Companhia das Letras lança livro anódino de poesia

Sem creditar validade à desgastada oposição entre razão e emoção, gostaria de salientar a importância do pensamento para a arte e, em especial, para a poesia. Heidegger, Hegel, Aristóteles já insinuaram, de maneiras diferentes, que “a filosofia e a poesia estavam de fato intimamente relacionadas” ou que, embora não fossem “idênticas, brotavam da mesma fonte”.1 Hannah Arendt, a partir de suas interpretações à leitura de Platão, afirma que o pensamento visa à contemplação e nela termina.2 Talvez seja possível, aproximando essas leituras, entender a manifestação do sentimento relacionada com essa habilidade humana de pensar. O sentimento envolvido com a capacidade de o indivíduo pensar em si e nas tantas possibilidades de relação com o outro, que pode ser outro indivíduo, mas também um objeto e muitas coisas mais.

Não pretendo tratar aqui daquilo que constitui a essência ou o suprassumo da condição humana, mas apenas formular algumas interrogações. Considerando que, através do pensamento, estabelecemos (e nos apercebemos de) nosso lugar no mundo – e é claro que esse é um procedimento profundamente complexo –, por que a produção artística, e em meio a essa produção, especificamente a poesia, segue ainda tão vulgarmente associada aos sentimentos, e não ao pensamento? Há décadas, se tomarmos como referência as inovações alcançadas pelas vanguardas do início do século XX, artistas vêm apresentando inúmeras possibilidades de manipulação das histórias em que estão em maior ou menor grau inseridos, vêm pensando o universo de seus fazeres e seus significados; ainda assim, em grande parte da poesia contemporânea o que costuma prevalecer são as associações flácidas ao sentimentalismo.

Essa tendência pode ser observada tanto na poesia disponibilizada para a leitura em âmbito virtual, quanto naquela tradicionalmente publicada em formato de livro. É interessante destacar que não são somente as publicações independentes ou vinculadas a pequenas editoras que se empenham em reproduzir esse tipo de poesia sentimentalista, por assim dizer, também grandes editoras se ocupam da mesma matéria. Parece que para fazer poesia – pior ainda, para fazer boa poesia – tem bastado aos poetas falar de emoções. Quantos ainda recordam o verso de Fernando Pessoa “o que em mim sente está pensando”?

Poderíamos esperar de uma das maiores editoras do país, a Companhia das Letras, o trato rigoroso na escolha de originais. No entanto, dentre suas mais recentes publicações encontra-se a obra Sentimental, de Eucanaã Ferraz, um livro pouco expressivo poeticamente e que tenta disfarçar, com pinceladas ralas, um subjetivismo sentimentalista. Com efeito, a editora incorpora em seu selo esse conjunto de poemas cuja composição é pouco mais que uma enxurrada de metáforas. Imagens tentando seduzir o leitor pela incongruência, mas ancoradas numa incompatibilidade apenas aparente.

A propósito de metáforas, recupero algumas afirmações de Longino, segundo ele “a ocasião certa” exige como “imprescindíveis as metáforas ousadas”3 e até o número exagerado delas num texto. O autor sublinha, porém, como ocasião certa as passagens mais tensas de uma batalha e aclamações dedicadas a heróis. A certeza encontrada, essa tranquilidade em estabelecer o que seja ocasião certa já não se acomoda à literatura contemporânea da mesma maneira como aparentemente se acomodou aos textos Antigos, se acreditarmos em Longino. É certo que há muito tempo não se pode falar em grandes acontecimentos ou temas especialmente dignos da abordagem literária; ao contrário, o trabalho artístico envolvido com a linguagem, como de resto com qualquer outra matéria, faz insumo de tudo; mas sair por aí entulhando de metáforas uns apelos açucarados nada tem a ver com poesia e, mesmo tendo se tornado impossível a definição do que seja a ocasião certa para o bom resultado no uso de metáforas, uma leitura atenta facilmente identificará o erro do excesso, equívoco perceptível em toda extensão do livro de Eucanaã Ferraz. Seguem alguns exemplos recortados de diferentes poemas: “(…) e logo baralhava unhas vozes cabelos / à maneira de uma teia aos pedaços que o fazia adolescente/ como um pombo torto (…)”;4 “(…) Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara (…)”;5 “A beleza é uma ferida que nos atinge”;6 “(…) a hora é um enxame de rosas/ que se vão queimando (…)”;7 “(…) A força dos fortes/ que voam; (…)”.8

Outro ponto para análise no livro encontra-se na sua aba de capa (orelha). Nela, um texto sem autoria identificada salienta o primeiro poema do volume atribuindo-lhe a grandeza de “golpe de mestre”, além de afirmar que o mesmo “rompe com a expectativa de quem foi atraído pelo sugestivo título do livro”. Trata-se do poema “O coração”: “Quase só músculo a carne dura/ É preciso morder com força”.9 Qual deplorável consciência chegaria a surpreender-se com associações semânticas entre sentimento (sugerido pelo título do livro) e coração (título do poema) e as que aproximam esses dois ao esforço e à dureza tantas vezes envolvidos nas experiências amorosas? Se posso atribuir o texto ao(s) editor(es) do livro, e me parece ser esse o caso, com que tipo de leitor ele(s) está(ão) contando? De certo, não com aqueles que conheçam ao menos um pouco de poesia.

Para esses, o livro parecerá todo muito argumentado, com informações de sobra. Embora simule umas fragmentações, a poesia de Eucanaã Ferraz não compreende espaços vazios, nem fissuras em sua superfície por onde o pensamento pudesse submergir e reconhecer a região pelágica do fundo oceânico da linguagem. Ferraz esquece que ao bom poeta não bastaria, servindo-se da linguagem, utilizá-la em arranjo esparolado, mas sim na simulação da incongruência necessária à tensão de suas articulações semânticas.

Dessa maneira, a interação de sons e imagens e a perspectiva flexível e polifônica de um poema não irrompem do arranjo arbitrário de signos. Aqui, a relevância das sugestões de Ezra Pound ao estabelecer uma das tarefas da crítica na percepção de palavras, frases ou, no caso de poemas, versos “inúteis”.10 Distinguir a utilidade dos versos – que em momento algum precisa entrincheirar-se ao objetivismo, ao pragmatismo, à praticidade do fácil, do digerível e da obediência ao sentido enfim – envolve observar o desempenho de suas funções; observar se são permissíveis à aderência de aspectos relativos à transitoriedade, à dúvida, à precariedade, mas sem os charcos de uma estrutura inconsistente ou inapreensível. A leitura de Sentimental sugere algo como se, ao compor-se de módulos desconectáveis, os poemas conquistassem de imediato seu lugar na contemporaneidade. Contudo, a fragmentação empreendida nesse conjunto de poemas nem chega a atingir as condições impostas por uma suposta legibilidade, que é, em última instância, dispensável mesmo. Assim, no atoleiro, os poemas esperneiam tentando finalmente “integrarem-se, felizes, nos discursos correntes da sociedade”11 e não chegam a parte alguma.

Em Sentimental, as palavras não dão tempo a qualquer ação. Essa ausência repousa na sobra, “a incompetência se manifesta no uso de palavras demasiadas”;12 informações, gestos, impressões sucedem-se de maneira inexpressiva para, no final, dizer da partida, da loucura, do amor, da morte, tudo sem novidade, sem tensão sonora e de significado. O poema “Dizer adeus amigo” configura-se nesse cenário, questionamentos banais travestidos de quintessência filosófica, ou de maquiagem do abismo – borrada e desgastada – aplicada em tela plana, mas ainda crente de sua profundidade: “Talvez uma hora, como saber qual? (…)/ Tudo era implacável? Rumo definido?/ Mas que são decretos antes de serem lidos?”.13

Além desse, outros poemas trazem a marca do descontrole, em “Talvez hoje”, estrofes de onde nada emerge e o que se materializa não passa de um amontoado de estranhezas rebocadas pela aproximação de sentido: “Estranha matéria, que sobe do fundo/ à flor da memória camada de espuma/ diário de bordo vem quebrar aqui/ (…)”,14 no lugar mais do que comum de à flor da pele, o último substantivo vem substituído por memória, invenção convalescente, sem nenhum estremecimento e acomodada à obviedade da imagem de uma camada de espuma, se considerarmos as rápidas inferências possíveis de advir da associação entre memória, porosidade e leveza. A iniciativa do autor transparece duvidosa inclusive no uso da pontuação. Grande parte dos poemas obedece ao uso formal da língua; pontos e vírgulas, cada um no seu devido lugar. Enquanto isso, outros poemas apresentam uma sequência de despropósitos. De repente a pontuação é suspensa, embora se considere a possibilidade de o autor formular para si justificativas na escolha das passagens onde a empregue e onde a interrompa, na leitura dos poemas, no corpo a corpo com a linguagem, não reconhecemos os motivos para a suspensão dos sinais gráficos ter se dado naquele trecho e não em outro qualquer; um jogo, portanto, irrelevante e quase confuso, “O projeto / era vestirmo-nos a nós a tudo com fábricas praças/ cadeiras casas cortadas com nosso número de modo/ a sermos a cidade-Lina ali na medida de mangas retas/ e silhuetas largas onde todo gesto fosse justo digno;/ contra o vazio, um signo”.15

Para encerrar, um comentário ao poema “Les romanciersétrangers”. No enredo: o homem frio, a mulher desesperada. Ela, ao final da trama, descobre-se pedra, dura e fria; alquimia processada em reação àquele homem rígido. Melodrama equacionado num choro apelativo diante do qual não se comove o homem e numa transmutação passiva e submissa, pois a personagem percebe-se “(…) a pedra dele / em que ele a transformara”.16 Um roteiro tão insípido quanto o êxito da forma assumida, que a leitura nos revela a uma distância astronômica. O poema traz a linguagem frouxa e em sua última cartada não apresenta qualquer mestria, a não ser para adolescentes versados em romances crepusculares, o que, de imediato, não se identifica como o alvo do livro.

Leia mais sobre Eucanaã Ferraz

Notas

1. ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. p. 9.

2. Id. ibid., p. 7.

3. ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. 6. ed. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 100.

4. FERRAZ, Eucanaã. Sentimental: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 11.

5. Id. Ibid. p. 19.

6. Id. Ibid. p. 31.

7. Id. ibid., p. 32.

8. Id. ibid., p. 70.

9. Id. ibid., p. 09.

10. POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, s/d. p. 67.

11. BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 165.

12. POUND, Ezra. op. cit., p. 63.

13. FERRAZ, Eucanaã. op. cit., p. 38.

14. Id. ibid., p. 64.

15. Id. ibid., p. 86.

16. Id. Ibid. p. 68, 69.

Sobre Denise Martins Freitas

Nasceu em Rio Grande(RS) em 1980. Escritora e professora de história; é autora de Misturando memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais: Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Autores Gaúchos, Revista Modo de Usar, entre outros. Escreve o blog sísifo sem perdas.