Douglas Diegues encontra Héctor Libertella

O escritor argentino Héctor Libertella, falecido há três anos, nunca distinguiu com clareza seus textos de crítica dos de ficção. Sua obra é assombrada por certas imagens obsessivas, como a do “bebé muy viejo” e a do galeão espanhol carregado de ouro que se transforma, com suas formas abauladas, na biblioteca palafoxiana de Puebla, no México – recheada do ouro da cultura. As imagens acabam todas convergindo, já que a biblioteca guarda incunábulos, o que, seja via latim, seja via o espanhol cuna, remete de novo ao bebé – e que viejo! Outra de suas obsessões era o projeto de escrever um romance chamado La librería argentina, que narraria repetidamente a mesma cena: a dos escritores argentinos aguardando, no porto, a chegada de livros vindos da Europa. Mudariam as datas, os nomes dos escritores e os títulos dos livros, mas a espera ansiosa do escritor latino-americano pela palavra canônica do europeu traçaria a história da própria literatura periférica do velho Novo Mundo, outro bebê enrugado.

Autor de Patografía: los juegos desviados de la literatura, Ensayos o pruebas sobre uma red hermética, Los cavernícolas, El paseo internacional del perverso, Memórias de un semidiós, El árbol de Saussure: una utopía, Libertella inaugurou uma dicção que ia da ficção à crítica sem mudar de tom, em uma conversa de bar entusiasmada e onírica, equilibrada no muro humpty-dumptyano que mal separa o senso do não senso, a comunicação da expressão, o fake do documental, o autobiográfico da citação, o mar do bar, e – proponho também agora – o espanhol do português. O Brasil foi uma referência inexplícita em sua obra – mas em El árbol de Saussure ele inventa um crítico literário brasileiro que volta e meia é invocado como argumento de autoridade. Neste mesmo livro, Libertella vê a literatura como uma praça dentro de um gueto, mas tão grande que seus limites coincidem com os do gueto. Este, por sua vez, é grande como o mundo e inclui até um oceano inteiro. A praça é marcada unicamente por uma grande árvore que atrai o olhar dos cidadãos que bebem no bar em frente. Nos dias de feira, pode-se ver um punhado de escritores tomando sol na copa da árvore. Outros ficam embaixo, por preferirem a sombra. São duas tomadas de posição, comenta o narrador.

Trata-se da praça do mercado, fato mais que sabido e estabelecido para os escritores que, da barra do bar, observam a árvore. Uma dúvida, porém, os perturba: qual é o lugar a eles destinado no seio da tribo? “Que significará em literatura”, pergunta o narrador, “esse fato de escrever reconhecendo-se por um lado no mercado – em um marco familiar, tribal – mas desconhecendo ao mesmo tempo o lugar que cada um ocupa ali?” Em pleno mercado, entregam-se ao ofício gratuito, vão, de fazer literatura. Entregam-se, ademais, com paixão, e esse pathos somado à gratuidade do ofício adquire uma feição mórbida, torna-se patologia. A escrita que daí resulta recebe de Libertella o nome de “patografía”.

Héctor Libertella chama para seu texto diversos escritores, entre teóricos, cientistas, ficcionistas e poetas. Para entrar nesse gueto do tamanho do mundo não é necessário ter outro passaporte que o do contato e congenialidade momentânea que um fragmento textual prévio assume com relação a uma nova configuração textual. Ou seja, basta ser possível recortar aqui e ali uma epígrafe, uma citação, uma referência, uma anedota, que então se enxertam no texto em formação. O enxerto naturaliza o empréstimo, não chegando a criar uma homogeneização, mas dando lugar a uma congenialidade que lembra, de fato, uma reunião de amigos em um bar. Encontramo-nos aqui diante de outra comunidade imaginada, que não é mais a da nação, mas se constitui em uma constelação de autores unidos pelo interesse comum pela árvore de Saussure, a árvore dos signos.

É nesse sentido então que podemos compreender a proposta utópica de Libertella: como a possibilidade de formação de uma comunidade virtual de escritores que se configura ora desta, ora daquela maneira, ao sabor de afinidades e desejos nem sempre permanentes, a partir justamente do desconhecimento de cada um do lugar que ocupa na praça, na tribo, no mercado. A não afirmação de um lugar fixo é pressuposto sine qua non para essa nova utopia, “pós-utópica”, por assim dizer, pois não propõe um bem-estar futuro, antes um “estar presente”. O estabelecimento de redes, rarefeitas e inconstantes que sejam, é, de forma paradoxal, inerente à opção pela escrita, que é ao mesmo tempo uma opção pela solidão e uma busca de ecos, de outras vozes.

Ser intermediária dessa busca e de encontros (im)possíveis é muitas vezes – como agora – minha ocupação. Em 1986 promovi o encontro entre Macunaíma e Alice, que, se não passou de uma “entre-vista”, deu-me o gosto pela coisa. Hoje uso a rede hermética lançada por Héctor Libertella para colher Douglas Diegues. O crítico salvaje argentino parece apenas esperar pelo patógrafo Douglas para ocupar seu lugar no retrato de família em que figuram Bonino, Macedonio e Lamborghini. Assim começa esse encontro:*

 

Un escritor decía anoche casi pierdo la cabeza en el sueño imposible de una utopía. Era una utopía linguística y quería decir: allí donde dos elementos inconciliables se reunían en él para formularlo todo de una sola vez; donde la barra del signo se hacía de pronto un cerrojo y no le dejaba la menor posibilidad de interpretar nada. En esa mónada o ese pequeño cepo gramatical aparecía desnuda la Literatura. Aparecía en el estado puro de un icono sordo, apenas: el golpe de ojo de un rayo que lo partía en dos como lector. Y todos los libros previos y la erudición de ese escritor se volvían banales porque estaban en él más allá de esa física muda, de esos barrotes que marcaban territorialmente la prisión del lenguaje.

O cenário é uma hostería guarani. A hostería se chama Burri-Speré, Guazú, ou algo assim. Seu dono é um descendente de guaranis, e por esse motivo tão indiferente de si mesmo como do valor de suas relíquias familiares. Falar com él era como hacer negócios com um fantasma. Envolve os dois escritores uma paisagem impressionante: o Vazio. Quer dizer: uma llanura com sua decoração, montanhas de suave lombada com uma tupida vegetação de helechos, epífitas, lianas, orquídeas e várias classes de árvores que ao vento soam a A ijujúu peteribí, pindó, a ahuayú, guabiyú. Vê-se também uma catarata donde dice aguá. Ao pé dele adivinho restos de uma leyenda, de la que ahuiú es a rujuiú como ihuhu o Rijujúu a la Fauna, puma, mono colorado, tapir y as aves: chingolos, zorzales, papagaios, tucanos. Y muchas mariposas em los olhos.

Al terminar de cenar, Héctor e Douglas vão charlando qualquer coisa, de mesa em mesa de la fonda. Como se a música guarani se houvesse metido em seu sangue e eles fossem os dueños de esse idioma. Assim, por capricho também, aqui venho topar com o salão literário de uma hostería nas Cataratas do Iguaçu. E pronuncio, como ouço, o diálogo entre Héctor e Douglas.

Pergunta Diegues:
– Em que estavam a vida e a polêmica literária dos anos sessenta e em que estão hoje?

Responde Libertella:
A ver: aqui ven un escritor que acaba de regresar de Misiones, de um encontro literário. No dia do encerramento foi cear com um grupo de amigos em uma fonda extrañísima que se chama Hostería Iguazú, dirigida por um jovem descendente de guaranis. Em um momento de la cena, em plena discusión, él se disculpa y corre al baño: algo como hueco ubicado al fondo del patio, atravesando un desfiladero de granito. Créase o no, allí adentro, en esas paredes, entre signos y caracteres indios, leyó grabadas las siguientes letras de imprenta, que en el caso de ese baño eran (otro hueco etimológico entre letra y latrina)
Vanguarda vs. realismo, naturalismo vs. metafísica. Florida vs. Boedo…

– belleza salbaje bersus belleza civilizada/ belleza di dentro bersus belleza di fuera/ belleza rápida bersus belleza que demora/ belleza simples bersus belleza complicada.

– A la noche soñó con fantasmas: los nombres históricos de esa polémica proyectados hacia él, hasta la semana pasada un escritor jovencito. El guaraní que regenteaba ese lugar era, sin duda, un bárbaro: no tenía dudas de si; quién sabe qué o cuánto más o menos sabio, como los sesenta escritores del Congreso. Aquel indio no hablaba: sólo mostraba con una mueca el camino del baño. Al día siguiente se dará vuelta todo el sueño. El escritor ahora adulto se revolvió en la cama y se encontró con los ojos supervaciados, tratando de decir que ya no había Estética para defenderla a los gritos (excepto la lírica del sueño; y ésa no se defiende). Y que aquellos amigos comunes que se peleaban hace veinte o treinta años en una fonda de Buenos Aires eran hoy ese joven guaraní que miraba callado los aspavientos de tantos escritores, detrás del mostrador del mercado literario de su hostería, allá, en Misiones.

– ¿Qué es lo real en esta ficción?/ ¿qué es la ficción en este real?/ ¿el conforto del plagio sutil en la noche banal?/ ¿el conformismo de la razón?/ ¿todo es ficción en este real?/ ¿todo es real en esta ficción?/ ¿todo es ficción en este mal?/ ¿todo es banal en esta ficción?

– Eso sería válido preguntarse. Qué polémica muerta estará contenida en este bárbaro guaraní, cuyos ojos no reflejan nada ni dicen nada de aquellos sesenta ruidosos amigos (qué curioso: los roaring sixties), que él recuperó ayer mismo en la mesa del pasado de la siesta que durmió tantas veces sentado en el Bár Baro en estos últimos diez o veinte años. ¿En fin, cuántos países y qué crisis habrán pasado por esa mesa durante tanto tiempo, para que sesenta tipógrafos dormidos sigan encorvados sobre ella, empinando la cerviz o encorvando la cerveza mientras picotean letras?

Douglas divaga:
– Por que escrebo? Escrebo para ficar menos mesquinho/ belleza de lo invisible/ non tem nada a ver com berso certinho.

– Nada, o bien: si no se le supo hasta ahora, ojalá que ya nadie sepa qué asociaciones podrían establecerse entre comunidad, mercado, literatura y vida para preservar en ellos esta especie de sueño fronterizo.

O diálogo prossegue livro afora, livro adentro. Como antes Héctor Libertella entrevistara Jorge Bonino – efêmero inventor de linguagens – sem nada conseguir registrar com certeza, apesar do gravador que acabou sendo substituído por um dicionário, assim também entrevemos Héctor Cudemo Baleani Libertella, que apenas se entremostra em textos de alta voltagem pirotécnica. Meu personagem Douglas Diegues é agora o jovem escritor curioso, armado de um gravador que registra tudo ao contrário e de um espelho que lhe permite ler esse discurso arrevesado mas que ao fim e ao cabo reflete sua própria cara. Mas não apenas: pois a literatura é essa sobreposição e esse rodízio de nomes, de rostos, de textos, de teses, de idiomas, de versos de diversos. Onde se lê Shakespeare leia-se Panero, onde se lê Panero, leia-se Bonino, onde Bonino, Oswald, onde Ken Russell, Libertella, onde Glauco Mattoso, Diegues, onde Medeiros, Waltrick, Albers, Domador de Jacarés.

O que chamamos de literatura é só uma projeção no céu da cultura de pequenos fragmentos, de momentos, de encenações onde se é às vezes personagem, às vezes autor, às vezes leitor. O que chamamos língua é só um roçar de línguas, um devir louco, um código Morse feito de linhas e pontos, de semelhanças e diferenças e que no entanto se tenta conter em limites geográficos, étnicos, econômicos. O que chamamos arte é um punhado de exceções cuja única Norma é a de Bellini. Um baile a fantasia em que, estáticos, somos cada vez tomados por uma máscara diferente. Sua melhor metáfora é a rua: pode-se mapeá-la, colocar placas em cada esquina para fixar seu nome, numerar cada casa de modo que a correspondência não se perca. Pode-se passar por ou ver passar por ela, que é imóvel e muda a cada momento. Mário de Andrade tentou se transfigurar nela quando assumiu o epíteto de poeta da rua Lopes Chaves. Baudelaire fez dela o palco da passante, do flâneur, do instante. Libertella a elevou a Paseo Internacional, metonímia da cidade e da universidade. Joyce fez desfilar por ela toda a cultura ocidental. A rua escapa aos limites da nação nos quais a historiografia encurrala a literatura. Com Douglas a rua ultrapassa o urbano – dá gusto andar desnudo por estas selvas! Escalar planícies, desconhecer fronteiras, aprender com os ayureos a usar sandálias quadradas, pois com elas non dá para saber se suas pegadas estão indo ou voltando por la estrada.

Héctor Libertella nos propõe ver a literatura como esse assemblage de vozes. Embora tenha sido, em certos aspectos, um solitário, sua ideia de literatura era a de um empreendimento coletivo, solidário, entusiasmado, utópico. No senso comum, o escritor costuma ser entendido como aquele que trabalha isolado, criando mundos incontaminados e monádicos. Cumpre chamar a atenção para todo um lado híbrido, trash, punk, funk e rasquache que a criação verbal assume hoje, devorando a devoradora indústria cultural. Esse policialesco aspecto da gigantização dos meios de comunicação hoje não consegue, com todos os seus mecanismos de produção de simulacros, evitar que sobrem aparas, restos, descartes que acabam por constituir a matéria-prima de uma arte da rua, uma literatura cartonera, essa mesma que celebro hoje aqui. ¡Cavernícolas!

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* O texto acima mescla trechos dos livros Ensayos o pruebas sobre um red hermética, Patografía: los juegos desviados de la literatura, Los cavernícolas, Memórias de un semidiós e El árbol de Saussure: una utopía, de Héctor Libertella + Dá gusto andar desnudo por estas selvas e Uma flor na solapa da miséria, de Douglas Diegues.