Elias Canetti

Todo escritor dotado de poder criativo aprendeu, em primeiro lugar, que essa faculdade só funciona a partir de elementos e materiais, ou melhor, quando eles existem e estão à disposição. Se, por acaso, esses elementos ainda não estejam disponíveis, o escritor terá, necessariamente, um tempo de espera até que os mesmos estejam prontos e ao alcance de seus recursos intelectuais.

Assim, como já ensinava o crítico inglês Matthew Arnold (1822-1888), em literatura o poder criativo trabalha com ideias, as melhores que possam aflorar em determinada época ou lugar. Na literatura moderna, nos dias de Arnold ou em quaisquer outros tempos posteriores, nenhuma manifestação de poder criativo que se considere importante ou frutuosa pode prescindir desses requisitos.

Arnold afirmou também que o dom criativo encontra inspiração na atmosfera intelectual e espiritual, “por uma certa ordem de ideias, quando nelas se encontra; em lidar de forma divina com essas ideias, apresentando-as da forma mais eficaz e nas combinações mais atraentes – resumindo – produzindo com elas um belo trabalho”.

Em socorro dos muitos que se esforçaram, mas não conseguiram realizar a contento essa tarefa (a de escrever livros com espírito), Arnold tornou o fardo mais leve ao contemporizar que “são tão raras as grandes épocas criativas na literatura; por isso tanto existe que pouco satisfaz na produção de muitos homens de verdadeiro gênio; porque para a criação de uma obra mestra na literatura, dois poderes devem convergir: o poder do homem e o poder do momento”.

As considerações do crítico inglês, mesmo com o distanciamento temporal que separa uma situação da outra, parecem adaptar-se com propriedade à produção intelectual do búlgaro Elias Canetti (1905-1994), filho de pais judeus sefardins originários da Espanha, uma das vozes mais importantes da literatura no século passado, que escreveu toda a sua obra no idioma alemão. Sua família havia se estabelecido na Inglaterra em 1911, mas logo se transferiu para Viena, onde em 1928 o então jovem estudante de química obteve um doutorado. Entretanto, Canetti optou por entregar-se à vida literária e, anos depois, ao fugir como tantos outros da fatídica ameaça do nazismo (1938), já havia escrito a maior parte da obra que lhe valeria em 1981 o Prêmio Nobel.

No fervente e criativo período vienense, ao mesmo tempo que fazia pesquisas nas áreas de antropologia, sociologia e psicologia para mais tarde redigir Massa e poder, um de seus livros mais notáveis, editado pela primeira vez em 1960, Canetti escreveu ainda algumas peças teatrais de sucesso e tinha na gaveta o manuscrito de Auto de fé, o extraordinário romance que marcaria seu transcurso na história da literatura mundial. Mas a obra de Canetti só ficaria completa com a trilogia autobiográfica composta com a publicação espaçada de A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos (publicados no Brasil pela Companhia das Letras).

O jogo dos olhos, terceiro e último volume da autobiografia, foi lançado por uma editora de Viena em 1985, aparecendo no Brasil cinco anos depois, com a tradução de Sergio Tellaroli. Somente no ano passado, duas décadas depois, a editora decidiu incluí-lo na coleção Companhia de Bolso, facilitando por certo o aparecimento de grande número de novos leitores dos escritos daquele que foi observador privilegiado das manifestações artísticas (artes plásticas, fotografia, teatro, música e literatura), posteriormente ao que se chamou de decadência cultural de Viena na virada dos séculos XIX e XX.

O livro abarca o período de 1931 a 1937, quando o autor chegava aos 30 anos de idade e participava intensamente do fermento cultural da antiga capital das valsas, da efervescência dos cafés e teatros, das leituras públicas e concertos. Num feliz golpe de sabedoria, Canetti herdou o título do livro da fascinação que exercia sobre ele o olhar de Anna Mahler, por quem nutriu uma paixão avassaladora, correspondida apenas em parte. Anna era filha do famoso maestro e compositor Gustav Mahler, mas poucos meses depois do início o namoro foi rompido pela jovem, que sequer gastou muito tempo com explicações. Canetti escreveria simplesmente: “Ela me deu o fora”.

Entretanto, a convivência com a belíssima Anna e a profunda admiração que sentia por ela estavam ainda vivas na memória de Canetti depois de tantos anos. Ao descrever a leitura pública que fazia de uma peça teatral, da qual um dos convidados era o já famoso romancista Hermann Broch, o autor procurou com os olhos os olhos de Anna, “na esperança de encontrar nela aprovação e amparo”. Ela, porém, não estava olhando para ele: “Seus olhos concentravam-se nos de Broch, e os dele, nos dela”. O parágrafo que se segue é de rara inspiração:

“Eu conhecia aquele olhar: os olhos de Anna já haviam me fitado daquela maneira e, assim pensara então, me dado vida. Eu não tivera, porém, olhos com os quais pudesse retribuir àquele olhar, e o que eu agora via era algo novo: Broch tinha tais olhos. Imersos como estavam um no outro, eu sabia que não me ouviam, que para além deles nada havia, que o insensato caminhar pelo mundo que meus personagens vociferantes lhes apresentavam não existia para eles, que não lhes era necessário renegar esse caminho vazio, pois não se se sentiam atormentados por ele: estavam tão deslocados naquele lugar quanto eu com meus personagens, para os quais não mais voltariam sua atenção, nem mesmo mais tarde –  estavam desligados de tudo, um no outro.”

Canetti deixa transparecer o imenso vazio da alma pelo amor não correspondido, embora o faça com um sentimento de grandeza. Ao ler algumas passagens terríveis da peça falando duma mulher que se atira no fogo e é salva no último instante, “despertou novamente em mim aquele jogo de olhos, do qual ainda não estava livre”, embora curtisse uma verdade dolorosa: “Ofereci a Anna a oportunidade de exercitá-lo em outra pessoa, um escritor respeitado, a quem eu cortejava com uma espécie de fervor e, como frequentemente me parecia, em vão. Ele tinha um meio melhor de ganhá-lo para si. Eu próprio o trouxera até ela e era agora testemunha do que tinha necessariamente de ocorrer. O fundo musical para tanto, para esse acontecimento que teria de fato lugar no futuro imediato, era minha peça, na qual eu depositava tanta esperança”.

Aliás, o fogo é um elemento marcante na obra ficcional de Canetti, a julgar por Auto de fé, inicialmente intitulado Kant fängt Feuer (Kant pega fogo), no qual o sinólogo Kant (depois Kien) efetivamente morre em meio às chamas que se levantam da queima da imensa biblioteca que continha “livros de todas as religiões, de todos os pensadores, os da totalidade das literaturas orientais, os das ocidentais que tivessem conservado em si um mínimo que fosse de vida”. Enfim, “tudo o que havia de importante para o mundo”. A impressão sobre Canetti foi de tal forma alarmante que ele se sentia culpado pelo desfecho dado ao romance e a seu protagonista, considerando opressiva a sua leitura. Sua razão era bastante plausível, porquanto admitia que o que se passa num romance não é meramente um jogo, “mas uma realidade pela qual temos de responder perante nós mesmos, muito mais do que a qualquer crítica vinda de fora”.

Houve, sim, razão, e muita. Afinal, os ventos da guerra sopravam com sofreguidão sobre a população europeia, a ponto de Canetti afirmar mais tarde que, ao examinar o que havia permanecido de cada cena lançada no papel, “parecem-me como que nascidas das noites de bombardeio da ainda futura Guerra Mundial”. O romance teria sua estreia em meados de outubro de 1935. Logo apareceu na Neue Freie Presse a primeira resenha “escrita em tom efusivo, mas por um autor que eu não levava a sério, que não se podia levar a sério”, anotaria. O primeiro a cumprimentá-lo pelo sucesso foi Robert Musil, autor de O homem sem qualidades, badalado intelectual vienense da primeira metade do século XX. O encontro de ambos deu-se num café, o Herrenhof, e Musil ficou visivelmente agastado quando Canetti lhe contou que havia recebido uma longa carta de Thomas Mann, com elogios ao romance.

A ranhetice era tão acentuada em Musil, que não aceitava ninguém mais importante que ele próprio no continente literário de língua alemã. No mesmo momento deu-lhe as costas e não mais dirigiu a palavra a Canetti nos dois anos seguintes. A conclusão do autor de Massa e poder foi que “Musil só podia julgar que eu colocava Thomas Mann acima dele, coisa que não podia admitir da parte de alguém que, por todo lugar, proclamara o contrário”, enfatizando que “era-lhe sempre importante que as pessoas se definissem claramente entre ele ou Thomas Mann”. Na verdade, esse clima de inveja e fofocas entre literatos pontificava na Viena radiografada por Canetti, alguém privilegiado por informações de primeira mão ao interagir com uma turma do porte do citado Robert Musil, Karl Kraus, Hermann Broch e Emil Ludwig, entre prima-donas de outras áreas da arte.  Desde a leitura das primeiras páginas de O homem sem qualidades (dois volumes e mais de mil páginas), Canetti teve a vívida impressão de não haver em toda a literatura alguma outra que se pudesse comparar àquela obra, cuja linguagem lhe era inteiramente familiar: “Tratava-se de uma linguagem que eu conhecia, um ritmo do pensamento que eu já experimentara e, no entanto, sabia com certeza que não havia outros livros como aquele”. Mais adiante em O jogo dos olhos, o admirável ganhador do Nobel registraria comovida moção de reconhecimento à literatura: “Esses velhos livros, que nos acompanham pela vida afora, nós os contemplamos por si sós, desvinculados das miudezas nas quais seus autores se viram enredados em sua época. Para muitos, é como se os livros tivessem eles próprios se transformado em deuses – o que significa não apenas que sempre existirão, mas também que sempre existiram”.

Voltando ao desagradável incidente em que a fonte involuntária foi o autor de A montanha mágica, romance que Canetti havia lido com intenso prazer e não cansava de elogiar, embora a mulher com quem estava casado, Veza, tivesse verdadeira adoração por Os Buddenbrooks e insistisse que o marido também o lesse, este relata que alguns anos antes da edição de Auto de fé, contrariando a modéstia encalacrada à sua personalidade, decidiu enviar os três volumes do manuscrito para Thomas Mann, esperando receber um veredicto favorável e, dessa forma, eliminar os obstáculos que vários editores colocavam à publicação do romance. Canetti foi sincero: “Contudo, o enorme pacote retornou sem ser lido, acompanhado de uma carta gentil, na qual ele se desculpava pela insuficiência de suas forças. Foi um golpe bastante duro, pois, se ele não o havia lido, quem mais poderia querer ler um livro tão sombrio? Eu esperava dele não apenas aprovação, mas algo como entusiasmo. O veredicto favorável de Thomas Mann poderia abrir caminho para o livro”.

No entanto, o reconhecimento de Mann aos méritos do romance de Canetti não se fez esperar. O autor, tão logo o livro ficou pronto, remeteu-lhe um exemplar e pouco depois recebeu a carta entusiástica que acabou gerando a despeitada reação de Robert Musil. Alguns meses depois, os jornais publicaram que Mann estaria em Viena para uma conferência sobre Freud, mas algumas circunstâncias fortuitas impediram o encontro pessoal de ambos, mesmo sabendo-se que Mann manifestara o desejo de conhecer o colega. Mais uma vez a modéstia irresistível de Canetti deve ter contribuído para que o encontro não acontecesse.

Naqueles dias, o assunto obrigatório nos cafés vienenses era a Guerra Civil espanhola, e não podia ser diferente nas conversas diárias de Canetti com seu dileto amigo Sonne, no Café Museum. “Era natural, à época, que se pensasse em Goya e suas gravuras sobre os Desastres da guerra”, escreveu, “pois foi a vivência de seu tempo que o transformou no primeiro e maior de todos os pintores modernos”. Era inevitável pensar nos horrores da Primeira Guerra Mundial e Sonne, que também era judeu, sabia para onde a luta na Espanha conduziria. Canetti também estava convicto da necessidade de quebrar a cadeia de êxitos de Hitler enquanto ainda havia na Alemanha resistência à guerra. Dizia ele que “tal resistência só poderia ser intensificada por ações claras e inequívocas provindas do exterior”, argumentando que “a marcha triunfal de Hitler transformara-se num perigo mortal para todos – inclusive para os alemães – pois sua cegueira para a história implicava a ideia de que precisava arrastar para aquela guerra todos os poderes e povos, e como a Alemanha teria podido vencer todo o restante da terra?”.

Não demorou muito e os judeus que puderam começaram a fugir das perseguições nazistas. Canetti e Veza foram para Londres e, mais tarde, para Zurique. Sonne voltou a Jerusalém. Nunca mais se viram.

Mas o amor devotado por Canetti à literatura o levaria a confessar que “um escritor precisa de antepassados, alguns dos quais precisa conhecer pelo nome”, pois “quando acredita estar sufocando no próprio nome, que carrega sempre consigo, ele se recorda de seus antepassados, que possuem seus próprios, felizes e não mais mortais nomes”.

É isto. O magnífico livro O jogo dos olhos, oportunamente relançado pelo editor brasileiro de Elias Canetti, é um substrato perfeito do brilhantismo intelectual de um homem que, ao longo da vida, sempre demonstrou indiscutível apego às palavras e ideias, com as quais construiu algumas das mais tocantes páginas da literatura, em qualquer época ou lugar.

O jogo dos olhos
Elias Canetti
Tradução de Sergio Tellaroli
Companhia de Bolso (SP)
337 páginas