde-escuros, se entreveem partes do muro de cinta, vislumbres de mármore cinza, telhados de algum pequeno templo familiar. No ar úmido tudo parece próximo sem ser contudo iminente. Uma perspectiva igual dirigida a um lugar semelhante encontra-se agora – distante nos anos – neste parque à beira mar. Também daqui o olhar sobe uma colina, encontra os mesmos ciprestes, apenas um pouco mais claros, os degraus que galgam os socalcos, as sepulturas presumivelmente diferentes das outras só por alguns mínimos detalhes de decoração ou de construção. Não é o caso de se perguntar qual dos dois lugares estimule o reconhecimento do outro. Mesmo porque o mais antigo e mais conhecido se deixa só agora ver assim depois de se ter visto o outro, no espaço, remoto e estrangeiro. É de se pensar que o presente lugar conceda o seu sentido a quem o interroga somente no arco estendido pelo movimento que o une a alhures. (Ablativo, 2013, Rafael Copetti Editor, p. 109).

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