Sobre Efraim Medina Reyes

Apresentado como um escritor experimental, Efraim Medina Reyes, que nasceu em Cartagena, Colômbia, em 1967, apresenta uma escrita, segundo ele, anti-Márquez. O escritor segue a frente do movimento colombiano denominado “Realismo Urbano” que apresenta como características uma crítica social à temáticas contemporâneas como violência, narcotráfico, cultura de massa, música pop, confrontando-se ao “Realismo Mágico” de Gabriel Garcia Márquez e Mario Vargas Llosa. O escritor afirma ter como cânone a música pop. Entre hotéis baratos e amores mais baratos ainda, como afirmou em uma entrevista, escreveu a tragicomédia Èrase una vez el amor pero tuve que matarlo (2003), como terapia contra a horrível sensação de fracasso e abandono. A estrutura do livro é uma desordem que apresenta um emaranhado de frustrações e (im)potências – é necessário costurar constantemente os retalhos para não se perder na história. O narrador é um machista confesso que conta entre outros a história de um amor que golpeia mais forte que Tayson. Os fatos possuem uma ordem cronológica, porém são apresentados desordenadamente em oito capítulos subdivididos, quase todos datados e ambientados entre Cartagena (Cidade Imóvel) e Bogotá.

O livro é permeado pela frustrada história de amor entre Rep e uma cierta chica, apresenta uma crônica dos membros da empresa Fracaso Ltda, mostra o desenlace fatídico do assaltante de bancos John Dillinger e das estrelas de rock, Sid Vicious y Kurt Cobain, líderes dos grupos Sex Pistols y Nirvana, além de ser permeado por entrevistas e tentativas cinematográficas (o roteiro dos filmes é inserido entre os capítulos).

Vencedor do Prêmio Nacional de Novela do Ministério de Cultura na Colômbia, em 1997, o livro foi publicado na América Latina, Itália, Espanha, França e Alemanha. No Brasil, o livro foi traduzido e lançado pela Editora Planeta em 2006. Contando com uma narrativa visceral e crua, o autor subverte valores morais, sociais e também personagens reais. Em pequenos fatos picotados, o leitor é conduzido primeiramente a organizar as seqüências simultaneamente narradas, para então tentar desterritorializar cada fragmento reportando-se ao quebra-cabeça maior. O humor negro e as palavras sem medidas permeiam Era uma vez o amor, mas tive que matá-lo que, como orienta o autor, deve ser lido acompanhado por Sex Pistols e Nirvana.

No primeiro capítulo deste romance escrito em 2003, tomamos conhecimento da existência de Rep (diminutivo de réptil, assim conhecido desde criança). Procurei agrupar algumas das mais sutis características de Rep para que o leitor tome conhecimento desse narrador antes de montar o quebra-cabeça de histórias de Sid, Nancy, Mônica, Toba, Betty e outros. Rep, como mesmo afirma, não é um ejaculador precoce, mede seis pés e pesa oitenta quilos, possui uma boca sensual e corta as unhas até sangrar. Odeia mulher feia. Sua pele possui um fascinante odor, em contrapartida, possui acne no rosto e em outras partes do corpo. Segundo ele, é o tipo indicado aos sonhos das mulheres. Bebe, não canta, nem dança. É heterossexual. Pendurado nas paredes negras de seu quarto descansa uma foto de Uma Thurman. Diverte-se escrevendo telefones na poeira da persiana. Possui uma máquina de escrever, uma gravadora e um cinzeiro para visitas. É obcecado por seios grandes e traseiros.

O narrador – Rep – apresenta o cantor Sid Vicious e sua esposa Nancy Spungen. Num jogo de características entre ele/ela a trama desse amor é tecida em meio aos shows de Sid, às leituras de filosofia de Nancy e às seringas compartilhadas. Nancy lia muito, Sid sentia ciúmes e, às vezes, queimava os livros, ela perdia a fome e se drogava. Sid tinha ciúme dos livros e perguntava por que ela lia. Me gusta, respondia Nancy. Entendes pelo menos o que diz? Não, respondia ela. Então? – Me gusta. Nancy ouvia Wagner. Sid não queria vê-la feliz, pois pessoas felizes não são confiáveis. Às vezes ele batia a cabeça na parede até sangrar, ela chorava, cuidava dos ferimentos e esgotada ia se drogar sozinha. A multidão adorava Sid, mas ele (lembro Salomé) queria a cabeça de Nancy e seus amantes numa bandeja de prata. Sid pensava em matar Nancy e Bob, o baterista da banda, que não havia feito amor com Nancy como pensava Sid, mas ele achava que isso podia acontecer. Em meio a descrição destes personagens, Rep nos apresenta Tânia, professora de idiomas.

No segundo capítulo nos é apresentado Produções Fracasso LTDA. Com um slogan convidativo (donde se necessite um fracasso allí estaremos) a produtora começa a rodar o filme com uma sony 3000, que devia ser devolvida em três dias. O roteiro do filme é inserido diretamente no terceiro capítulo, porém com outra letra. Neste entremeio, Rep dá uma entrevista para a revista Perro Muerto, revista de pouca circulação, com repórteres amadores e uma yashica velha. As perguntas são sobre fama, guerra, mulheres infiéis, mulheres de talento (Creio que cozinham bem), arte, poesia, cinema (não se pode pensar em cinema sem pensar em dinheiro), amor, filosofia, infância, música. Na continuidade narrativa apresentam-se sequências datadas, porém não cronológicas: verão/83, inverno/77; inverno/86; verão/93; abril/94; maio/94. Ainda nos meandros da entrevista surge a pergunta: “Porque uma pessoa começa a escrever?”. Rep nos dá várias alternativas: porque pensa que tem algo para dizer, porque uma menina linda o deixou, porque o faz se sentir superior, porque é um cawboy sem oeste, porque tem dentes torcidos e não pode sorrir como queria, porque a mulher do vizinho é um bombom, porque ama uma mulher e ela é noiva e chega a um denominador comum: escribo porque para todo lo demás existe mastercard.

Os capítulos que seguem são permeados por músicas, frases sem datas, num linguajar peculiar, narrando cenas sexuais, falando de literatura, bares, poemas, mulheres fantasmas (quando tens um fantasma o único que desejas é falar dela a todas as mulheres que seduzes), encerramento do livro com a pergunta Quanto tempo o cupim leva para devorar o bosque?.

Autor de “Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin”, “Sexualidade da Pantera Cor de Rosa” e dos poemas de “Pistoleiros/Putas e Dementes”, Reyes credita ao pop e às novelas trash sua formação literária. Os livros apresentam uma certa semelhança com inclusões de roteiros de cinema, manuais de auto-ajuda, entrevistas, fragmentação, narrativas desconexas, personagens neuróticos que narram histórias num ritmo anacrônico e sexual repleto de (im)potências de escrita. Os corpos em Reyes não são inocentes, a escrita não apresenta metáforas, o corpo e as palavras são despidos, sem pudores. O corpo objeto vira linguagem abjeta. Esse corpo não metaforizado de Reyes, feito de carne e osso é tratado em sua literatura e na capa de seus livros (normalmente posa nu para a capa de seus livros) como um objeto de resposta, de exposição de suas críticas e conceitos – o próprio corpo como instrumento de crítica. Reyes não usa sinônimos para amenizar a escrita e neste contexto poderíamos pensar na abjeção no seu sentido primeiro, o de “lançar para fora” – a literatura, ao desdobrar-se como escrita, segundo Kristeva, apresenta-se no espaço da perversão. O escritor perverte a linguagem e torna-se ao mesmo tempo sujeito e vítima da abjeção que provoca. Para Kristeva, a abjeção é um estado de crise, não somente como repulsão física, mas como algo que perturba, algo que fascina e repele. Entre o fascínio dos jovens e o repúdio de alguns críticos, Reyes continua a perturbar leitores.